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Le Vitória 15

Buenos Aires. Paris na América Latina. E quem o disse, sabia-o muito bem. Conhecemo-nos há nove meses, em Vilcabamba, no Equador. O tempo de uma gestação. Tempo esse cheio de ideias, de sonhos, de projetos, de dúvidas. Por terra viajei do Peru à Bolívia, por ar fui de La Paz a Santiago do Chile, sobrevoando toda a Cordilheira dos Andes, num suspiro constante, observando todas aquelas montanhas brancas e vulcões aos meus pés. São 11h da manhã quando chego ao aeroporto de Buenos Aires. Os meus joelhos tremem.

Vitória 14


Puerto López – Ecuador.

Uma cidade de pescadores bastante simpática, no coração da tão conhecida “ Ruta del Sol”. Depois de uma longa viagem noturna desde Guayaquill, aqui eu e o Diogo encontramos um paraíso perdido. Abrimos o guia de viagem que apenas usamos para procurar alojamento, e entramos no “ Hostel Sol Inn”. E daqui não queremos sair mais. Um hostel construído de bambu, com uma zona chill out, uma cozinha aberta, imensas plantas tropicais, e o quarto - um sonho. Tudo por apenas 20 dólares a noite. Era o local ideal para terminarmos esta viagem juntos.


Le Vitória 13

Trujillo : Huanchaco. Chego num sábado ao fim da tarde. Entro no primeiro hostel que encontro, onde o meu quarto cheira a ratos mortos, mas não estou nem aí. Só quero água de mar e chinelo no pé. A praia está apinhada de gente, porque hoje termina o campeonato de surf.

Huanchaco é uma antiga vila pescatória, a cerca de 14 km a noroeste de Trujillo, a terceira maior cidade do Peru. O nome tem a sua origem por volta do século XVIII e significa “ lagoa de peixes dourados”. Isto porque reza a história de que os antigos pescadores antes de se lançarem ao mar, pintavam o peito de vermelho,
imitando uma ave que tem pelo nome de “huanchaco”, ficando apelidados assim de “huanchaqueros”.

Quando chegaram os espanhóis, resolveram chamar a este lugar a vila dos “ Cavalinhos de Totora “, que são uns pequenos barcos bem estilizados, feitos de umas canas semelhantes às de bambu, que dão pelo nome de “totora”. O cultivo desta cana, já vem desde o séc. XVII com a civilização Moche, característica desta zona, onde os “huachaques” eram poços de totora dos quais se aproveitavam as filtrações do subsolo, assim que daí ser possível a semelhança fonética entre “Huanchaco” e “ Huachaque”. Outra civilização pertencente a esta zona foram os Chimú. Tanto estes como os Moche, foram antecessores dos Incas, e Trujillo é uma
zona bastante turística desde que foram descobertos os seus templos, conhecidos por “Huacas”.

Qualquer amante do surf, sabe o que se passa por estes lados. A cerca de uma hora de Trujillo, na praia de Chicama, encontra-se a “esquerda mais larga do mundo”. Sofia Mulanovich, uma surfista peruana, foi campeã mundial no Campeonato de 2004, e estas praias são o seu quintal.

Huanchaco é um lugar simpático. Tem a sua onda. Aos fins-de-semana, é muito comum as famílias de Trujillo escaparem ao centro da cidade, para virem desfrutar dos seus apartamentos à beira da praia, qual Aroeira ou Costa da Caparica. “Cremoladas! Raspadillas! Tamales! Manzanas Dulces! Anticuchos! Picarones!
Marcianos de Lúcuma!! “ São os pregões dos comerciantes ambulantes ao longo de todo o paredão. Deitada na areia, perdida nos meus pensamentos, e sou abordada por um lindo menino de rua dizendo “Hola mi reina, me compra un chocolate?”. Um sol, dois soles, e assim se vão as moedas do fundo da carteira. Menus de 10 soles, com “ceviche” para entrada, um crocante “chicharrón” de peixe como prato principal, e para baixar pelo estreito, uma geladinha “ Inca Kola”.

