Le Vitória 9

Quito, capital do Equador.

Foi este ano nomeada Capital da Cultura 2011 da América Latina. A 3200 metros de altitude, uma cidade grande, verde, com bastante movimento e muito frio. Apanho um autocarro que diz: “ La mitad del mundo”. Uma viagem que dura aproximadamente uma hora e meia. Chego a uma grande torre que diz: “ Latitude zero, a 2483 metros de altitude”. No seguimento dessa torre há uma linha desenhada no chão em sentido vertical, onde coloco um pé em cada lado. O único lugar no mundo onde podemos estar ao mesmo tempo nos dois hemisférios.

Le capa * 311


Por Catarina Oliveira

Le Entrevista a Tigrala por Rafa


A propósito do concerto no Jameson Urban Routes neste próximo dia 29 de Outubro ao MusicBox, atiraram-se perguntas a Ian Carlo Mendoza, Guilherme Canhão e a Norberto Lobo - as três cabeças e seis braços dos Tigrala, a ver quem fisgava. Para vos poupar os olhos, abreviam-se os seus nomes nos respectivos Ian, Guilherme e Norberto. As respostas seguem agora, em cascata.

Falem-me um pouco de vocês, quem são os Tigrala e porque será que o nome badala sempre algo a ver com felinos malhados?


Ian - Somos um trio de música instrumental nascido em Lisboa. O nome é uma antiga ideia do Norberto com a qual concordamos; e a palavra em si acaba por ser um jogo em relação à crescente indistinção entre géneros.

Le Entrevista a Lady M por Daniela Catulo


Ela é uma das DJ´s nacionais que mais tem actuado nos últimos anos. Uma verdadeira Lady que nos dá música e nós adoramos. Ela é Lady M – de Mariana. Gosta de passar House, Deep House e Vocal, passando pelo Tech e Electro-House. Cheia de energia e vivacidade, Mariana não pára de surpreender de norte a sul do país e fora dele também: Luxemburgo, Suíça ou Tunísia foram alguns dos destinos por onde esta Senhora já passou e deixou a sua marca, animando pistas de dança e levando-as ao rubro.Em 2004 juntou-se à colega Miss Pink de onde nasceu o projecto L&M CONNECTION que também tem merecido o destaque da imprensa. A DJ continua a seguir a sua paixão, caminhado e dançando e animando-nos por onde quer que passe. Podem ouvi-la já no próximo sábado na Pré-Halloween Party no Ground Zero da Discoteca Kaptal, onde partilhará a cabine com o DJ Óscar Baia ( do recém encerrado Kremlin), e com as Djs Lyla VS Allure e  DJ Star.

Numa semana em que foi anunciado o fecho de uma das casas míticas da cidade, o KREMLIN, existe um ar um clima de mudanças para a noite lisboeta, de reinvenção, de adaptação a um novo contexto social. O que achas essencial que aconteça para que bares e discotecas se mantenham na corrida sempre com qualidade?

De facto encerrou uma casa mítica no panorama não só de Lisboa como arrisco-me a dizer Nacional. Na minha opinião todos aqueles que vivem na e da noite deviam rever as suas estratégias e essencialmente primar pela qualidade em todos os aspectos.

Le Capa * 310


Por Catarina Oliveira

Le Entrevista a Magazino por NunoT

Quem é Magazino? E, já agora, porquê o nome Magazino?

Magazino surgiu quando regressei de Espanha em 2008 e achei que tinha de dar uma lufada de ar fresco na minha carreira. Precisei de um desafio extra, e nada mais desafiante que mudar o nome artístico, não renegando o passado, mas imprimindo uma nova dinâmica para o futuro. Magazino pura e simplesmente porque tenho o vício de ler jornais e revistas de diversos quadrantes e de vários países.

Como nasceu a tua paixão pela música? E depois disso, como e quando começaste como DJ?

O meu pai tinha uma grande colecção (100 discos) de música clássica com os melhores compositores desde Wagner, Schubert, Beethoven, Vivaldi, etc. Na altura olhava para aquilo como uma biblioteca. Achava piada a tantos discos e comecei a desenvolver um gosto especial por música num sentido lato. A electrónica surge pouco depois com 14 anos numa excursão de finalistas a Benidorm. Aí sim, fiquei encantado com a movida, as cabines, os djs etc. Comecei então a comprar vinis (maxis) e tocava em casa com pratos de correia, até que aos 17 tornei-me residente  de uma discoteca em Setúbal - "Clubissimo" - a convite de dois amigos que lá trabalhavam. Recordo-me que na altura o Clubissimo já estava na vanguarda da música electrónica o que influenciou de uma forma muito positiva todo o meu trajecto posterior.

E como se cruzou o teu destino com o de José Belo e a Bloop?
 
O Zé fundou a Bloop, na altura subsidiária da já extinta Loop. Creio que ele ouviu um dos temas que tinha acabado de colocar no meu myspace. Não o conhecia. Entrou em contacto comigo para assinar um disco para a Bloop e eu não aceitei de imediato, ficara de pensar no assunto. Na altura vivia em Barcelona e não estava por dentro do que era a editora. Quis saber mais. Pesquisei e horas de conversa depois resolvi aceitar e o disco saiu. A empatia e química foram crescendo culminando com um convite para ser sócio da Bloop ao fim de alguns meses. Ele sentiu que poderia ser muito importante para a marca, eu achei que o meu input iria ser uma mais valia. Na altura que entrei, no fim de 2008 coincidiu com a minha volta para Portugal e com a  trágica morte da minha Mãe que perigou a minha entrada para a sociedade. Superado o choque inicial, seguimos em frente com tudo o que tínhamos delineado e aqui estamos hoje com a Bloop em grande forma.

Desde aí muito mudou. Entraram o João Cruz e o João Gonçalves como sócios, cada um com a sua área e fomos recrutando pessoas para preencher as necessidades que a empresa começou a gerar. Em poucos anos conseguimos consolidar e estabilizar a marca, outros desafios se levantam, outras necessidades surgiram. Estamos atentos e acabámos de recrutar 2 pessoas para áreas que neste momento fazem todo o sentido, marketing e assessoria de imprensa.

