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Le Capa * 307


Por Left Hand Rotation

Le Vitória 8

Portobelo-Arquipélago de San Blas.

Dois veleiros - Fenicia e Odisseia. Uma semana a navegar pelo mar das Caraíbas. Dezassete pessoas. Mochileiros e tripulação. Austrália, Canadá, Holanda, Colômbia, Uruguai, Equador e Portugal. Já o Sol se pôs e despedimo-nos de Portobelo, rumo a um dos maiores arquipélagos e a uma das viagens de barco mais paradisíacas que este nosso cantinho chamado mundo tem. Vamos todos em silêncio, de olhos fechados e em pele de galinha, desfrutando da magia que paira no ar. Passamos ao longo de toda a Cordilheira de Dárien e da pequena Ilha de Drake, onde foi enterrado um dos piratas mais temidos em toda a história dos Piratas das Caraíbas.

Com emoção navegamos sobre as estrelas, sobre a luz de Júpiter e seguimos uma rota rica em histórias, lendas e aventuras. Sento-me ao lado de um equatoriano que manejava o veleiro. Vamos lado a lado, partilhando apenas o som da quilha a bater nas ondas do mar, a lua cheia, o céu estrelado e levamos o tempo todo sorrindo, sem dizer uma única palavra. Não conseguimos tirar os olhos de cima um do outro. Um homem lindo, descendente de indígenas, pele escura, de longos cabelos negros, uns olhos escuros que espelham o legado Inca que lhe corre no sangue. Amor à primeira vista, no Caribe. Adormeço na proa do barco, com o coração cheio de adrenalina, com a incógnita de quão mágicos serão os próximos dias.

São 6h da manhã e acordo com o nascer do sol. O capitão sorri para mim e o seu olhar diz-me "Olha à tua volta". E quem disse que o paraíso ainda não desceu à terra? San Blas, também conhecido por Arquipélago das Mulatas, pertencem aos índios da comarca Kuna Yala. 369 ilhas, onde apenas 80 estão habitadas. Há ilhas para todos os gostos. Uma palmeira, duas palmeiras, três, quatro, com mais ou menos sombra, mais ou menos cocos, mais ou menos areia branca. Atracamos em Cayos Holandeses, numa ilha deserta, que seria só nossa nos próximos 3 dias.

As horas são divididas entre muito mergulho e muita partilha. O sol põe-se e extasiados observamos a força das cores fogo a deitarem-se no horizonte e a lua a espreitar-nos para nos dar as boas vindas. Hora de jantar. Chegam os índios Kuna no seu "cayuco" de madeira, com lagostas, caranguejos e afins, acabadinhos de pescar. Tripulação ao fogão! De estômago bem cheio, segue-se o trabalho de equipa. Tendas, muito rum e uma boa fogueira. Banhos de meia noite, à luz da lua cheia. Beijos de água salgada e abraços de areia. O que levavas para uma ilha deserta? Muito amor e uma cabana. E assim foi nos dias que se seguiram.

Ilha Tigre. Aqui ficamos por mais dois dias. Uma das poucas ilhas habitadas pelos índios Kuna. Ao contrário de outras, esta ilha não é nada turística, porque infelizmente também os índios já foram contagiados pela febre do turismo. Descalços caminhamos pela ilha onde as ruas são de areia como se fosse uma praia gigante. Cabanas feitas de madeira e folhas de palmeira. Os índios são baixinhos, considerados a comunidade de estatura mais baixa a seguir aos pigmeus. As mulheres sao exóticas, de pele bem escura, e cabelo negro curto. As suas vestes são incrivelmente coloridas e exibem ao longo dos braços e das pernas pulseiras de missangas com diferentes motivos. Têm uma hierarquia bem estruturada e regras bem estritas. Vivem da sua própria agricultura, da venda de algum artesanato, e muitas vezes trocam cocos por outros artigos que não podem produzir com os barcos de carga. Uma partida de futebol está marcada entre nós e os Kuna, que foram seleccionados para jogar no Campeonato Mundial de Futebol Indígena, na semana que se segue no Canadá.