Existem uns quantos cafés de estilo mais ocidental, com deliciosos menus vegetarianos e um ambiente bastante acolhedor. Classes de yoga na praia, à hora em que o sol acaricia o horizonte, onde todos param entre o terminar de um gelado, ou um partilhar de um abraço, em silêncio, antes de voltarem ao ritmo normal do seu passeio de fim de tarde.

Ruínas de Chan Chan. Às portas da maior cidade de barro do mundo, com uma extensão de 14 km2, um taxista aborda e tenta-me convencer com o seu serviço directo e eficaz a mais 3 atractivos turísticos, tudo por 50 soles com uma duração de 3 horas. E por mais que deteste agarrar estes pacotes, hoje o sol bate forte, e não estou em modo “ combi”. Hoje sou turista.

“ Huaca del Arco Íris”, “ Huaca del Esmeralda”, Museo de Sikan y “Chan Chan“. Recorri todas as pérolas da cultura Chimú, ficando-me a faltar as “Huacas del Sol, Luna y del Brujo”, da cultura Moche. Mas isso ficaria para o meu regresso.

Aqui aconselho vivamente que se hospedem no Hostal My friend (com económicos menus) , e a noite a 10 soles com banho privado, ou para quem procura mais comodidade “Surf Lily Hostal” ou “Sudamérica Hostel“. Para os vegetarianos ou os tão ou mais “cafeteros” que eu: “Outra Cosa” com uma incrível vista para o mar, (onde também podem consultar bons guias de viagem e desfrutar de um mini-cinema), “Chocolate Café”, “La Casona” , "Abacaxi” e “Las Carmencitas” onde não podem perder dois bons dedos de conversa com a dona com o mesmo nome.

Equador : De Guayaquill para passar a fronteira e para chegar a Montañita na costa.

Em vez de venderem t-shirts na rua que dizem “I love Montañita”, deviam fazer outras a dizer “I FUCKING HATE MONTAÑITA”. A gringolândia sul americana em peso. Toda a Argentina e Chile decidiram mudar-se
para aqui nas férias da universidade.

Montañita é sujo, a praia não é grande espingarda, apesar de ser um bom destino para o surf, por onde quer que passes os “waykis” ( artesãos de pé-descalço ), saem-se com um constante “Hola amiga!”, como se tivessem andado contigo na escola, à espera que te derretas pelos seus longos cabelos negros, e corpo moreno musculado com tatuagens incas, achando assim que já te venderam o par de brincos mais “in” da
América Latina.

Se viajas sozinho esquece Montañita. Os dormitórios não são partilhados, assim que senão vais em grupo, estás lixado, as matrimoniais por alguma razão especial apenas alugam a casais, assim que onde dorme quem gosta de ser um pouco mais solitário? Aqui é a pura “juerga”. Sexo, drogas e reggaetown.

O Sr. Ruben é o único que às 8h da manhã de um domingo tem a sua banca aberta com boas empanadas de queijo e café quentinho. Falou-me do paraíso que era este lugar, há cerca de 30 anos antes de chegar o primeiro turista. Não existia dinheiro em Montañita. Trocavam-se peixes por arroz e batatas. Dinheiro? Nem sabia o que era disso. O caminho que me separa entre a banca dele e a saída do meu hostel, faz-me
andar aos ziguezagues para fugir dos comentários obscenos daqueles que ainda não dormiram, e caminham tipo “zombies” com uns olhos que mais parecem os faróis de um carro avariados.

Os meus planos de continuar a subir pela costa alteram-se. Não queria mais correr o risco de encontrar este tipo de festa à beira-mar e a preços estupidamente caros. Assim que regresso a Guayaquill para encontrar-me com um português que vive em Lima e seguirmos viagem, num destino que decidiremos mais à noite. Passamos horas à conversa no “malecón” de Guayaquill, uma cidade que antigamente pertenceu aos piratas. Parece que temos pilhas na língua, e trocamos o máximo de impressões possíveis, como que a matar saudades do que é falar em bom português.

