Le Entrevista a Marisa Costa por Rafa


Apresente-se sem deixar de lado o seu papel continuado como Diretora de Produção e de Comunicação do FATAL.
 
Tenho 33 anos, fiz uma licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, fiz parte da direcção do jornal Os Fazedores de Letras, da Faculdade de Letras. Tenho trabalhado sempre na área Cultural na Reitoria da Universidade de Lisboa, onde estou há cerca de uma década produzindo e divulgando projetos culturais sempre em ligação com professores, estudantes e funcionários. Trabalhei pela primeira vez no FATAL, em 2003, e fui assumindo, com o crescimento do festival, novas responsabilidades à medida que têm crescido também os desafios deste festival.

Antes passei também, de forma fugaz, pelo ensino a crianças e tenho trabalhado, em paralelo, noutras áreas com as quais me identifico bastante, especialmente a música (fui vocalista em alguns projetos e tenho formação musical) e a escrita (tenho feito alguns argumentos para Banda Desenhada e tenho alguns textos publicados). No teatro, passei pelo teatro universitário e participei em teatro de rua. Não me imagino a trabalhar em algo que não esteja ligado à criatividade.


Como Manifesto do FATAL, refere-se que o interesse maior é o de promover e de divulgar o teatro universitário português. De que forma alcança o Festival este objetivo e qual tem sido o seu alcance e acolhimento? Há cada vez mais grupos de teatro académico a incluir a programação? Tem sido o FATAL uma pedrada no charco?

O FATAL cresceu imenso ao longo destes 13 anos. Nos primeiros anos o objetivo foi, sobretudo, reativar e reforçar, junto do público, de entidades públicas e privadas, da crítica especializada e do próprio meio teatral nacional, a notoriedade do teatro universitário enquanto atividade extracurricular com enorme vitalidade nas universidades portuguesas e com importantes contributos históricos para a história do teatro nacional. O desafio foi enorme, o teatro universitário estava remetido para terceiro plano e fechado dentro das universidades, sem eco junto da sociedade, sem visibilidade e havia trabalhos com enorme qualidade sem alcançar o reconhecimento merecido, apesar do desequilíbrio qualitativo entre os grupos.

A partir de 2006, sensivelmente, ano em que criámos os Prémios FATAL, começámos a sentir o boom do teatro universitário um pouco por todos o lado, conseguindo finalmente captar a atenção dos principais media nacionais e sentindo o reconhecimento do valor do projeto por parte de algumas entidades públicas e privadas a quem devemos, aliás a viabilidade financeira do projecto. Algumas destas entidades apoiam o FATAL desde 1999 o que é, para nós um enorme reconhecimento do trabalho dos grupos e da importância do Festival. Este crescimento também se deve, claro, e em primeiro lugar, ao apoio e ao trabalho dos grupos de teatro universitário que ao longo destes anos têm sido nossos parceiros e nossos companheiros de jornada, incentivando-nos, ajudando-nos a melhorar o projeto. Sem dúvida que o FATAL tem sido uma pedrada no charco. É, aliás, o único festival de teatro universitário organizado por uma universidade pública portuguesa e um dos maiores festivais da capital, um dos únicos festivais de teatro com realização regular.

O número de grupos participantes tem-se mantido sensivelmente o mesmo pois o nosso objetivo é respeitar os critérios de qualidade, equidade e representatividade na participação dos grupos de teatro universitário e oportunidade de dar a conhecer novos projetos. Este objetivo alia-se ao facto de não podermos prolongar o festival para além dos 15 dias pois os nossos recursos são limitados. Temos a convicção de que o projeto continua a estimular a qualidade do trabalho dos grupos, a fomentar as relações entre o teatro universitário e o teatro profissional (não que o teatro universitário não o seja) e a demonstrar, ano após ano, que o teatro universitário é feito de paixões e entrega e que está em plena forma. O FATAL existe e continua pleno de vida porque conta com a entrega e o empenho dos grupos, nos palcos, de uma equipa que o organiza, o Núcleo Cultural da Reitoria da UL, que se tem dedicado a ultrapassar, anualmente, os desafios que se apresentam e conta com o entusiasmo dos inúmeros estudantes que, ano após ano, tem trabalhado na produção e programação, como estagiários e como criadores de projetos paralelos. O FATAL é hoje conhecido de grande parte do público com hábitos culturais, segundo os nossos inquéritos ao público, realizados anualmente, uma grande fatia desse público situa-se na faixa dos 18 aos 35 anos, mas mais de 50% do total dos espetadores já não é estudante universitário o que é gratificante e significa que, gradualmente, o teatro universitário vai atravessando as portas das universidades. O desafio era gigantesco em 1999 e continua, hoje, a ser enorme.

Também está prevista o lançamento da Revista FATAL para maio de 2012, de que forma se relaciona com o Festival?

A Revista FATAL foi criada em 2008 com o objetivo de preencher uma lacuna no contexto das publicações sobre teatro existentes em Portugal, estimular a visibilidade do trabalho que se faz no teatro universitário em Portugal, incentivar a recuperação da memória histórica do teatro universitário nacional, criar um espaço de debate e divulgação onde os grupos se pudessem exprimir e dinamizar a opinião e a crítica em torno do teatro universitário. Por razões muito pragmáticas a publicação da revista acontece em maio, por ocasião do Festival pois este é de facto o momento que julgamos oportuno para o lançamento de cada número mas a Revista é um projeto independente de cada edição do festival e da sua programação. Sentimo-nos incentivados a continuar e a fazer a Revista crescer e ganhar maior visibilidade, algo que é estimulado pelas colaborações que temos vindo a ter de todos os quadrantes, desde o académico ao teatro profissional, mas temos alguns constrangimentos, financeiros sobretudo, que nos desafiam, ano após ano.