Os dias passam e está na hora de seguir rumo para a Colômbia, agora dois dias em mar aberto. E foi aqui que mais uma vez a Mãe Natureza nos mostra a sua força e nos faz sentir o quanto pequenos somos. São 3h da manhã e a meio de uma brutal tempestade ficamos sem bateria. Sem motor e sem combustível. Ao ficarmos sem bateria a Fenicia por estar sem motor estava a ser puxada por uma corda pela Odisseia e com a força com que parámos quase que nos choca. Vimos todos a vida a andar para trás. O capitão manda-nos todos para dentro e diz que nos agarrássemos onde pudéssemos. As escotilhas estavam fechadas mas mesmo assim ouvíamos a água a inundar o barco na parte de cima. Tudo caía e abanava por todos os lados. Os ruídos eram ensurdecedores e parecia que nunca mais acabavam. Consigo levantar-me e olho pela janela. Vejo a Fenicia, iluminada por relâmpagos, o mar revoltado, a tempestade a querer engolir-nos naquele mar imenso, parecia um filme de náufragos que acaba da pior maneira. Ouvimos o capitão e os outros tripulantes a gritarem: " La Fenicia!! El Vertigo!! Nos vamos a morir!!!" E a rirem-se ao mesmo tempo!! Estes marinheiros... Finalmente adormeço e a manhã seguinte permanece silenciosa entre todos. Ninguém sabia como quebrar aquele momento, até que o capitão solta uma gargalhada acompanhada de um "cagaram-se todos ontem, não??" A Fenicia teve que ser solta, por umas horas enquanto carregávamos a bateria, e em que voltaríamos a cruzar-nos com eles para lhes dar de comer. Assim que nos cruzamos os meus olhos procuram os do meu índio, querendo só que aqueles dias de tempestade passassem para nos juntarmos de novo. Como num conto de histórias.

O dia seguinte segue-se com mais uma tempestade eléctrica, voltámos ao caminho, ventos sul, com o veleiro a navegar a 45 graus, agarrados à proa e a levarmos com a rebentação das ondas em cima! Que adrenalina!! As sensações intensificam-se num limiar entre a vida e o medo! Tudo é partilhado. A comida que começa a faltar, a água e os poucos cigarros que restam. Passamos quatro horas assim, até que: "Terra à vista!!! Bienvenidos à Colômbia!! Cartagena de las Indias!!", gritamos todos. Os corações acalmam e os veleiros cruzam-se.Trocam-se abraços e beijos quentes entre todos!! Grandes edificios à vista, majestosos, mas que conferem alguma beleza a este porto. Por detrás desta cidade moderna esconde-se um centro histórico cheio de vida.

Cartagena. A cidade querida da América Latina. Uma das cidades mais bonitas que já vi em toda a minha vida. As paredes são de cores quentes e coloridas, uma arquitectura colonial perfeitamente restaurada e há música em todo o lado. Caminhamos todos abraçados, com sorrisos pregados à cara que mal conseguimos tirar. Todos dançam felizes boleros mexicanos e salsas caribenhas. As pessoas abrem as portas das suas casas e fazem das suas cozinhas restaurantes. Cortam cabelos na rua a horas que não lembra a ninguém. Calor, boa energia, música, comida. Como uma típica cidade-porto, os habitantes são descendentes de escravos negros. As senhoras que vendem fruta, vestidas nos seus trajes vermelhos com estampados coloridos, carregam-nas em enormes cestas na cabeça e assim caminham tranquilamente pelas ruas. Linda Cartagena, hei-de voltar de novo para te abraçar. É com uma lágrima ao canto do olho que nos despedimos todos, com esperança de nos encontrarmos de novo, para nos rirmos desta linda aventura.

Bogotá. Uma capital como outra qualquer, a 2500 metros de altitude. Tem a sua beleza, mas não é cidade para mim. Prédios em cima de prédios, sinto-me fechada. No entanto, é uma cidade limpa, de certa forma organizada, super moderna e os colombianos são super boa gente, sempre sorrindo, bastante atenciosos, com bastante orgulho na sua cultura.