Baños, Equador. Conhecida como a cidade das Cascatas e do vulcão Tungurahua, ainda ativo, que em 2006 foi a última vez que entrou em erupção. Depois de uma boa caminhada na montanha e a miradouros, e de fazermos o percurso das cascatas principais, rumbo a Latacunga, a Oeste de Quito, para desfrutar os últimos dias de viagem juntos, de volta à costa.

Mas agora acompanhada.

Por Ollantaytambo, sei que a vida continua tranquila, e a chover. E eu, mesmo de férias, sei que o trabalho não pode parar, tentando espalhar ao máximo a campanha para as vítimas das cheias em Urubamba, que senão alcançarmos parte do limite final, terá os seus últimos dias nos próximos meses. Assim que vos
peço que difundam o máximo que possam, e para os que possam fazer uma pequena contribuição, que se lembrem que por mais pequena que seja, aqui por estes lados, pouco significa muito. A comunidade agradece, e todos juntos com pequenos gestos podemos mudar o mundo.

Deixo-vos com um documentário publicitário sobre a cultura peruana. Espero que gostem e que assim de alguma forma possam perceber, como este país me apaixona cada vez mais, a cada dia que passa.

Ligações

Pintura por Augusto Brocca

Le Vitória 12


Feliz Ano Novo, Ollantaytambo.

O ano entrou em força cheio de projetos na cabeça, prontos a passarem para o papel, e a vida vive-se tranquilamente por aqui. As férias começaram e tenho cerca de 30 crianças inscritas no meu curso de arte-terapia. Por vezes eles estranham um pouco as aulas. Para os métodos a que estão habituados, a forma como lhes ensino acaba por ser liberal demais. Há música para dançar e relaxar, sentam-se no chão descalços a desenhar e tudo lhes soa interessante e estranho ao mesmo tempo. Uns gostam e outros nem por isso. O que por vezes acaba por ser um pouco frustrante para mim, mas ao mesmo tempo sinto que é um trabalho desafiador e que me faz lutar todos os dias um pouco mais.

Le Vitória 11


Viver em Ollantaytambo, a 2750 metros acima do nível do mar, num povoado com 1500 habitantes no centro, cerca de 3500 pela montanha. Depois de tantos meses a viajar dentro e fora do Peru, chegou a hora de assentar. Arrendei um quarto num pátio castiço, com vista para as ruínas, numa rua construída pelos próprios Incas.

Ollantaytambo é a cidade viva dos Incas. O único lugar onde os espanhóis foram derrotados e por essa mesma razão ainda hoje se mantém tal como há 500 anos. A cerca de 3 horas de caminho pelo meio da montanha com vistas incríveis, passando pelos 100 terraços agrícolas Incas, estão as ruínas de Pumamarca, construídas a 3200 metros de altitude, num ponto estratégico com um ângulo de 360º, para que os Incas pudessem avistar a chegada do inimigo. Aqui, foram encarcerados os espanhóis quando tentaram invadir este lindo povo.

Le Vitória 10

Le Petit Routárd: Pérou et Bolivie.

MachuPicchu pela segunda vez em low budget. Em Ollantaytambo tomo uma combi até Piscacucho, ao km 82, onde começa o famoso “Inca Trail”. Até Aguas Calientes são 28 kms. São 9h da manhã e são cerca de 8 horas a caminhar seguindo a linha do comboio. Poucos minutos depois encontro umas ruínas Incas. Entro e faço um pago à Pachamama, com folhas de coca e um pouco de água florida, e peço-lhe para que nos acompanhe nesta caminhada. Estamos rodeados por montanhas de cor terra, áridas, o clima é seco e a vegetação de verdes suaves.

