Elevador de Santa Justa

A primeiríssima função de um elevador é, obviamente, elevar. De quando em quando, dá-lhe também para abaixar. Mas isso é de vez a vez, pois o importante é chegar-lhe ao topo, que a descer todos os santo antoninhos dão a mão. Ao Elevador de Santa Justa, que abandonou o uso prático pela função turística umas décadas, irão muitos lisboetas contrapor a sua sabedoria: «Senhor@ turista, para lhe chegar ao miradouro - ouça , mister camone, atención - é mais rápido tomar a Rua do Carmo, depois o Sacramento e dobrar ao Largo» e «Qual Eiffel, qual carapuça. Quem lhe traçou as ogivas foi mesmo um português com uma costela e um bigode francês: Raoul Mesnier du Ponsard!», este dito com algum ar de enfado e de repugnância de pastel-de-nata com uma semana. Mas, pensando bem e pela experiência, nele te elevaste? / Ana Ema

onde
Rua do Ouro com Rua de Santa Justa

quando
Horário de Inverno: 7h às 21h45 (pode prolongar até 22h45)

quanto
5€ Bilhete Santa Justa (2 viagens)


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* Originalmente publicado a 10 de Outubro de 2013, na Le Cool Lisboa * 410

Gelataria do Centro Interpretativo Gonçalo Ribeiro Telles

Sempre que a equipa Le Cool pensa na eleição das 7 maravilhas de Lisboa, a Fundação Gulbenkian tem um lugar cativo e bem próximo do nosso coração le cooliano. Seja pelos fantásticos jardins, pelos excelentes museus e as exposições que albergam ou pela tranquilidade que se sente no coração da cidade, a verdade é que somos eternos apaixonados por este espaço. Mas o nosso coração bate ainda mais forte quando pensamos na gelataria de gelados artesanais e na esplanada com vista sobre o jardim e excelente exposição solar mesmo propícia à fotossíntese alfacinha. Somos defensores de mais espaços destes na cidade, mas ainda assim não nos importamos de partilhar contigo os nossos segredos e paixões. Até porque os amores se tornam maiores quando são partilhados. / Ana Azevedo

onde Fundação Calouste Gulbenkian, Avenida de Berna, 45A
 
quando De 3ª a dom, das 10h às 17h45 

quanto A partir de 2,2€

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* Originalmente publicado a 10 de Outubro de 2013, na Le Cool Lisboa * 410

Le Entrevista a Tiago Galo, 2, por Rafa El

Explica-me lá esta capa e bem-vindo de volta.

De cada vez que olho Lisboa desde um qualquer miradouro, sinto-me como que um gigante, e como gigante que sou espreito a cada janela, destapo aqui e ali sem olhar a contenções.

O que te faltou dizer na primeira capa que ilustraste para a Le Cool?

Para além de ter sido uma enorme honra ilustrar uma capa para a Le Cool Lisboa, faltou-me lembrar para aproveitarem o Sol de Outono e fazer um passeio no 28!

Parece-te que Lisboa é uma salada ou mais uma sopa? É a diversidade que lhe está na fonte do interesse? Vês-te alfacinha?

É incrível como Lisboa se define pela sua indefinição. Sabe perfeitamente quem é por ser muitas coisas. Muda de cor, forma e textura tão facilmente que até o Bowie se deve roer de inveja. O fantástico disso tudo é que qualquer um pode ser alfacinha. Lisboa molda-se e cativa-te para depois te apresentar a todos os seus outros «eus». Talvez haja qualquer coisa de Pessoa nisto. Só pode.

Se os lisboetas são alfacinhas, não seriam também lagartas, já que querem tudo e mais para a sua cidade?

Acho que Lisboa é habitada por muitas lagartas sedentas que a consomem... como que se de uma folha de alface cheia de buracos se tratasse. O pior é que quem chega de fora a veja como uma espécie de ruína nostálgica que só olha para o passado num registo delicodoce. Parece-me que há muito a fazer em Lisboa, e embora tenha melhorado, ainda vai aparecendo uma ou outra borbulha das que falava na entrevista anterior.

Escreve aquilo que te surgiu neste momento. Anything.

«Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós contemplam as estrelas», Oscar Wilde.