A Bloop realizou no dia 8 Outubro a sua festa de lançamento da nova estação e conceito para 2012, o Bloop Sport Clubbing. Conta-nos um pouco mais deste novo conceito e imagem que a Bloop propõe.

Quando entrei para a Bloop, decidi com o Zé e o João incutir maior dinâmica na parte dos eventos e na imagem. Recrutámos algumas pessoas - a Partners (Design) na pessoa do Gil Correia - que passou a trabalhar toda a imagem da Bloop, e o Nuno Carvalho para trabalhar no emergente mundo das redes sociais (isto no inicio de 2009). Na altura a Partners sugeriu a introdução de temáticas com períodos de 9 a 12 meses. Começámos pelo trabalho, seguido da fé/culto onde a imagem já passou de uma forma mais consistente. Agora para os próximos 9 meses optámos pelo desporto. Desta vez a ideia partiu de nós, o Gil e a sua equipa desenvolveram toda a temática de uma forma brilhante, aliás o Gil tem tido um papel fulcral no sucesso da Bloop.

A par da temática lançámos o Bloop Card. É um cartão que vem premiar e fidelizar os clientes que acompanham a Bloop de forma mais interessada e assídua. O cartão tem um chip com todos os dados do seu portador para facilitar e melhorar a identificação na porta dos nossos eventos. Este cartão tem uma série de vantagens associadas. Para já foram impressos 350 como forma de manter alguma restrição e exclusividade para os portadores, com isto não estamos a fechar portas para novos "desportistas" mas sim beneficiar aqueles que connosco já privam de uma forma mais constante.

Entre outras vantagens, iremos ter entrada exclusiva nos eventos para os membros, acesso preferencial para eventos de lotação limitada, descontos nos eventos. Estão também a ser negociadas uma série de parcerias e descontos noutras actividades para o target do Bloop Card.

Qual é o desporto que mais segues?

Futebol, o Vitória em particular. Ténis e Basquetebol com especial enfoque na NBA.

Praticas algum desporto? Qual?

Sim, squash, futebol, xadrez e umas corridas de vez em quando.

Qual o teu sucesso/feito mais recente (dentro ou fora da Bloop)?

O melhor ainda está por vir, o meu próximo disco que sairá na Bloop tem tido muito bom feedback, são 2 temas e sairá em Dezembro com remixes de Dyed Soundorom e do Tiago Marques. Antes desse sairá pela Bloop um outro EP do Faster (Romeno que convidou os também romenos Livio & Roby para remisturarem o mesmo EP).

Qual o teu próximo grande desafio para o futuro?

O maior desafio que tenho para a Bloop, é fazer com que a marca tenha um papel activo na intervenção social. Os primeiros passos nesse sentido já estão a ser dados. Estamos por exemplo a negociar com uma ONG uma colaboração estreita num futuro breve.

Como é ser DJ em Portugal/Lisboa?

Ser Dj em Lisboa é seguramente mais fácil que no resto do país, excepção feita ao Porto. É muito difícil vingar neste meio se viveres fora destas 2 grandes urbes. Infelizmente Portugal tem apenas 2 grandes pólos urbanos ao contrário por exemplo da vizinha Espanha.

Tudo se centra em Lisboa e no Porto, todas as novas tendências são absorvidas por estas 2 cidades. Sim, porque em Portugal são raros os casos onde se criam as tendências. Em 90% dos casos seguem-se tendências criadas nas grandes capitais europeias. É um pouco o resultado de termos uma população de apenas 10 milhões de habitantes e de estarmos no canto mais afastado do centro da Europa. Em Portugal tocar a música que toco também não é fácil. Existem no máximo 10 clubes onde posso tocar com regularidade, nos restantes toco apenas esporadicamente. O mercado está invadido pela música dita comercial. Se por um lado é mau porque sobram poucos locais para ouvir outras correntes, por outro, as pessoas que realmente não gostam dos géneros mais comerciais tornam-se mais fiéis às outras correntes. No fundo é o que tem acontecido com a Bloop. Por incrível que possa parecer, apesar de caminhar em sentidos opostos, quanto mais o mercado da música electrónica comercial cresce, mais a Bloop se consolida e reúne mais simpatizantes, claro está fruto também do trabalho que temos vindo a desenvolver.

O que és tu para Lisboa e Lisboa para ti?

Vivo em Lisboa mas não sou de cá. Nasci em Setúbal apesar de todas as minhas origens remontarem aos Açores. É a segunda vez que cá vivo, desta vez de uma forma mais efectiva. Lisboa é a capital e como disse antes, se queres vingar nesta área é aqui que tens de estar. Tudo se passa aqui e, ou acompanhas, ou tudo esmorece e morre.

Gosto de Lisboa. Da famosa luz, da oferta cultural (aqui estamos ao nível das maiores capitais europeias), do clima, das diferentes etnias que co-habitam num pequeno espaço físico. Na zona onde vivo existe uma paleta de nacionalidades incrível. Tenho conhecido gente das mais diversas partes do globo, se ao início achava um pouco estranho, agora adoro sentir os diferentes cheiros e ouvir vários idiomas, tenho feito inclusive bons conhecidos de outras origens: Indianos, Brasileiros, Guineenses, Paquistaneses, Cabo-verdianos, Espanhóis, Finlandeses, Romenos…

Para Lisboa não sou mais que um cidadão que se limitou a migrar para cá em busca do triunfo. Algo impossível nesta área noutra qualquer cidade deste país com excepção do Porto. Aliás na Bloop, entre todos os que trabalham e colaboram connosco, 90% das pessoas são de fora de Lisboa. Mudaram-se para cá em busca de emprego e melhores condições de vida.

Qual é o teu “canto secreto” em Lisboa? (locais que te inspiram)

Não tenho, locais que me inspirem em Portugal só mesmo nos Açores.

Quando não estás atrás da consola, por onde andas? Onde te podemos encontrar na noite nesta cidade branca?