Ao longe do nosso lado esquerdo avistamos parte do Caminho Inca, que leva numa subida muito íngreme a vários aglomerados de ruínas. Depois de 5 horas sentimos o ar húmido, as montanhas de um verde tropical e ruídos ligeiros: estamos a entrar na selva. Em menos de 4 horas chegamos a Aguas Calientes. No hostel deito-me, com as pernas doridas e só quero dormir, dormir e dormir, mas não posso. Amanhã o despertador toca às 4h da manha para subir a Machu Picchu.

Os planos de viajar pelo Peru alteram-se: à última da hora decidimos ir À Bolívia fazer o Salar de Uyuni e visitar as minas em Potosi. Em Tupiza, no sul da Bolívia, já quase na fronteira com a Argentina marcamos uma tour de 4 dias e 3 noites para o Salar de Uyuni. Santos era o nosso condutor e guia e a pequena Maria com apenas 19 verdes anos era a cozinheira que sofria de anemia crónica e passava o tempo todo a dormir e apenas acordava à hora das refeições e que, incrivelmente, nos colocava delícias no prato a condições inóspitas, a 4400 metros de altitude.

Aqui vi das paisagens mais bonitas de toda a minha vida. Lagoas de cores e tons sem fim. Brancas, azuis, verdes, vermelhas e depois de 4 dias a viajar pelo meio do deserto, no último dia dormimos num hotel feito de sal e acordamos às 5 h da manha para ver o sol a nascer no Salar. Somos os primeiros a chegar. E observamos em silêncio os primeiros raios de sol a nascer num horizonte tão perfeito, num branco mais belo que o branco da neve. Santos passa-me o jeep para as mãos e é com emoção que conduzo no maior deserto de sal do mundo. Terminamos no Cemitério dos Comboios em Uyuni, onde se encontram abandonados a maior parte dos comboios que os espanhóis trouxeram da Europa para a América do Sul.

Já com saudade despedimo-nos de Santos e de Maria, e está na hora de seguirmos viagem. Potosi: a cidade mais alta do mundo, a 4000 metros, foi no tempo da colonização a cidade mais rica do mundo, pela riqueza das suas minas de prata assim como a maior cidade do mundo. Londres, Paris e Nova Iorque cabiam dentro dela e ainda sobrava espaço para mais alguns. Todos queriam viver em Potosi e depois dos espanhóis lhes terem sugado toda a prata que puderam, uma cidade tão rica transformou-se numa cidade-fantasma e numa das mais pobres de toda a América Latina. Hoje em dia, ainda existem minas activas e uma das maiores fica no Cerro Rico, a 4600 metros de altitude. São 8h da manhã quando o bus nos apanha no hostel e nos leva ao Cerro Rico. Óscar um ex-mineiro é o nosso guia. Antes de entrarmos, vestimo-nos a rigor: capacete com luz, fato-macaco e botas de borracha. Compramos tabaco, folhas de coca, sumos, água e dinamite como oferendas aos mineiros. Sabemos que vamos passar até ao 4º nível, a praticamente 300 metros abaixo da terra, onde quase não há oxigénio.

Não gosto de espaços fechados nem escuros, mas para isso aqui estou. Para ver outra realidade e enfrentar este medo. Ao entrarmos no segundo nível temos que nos deitar no chão, pois a passagem não passa dos 50 cm de diâmetro. Concentro-me tanto em todas as manobras a serem executadas, as condições de segurança são escassas e tudo é escorregadio e vejo buracos sem fundo por todo o lado. Este processo é tão complexo que não há tempo para o sequer pensar no medo. Ao mesmo tempo sinto adrenalina por querer saber como será lá em baixo. Hoje é segunda-feira e disseram-nos que há muita gente a trabalhar na mina. A passagem para o terceiro nível é mais perigosa e dão-nos folhas de coca para aguentarmos a caminhada. O pó aumenta, a temperatura está demasiado alta, começamos a suar, o oxigénio já começa a ser cada vez menos, mas o que incomoda mais é o cheiro insuportável a enxofre. Chegámos ao inferno. Estamos numa cova onde 4 mineiros trabalham arduamente em tronco nu, onde os seus poros vertem água a cada segundo que passa. Num processo manual aqui chegam os minerais dos níveis abaixo vagão a vagão, cada um contendo duas toneladas de minerais em bruto. E há que parti-los nesta pequena cova para passar para os níveis acima. Somos 9 pessoas a contar com os mineiros, não há tubos de ar, assim que cada um respira o oxigénio do outro e o espaço é demasiado pequeno e perigoso.