Cali, a capital da salsa. Fiquei hospedada no Bairro de San Antonio, um bairro cuidado, moderno, com boa gente e uma vida impressionante.  "La 5a" é a avenida mais conhecida para esta atracção. Onde se dança salsa, rumba, merengue, bachata, todos os ritmos latinos conhecidos e desconhecidos de Segunda a Segunda.

Sem dúvida nesta viagem, vivi momentos intensos de coração e de aventura, que mais uma vez me fazem pensar o quanto é importante, pormos de lado tantas preocupações supérfluas. Saber viver, desfrutar, sem ter que olhar para trás e pensar que o faríamos diferente, aceitar as transformações, aceitar-nos como somos, aceitar os medos que temos e ouvir o coração, caminhar na rua e assobiar, de tão estupidamente contentes que estamos. Depois disto, é com um sorriso na cara que digo que sou feliz pelos momentos que vivi e por não saber aqueles que me esperam, mas sabendo que não há pressas para nada, conectar-me e aceitá-lo porque tudo nesta vida tem uma razão para ser.

Depois de uma aventura em mar aberto, conhecer a bela Colômbia. Está na hora de conhecer esse belo país primo daquele que agora é o meu país, e reencontrar-me com aquele que agora aquece o meu coração. Mochila às costas, pé na estrada, preparada para cruzar mais uma fronteira, mas desta vez por terra!

Equador aqui vou eu!

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* Originalmente publicada a 29 de Setembro de 2011, na Le Cool Lisboa * 307 

Le Entrevista a Mário Valente por Luísa Baptista

É noite. O Bairro Alto está calmo, a Bica com algumas pessoas. Na descida cruzam-se caras conhecidas nesta cidade-elástico por vezes grande e muitas demasiado pequena. “Vamos ao Lounge, há lá um concerto”, frase dita que podia estar escrita numa daquelas paredes. Na Le Cool muitos desses concertos já foram anunciados, primam pela qualidade, pela actualidade: são escolhasde autor. Fomos tentar saber que história tem este autor, quem faz este trabalho e descobrimos uma simpatia de pessoa, 38 anos e tão perto das novas gerações que poderia até nem ter idade.  

Mário Valente faz jus ao nome, arrisca nas suas escolhas que se têm revelado uma ilha nesta cidade. Imaginem se não houvesse Lounge. Onde iríamos no fim daquela calçada enorme? Onde teriam tocado de porta aberta os Rainbow Arabia, Maria Minerva e Los Explosivos? Que histórias tem este sitío, quem é a pessoa que há 12 anos mantém esta casa na rota de várias gerações? Uma viagem e tanto onde se cruza a música com cinema, os ciclos recicláveis e a cidade de Lisboa.

Fala-nos um pouco sobre ti. 

Nasci em Campo de Ourique e vivo em Campo de Ourique. A minha formação é em Design Gráfico no IADE, depois estive alguns anos a trabalhar como designer e comecei em dj em part-time pela piada da coisa em 94, que foi quando assumi residência no Johnny Guitar. Tinha 21/22anos. Depois foi correndo bem e fui fazendo cada vez mais noites. Às tantas e um pouco por acaso, estava sempre a saltar de empresa em empresa de design e a última onde eu estive acabou há meia dúzia de anos e eu decidi não continuar a procurar e dedicar-me só ao djying e aos bookings, o que me ocupava muito tempo, na realidade.

E nessa altura, em 94 que tipo de som se ouvia na cidade e no Johnny Guitar, qual era a tendência? 

Se uma pessoa pensa na cena de Lisboa como vês hoje em dia, não tinha nada a ver. Na altura não tinhas assim um som específico ou não notavas muito isso. Tinhas o Kremlin e o Frágil a passar House, mas depois a nível de barzinhos tinhas um ou outro no Bairro Alto com umas coisas mais modernas, o Kirk com os breakbeats e o inicío do drum n' bass, etc. No Johnny Guitar era só Punk,Hardcore e Metal à brava. Eu passava isso e Trash Metal.