Em Lisboa à noite, certamente no Lux, às vezes no Cais do Sodré e Santos, e muito pouco no Bairro. Não sou particular fã, especialmente ao fim-de-semana.

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Enlaces

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* Originalmente publicado a 20 de Outubro de 2011, na Le Cool Lisboa * 310

Le Capa * 308


Por Óscar Silva

Le Capa * 308


Por Óscar Silva

Le Entrevista a Vasco Ferraz por NunoT


Produtor é aquele papel-título-profissão que pode ser tudo e pode ser nada. Vasco Ferraz encaixa decididamente no primeiro caso. Munido de uma versatilidade e capacidade criativa surpreendentes é o pilar mestre de cada projecto em que se envolve. Designer de formação e empreendedor por convicção, Vasco, geração 80, conta já com um currículo de produções invejável e dirige hoje a sua segunda empresa. O seu projecto mais recente - Máquina, A Cultura do Processo (em exposição na Plataforma Revólver até 15 de Outubro e com artigo na Le Cool Lisboa * 308) - foi aclamado unanimemente pelo público e pela imprensa. Mas como, segundo o próprio, o tempo é pouco para tudo o que quer fazer, tem já as mãos na massa com o proximo desafio: comunicação e imagem da 22ª edição do Amadora BD - o FIBDA. Evita o protagonismo e não perde tempo a colher louros. É discreto e humilde, mas é provavelmente mais animado que o Herman José, os Gatos Fedorentos e os Monty Python juntos. Apanhá-lo livre é praticamente impossível, mas se um dia conseguirem um jantar com Vasco Ferraz, preparem-se, pois ele falará durante 3 horas e vocês rirão durante as mesmas 3 horas.

Le Capa * 307


Por Left Hand Rotation

Le Vitória 8

Portobelo-Arquipélago de San Blas.

Dois veleiros - Fenicia e Odisseia. Uma semana a navegar pelo mar das Caraíbas. Dezassete pessoas. Mochileiros e tripulação. Austrália, Canadá, Holanda, Colômbia, Uruguai, Equador e Portugal. Já o Sol se pôs e despedimo-nos de Portobelo, rumo a um dos maiores arquipélagos e a uma das viagens de barco mais paradisíacas que este nosso cantinho chamado mundo tem. Vamos todos em silêncio, de olhos fechados e em pele de galinha, desfrutando da magia que paira no ar. Passamos ao longo de toda a Cordilheira de Dárien e da pequena Ilha de Drake, onde foi enterrado um dos piratas mais temidos em toda a história dos Piratas das Caraíbas.

Com emoção navegamos sobre as estrelas, sobre a luz de Júpiter e seguimos uma rota rica em histórias, lendas e aventuras. Sento-me ao lado de um equatoriano que manejava o veleiro. Vamos lado a lado, partilhando apenas o som da quilha a bater nas ondas do mar, a lua cheia, o céu estrelado e levamos o tempo todo sorrindo, sem dizer uma única palavra. Não conseguimos tirar os olhos de cima um do outro. Um homem lindo, descendente de indígenas, pele escura, de longos cabelos negros, uns olhos escuros que espelham o legado Inca que lhe corre no sangue. Amor à primeira vista, no Caribe. Adormeço na proa do barco, com o coração cheio de adrenalina, com a incógnita de quão mágicos serão os próximos dias.

São 6h da manhã e acordo com o nascer do sol. O capitão sorri para mim e o seu olhar diz-me "Olha à tua volta". E quem disse que o paraíso ainda não desceu à terra? San Blas, também conhecido por Arquipélago das Mulatas, pertencem aos índios da comarca Kuna Yala. 369 ilhas, onde apenas 80 estão habitadas. Há ilhas para todos os gostos. Uma palmeira, duas palmeiras, três, quatro, com mais ou menos sombra, mais ou menos cocos, mais ou menos areia branca. Atracamos em Cayos Holandeses, numa ilha deserta, que seria só nossa nos próximos 3 dias.

As horas são divididas entre muito mergulho e muita partilha. O sol põe-se e extasiados observamos a força das cores fogo a deitarem-se no horizonte e a lua a espreitar-nos para nos dar as boas vindas. Hora de jantar. Chegam os índios Kuna no seu "cayuco" de madeira, com lagostas, caranguejos e afins, acabadinhos de pescar. Tripulação ao fogão! De estômago bem cheio, segue-se o trabalho de equipa. Tendas, muito rum e uma boa fogueira. Banhos de meia noite, à luz da lua cheia. Beijos de água salgada e abraços de areia. O que levavas para uma ilha deserta? Muito amor e uma cabana. E assim foi nos dias que se seguiram.

Ilha Tigre. Aqui ficamos por mais dois dias. Uma das poucas ilhas habitadas pelos índios Kuna. Ao contrário de outras, esta ilha não é nada turística, porque infelizmente também os índios já foram contagiados pela febre do turismo. Descalços caminhamos pela ilha onde as ruas são de areia como se fosse uma praia gigante. Cabanas feitas de madeira e folhas de palmeira. Os índios são baixinhos, considerados a comunidade de estatura mais baixa a seguir aos pigmeus. As mulheres sao exóticas, de pele bem escura, e cabelo negro curto. As suas vestes são incrivelmente coloridas e exibem ao longo dos braços e das pernas pulseiras de missangas com diferentes motivos. Têm uma hierarquia bem estruturada e regras bem estritas. Vivem da sua própria agricultura, da venda de algum artesanato, e muitas vezes trocam cocos por outros artigos que não podem produzir com os barcos de carga. Uma partida de futebol está marcada entre nós e os Kuna, que foram seleccionados para jogar no Campeonato Mundial de Futebol Indígena, na semana que se segue no Canadá.