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* Originalmente publicado a 10 de Outubro de 2013, na Le Cool Lisboa * 411

Le Capa * 409

por Sérgio Augusto
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* Originalmente publicado a 10 de Outubro de 2013, na Le Cool Lisboa * 409

Le Editorial * 410, por Fernando Mondego

TÓXISTAS

É toda uma ciência o conversar com um taxista (ou com uma taxista, que o género ficou preso entre a caixa de velocidades ou no rosário dependurado). Uma aventura a dois, condutor@ e conduzido, pelas bossas e pelas gretas da cidade, àquela velocidade a que nem os santos querem ajudar. Rádio Amália, taxímetros, (de)bandeiradas e coisas que tal, estampadas a cor creme-caro ou preto-alface, com menos gelo a quebrar do que num elevador. E mais estofos também. Conversas favoritas: governos e taxas, os trânsitos, equipas da predilecção e outros condutores, esses bananas, badanas. Lancem o tópico «ciclistas» ou «Costa» a ver o que pega. E a cor creme do táxi a ver se cola. um Tejo de sabedoria-de-volante ali à espera de recolha. / Fernando Mondego

Miguel e o Rafa.El usam o táxi quando lhe na telha. Ou quase nunca (é mais bina).
Somos parceiros de comunicação do Alfama-te, do Pecha Kucha Night Lisboa, da Madame e do Córtex 4. A Le Cool Lisboa não se arruma pelo AO90.

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* Originalmente publicado a 10 de Outubro de 2013, na Le Cool Lisboa * 410

Le Capa * 410

por Tiago Galo
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* Originalmente publicado a 10 de Outubro de 2013, na Le Cool Lisboa * 410

Le Entrevista a Tiago Galo por Rafa

Gostava que te apresentasses sem contenção. Mostra-te, diz-me como começaste a ilustrar, qual o teu percurso e história (isto não é um CV).

Nasci em Lisboa no início dos oitentas e fui-me perdendo por até hoje. Comecei a desenhar desde que me reconheço e provavelmente continuarei até deixar de me reconhecer.  

Estudei arquitectura e trabalhei enquanto arquitecto durante muitos anos, até que um dia decidi baralhar e voltar a dar: o que sempre quis ser, e na verdade sempre o fui, é ilustrador. Por uma vez na vida decidi seguir esse tal de Confúcio, que aparece amiúde em livros de auto-ajuda, e seguir a máxima do faz o que gostas e não voltarás a ter um único dia de trabalho

E a verdade é que não lamento em nada deixar para trás as conversas inenarráveis com empreiteiros a tresandar a Casal Garcia e as escolhas de azulejos de casa-de-banho entre o salmão e o creme-platinado. Agora mesmo ando a estudar Design.

Gostas assim tanto do 28? Conta-me lá alguma história engraçada sobre isso.

O 28 surge sempre que algum amigo de fora me pede para lhe apresentar a cidade. O 28 é o narrador por excelência, uma espécie de MC da cidade, que nunca me deixa ficar mal.

Que te agrada mais ilustrar?

Desenhar sempre foi para mim como que uma terapia, o que vendo bem me faz pensar que devo ter imensos problemas, tal é a necessidade constante em desenhar. Agrada-me pensar na ilustração como uma porta aberta para uma qualquer outra realidade que extravase esta e onde podemos ser e deixar de ser.

Lisboa aparece-te sempre assim, uma personagem, uma paixão e um fundo de estuque?

No fundo e, por mais lugar-comum que isto possa parecer, Lisboa é um palco gigante onde a vida acontece com a diferença de não existirem cortinas... excluindo, claro está, as dos peep shows ali da calçada da Glória.

Sugere-me aí algo que te pareça especial a fazer em Lisboa - um percurso, um evento, um momento.

Vejo Lisboa como alguém que se olha constantemente ao espelho (o Tejo). Não sei se por vaidade ou insegurança... talvez por aparecer por vezes aqui e ali uma ou outra borbulha. Gosto de admirar Lisboa ao longe, quando se olha ao Tejo, à medida que me aproximo à boleia de um cacilheiro desde a outra margem.

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Enlace: http://www.behance.net/tiagogaloilustrador


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* Originalmente publicado a 10 de Outubro de 2013, na Le Cool Lisboa * 410

Le Entrevista a Sérgio Augusto por Rafa.El

O que te inspira a fotografar lisboa?

Aqui já pouco me inspira. Enquanto rebolo pelas mesmas voltas, o fascínio surge já tépido e os lugares amorfos misturam-se comigo. É algo mais denso que me faz querer fotografar Lisboa. Há pequenas fixações que usurpam monumentos entre outras subtilezas que devem ser regadas. É bom destapar a cidade das muitas camadas.