Resuma-me a edição deste ano, que pode destacar duma programação que busca também a provocação directa aos públicos, com os site specific, as performances e a ocupação das praças e ruas com representações? Pode levantar o véu quanto à instalação urbana?

Sobretudo este ano queremos despertar o público, e também os grupos, para a força do teatro universitário e a capacidade que este pode ter de ir para além da criação artística e da expressão teatral, e de alguma expressão pessoal dos seus participantes, e mobilizar, intervir na sociedade, apontar o dedo aos assuntos que nos preocupam a todos. Na década de 60, período conturbado em que o país conheceu a força dos estudantes na luta contra o regime, na crise académica de 62, os grupos de teatro universitário tiveram enorme importância na expressão da revolta traduzida em espetáculos nos palcos. Esse papel tem de ser relembrado.

Levar o teatro universitário para a rua e para locais inusitados corresponde não só à necessidade de provocar positivamente o público e dar-lhe a conhecer o trabalho dos grupos, mas também a uma tendência no trabalho que os coletivos fazem: confrontados com a escassez de espaços para a apresentar os seus espetáculos os grupos de teatro universitário responderam com criatividade e quase qualquer espaço pode ser convertido em palco, seja a rua, seja uma garagem, seja um armazém abandonado. Outras vezes é por opção estética e criativa, os site-specific proporcionam outras variáveis bastante interessantes na criação de um espetáculo que um espaço convencional limita.

Desde há alguns anos temos trabalhado no sentido de desenvolver uma programação paralela que estimule as ligações existentes entre o teatro universitário e as artes de palco e outras expressões artísticas. A Secção de Investigação e Estudos Volte Face – Medalha Contemporânea da Faculdade de Belas-Artes desde há várias edições tem vindo a participar no festival com a criação, por alunos da faculdade, sob a
coordenação do Professor Escultor João Duarte, de peças escultóricas que refletem essa ligação que referi. Todos os anos elas têm “invadido” o campus da universidade de várias formas. Este ano teremos a instalação FATAL à mesa, um piscar de olho à mesa do debate não só sobre o teatro universitário e o estado das artes, mas também sobre a sociedade. Ela estará patente no relvado da alameda da Cidade Universitária até 4 de Maio.

O que poderia ser um atraente convite para participar e assistir às representações do Festival?

Vir assistir a alguns dos melhores e dos mais recentes espetáculos de teatro universitário nacionais. Sentir a paixão e a entrega dos actores estudantes que, sem reservas, se dedicam ao teatro universitário ultrapassando todos os desafios.

Gostaria também de lançar uma provocação que pretendo ter um maior alcance que o festival em si. O teatro está FATAL em Portugal - pensa que o Festival contribui de algum modo na formação de novos profissionais nas artes de palco?

Contribuiu no passado e continua a contribuir. Alguns dos maiores profissionais do teatro nacional passaram pelo teatro universitário, tais como Luís Miguel Cintra, Jorge Silva Melo, Hélder Costa, entre tantos outros. Nas novas gerações encontramos inúmeros atores, e outros profissionais, que tiveram a sua primeira formação teatral no contexto dos grupos de teatro universitário. O teatro universitário é muito marcante para quem o faz… muitos estudantes, depois de entrarem para um grupo de teatro, interrompem
os seus cursos e recomeçam as suas formações nas escolas de teatro do ensino politécnico e noutras instituições enveredando por uma carreira no teatro, cinema ou na televisão. Encontram no teatro universitário um espaço de expressão pessoal e de encontro que ultrapassa as salas de aula.

O teatro pode, de facto, estar FATAL em Portugal: carece de um investimento financeiro que faça a diferença e lhe dê estabilidade, precisa de ser compreendido pelas entidades privadas como uma aposta válida que merece ser apoiada e estimulada, à semelhança do que acontece noutros países. Por outro lado, as companhias e os teatros têm também de responder ao desafio de saber adaptar-se às circunstâncias e de compreender que cada vez mais é preciso não contar muito com os apoios estatais, que serão, cada vez mais, residuais, e virar as suas estratégias de sobrevivência para outros recursos; creio, do que tenho conhecimento para avaliar, que o fazem cada vez mais. Tenho alguma mágoa em constatar que cada vez mais a cultura, algo tão essencial para a formação humana, parece estar a voltar a um registo de “luxo” feito por alguns “idealistas” e “privilegiados” que conseguem manter a cabeça à tona de água.

Gostaria que estivéssemos a par de outros países onde apesar das “crises” se valoriza o papel da fundamental da cultura na sociedade e na formação cívica e humanista.

Gostava que me descrevesse Lisboa em algumas - parcas - palavras. O que a fascina nesta cidade?

Fascina-me a simultaneidade da decadência (sobretudo dos espaços públicos e de algumas zonas da cidade) e de uma enorme vitalidade. Fascinam-me os opostos de uma cidade que lentamente abandona o peso das eras e se descobre jovem, moderna, provocadora e por vezes extravagante. Creio que os opostos são um dos maiores trunfos da capital.

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