Os dias passam e está na hora de seguir rumo para a Colômbia, agora dois dias em mar aberto. E foi aqui que mais uma vez a Mãe Natureza nos mostra a sua força e nos faz sentir o quanto pequenos somos. São 3h da manhã e a meio de uma brutal tempestade ficamos sem bateria. Sem motor e sem combustível. Ao ficarmos sem bateria a Fenicia por estar sem motor estava a ser puxada por uma corda pela Odisseia e com a força com que parámos quase que nos choca. Vimos todos a vida a andar para trás. O capitão manda-nos todos para dentro e diz que nos agarrássemos onde pudéssemos. As escotilhas estavam fechadas mas mesmo assim ouvíamos a água a inundar o barco na parte de cima. Tudo caía e abanava por todos os lados. Os ruídos eram ensurdecedores e parecia que nunca mais acabavam. Consigo levantar-me e olho pela janela. Vejo a Fenicia, iluminada por relâmpagos, o mar revoltado, a tempestade a querer engolir-nos naquele mar imenso, parecia um filme de náufragos que acaba da pior maneira. Ouvimos o capitão e os outros tripulantes a gritarem: " La Fenicia!! El Vertigo!! Nos vamos a morir!!!" E a rirem-se ao mesmo tempo!! Estes marinheiros... Finalmente adormeço e a manhã seguinte permanece silenciosa entre todos. Ninguém sabia como quebrar aquele momento, até que o capitão solta uma gargalhada acompanhada de um "cagaram-se todos ontem, não??" A Fenicia teve que ser solta, por umas horas enquanto carregávamos a bateria, e em que voltaríamos a cruzar-nos com eles para lhes dar de comer. Assim que nos cruzamos os meus olhos procuram os do meu índio, querendo só que aqueles dias de tempestade passassem para nos juntarmos de novo. Como num conto de histórias.

O dia seguinte segue-se com mais uma tempestade eléctrica, voltámos ao caminho, ventos sul, com o veleiro a navegar a 45 graus, agarrados à proa e a levarmos com a rebentação das ondas em cima! Que adrenalina!! As sensações intensificam-se num limiar entre a vida e o medo! Tudo é partilhado. A comida que começa a faltar, a água e os poucos cigarros que restam. Passamos quatro horas assim, até que: "Terra à vista!!! Bienvenidos à Colômbia!! Cartagena de las Indias!!", gritamos todos. Os corações acalmam e os veleiros cruzam-se.Trocam-se abraços e beijos quentes entre todos!! Grandes edificios à vista, majestosos, mas que conferem alguma beleza a este porto. Por detrás desta cidade moderna esconde-se um centro histórico cheio de vida.

Cartagena. A cidade querida da América Latina. Uma das cidades mais bonitas que já vi em toda a minha vida. As paredes são de cores quentes e coloridas, uma arquitectura colonial perfeitamente restaurada e há música em todo o lado. Caminhamos todos abraçados, com sorrisos pregados à cara que mal conseguimos tirar. Todos dançam felizes boleros mexicanos e salsas caribenhas. As pessoas abrem as portas das suas casas e fazem das suas cozinhas restaurantes. Cortam cabelos na rua a horas que não lembra a ninguém. Calor, boa energia, música, comida. Como uma típica cidade-porto, os habitantes são descendentes de escravos negros. As senhoras que vendem fruta, vestidas nos seus trajes vermelhos com estampados coloridos, carregam-nas em enormes cestas na cabeça e assim caminham tranquilamente pelas ruas. Linda Cartagena, hei-de voltar de novo para te abraçar. É com uma lágrima ao canto do olho que nos despedimos todos, com esperança de nos encontrarmos de novo, para nos rirmos desta linda aventura.

Bogotá. Uma capital como outra qualquer, a 2500 metros de altitude. Tem a sua beleza, mas não é cidade para mim. Prédios em cima de prédios, sinto-me fechada. No entanto, é uma cidade limpa, de certa forma organizada, super moderna e os colombianos são super boa gente, sempre sorrindo, bastante atenciosos, com bastante orgulho na sua cultura.

Cali, a capital da salsa. Fiquei hospedada no Bairro de San Antonio, um bairro cuidado, moderno, com boa gente e uma vida impressionante.  "La 5a" é a avenida mais conhecida para esta atracção. Onde se dança salsa, rumba, merengue, bachata, todos os ritmos latinos conhecidos e desconhecidos de Segunda a Segunda.

Sem dúvida nesta viagem, vivi momentos intensos de coração e de aventura, que mais uma vez me fazem pensar o quanto é importante, pormos de lado tantas preocupações supérfluas. Saber viver, desfrutar, sem ter que olhar para trás e pensar que o faríamos diferente, aceitar as transformações, aceitar-nos como somos, aceitar os medos que temos e ouvir o coração, caminhar na rua e assobiar, de tão estupidamente contentes que estamos. Depois disto, é com um sorriso na cara que digo que sou feliz pelos momentos que vivi e por não saber aqueles que me esperam, mas sabendo que não há pressas para nada, conectar-me e aceitá-lo porque tudo nesta vida tem uma razão para ser.

Depois de uma aventura em mar aberto, conhecer a bela Colômbia. Está na hora de conhecer esse belo país primo daquele que agora é o meu país, e reencontrar-me com aquele que agora aquece o meu coração. Mochila às costas, pé na estrada, preparada para cruzar mais uma fronteira, mas desta vez por terra!

Equador aqui vou eu!

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* Originalmente publicada a 29 de Setembro de 2011, na Le Cool Lisboa * 307 

Le Entrevista a Mário Valente por Luísa Baptista

É noite. O Bairro Alto está calmo, a Bica com algumas pessoas. Na descida cruzam-se caras conhecidas nesta cidade-elástico por vezes grande e muitas demasiado pequena. “Vamos ao Lounge, há lá um concerto”, frase dita que podia estar escrita numa daquelas paredes. Na Le Cool muitos desses concertos já foram anunciados, primam pela qualidade, pela actualidade: são escolhasde autor. Fomos tentar saber que história tem este autor, quem faz este trabalho e descobrimos uma simpatia de pessoa, 38 anos e tão perto das novas gerações que poderia até nem ter idade.  

