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Le Editorial * 239 por Rafa

… lá dizia o venerável Mies. E como é precioso o detalhe:

Sair aos tropeções da cama para descobrir já na rua que tens meias de cada nação, perder uma tarde a perseguir a gataria no Castelo para te insinuares pela noite à Gata da rua, apanhar o barco para o lado de lá apenas para dar meia volta para voltar para o lado de cá, mexer o café com afinco pela manhã para o ir beber sem açúcar, pedir um croissant para levar para o abrir ainda no bar, tirar monos do nariz distraidamente no meio do trânsito e dar conta que meia cidade reparou em ti, fazer fila só porque sim para perceber que a fila nem sequer existia só porque não, fingir que falas inglês e ir pedindo orientações a toda a gente da rua até te surgir alguém que o fale melhor que tu, ir ao supermercado e ter uma branca total do que querias no meio do corredor dos enchidos e bries e pegar qualquer coisa ao calhés e esquecer o aniversário de toda a gente e até mesmo o teu, nem que o marques no tele e no frigo.

Le Entrevista a Alípio Padilha por Rafa

Chamo-me Alípio Padilha. Tiro fotografias em Lisboa. Na infância costumava olhar por debaixo das minhas pernas e via o mundo ao contrário. Olhar dessa forma invulgar transformava então esse lugar. É assim ainda hoje que vejo a “escrita com luz”. Polaroids e um AE-1 foram as primeiras aliadas. Hoje, vivo onde sempre quis viver: Lisboa. Gosto da palavra, do lugar de passagem que sempre foi. A cultura urbana que se esconde e descobre a cada esquina, numa rua, num palco improvisado ou não, está acessível a todos os que a queiram adoptar. Estar atento a isso para mim é fotografá-la, espio tudo, atento, através do viewfinder de uma câmara. Um voyeur assumido.

Lisboa deixa-se fotografar. É exibicionista e vaidosa desde as calçadas onde se tropeça na alma dos lugares, aos miradouros românticos e sempre iluminada pelo Tejo. Há novos fados de Lisboa, basta olhar para eles. Eu registo-os com o que tenho à mão: a fotografia; desafia-me o trabalho no colectivo TPP e na Rua.