Estou a transpirar demasiado e tenho o coração a mil, tentando encontrar uma respiração moderada. O pó que paira no ar é tão denso que mal nos podemos distinguir. O Óscar passa-me uma pá para a mão e diz-me: “Trabalha! Ajuda! Há que dar dois minutos de descanso a estes homens!“ Ele mesmo despe-se e começa a ajudá-los.

Sei que não posso dizer que não e não quero dizer que não porque quero ajudar, mas tento ganhar consciência da tarefa que tenho pela frente e só consigo pensar onde vou arranjar a força para o fazer. Enquanto carrego os minerais, ao meu lado reparo num mineiro encostado, com o suor a queimar-lhe os olhos e pela primeira vez vejo que respira fundo de descanso. Olho à minha volta, as condições são desumanas, olho estes homens no fundo dos seus olhos e não consigo sentir pena, senão respeito e admiração. Estamos todos os turistas a trabalhar, enquanto os mineiros se limpam, bebem água e mascam mais folhas, até ficarem com uma bola de coca tão grande que lhes chega a deformar a cara.

O cansaço é tanto, que penso que não vou aguentar mais. Mas Óscar diz-me que a saída está no nível abaixo e já pouco falta para terminar. Mal baixamos e surpreendentemente sentimos uma ligeira brisa de ar fresco. Aos poucos cada um já controla a respiração ao seu ritmo. Aqui Óscar fala-nos da vida dos mineiros. Já o pai dele era mineiro, assim como o seu avo e bisavô. E quando a próxima geração nasce, o homem mineiro será. E não é como uma obrigação, senão como que uma atitude de respeito para com os seus antecessores, e também, porque hoje em dia não há muito mais que um homem possa fazer em Potosi.

Estes homens dão o suor e o sangue para estarem 8 a 10 horas por dia, nestes pequenos buracos
que se parecem com o inferno, ao saberem que não passarão dos 40 ou dos 50 anos de idade, e sem terem um salário fixo. O rendimento depende da quantidade e da qualidade do mineral recolhido a cada dia. Já perto da saída visitamos o “El Tio”- o santo padroeiro dos mineiros. Tem a figura de um diabo e está rodeado de vários tipos de oferendas.

Quando um mineiro entra na mina, Deus e os problemas ficam do lado de fora. Aqui dentro só existe o companheirismo e o El Tio. Aqui dentro jamais se diz “ Não se pode.” Os meus olhos enchem-se de lágrimas que não lutam muito por sair e escorrem-me pela cara coberta de pó. Engolimos todos em seco e temos o batimento cardíaco acelerado não desta vez pela falta de oxigénio, senão pelo nó que temos na garganta. A visita chegou ao fim, e eu queria mais. Queria entrar de novo e ficar a trabalhar com estes homens. Mas às mulheres não lhes é permitido trabalhar nas minas. No entanto, Potosi ficará para sempre guardado no meu peito.