O que te puxa mais pelo dedo e pelo olho na lente, pessoas, bairros, detalhes, perspectivas, horizontes?


Gosto de combinações bastardas, do desfocado expressivo e do pouco que enche.
Se pudesses resumir lisboa numa frase, qual é que seria?

Lisboa é feita de pedaços.


Conta-me um pouco sobre ti e como começaste a fotografar.

Os contos sobre mim estão sempre trocados. Deambulei muito até ficar suspenso na fotografia. Numa viagem espreitei inadvertidamente por uns óculos sem contexto. Acabei por largar todas as ideias e deixar o autodidacta perder-se nos erros e na novidade. É um método que vicia porque a frustração tem um ritmo diferente das outras formas de arte. Depois apareceu o hábito.
Releva-me um percurso, um bairro ou uma história engraçada sobre a cidade.

Recomendo nascer no disperso da Apolónia e acabar nos vértices da Estrela. No meio há inúmeras pérolas que não quero enumerar.
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* Originalmente publicado a 8 de Outubro de 2013, na Le Cool Lisboa * 410

Le Entrevista a José Chaíça (um dos programadores do Festival Córtex) por Rafa

O Festival Córtex arranca com a sua 4ª formulação, no Centro Olga Cadaval, Sintra, de 10 a 13 de Outubro. Falámos com José Chaíça, um dos programadores do Festival.

A escolha do nome Córtex para o Festival de Curtas-Metragens de Sintra, não é tão óbvio no imediato. Serve para que, em igual modo, se ergam atenções e se potencie a percepção quanto ao cinema que será mostrado?

Essa é a analogia que pretendemos estabelecer quando criámos este nome. O córtex cerebral desempenha as funções que queremos activar e potenciar com este festival e com o cinema que exibimos: atenção, memória, percepção, linguagem, consciência e pensamento. 

Considero que um conceito tão científico que tem simultaneamente a capacidade de desenvolver aspectos tão instintivos e intuitivos como aqueles que enumerei, presta-se na perfeição para caracterizar aquilo que me parecem os primordiais objectivos da obra cinematográfica e da arte em geral.

A imagem presente no cartaz que acompanha a mostra, transporta um desiquílibrio de proporções nas figuras, despertando tanto curiosidade, como apelando a querer saber mais. Como foi o processo de escolha da imagem e o que pretende representar?

A proposta de comunicação do Córtex, passa quase sempre, pela construção de uma imagem que esteja relacionada com o nome da mostra e, em simultâneo, que seja uma interpretação sui generis do mesmo. Toda a estruturação ou modelação das figuras responde exactamente a esse propósito. A imagem do Festival pretende, e tem conseguido, marcar a diferença. A thisislove studio, pela mão da Joana Areal, tem vindo a desempenhar um trabalho de excelência no que diz respeito a toda a imagem e design do Festival, inclusivamente, por dois anos consecutivos a imagem do Córtex consta em diversas publicações, livros de design internacionais de elevada reputação e mais recentemente na Novum Magazine (World of Graphic Design).

Quais os pontos altos que gostaria de destacar no festival deste ano, a sua 4ª edição? Terá, incluído, uma mostra retrospectiva dedicada a João César Monteiro.

De facto a Mostra Retrospectiva dedicada a João César Monteiro é sem dúvida um dos pontos altos desta edição. Será algo completamente inédito. Este ano assinalam-se os 10 anos da morte do cineasta, daí esta ser uma oportunidade perfeita para manter o João César Monteiro vivo no panorama do cinema português. Depois de percebermos que nunca tinha sido feita uma mostra com todas as curtas do realizador, a ideia desta homenagem pareceu-nos não apenas óbvia, mas perfeita, com um timing brilhante.

Foi realizada uma extensa pesquisa de fundo pela Ana Isabel Strindberg, que é responsável pela organização desta mostra retrospectiva, que teve um árduo trabalho para conseguir localizar as cópias destes filmes que são autenticas raridades, património nacional, que infelizmente não anda ser tratado com o cuidado que devia. Foi muito difícil localizar as cópias e quase fomos obrigados a desistir desta ideia. No dia 10 de Outubro, vamos exibir as 9 curtas metragens de João César Monteiro, realizadas entre 1969 e meados dos anos 90, na sua grande maioria serão projectadas em 35mm. Planeamos também convidar personalidades que estiveram envolvidas directamente com o trabalho do realizador, para partilharem num debate aberto as suas experiências, assim como, jovens realizadores influenciados pela sua obra. O público também terá a oportunidade ver uma exposição com várias fotografias de João César Monteiro, autenticas preciosidades cedidas pela Cinemateca.