Aos 15 anos, quais eram as tuas referências? Penso que é uma idade importante, em que se absorve muitas das coisas que ficam até tarde. 

Eu aos 15 anos era um puto muito peneirento que passava a vida na Cinemateca a ver cinema francês. Recusava tudo o que eu tinha gostado até aí, o cinema mais comercial que é normal uma pessoa gostar naquela idade, eu achava que ”eu agora não posso dizer que gosto disto”, era assim um pedante daqueles mesmo com a mania que era independente e que de repente começa a ouvir as coisas mais esquisitas, experimentais e que começa só a ver cinema diferente. O que vale é que isso depois passou, rapidamente. Aí aos 17/18 anos comecei a gostar outra vez de tudo, sem esse tipo de preconceito. Mas acho que é normal essa fase.

Então foste designer, tens a música e tens o cinema. Como é que o cinema entrou na tua vida? 

O cinema começou quando comecei no IADE a fazer cinema de animação com os amigos. Depois parei e comecei a escrever sobre cinema em várias publicações.

E um filme que te tenha marcado? 

Posso dizer um grupo de filmes que são uma referência para mim mas é daquelas coisas... Mas o Female Trouble do John Waters é um daqueles filmes que eu estou sempre a ver. O Feiticeiro de OZ que é assim uma escolha óbvia, mas pronto.

Tens um blogue de cinema. Fala-nos um bocadinho disso.

Sim, Zona Negra. Isso foi uma extensão de uma secção que eu tinha na DVD Review, que era uma revista sobre lançamentos de DVD. Escrevia normalmente sobre os lançamentos nacionais e depois tinha uma página dedicada ao cinema série B, de Terror, Blaxploitation, Erótico, etc que se chamava Zona Negra precisamente por causa da história das Regiões 1,2,3 códigos dos Dvds onde podem ser reproduzidos. E ali em vez de região, era a Zona Negra, havia uma outra secção que era a Zona Jade que era sobre cinema oriental. Entretanto a revista fechou, mas tomei-lhe o gosto de escrever especificamente sobre aquilo que sempre foi a minha pancada principal, assim um cinema mais “ao lado”. Como eu vejo um filme todos os dias, mal acordava escrevia um textinho pequenino e então tenho lá centenas e centenas de textos sobre filmes. Às tantas deixei de ter tempo. Agora é um arquivo com umas centenas boas de filmes analisados.

E tempo livre, existe? 

Sim, faço questão de ver um filme por dia, sempre que consigo. Excepto nas noites em que trabalho mas, quando estou de folga é um filme por dia e sempre foi desde puto. No tempo livre que vou tendo, bebo vinho a ver um filme.

Acerca do revivalismo na música, o que achas deste loop contínuo em que se vai buscar aos anos 80, aos 70, 60, agora é o dance floor dos 90. E o rock dos anos 90 também. Não achas que já chega de revivalismo?

Eu curiosamente acho que esta última década foi a década de todos os revivalismos; no inicío de 2000 foi a revitalização do final de 70, início de 80 com o Electroclash a pegar no cruzamento do New Wave com o Punk, e depois foi-se evoluindo. A década foi aumentando e foi-se chegando aos anos 90. Obviamente que vai sempre continuar, até que se vai chegar a um ponto em que deixa de fazer sentido fazer um revivalismo do revivalismo.

Até porque se perde informação pelo caminho, muitas vezes quem o faz não conhece muito bem as raízes dessas fontes.

Mas eu não vejo isso como perda de informação, interpreto antes como oportunidade para assumir uma linguagem nova ali dentro, seja consciente ou não. Como dizes, pode ser até por falta de informação e é isso que acaba por fazer que as coisas sejam diferentes porque as abordagens não são as mesmas.

Muitas bandas que usam essas sonoridades desconhecem ao que é que elas se referem, que tipo de vivências, que tipo de épocas, não sabem essa parte da história. E pegam só porque gostam. 

