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Le Entrevista a Rafael Vieira (Le Cool Team) por Marta Santos

Não eras arquitecto?

Essa forma verbal não existe para quem se fez arquitecto ou realizador, viste o Niemeyer? Até fenecer, desenhou. Agora que não abunde que arquitectar, é outra loiça. Nunca se deixa, nunca deixei nestes 11 anos, somando-lhe os cinco académicos em Coimbra, de esquissar e pensar o espaço que me rodeia. É uma bendição.

Haverá, nalgum código deontológico ou nalguma brochura da ERC, por exemplo, penalizações previstas para isto de entrevistar o «patrão»...

Não.
Por falar em relvismo... José Relvas, o «escolhido» para proclamar a República, a 5 de Outubro de 1910, da varanda da Câmara Municipal de Lisboa, afirmou certa vez que o «desengano foi cruel». Tempos cruéis em Lisboa? Ou o Tejo limpará tudo?

Já que comentamos um Relvas, eu endereço-te outro. Não aquele que anda por aí nas equivalências do mundo, mas o pai desse teu José Relvas, que conheci quando fui a uma Feira do Cavalo na Golegã. Carlos Relvas, fotógrafo da dobra do século que tem Casa-estúdio. Museu. A visita vale bem uma ida. 

Eu sou um optimista optimizado. Apontar desenganos é óptimo à mesa de café ou no Estádio. Mas depois do segundo cigarro que estou a deixar de fumar ou de se esfumar a espuma do quarto fino, pois faço tudo a pé ou de bicicleta, as ideias e as possibilidades continuam a brotar.

Tu, como o Afonso Henriques, vieste lá de «xima». Dizem que os convertidos são os piores. Já te sentes, digamos, alfacinha?

Eu vim do meio, de Coimbra, de onde alguns também anunciam ter vindo esse nosso primeiro Afonso. Talvez de Coimbra, talvez de Viseu, enfim. Em Coimbra está também o seu túmulo, naquele que é um dos dois Panteões Nacionais portugueses. O outro está "inacabado" ali em Alfama. Divago.

Não me converti, fiz uma translação. Coimbra é uma cidade-postal e será sempre a primeira. Temos Torga, togas, repúblicos e repúblicas, Chanfana e Queijada de Pereira. Sopa da avó, uma sagrada família, um conforto com lareira, uns terrenos para cultivar e um leite-creme de tia. Pode-se ser aeminiense e alfacinha ao mesmo tempo, estou confortável. 

Mas, também os futricas me apoiarão nisto, é-se da Briosa para sempre. O casco velho de Coimbra é o melhor sítio para conduzir em Portugal, sublinho-o em terceira. Como sou o maior teimoso que conheço acima ou abaixo do Mondego, continuo a pedir «uma nata» e «um fino», a dizer joêlho e pintêlho, a ler ministro e não menistro, a soletrar pis-cina e a usar cruzetas para dependurar as camisas, esteja no Chiado ou no Choupal. Só me falta é perceber se o Fado de Coimbra é também património imaterial.

Muitos forasteiros afirmam que a vida urbana em Lisboa não tem de invejar a ninguém. No entanto, perdura aquela sensação desconfortável de que a verdadeira vida está lá fora, mesmo que seja em Barcelona ou Hamburgo... Uma perspectiva defeituosa?

Pois eu já habitei Barcelona e prefiro Lisboa. E em Hamburgo encontras natas e café Delta, alguns dos combustíveis necessários. Cada português é que, por defeito, tem que ir. Seja para onde for. O desconforto pode advir é de não poder. É a nossa Hajj, andar por aí como Camões, sem palas. Também me chateia ficarmos inchados quando é alguém de fora a dizê-lo. Temos que perceber de uma vez para todas, que esta cidade é extraordinariamente rica. E que os percalços lhe fazem parte.

A cidade não corre o risco de vender a alma ao turismo?

Corre o risco de vender mais postais e miniaturas da Torre de Belém. Só no 28 é que bufo com a amálgama de turistas e nos passeios do Chiado devia ser imposto um livro de código para peões. Em mandarim e russo também, já a contar. Mas na Morais Soares acontece o mesmo e ouve-se português. No centro é que há muitos senhorios que vendem arrendamento-a-dias a milhares de almas. O que é pena, pois podiam arrendar a anos a outros milhares. E estes, claro está, podiam perfeitamente conviver com uns quantos hotéis e hostels, com ou sem charme.