As curtas na competição internacional são seis, as da competição nacional ultrapassam a dezena. Isto ajuda a explicar um maior interesse no formato - a curta - por parte dos realizadores portugueses? Naturalmente que os filmes que concorrem correspondem já a uma triagem, quantos receberam, como foi essa selecção e o que acha que representa esta adesão em termos de produção nacional? É significativo e demonstra que há mais e melhores filmes, mesmo tendo em conta constrangimentos económicos?


Bem antes de mais nada devo confessar que a competição internacional tem apenas seis filmes, mas não por falta de obras recebidas, muito pelo contrário, o volume de curtas internacionais que recebemos triplicou este ano. O facto de não podermos (ainda) exibir mais trabalhos que nos chegam de além-fronteiras, tem a ver com constrangimentos monetários, o Festival é feito com muito pouco dinheiro, daí termos apenas 4 dias. Tendo isso em conta o nosso foco sempre foi dar primazia à produção nacional, cujo volume de curtas que recebemos também aumentou bastante, mas não de forma tão evidente como no que diz respeito às curtas internacionais. Isto porque em Portugal já tínhamos edificado uma voz própria que agora também se projecta lá fora. 

Ao todo recebemos mais de duas centenas de filmes, cerca de 120 nacionais e 80 internacionais. Para a competição nacional seleccionámos 17. O facto de não exigirmos estreias, o que é raríssimo acontecer num Festival de Cinema, cria uma série de oportunidades na escolha dos filmes. Procuramos seleccionar os filmes mais emblemáticos dos dois últimos anos, podendo realizar assim uma mostra de alguns dos melhores trabalhos, do circuito nacional e internacional. Outro dos critérios é ter em consideração o público, tentamos sempre oferecer uma programação ecléctica, com filmes que cumpram o objectivo de ecoar em cada uma das pessoas na sala, filmes que tenham algo a dizer e que se saibam fazer compreender, o que muitas vezes não acontece no mundo as curtas metragens pelo excesso de experimentalismo. 

Os géneros que temos em competição, vão desde a animação à ficção, passando pelo documentário e experimental. Não creio que tenham havido mais filmes este ano, os filmes continuam a fazer-se mesmo sem dinheiro porque os tempos que correm apesar de serem negros, acabam por nos levar a ter algo que dizer, que é urgente exorcizar porque caso contrário acaba por nos consumir. A curta-metragem é um formato que permite dizer muita coisa num curto espaço de tempo e com baixos custos, porque o avanço da tecnologia hoje em dia, já permite que os jovens tenham fácil acesso a material que lhes permita criar uma obra com relativa qualidade.

Um filme acaba sempre por ser uma história a querer contar - mesmo que se fale de videoart. A curta acaba por ser o resumo de uma história maior. Como vê o formato, a capacidade de sumarizar uma história em alguns minutos de bom cinema e como transparece isso no Córtex?

Acho que a curta é dos formatos mais difíceis de se acertar, de fazer bem, exactamente pelo facto de serem curtas metragens. Os seus criadores têm de ter as ideias muitíssimo bem elaboradas, concretas e com um poder de síntese incrível. Aliado a isto tudo, para além de se contar (ou não) uma história em tão pouco tempo, existe todo o lado artístico e da beleza das imagens que não pode ser descurado, e o lado técnico que cada vez é mais exigente, a fasquia está muito alta. Eu gosto muito de boas narrativas, na minha opinião pessoal, que também sou autor de vários textos para teatro, contar uma boa história em tão pouco tempo pode ser um calvário. 

A curta também se refugia muito no aspecto mais experimental, que é válido, mas creio que o maior desafio está do lado de quem tenta contar uma história. E esse é um foco muito importante do Córtex, eu enquanto programador, estou sempre à procura de boas histórias e quero que elas tenham lugar no nosso festival. Facilmente no universo das curtas-metragens, especialmente em Portugal, caímos no abismo do experimental e da «não-
narrativa» em que tudo é deixado ao critério de quem assiste. 

Creio que a maior parte das vezes essas obras não ecoam no público e acabam por ser objectos muito centrados numa visão demasiado elaborada de um mundo no qual ninguém consegue entrar, que ninguém compreende e com o qual dificilmente alguém se relaciona. Nós queremos envolver o público, queremos ter a certeza que o espectador se identifica de alguma forma com o que assiste.