E muitas vezes pegam só pela imagem. Enquanto que na altura era uma coisa que tinha a ver com um deslumbramento próprio da época e era uma coisa genuína, que vinha da rua, agora é pela imagem... as pessoas chegam lá ou pela roupa ou pela imagem dos vídeos. Descontextualizam a coisa. Mas respondendo mais directamente, eu acho que se está a chegar ao fim do ciclo reciclável. Porque não vais poder reciclar a partir dos anos 90. Os movimentos estéticos principais que aconteceram na música, aconteceram todos até ao final do anos 90, a partir daí começou-se com as reciclagens. Não faz sentido daqui a 10 anos reciclar-se 2005 por exemplo, porque já era uma reciclagem de... Às tantas podes argumentar: “ok, eu não estou a fazer uma revisitação de 2005 mas sim o que em 2005 já se estava a revisitar”, por isso já não é uma reciclagem pura, mas uma coisa nova. Por exemplo agora o que está na moda é o kraut rock alemão e toda a cena cósmica dos anos 70 está mais na moda do que nunca esteve, mais do que na altura, que era uma coisa underground e agora está a rebentar seriamente. Mas acho que as pessoas também se estão a cansar disso. E eu noto isso com as bandas nacionais que vão aparecendo aqui. Os portugueses sempre foram muito dados àsinfluências, Nos anos 80 tinhas trinta mil bandas a copiar os Joy Division e no inicío dos anos 90 ainda estavam a copiar os Joy Division. E agora não. Agora vês que há realmente miúdos que estão a seguir o seu próprio caminho, logo à partida.

E sendo assim, que julgas tu que vão ser as novas tendências? 

A nível mainstream vão sempre haver as festas anos 80/90 mas a nível cíclico de grandes movimentos que interessam, ou seja, aquilo que faz a coisa andar para a frente não há mais para onde ir. Acho que as pessoas vão encontrar o seu próprio caminho e que o futuro é mesmo aliberdade. Parece assim um bocado utópico (risos) mas a nível cultural se tem de se ir por algum sitío, é por aí.

A nível do panorama nacional, sobre aquilo que se produz hoje me dia, que situações encontras? 

Há quem diga que nunca se fez tão boa música como agora, há quem diga que antigamente é que era bom. Acho que as pessoas se calhar falam isso porque sentem falta das bandas que nos anos 80 tinham outro tipo de exposição, mesmo as bandas mais independentes como os Pop Dell' Arte, os Mão Morta e os Mler Ife Dada acabavam por ter muito tempo de antena na televisão. Os Pop Dell'Arte passavam em horário nobre no intervalo do Domingo Desportivo! Hoje em dia isso nunca aconteceria, mas isso tem a ver com a exposição, porque há muita coisa a acontecer e hoje em dia as bandas não têm tanta exposição. Agora, é um facto que neste preciso momento há bandas boas como nunca houve a nível de quantidade. Nunca houve um período assim de coisas boas a acontecer.

E lá fora?

Repete-se a mesma coisa que aqui no sentido que há muita oferta. E como muita oferta há muito mais coisas boas do que havia antes. Mas são bandas que muitas vezes não conseguem marcar o seu tempo da mesma forma que havia antigamente.

Pois, porque há a questão da duração que hoje em dia é muito curta e parece dininuir cada vez mais. É rara a banda que consegue lançar um segundo ou terceiro álbum e conseguir a mesma adesão do público e dos media.

Mas muitos projectos depois reinventam-se. Acabam, depois começam com outro nome, ou viram Djs, quer dizer, a coisa vai-se reciclando.

Na tua actividade de programador do Lounge, como e onde vais buscar tanta informação? 

Olha, eu passo muito menos tempo na net à procura de bandas do que devia. Não passo mesmo tempo quase nenhum. Vou uma vez por semana ver os discos que saíram nas lojas online de venda, vou vendo algumas publicações online, vejo o que se destaca. Vejo a Pitchfork como quase toda agente porque é um site mesmo grande, vai um bocadinho a todos os géneros, com algum controlo de qualidade. Não é só as redes online, há a rede de amigos, outros Djs amigos que me mostram coisas e que eu mostro a eles, eu estou sempre a aprender.