Mário Valente faz jus ao nome, arrisca nas suas escolhas que se têm revelado uma ilha nesta cidade. Imaginem se não houvesse Lounge. Onde iríamos no fim daquela calçada enorme? Onde teriam tocado de porta aberta os Rainbow Arabia, Maria Minerva e Los Explosivos? Que histórias tem este sitío, quem é a pessoa que há 12 anos mantém esta casa na rota de várias gerações? Uma viagem e tanto onde se cruza a música com cinema, os ciclos recicláveis e a cidade de Lisboa.

Fala-nos um pouco sobre ti. 

Nasci em Campo de Ourique e vivo em Campo de Ourique. A minha formação é em Design Gráfico no IADE, depois estive alguns anos a trabalhar como designer e comecei em dj em part-time pela piada da coisa em 94, que foi quando assumi residência no Johnny Guitar. Tinha 21/22anos. Depois foi correndo bem e fui fazendo cada vez mais noites. Às tantas e um pouco por acaso, estava sempre a saltar de empresa em empresa de design e a última onde eu estive acabou há meia dúzia de anos e eu decidi não continuar a procurar e dedicar-me só ao djying e aos bookings, o que me ocupava muito tempo, na realidade.

E nessa altura, em 94 que tipo de som se ouvia na cidade e no Johnny Guitar, qual era a tendência? 

Se uma pessoa pensa na cena de Lisboa como vês hoje em dia, não tinha nada a ver. Na altura não tinhas assim um som específico ou não notavas muito isso. Tinhas o Kremlin e o Frágil a passar House, mas depois a nível de barzinhos tinhas um ou outro no Bairro Alto com umas coisas mais modernas, o Kirk com os breakbeats e o inicío do drum n' bass, etc. No Johnny Guitar era só Punk,Hardcore e Metal à brava. Eu passava isso e Trash Metal.

Aos 15 anos, quais eram as tuas referências? Penso que é uma idade importante, em que se absorve muitas das coisas que ficam até tarde. 

Eu aos 15 anos era um puto muito peneirento que passava a vida na Cinemateca a ver cinema francês. Recusava tudo o que eu tinha gostado até aí, o cinema mais comercial que é normal uma pessoa gostar naquela idade, eu achava que ”eu agora não posso dizer que gosto disto”, era assim um pedante daqueles mesmo com a mania que era independente e que de repente começa a ouvir as coisas mais esquisitas, experimentais e que começa só a ver cinema diferente. O que vale é que isso depois passou, rapidamente. Aí aos 17/18 anos comecei a gostar outra vez de tudo, sem esse tipo de preconceito. Mas acho que é normal essa fase.

Então foste designer, tens a música e tens o cinema. Como é que o cinema entrou na tua vida? 

O cinema começou quando comecei no IADE a fazer cinema de animação com os amigos. Depois parei e comecei a escrever sobre cinema em várias publicações.

E um filme que te tenha marcado? 

Posso dizer um grupo de filmes que são uma referência para mim mas é daquelas coisas... Mas o Female Trouble do John Waters é um daqueles filmes que eu estou sempre a ver. O Feiticeiro de OZ que é assim uma escolha óbvia, mas pronto.

Tens um blogue de cinema. Fala-nos um bocadinho disso.

Sim, Zona Negra. Isso foi uma extensão de uma secção que eu tinha na DVD Review, que era uma revista sobre lançamentos de DVD. Escrevia normalmente sobre os lançamentos nacionais e depois tinha uma página dedicada ao cinema série B, de Terror, Blaxploitation, Erótico, etc que se chamava Zona Negra precisamente por causa da história das Regiões 1,2,3 códigos dos Dvds onde podem ser reproduzidos. E ali em vez de região, era a Zona Negra, havia uma outra secção que era a Zona Jade que era sobre cinema oriental. Entretanto a revista fechou, mas tomei-lhe o gosto de escrever especificamente sobre aquilo que sempre foi a minha pancada principal, assim um cinema mais “ao lado”. Como eu vejo um filme todos os dias, mal acordava escrevia um textinho pequenino e então tenho lá centenas e centenas de textos sobre filmes. Às tantas deixei de ter tempo. Agora é um arquivo com umas centenas boas de filmes analisados.

E tempo livre, existe? 

Sim, faço questão de ver um filme por dia, sempre que consigo. Excepto nas noites em que trabalho mas, quando estou de folga é um filme por dia e sempre foi desde puto. No tempo livre que vou tendo, bebo vinho a ver um filme.

Acerca do revivalismo na música, o que achas deste loop contínuo em que se vai buscar aos anos 80, aos 70, 60, agora é o dance floor dos 90. E o rock dos anos 90 também. Não achas que já chega de revivalismo?

Eu curiosamente acho que esta última década foi a década de todos os revivalismos; no inicío de 2000 foi a revitalização do final de 70, início de 80 com o Electroclash a pegar no cruzamento do New Wave com o Punk, e depois foi-se evoluindo. A década foi aumentando e foi-se chegando aos anos 90. Obviamente que vai sempre continuar, até que se vai chegar a um ponto em que deixa de fazer sentido fazer um revivalismo do revivalismo.

Até porque se perde informação pelo caminho, muitas vezes quem o faz não conhece muito bem as raízes dessas fontes.

Mas eu não vejo isso como perda de informação, interpreto antes como oportunidade para assumir uma linguagem nova ali dentro, seja consciente ou não. Como dizes, pode ser até por falta de informação e é isso que acaba por fazer que as coisas sejam diferentes porque as abordagens não são as mesmas.

Muitas bandas que usam essas sonoridades desconhecem ao que é que elas se referem, que tipo de vivências, que tipo de épocas, não sabem essa parte da história. E pegam só porque gostam. 