O orçamento participativo de Lisboa tem contado com a tua contribuição. Tens necessidade de pensar a cidade com outra pretensão? 

Já participei em dois com três projectos: «Vilas Criativas» e o «Verde em Rede» (com Inês Mendes, Joana Lages e Maria Fonseca) e «Gema» com Liliana Marante. Talvez contribua este ano, é a ver. Isto tem a ver com o que te respondi na primeira pergunta, não há como o contornar, Lisboa surge-me a quatro dimensões.

A maioria das pessoas em «Lisboa» vive nos subúrbios. Não faria sentido uma reorganização administrativa mais profunda do que o colar a cuspo freguesias?

Vive nos subúrbios, mas desloca-se para o restante. As novas freguesias fazem sentido e nem esta foi a primeira ou única reforma de Lisboa. A nova freguesia de Santa Maria Maior, por exemplo, tem uma lógica muito atraente. Não só no mapa. Agora parece-me que se podia pensar numa coisa à Tóquio, que está dividida em grandes porções urbanas que são administradas como cidades. Há depois uma entidade maior que as une, para o necessário. É que há várias lisboas e faz-me confusão estar no Barreiro a desconsiderar aquilo como subúrbio. Um passo interessante seria criar um organismo metropolitano activo, que ligasse as pontas e as pontinhas.

A Le Cool Lisboa perdurará na eternidade?

Na eternidade à escala de revista, claro.

O Rafael é editor da Le Cool Lisboa desde Junho de 2010.

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* Originalmente publicada em 15 de Abril de 2013, na Le Cool Lisboa * 387

Le Entrevista a Nuno Moura por Marta Santos


Nuno Moura por Pat

Nuno Moura, alfacinha, nasceu em 1970. Poeta, declamador e editor e tudo. Ex-jogador de pólo aquático, ex-professor de natação, ex-criativo de publicidade, ex-copywriter. Alguns títulos: Não saia nem entre após aviso de fecho de portas (Signo, 1993), Soluções do problema anterior (& etc., 1996), Nova asmática portuguesa (Mariposa Azual, 1998), Os Livros de Hélice Fronteira, Regina Neri, Vasquinho Dasse, Ivo Longomel, Adraar Bous, Robes Rosa, Estevão Corte e Alexandre Singleton (Mariposa Azual, 2000) e Calendário das dificuldades diárias (& etc., 2002). A Naifa musicou um poema seu. Leituras cidade fora e fora desta cidade. Gravou para a Boca. Este ano, uma nova editora, a Mia Soave. Onde andas tu Nuno Moura?

O que é a Mia Soave?

É o que os seus autores fazem. Ajudados por mim, pelo Pedro Serpa, pelo Zé Luís Costa e pela Bibi Pereira, que aliás envia a sua energia através da medula cósmica. A Mia Soave é uma editora de vão de escada, de contratos orais, de vontades. Entre os autores e os ajudantes diz-se: primeiro há que recuperar o investido para fazer o seguinte; depois divide-se o escandaloso lucro em 50/50. No que respeita à Mia Soave esses 50 serão reinvestidos em altos impostos, porque alguém tem que passar o recibo verde que deveria ser vermelho, e em mais poesia e música.

Actualmente já surgem muitas pequenas editoras, algumas revelam-se experiências fugazes. O que faz correr um editor?

A vida é fugaz, portanto nada contra. O que faz correr um editor é a preguiça. Os autores fazem o trabalho de sapa e a paternidade.

Trabalhaste em publicidade? Há coisas que um poeta não pode fazer? Estavas farto de ganhar bem?

Não gostei que a Cofidis pagasse parte do meu ordenado. E na verdade isto tem só a ver com o que gastas e não com o que ganhas. Quanto ao poeta, não pode deixar de mudar fraldas a filhos e a livros.

És o declamador do momento.

De momentos, isso sim.

O que faz um poeta em Lisboa?

Cai em granizo.

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