A verdade é que o Lounge tem uma ementa musical excepcional com bandas que têm uma sonoridade muito actual, que não se vê muito por aí.

Há mais sítios com uma ementa assim, a grande diferença é que aqui é gratuito. São escolhas que também são influenciadas pelo meu lado de Dj que me leva a estar constantemente a comprar discos novos e à procura de coisas novas.

Mas as escolhas que fazes fazem uma ponte com as novas gerações, consegues de alguma forma captar os públicos jovens. Como captas essas influências?

Fico muito contente por dizeres isso. Sobretudo é gosto pessoal e é uma selecção que tenha a ver com a casa mas depois também há uma coisa muito simples. As bandas que eu ando à procura são bandas que ainda não cresceram muito, logo como bandas novas e que estão a começar, os miúdos conhecem.

Qual é a história do Lounge e como é a tua história dentro do Lounge?

São histórias completamente paralelas. Por causa de amizades e de relações amorosas de outros amigos, acabei por conhecer os donos do Lounge quando eramos todos miúdos, isto no inicío dos anos 90. Começou tudo em Hamburgo, eu andei na escola alemã, tinha amigos alemães e portugueses e havia uma grande relação com outros alemães que viviam em Portugal. Um dos sócios que vivia em Hamburgo e que tinha um bar resolveu vir para cá, vendeu o bar dele lá, abriu este. Eu fui o Dj da primeira noite e começou logo desde aí, em Abril de 99.

Nos tempos de hoje em que toda a gente assume vários papéis, têm blogues, são djs, fotógrafos, etc. Como achas que na música esta invasão têm resultado, no que toca aos Djs particularmente? 

Hoje em dia toda a gente é tudo. Acho que cada coisa no seu lugar. Uma pessoa que joga à bola aos domingos com os amigos não vai meter no currículo a dizer que é futebolista, não faz sentido, não é? Da mesma forma que uma pessoa que te dá uma aspirina para te curar a dor de cabeça, não vai dizer que é médico. Da mesma forma que um tipo que vai pôr música numa festa particular dos amigos e leva o portátil, não pode começar a dizer que é Dj, como quem escreve num blogue não é automaticamente jornalista. Deve haver uma sensibilidade da parte das pessoas e fazer coisas que o justifiquem. Senão é simplesmente fachada.

E para finalizar, o que te irrita mais quando estás a pôr música? 

Quando estou concentrado para fazer uma sequência de dois minutos e vem um amigo que já não vejo há algum tempo e diz “então conta coisas” (risos). Ou quando pensam que eu sou uma jukebox e tenho que obeceder ao gosto de cada um.


Entrevista por Luísa Baptista
Fotografia por Nelson Rodrigues - LINHA (En)CARNADA

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* Originalmente publicada a 29 de Setembro de 2011, na Le Cool Lisboa * 307

Le Entrevista a Alexa Rodrigues por Luísa Baptista


Há pessoas que parece que nascem com um followspot natural. É assim a Alexa Rodrigues. Não passa despercebida, é multifacetada, inteligente e muito hábil no que toca à vida na cidade. Recentemente chegada de São Tomé e Príncipe, onde esteve três meses na “Selva” como gestora de imagem do recém-eleito presidente Dr. Manuel Pinto da Costa, esta menina tem uma enorme curiosidade pelo mundo e o seu percurso curricular é uma pequena mostra disso: Engenharia no IST, Pós-graduação em Controlo de Gestão no ISCTE, Projectos de Decoração de Interiores na Fund. Ricardo Espírito Santo, Instrutora de Fitness Internacional, Pilates, Styling e Assessoria de Imagem na Escola de Moda de Lisboa entre outras formações
menores.

Foi de manequim a mineira, de bancária a produtora de eventos, de instrutora de Pilates a consultora de imagem. Lisboa à distância ganhou-lhe um novo afecto. Encara todas as situações da vida como um desafio e assim tem vivido, com poucas horas de sono. Vai-nos contar a experiência africana e a sua vida nesta cidade que todos gostamos tanto.