E muitas vezes pegam só pela imagem. Enquanto que na altura era uma coisa que tinha a ver com um deslumbramento próprio da época e era uma coisa genuína, que vinha da rua, agora é pela imagem... as pessoas chegam lá ou pela roupa ou pela imagem dos vídeos. Descontextualizam a coisa. Mas respondendo mais directamente, eu acho que se está a chegar ao fim do ciclo reciclável. Porque não vais poder reciclar a partir dos anos 90. Os movimentos estéticos principais que aconteceram na música, aconteceram todos até ao final do anos 90, a partir daí começou-se com as reciclagens. Não faz sentido daqui a 10 anos reciclar-se 2005 por exemplo, porque já era uma reciclagem de... Às tantas podes argumentar: “ok, eu não estou a fazer uma revisitação de 2005 mas sim o que em 2005 já se estava a revisitar”, por isso já não é uma reciclagem pura, mas uma coisa nova. Por exemplo agora o que está na moda é o kraut rock alemão e toda a cena cósmica dos anos 70 está mais na moda do que nunca esteve, mais do que na altura, que era uma coisa underground e agora está a rebentar seriamente. Mas acho que as pessoas também se estão a cansar disso. E eu noto isso com as bandas nacionais que vão aparecendo aqui. Os portugueses sempre foram muito dados àsinfluências, Nos anos 80 tinhas trinta mil bandas a copiar os Joy Division e no inicío dos anos 90 ainda estavam a copiar os Joy Division. E agora não. Agora vês que há realmente miúdos que estão a seguir o seu próprio caminho, logo à partida.

E sendo assim, que julgas tu que vão ser as novas tendências? 

A nível mainstream vão sempre haver as festas anos 80/90 mas a nível cíclico de grandes movimentos que interessam, ou seja, aquilo que faz a coisa andar para a frente não há mais para onde ir. Acho que as pessoas vão encontrar o seu próprio caminho e que o futuro é mesmo aliberdade. Parece assim um bocado utópico (risos) mas a nível cultural se tem de se ir por algum sitío, é por aí.

A nível do panorama nacional, sobre aquilo que se produz hoje me dia, que situações encontras? 

Há quem diga que nunca se fez tão boa música como agora, há quem diga que antigamente é que era bom. Acho que as pessoas se calhar falam isso porque sentem falta das bandas que nos anos 80 tinham outro tipo de exposição, mesmo as bandas mais independentes como os Pop Dell' Arte, os Mão Morta e os Mler Ife Dada acabavam por ter muito tempo de antena na televisão. Os Pop Dell'Arte passavam em horário nobre no intervalo do Domingo Desportivo! Hoje em dia isso nunca aconteceria, mas isso tem a ver com a exposição, porque há muita coisa a acontecer e hoje em dia as bandas não têm tanta exposição. Agora, é um facto que neste preciso momento há bandas boas como nunca houve a nível de quantidade. Nunca houve um período assim de coisas boas a acontecer.

E lá fora?

Repete-se a mesma coisa que aqui no sentido que há muita oferta. E como muita oferta há muito mais coisas boas do que havia antes. Mas são bandas que muitas vezes não conseguem marcar o seu tempo da mesma forma que havia antigamente.

Pois, porque há a questão da duração que hoje em dia é muito curta e parece dininuir cada vez mais. É rara a banda que consegue lançar um segundo ou terceiro álbum e conseguir a mesma adesão do público e dos media.

Mas muitos projectos depois reinventam-se. Acabam, depois começam com outro nome, ou viram Djs, quer dizer, a coisa vai-se reciclando.

Na tua actividade de programador do Lounge, como e onde vais buscar tanta informação? 

Olha, eu passo muito menos tempo na net à procura de bandas do que devia. Não passo mesmo tempo quase nenhum. Vou uma vez por semana ver os discos que saíram nas lojas online de venda, vou vendo algumas publicações online, vejo o que se destaca. Vejo a Pitchfork como quase toda agente porque é um site mesmo grande, vai um bocadinho a todos os géneros, com algum controlo de qualidade. Não é só as redes online, há a rede de amigos, outros Djs amigos que me mostram coisas e que eu mostro a eles, eu estou sempre a aprender.

A verdade é que o Lounge tem uma ementa musical excepcional com bandas que têm uma sonoridade muito actual, que não se vê muito por aí.

Há mais sítios com uma ementa assim, a grande diferença é que aqui é gratuito. São escolhas que também são influenciadas pelo meu lado de Dj que me leva a estar constantemente a comprar discos novos e à procura de coisas novas.

Mas as escolhas que fazes fazem uma ponte com as novas gerações, consegues de alguma forma captar os públicos jovens. Como captas essas influências?

Fico muito contente por dizeres isso. Sobretudo é gosto pessoal e é uma selecção que tenha a ver com a casa mas depois também há uma coisa muito simples. As bandas que eu ando à procura são bandas que ainda não cresceram muito, logo como bandas novas e que estão a começar, os miúdos conhecem.

Qual é a história do Lounge e como é a tua história dentro do Lounge?

São histórias completamente paralelas. Por causa de amizades e de relações amorosas de outros amigos, acabei por conhecer os donos do Lounge quando eramos todos miúdos, isto no inicío dos anos 90. Começou tudo em Hamburgo, eu andei na escola alemã, tinha amigos alemães e portugueses e havia uma grande relação com outros alemães que viviam em Portugal. Um dos sócios que vivia em Hamburgo e que tinha um bar resolveu vir para cá, vendeu o bar dele lá, abriu este. Eu fui o Dj da primeira noite e começou logo desde aí, em Abril de 99.

Nos tempos de hoje em que toda a gente assume vários papéis, têm blogues, são djs, fotógrafos, etc. Como achas que na música esta invasão têm resultado, no que toca aos Djs particularmente? 

Hoje em dia toda a gente é tudo. Acho que cada coisa no seu lugar. Uma pessoa que joga à bola aos domingos com os amigos não vai meter no currículo a dizer que é futebolista, não faz sentido, não é? Da mesma forma que uma pessoa que te dá uma aspirina para te curar a dor de cabeça, não vai dizer que é médico. Da mesma forma que um tipo que vai pôr música numa festa particular dos amigos e leva o portátil, não pode começar a dizer que é Dj, como quem escreve num blogue não é automaticamente jornalista. Deve haver uma sensibilidade da parte das pessoas e fazer coisas que o justifiquem. Senão é simplesmente fachada.