Gostava que lançasse um convite para que visitem, participem e espalhem a palavra quanto ao Córtex.

O Córtex é feito para o grande público, não é pensado para um nicho. Por isso este convite é para ti que nunca foste a um festival ver curtas e que não estás familiarizado com este formato. Garantimos uma selecção do que de melhor se fez em Portugal entre 2012/2013, do documentário, à animação, passando pela ficção e pelo experimental. 

Temos de impulsionar o cinema português, temos de criar uma nova geração de realizadores e todos temos um papel a desempenhar, o teu é melhor de todos, assistir! São 3€ por cada sessão de seis curtas, nem a crise pode ser pretexto para faltar.

CÓRTEX 4 | Festival de Curtas-Metragens de Sintra : www.festivalcortex.com

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* Originalmente publicado a 8 de Outubro de 2013, na Le Cool Lisboa * 409

Le Editorial * 409, por Fernando Mondego

AVENIDA DA FUTILIDADE

a da Liberdade e a da Futilidade em Avenidas. De futilidades digo que é um tramado exercício em vão o tentar escapar às gotas da chuva. Não que seja ácida e me desnude o couro cabeludo ou que eu seja feito de açúcar e me desfaça à primeira bátega. É chata e tal. para chapinhar, dar uma de aquaplanagem, encostar uns beijos molhados e sarapintar pela Lisboa de chapéu ao léu. E ser patinador artístico em charco de calçada (ou ter o primeiro malho do Outono e aguardar que os mirones se ocupem com outros assuntos). Mas, enfim, Lisboa com água a pingar do céu é melhor por detrás da vidraça ou debaixo da manta. E os turistas que se entupam mutuamente pelos passeios. / Fernando Mondego

Miguel e o Rafa.El não têm chapéu de chuva - mas se existisse um dos Rainy Days Factory, who knows?

Somos parceiros de comunicação do Alfama-te, do Pecha Kucha Night Lisboa, da Madame e de Até Amanhã! em cena no Teatro da Trindade. A Le Cool Lisboa não se rege pelo AO90.

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* Originalmente publicado a 3 de Outubro de 2013, na Le Cool Lisboa * 409

Le Entrevista a Susana Santos Silva e Torbjörn Zetterberg por Pedro Tavares [PT]

Recuperamos a entrevista que o Pedro Tavares conduziu com a trompetista portuguesa Susana Santos Silva (SSS) e o contrabaixista sueco Torbjörn Zetterberg (TZ). Calha bem, até porque se juntam novamente em Lisboa para concerto na Culturgest, no ciclo «Isto é Jazz?», comissariado por Pedro Costa, a 9 de Outubro.

Como correu o concerto? 

SSS : Gostei muito, estava inspirada. 

TZ : Foi divertido! É um sítio estranhamente inspirador.

SSS : Estranho não!

TZ : Não, não é estranho de todo! É apenas pouco habitual tocar num sítio assim.

Como se juntaram?

TZ : Bem, conhecemo-nos... Basicamente, conhecemo-nos num safari de vacas em Portalegre.

SSS : É autêntico!

TZ : Sim, é verdade. Na verdade soa...

SSS : Estávamos a tocar no festival Portalegre Jazz em Setembro [2012] e o Pedro Costa levou-nos num safari pelo meio das vacas. E então começámos a falar em tocar juntos. Eu fui a Estocolmo em Dezembro e gravámos o CD [«Almost Tomorrow», Clean Feed, 2013].

TZ : Na verdade, a primeira coisa que ouvi foi Lama [Lama Trio] que estava no alinhamento deste festival [Portalegre Jazz]. Essa, imagino, terá sido a primeira parte desta ideia musical.

SSS : Ele pensou que eu era maravilhosa.

TZ : Eu disse isso?

SSS : (ri-se) Estou a brincar.


Um dueto de trompete e contrabaixo. Se considerarem as características dos instrumentos... qual foi o entendimento? A apostar mais no experimentalismo?

SSS : Sim, não?


TZ : Não tínhamos nenhum compromisso quanto ao que tocar quando começámos. Assim, as primeiras coisas foram completamente não planeadas, não tínhamos nenhuma, nenhuma...


SSS : Ideia pré-concebida.

TZ : Pré-concebida, a começar. E então tínhamos algumas músicas que tentámos depois.

SSS : E a primeira música que gravámos, é a primeira faixa do nosso CD, não é?

TZ : Sim, está certo. 

