Le Entrevista a Evan Parker por Pedro Tavares


Evan Parker colocou-se à disposição para responder a algumas perguntas da Le Cool uns dias antes do reencontro com Misha Mengelberg no Jazz em Agosto, a 5 de Agosto, no Anfiteatro ao Ar Livre da Gulbenkian. Bem disposto e articulado, o saxofonista é um grandes nomes da música improvisada da atualidade. É uma sucessão pergunta-resposta a um ídolo vivo, abrindo excelentes expetativas para um concerto que será certamente bem ao vivo, vivo.

Atuaram [Mengelberg e Parker] juntos apenas uma vez na sala Bimhuis em Amesterdão em 2006, do qual resultou a edição de um trabalho: “It Won’t Be Called Broken Chair”. Querem recordar-me esse concerto?

Ainda que o concerto do Bimhuis tenha sido a nossa primeira experiência como dueto, a nossa relação vem de muito antes, do contato entre os músicos de Inglaterra, Alemanha e Holanda. Através de Peter Kowald conheci Peter Brötzman, através dele conheci Han Bennink e Willem Breuker e através dos dois, fui apresentado a Misha.



De facto, penso que o nosso primeiro encontro foi em Hilversum num estúdio de rádio e fizemos um programa com o Han e o Willem. Depois disso mantivemo-nos em contacto e convidei o Misha e o Han a virem a Edimburgo. Tudo isto aconteceu no final dos anos 60 e fomo-nos encontrando inúmeras vezes. O Misha era o diretor do STEIM e convidou-me diversas vezes para lá trabalhar. Houve uma longa tour por Inglaterra para a Contemporary Music Network, onde o Misha, o Han e a ICP Orchestra tocaram e eu atuei a solo e muitas vezes juntei-me a eles. A ocasião específica para o CD foi originalmente instigada por Graham McKenzie, que é agora diretor do Huddersfield Contemporary Music Festival e por Raymond MacDonald, uma das figuras centrais da Glasgow Improvisers Orchestra.

Eles tinham planos para lançar uma editora e queriam este duo como uma das suas primeiras produções. Os panos nunca se concretizaram, mas as gravações existem. Foi uma oportunidade para a minha label psi, de tomar conta do projeto.


A ausência de outros instrumentos faz com que haja uma maior ligação entre vocês e a música também flua de outra forma. É assim?

A música em duo é a primeira forma de improvisação, na qual elementos de negociação, colaboração, cooperação, jogo, cancelamento, confusão e muitas outras qualidades ganham relevo. Duas mentes estão a trabalhar e cada qual pode ser sintonizada, próxima ou distante, com a outra, assim que a música se desenvolve. Há o aspeto do diálogo, mas há a possibilidade de monólogos simultâneos e há também um terceiro aspeto, talvez mais compensador, no qual uma transcendência destas opções ocorre. Isto é, claro, mais difícil de prever ou de descrever.

Que podemos esperar deste vosso reencontro com o Jazz em Agosto?

Haverá o esplendor do cenário do Anfiteatro da Fundação Gulbenkian, os sons e os movimentos do ambiente e as noções da performance. Dado que estaremos a improvisar livremente e isto é um duo com muito pouca história como duo, mas com uma imensa história partilhada como indivíduos a trabalhar na mesma área musical durante toda a nossa vida profissional, o resultado não pode ser previsto de nenhuma forma específica. Mas é garantido o "contar uma história."

Como definem o vosso trabalho? É uma música intelectual, cerebral?

Parafraseando Hans Eisler, com o devido crédito a John Tilbury, não queremos deixar o nosso cérebro no bengaleiro, quando entregamos os nossos chapéus.

Não é a primeira vez que tocas em duo de piano e saxofone, já o fizeste por exemplo com Matthew Shipp. Existe uma abordagem especial e única na combinação destes dois intrumentos?

Mais importante do que o piano, é o pianista. Misha é um indivíduo admirável. "Único" é apenas o princípio de qualquer tentativa de descrever o que o faz mexer. O mundo necessita de mais pessoas que sejam fortes o suficiente consigo própios e qualquer situação. O Misha é forte o suficiente.


Pode-se então pensar em formações únicas para momentos únicos?

Um encontro como este apenas pode acontecer quando um diretor artístico de um evento cultural lança um convite. Aqui é quando podemos agradecer a Rui Neves (diretor artístico do Jazz em Agosto) por ter enviado o convite.

Uma resposta mais discursiva reconheceria que há ideais utópicos que colocam a noção de "grupos únicos/ensemble para momentos únicos", mas há aspetos práticos económicos e de organização que têm que ser resolvidos antes que um momento único aconteça.


Qual é o vosso conceito de improvisação, cada um é livre de ir por onde quiser ou há limites?

O campo da improvisação atrai pessoas que estão preparadas para viver perigosamente. Ainda que não se tomem os riscos físicos de andar na corda sem rede ou fazer malabarismo com lâminas, há riscos tomados tanto pelos músicos e pela audiência em conseguir um resultado musical.

O que é imprescindível na improvisão?

O negociar um resultado musical em tempo real.


No vosso trabalho, exploram os territórios dos outros, em busca de sonoridades e texturas únicas?

É impossível, e esteticamente desaconselhado, ignorar os feitos relevantes de outros.


Quais foram ou são as vossas referências musicais?

Neste momento, tendo estado envolvido com música livremente improvisada na maior parte de cinquenta anos, interessa-me a contínua evolução e desenvolvimento dos diversos géneros musicais que sempre me ocuparam. O tocar a solo, os grupos regulares - Parker/Guy/Lytton, Schlippenbach Trio, Globe Unity Orchestra, o meu ElectroAcoustic Ensemble e algumas relações específicas com outros que estão sempre a aparecer e a florescer.

John Coltrane foi uma influência enorme, houve outras? 

Dolphy, Giuffre, Paul Bley, Milford Graves, Partch, Nancarrow, AMM - podia fazer uma longa lista!

O que pode dizer sobre o jazz e a música improvisada de hoje em dia?

Citando o desaparecido Dudu Pukwana, "It's my life!"

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Ligações
evanparker.com

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