E para finalizar, o que te irrita mais quando estás a pôr música? 

Quando estou concentrado para fazer uma sequência de dois minutos e vem um amigo que já não vejo há algum tempo e diz “então conta coisas” (risos). Ou quando pensam que eu sou uma jukebox e tenho que obeceder ao gosto de cada um.


Entrevista por Luísa Baptista
Fotografia por Nelson Rodrigues - LINHA (En)CARNADA

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* Originalmente publicada a 29 de Setembro de 2011, na Le Cool Lisboa * 307

Le Entrevista a Alexa Rodrigues por Luísa Baptista


Há pessoas que parece que nascem com um followspot natural. É assim a Alexa Rodrigues. Não passa despercebida, é multifacetada, inteligente e muito hábil no que toca à vida na cidade. Recentemente chegada de São Tomé e Príncipe, onde esteve três meses na “Selva” como gestora de imagem do recém-eleito presidente Dr. Manuel Pinto da Costa, esta menina tem uma enorme curiosidade pelo mundo e o seu percurso curricular é uma pequena mostra disso: Engenharia no IST, Pós-graduação em Controlo de Gestão no ISCTE, Projectos de Decoração de Interiores na Fund. Ricardo Espírito Santo, Instrutora de Fitness Internacional, Pilates, Styling e Assessoria de Imagem na Escola de Moda de Lisboa entre outras formações
menores.

Foi de manequim a mineira, de bancária a produtora de eventos, de instrutora de Pilates a consultora de imagem. Lisboa à distância ganhou-lhe um novo afecto. Encara todas as situações da vida como um desafio e assim tem vivido, com poucas horas de sono. Vai-nos contar a experiência africana e a sua vida nesta cidade que todos gostamos tanto.

Le Capa * 306


Por Óscar Silva

Le Entrevista a Twin Shadow por Luísa Rosa Baptista


"Pronto, têm 20 minutos! Quando estiver quase a acabar eu depois venho aqui avisar que é para fazerem as últimas perguntas, está bem?” E com as indicações da responsável portuguesa do Pepe Jeans Singular Festival começou a entrevista a Twin Shadow, meio-dia solarento, Chiado, Lisboa, 1 de Setembro de 2011.

Data extra no Clube Ferroviário, numa tournée já longa e que não tem prazo para acabar, uma vez que “o objectivo é cobrir o máximo da Terra possível”. Este concerto fez a cidade andar num reboliço à conta dos bilhetes. Os portugueses parecem adorá-lo, tocou 4 vezes este ano no nosso país. Nós chegamos pertinho para tentar saber o que este rapaz (George Lewis Jr.), nascido na República Dominicana e crescido na Flórida, tem de tão especial para andar a tocar nos melhores festivais do mundo. Numa conversa que acabou por ser tudo menos formal, revelam-se pequenos detalhes da vida do homem por detrás do músico.

A banda que o acompanha (Andy Bauer – baterista; Wynne Bennett – teclista e Russell Manning – baixista) estava presente e deu-nos algumas dicas. Mais cool que isto era fazer as malas e entrar com eles no próximo avião. Vontade não faltou.

Le Entrevista a Dj Ride por NunoT


Quem é Dj Ride?

Dj Ride é um miúdo que gosta de scratch, bicicletas, gadget's, electrónica e hip hop. Cheguei a fazer downhill quando tinha 14 anos, mas como perdia sempre virei-me para os campeonatos de Turntablism. Ficava dias e dias fechado em casa só a treinar scratch. Comecei por fazer festas no sótão com uns amigos, mas nunca ninguém aparecia. Tive alguns projectos com MCs e bandas, desde o jazz ao rock. Nessa altura conheci o Stereossauro e formámos os Beatbombers. Foi mais ou menos nessa altura em que participámos no primeiro campeonato de scratch, em Lisboa. Ninguém me conhecia na altura e, como ganhei, para além de levar algo bastante diferente dos outros djs, aquela noite teve mesmo muito impacto na comunidade de djs/turntablism nacional. Basicamente a partir daí nunca mais parei, lancei álbuns, vinis, colaborações com músicos, bandas e actuações de norte a sul do país e algumas idas lá fora também. Vi o meu hobby tornar-se aos poucos o meu full time job e tem sido incrível poder viver da música a fazer aquilo que
amo.

Le Capa * 305


Por Tamara Alves

Le Entrevista a João Ferreira (Queer Lisboa) por Rafa.el


João Ferreira, director do Festival Queer Lisboa | Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa fala sobre a 15ª edição do Festival mais antigo de Lisboa que percorre a cidade de 16 a 24 de Setembro, pelo pólo habitual do Cinema São Jorge e prolongando-se este ano até ao Teatro do Bairro. Este ano sob o signo da transgressão e novamente esbatendo e expandindo os limites do que é um Festival subordinado ao cinema, em torno do Queer Lisboa 15, orbitam numerosos outros eventos que complementam o que se vai passar na tela.

O Festival mais antigo de Lisboa, 15 anos, sob o signo da trangressão. Apresenta-me o festival.

Vou começar pelo tema da transgressão, porque me pareceu um tema não só interessante como importante para a edição deste ano. Eu estou no Festival vai fazer 10 anos, o Festival faz 15. Acompanho o cinema Queer já há muitos anos. Evoluiu bastante nos últimos tempos, nesta última década principalmente, entrou para o circuito comercial e surgiram muitos sub-géneros dentro do cinema Queer. E a transgressão surge sobre uma reflexão quanto ao cinema Queer. A partir do momento em que ele toca tantos formatos e sub-géneros, qual é esse cunho que ele tem. A transgressão é o elemento que procuramos quando fazemos a selecção destes filmes. Continua a ser uma das características fundamentais do que distingue o cinema Queer.

Le Entrevista a José Garcia (Companhia do Chapitô) por Rafa.el

Em momento de celebração dos 15 anos da Companhia do Chapitô, José Carlos Garcia - director artístico da Companhia do Chapitô e vice-presidente do Chapitô,  faz a resenha e o convite para o apontamento de festejo.