SSS : Então começámos a colocar algumas coisas no papel, algumas pequenas ideias, ideias musicais, melodias e outras coisas, que pudessemos depois pegar e ensaiar.

TZ : Como… é experimental no sentido de ser tão música experimental quanto experimentarmos com o grupo e vemos aquilo que realmente podemos fazer. Também estamos a testar músicas não-experimentais, algo assim. Do meu ponto de vista, é testar o que podemos fazer com o contrabaixo e o trompete, o que pode caber no conceito... e connosco, também.

As vossas faixas mostram uma forma mais afirmativa de tocar e a abordagem instrumental é um pouco mais dura. Reparei nisso especialmente no tema «Knights of Storvålen». O que sentem quanto a esta afirmação?

TZ : Não sei quanto à afirmação, mas estou a pensar no todo... especialmente essa canção e algumas outras no CD... é bastante inspirada no ambiente onde foi tocada e gravada... Foi um Inverno duro...

Numa cabana coberta de neve...


TZ : Sim, tu leste! Era realmente nas montanhas, no Norte da Suécia. 

SSS : Sim, em Dezembro. 

TZ : Era muito sossegado, topos de montanha, imensa neve... um misterioso vibe. É assim que o imagino! É algo de que falámos... ainda que não o tenhamos posto na música, falámos em tentar capturar a atmosfera o máximo que pudéssemos. 

SSS : O sentimento que tínhamos era de transportá-lo para a música...

TZ : Acho que conseguimos fazê-lo.

SSS : Acho que sim! Boa!


Parece que há uma certa influência árabe nesta composição. É possível?


SSS : Ah, a chegada de Colombo... onde?

TZ : Härjedalen.

Onde é Härjedalen?

TZ : O local onde gravámos. 

SSS : Bem a Norte da Suécia. E é como: Colombo... devemos explicá-lo?

TZ : Força.

SSS : Não, explica tu porque foi tua a ideia... Colombo, sabes, ele perdeu-se e em vez de rumar à Índia, acabou em Härjedalen. Essa é a chegada de Colombro a Härjedalen.

TZ : E essa será a nossa ligação, português e sueco.

SSS : Sim. 

TZ : Bem, não sei... penso que essa canção...

SSS : Apenas saiu assim, não foi? 

TZ : É tão difícil de falar dela depois [da canção] porque, quando improvisas, quando as coisas vêm instantaneamente, é realmente difícil dizer de onde vieram... Nós temos todas estas influências, mas...

SSS : Bem, eu estava realmente a fazer algumas experiências, a tirar este pistão da válvula, para conseguir estes sons estranhos. Toquei, saiu assim, começámos a gravar e foi isso.

TZ : Será que isso a faz oriental?

SSS : Não, mas o som que retiras... A afinação que se consegue ao tirar esta válvula... torna-se estranha e monotónica de alguma maneira. Talvez por isso tenha este som, não?

TZ : Claro, se tu o dizes (ri-se). Eu diria que, desde que não tenhas nada específico em mente, quaisquer influências serão possíveis, dado que estamos a ouvir tantas coisas.

SSS : Diferentes tipos de música... A um dado ponto, mais cedo ou mais tarde, elas despontarão se continuarmos a tentar experimentar. Não foi propositado.

Que me podem dizer mais sobre o álbum que gravaram para a Clean Feed Records, o «Almost Tomorrow»?

SSS : O álbum foi gravado em Dezembro, nesta cabine nas montanhas. Foi uma experiência magnífica porque estávamos a fazer todas estas coisas na neve. Sabes, ir esquiar...

TZ : Down skiing, cross country skiing, snow scooter

SSS : Para mim foi uma experiência extraordinária, pois nunca o tinha feito. Foi a primeira vez que esquiei e, claro, tentámos colocá-lo na música de alguma maneira. Gravámo-lo, enviámos ao Pedro [Costa, da Clean Feed Records] e ele gostou.

Sei que têm vários concertos marcados para este ano. No entanto, qual o futuro para este dueto, o que podemos esperar?

TZ : Bem, falámos em fazer mais digressões e mais gravações, mas ainda é cedo para fazer planos.

SSS : Sim, quero dizer, pensamos no CD, na digressão e em tudo; mas parece-me que nos devemos concentrar no CD. Devemos tentar marcar concertos e digressões para promover este álbum. Esse é o nosso próximo passo!

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Enlace : http://ssstz.tumblr.com

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* Originalmente publicado a 3 de Outubro de 2013, na Le Cool Lisboa * 409