Olhando para o que foi feito com orgulho - mas projectando a visão para o futuro. Com exposição retrospectiva em algumas estações do Metro de Lisboa e com evento especial a começar no próximo dia 19, a Companhia do Chapitô mostra-se grande e com passada certa. A Companhia celebra o aniversário de 15 anos de trabalho constante e, a todos os níveis, feliz.

Fala-me um pouco da Companhia. Apresenta-a.

A equipa constitui-se da Tânia Melo e Francisco Lyon na produção; de Jorge Cruz, Tiago Viegas e Marta Cerqueira na representação, John Mowat como encenador e José Garcia como director artístico e actor [partilha o cargo com o de vice-presidente do Chapitô]. Viajamos muito e valorizamos muito a inteligência humana, somos como uma família criativa. O processo de trabalho é em inglês, ensaiamos em espanhol e adaptamos para italiano e para outras audiências, representamos em inglês com adaptações, pois queremos proximidade com o público.

A Companhia está estabelecida no espaço do Chapitô, usa a logística deste, mas é autónoma a nível criativo. Surgiu em 1996 com João Cena, director de produção da casa e surgiu do sonho de criar uma companhia que fosse o espelho do Chapitô. Co-criada por João Cena, José garica e Rui Rebelo.

A nossa forma de estar é sempre uma postura de pessoas normais, de estarmos ao mesmo nível. Valorizamos os valores humanos, a amizade. Somos companheiros (partilhamos o pão).

E fazem teatro do gesto, teatro físico, pantomima?

É teatro físico, é do gesto, é do objecto. É Commedia dell'Arte, mistura de técnicas que foram sendo trazidas pelos seus elementos, junção de experiências. John Mowat faz ainda teatro do gesto em Londres. Não temos cenários, temos apontamentos de cenários, adereços. Não interessa o cenário, interessa-nos apontamentos de cenário, de movimento e de enquadramento e o público que preencha o resto.

A pantomima é exterior ao corpo, na Companhia existe a qualidade do movimento, é uma mímica corpórea, usando o próprio corpo, que para o movimento é interessante. No Drákula há pantomima por interesse dramatúrgico. A dança, e.g., faz-se em movimento contínuo para o espectador ter leitura e a Commedia dell'Arte não é orgânica, como somos.

Temos vários layers, o último layer é actor/público. A obra é superior ao ego e trabalhamos muito para a obra. Não somos académicos, somos operários do placo, fazemos filigrana do gesto, da palavras, não ficamos apenas na ideia.

Como é o vosso processo de trabalho?

É um trabalho colectivo, não temos método e esse é o nosso método. Um espirro pode ser um estímulo. Ninguém sabe o que vai acontecer.O trabalho é em inglês [em virtude da encenação ser conduzida por John Mowat, britânico]. Na Companhia manipulamos objectos, é um circo invisível.

Achas que se perde algo por ser em inglês?

Perde-se algo nos textos, pois não é a nossa primeira língua. O texto não é o motor, ajuda como catalizador para perceber a peça e é essencial para a compreensão, não a essência, essencial.

É um trabalho de edição de teatro?

Sim. (risos) É isso mesmo.

Referências que tenham, Marceau, Tati, o Viegas.

A Nola Rae é referência para mim. Vi o Elizabeth's Last Stand, em 92 talvez. Percebi que foi ali que fiquei com o gosto pelo toque do objecto. E Nola Rae vai voltando.

E trabalham clássicos.

Usamos clássicos, mas os textos são destruídos. O Grande Criador é a história da bíblia, juntando-lhe partes do Ricardo III. Os textos são desconstruídos, esta é uma pretensão cómica. Brecht dizia que "a comédia leva à compreensão." Fizemos também comédia negra, como o Cão, o Cemitério dos Prazeres. No próximo, o Crepúsculo dos Deuses, vamos descontruir a questão da mulher com ilusão de estrelato [baseado no texto original do filme de Billy Wilder].

E vão entrando novas pessoas, a equipa vai-se alterando?

À Companhia interessa sangue novo, rotativamente. Tenho medo que a equipa entre em decadência. Há sempre pessoas novas, vão entrando. Têm que ser pessoas que tenham disponibilidade para viajar e que gostem do género.

Aos 15 anos, não estou nada cansado da Companhia, nada fatigado. Surgiu-me o cansaço [há uns tempos] pelas viagens e fiz uma pausa quando entrei na carrinha da tour, quando em Pamplona - surgiu-me que andava com a casa às costas, e precisei de ver e ouvir outras coisas.

E quanto ao Chapitô?

O Chapitô não é uma escola de circo. E há sempre pessoas que vão circulando para outros países, para outras companhias.

Somos muito acarinhados, o Chapitô é único no mundo, com três áreas integradas - é escola, formação, cultura e acção social. Trabalham 120 pessoas no Chapitô, faz-se o trabalho de reinserção social por via das artes nas prisões juvenis - os chamados colégios. No último piso do Chapitô temos a Casa do Castelo, lar de transição para uma vida mais organizada, onde os habitantes aprendem a gerir o seu dinheiro e têm apoio psicológico. Temos 150 apoiados e não há problemas com as pessoas, todas são iguais, não etiquetamos, nem diferenciamos o tratamento.

É uma aldeia, temos ATl, biblioteca, hortas, uma loja, audiovisuais, a Oficina Faz Tu(do). Falta uma mercearia. Isto tudo define os valores do Chapitô, que é uma casa aberta a todos, todos são bem vindos.

Fala-me do evento do 15º aniversário.

Vejo sempre o teatro como a sala de estar, recebemos o público como se viessem para jantar e contamos uma história. Abolimos a quarta parede, os convidados estão ali para ouvir uma história. Quanto ao evento [que arranca a dia 19], o espectador escolhe o que quer ver, a votação decorre no facebook também. A comunicação é próxima.

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Entrevista feita no Chapitô.
Companhia do Chapitô : http://companhia.chapito.org

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* Originalmente publicada a 15 de Setembro de 2011, na Le Cool Lisboa * 305