Bolívia, mostraste-me o que de melhor tens em ti. Santos, o guia mais profissional, alegre e companheiro do Salar de Uyuni. Eduardo um ex-mineiro dono do hostel Koala Den em Potosi. O melhor anfitrião que em pouco depois de chegarmos já estávamos com a sua família a beber e a comer do bom e do melhor. Dançámos as melhores “morenadas” bolivianas horas sem fim, com o mesmo copo de whisky a rodar entre todos. Óscar o melhor guia das minas de Potosi, que espero que siga com a paixão das minas a correr-lhe pelas veias. Depois de me mostrares a tua melhor gente. Depois de um Sudoeste repleto de paisagens incríveis, áridas, rudes, de cores que só vemos em arco-íris, de ver o nascer do Sol no maior deserto de sal do mundo com uma extensão de 18 mil kms, mostras-me um mundo de pó, de condições desumanas,
de temperaturas extremas, de homens dignos, respeituosos e companheiros, mostras-me um inferno onde jamais pensei que pudesse existir tanta vida e tanta esperança.

E em ti Bolívia, encontrei mais uma das minhas paixões assolapadas que tanto me fazem sentir viva. Gosto de ti e não sei porque. Mas julgo que é sempre assim. Talvez é essa tua timidez e esses olhos verdes, azuis, cinzentos, que mesmo depois de tanto prenderem no meu olhar não percebo de que cor são. E também tu te apaixonaste seriamente por mim.

Caros amigos e leitores: o meu tempo no Peru está a chegar ao fim. Assim diz o meu coração.

Quero voltar a pisar as minhas pedras da calçada, a voltar a sentir o cheiro a sardinha assada, ouvir o eléctrico a passar e a ver as ruas da minha Lisboa cheias de cores dos Santos Populares. Quero voltar a pedir ao Sr. Ulisses da Bijou do Calhariz : “Uma meia de leite e sandes mista no pão da casa, se faz favor. “Quero voltar a olhar nos olhos dos meus amigos e rir e sorrir com eles. Quero voltar a dançar kizomba e kuduro no calor da minha família de que tantas saudades tenho. Quero beber minis na Bica e dançar no Cais do Sodré. Quero conhecer melhor a França, Espanha e Holanda. Quero trabalhar nesses campos maravilhosos a apanhar fruta e conhecer novas gentes. Quero fazer o caminho de Santiago. Quero passear pelos jardins de Londres e perder-me nas livrarias da Charing Cross Road. Quero caminhar tranquilamente pelas ramblas de Barcelona e que me cresça água na boca na “La Boqueria.

E se até lá eu não te esquecer e tu não te esqueceres de mim, quero pisar esse branco das montanhas no coração da Europa onde vives, meter-te no meu carro, levar-te a conhecer a minha tão querida Costa Vicentina e perdermo-nos nas suas dunas, como diz a música dos GNR.

No entanto, sei que assim que pisar esse lado, vou morrer de saudades deste lindo continente que me faz tão feliz. E por essa mesma razão eu vou voltar. Europa: quero desbundar agora nas tuas terras, quero reviver tudo isto, porque sei que tão cedo não irei regressar. Estas gentes, estas culturas, estas cores, estes caminhos, estas paisagens, estas vidas, estas lutas, estas comidas, estas danças, estes cheiros, estes mares, estas montanhas, estes segredos, estas crianças, estas caras, estas peles, estes olhos tão escuros cheios de tanta história, isto sou eu que tanto procurei e que finalmente encontrei.

Mais uma vez América Latina: Viajo porque preciso, Volto porque te amo, porque por agora
não consigo viver sem ti.

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Ligações

http://www.boliviahostels.com/Hostal_Koala_Den-Potosi_713-es.html


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* Originalmente publicado a 1 de Dezembro de 2011, na Le Cool Lisboa * 316

Le Vitória 9

Quito, capital do Equador.

Foi este ano nomeada Capital da Cultura 2011 da América Latina. A 3200 metros de altitude, uma cidade grande, verde, com bastante movimento e muito frio. Apanho um autocarro que diz: “ La mitad del mundo”. Uma viagem que dura aproximadamente uma hora e meia. Chego a uma grande torre que diz: “ Latitude zero, a 2483 metros de altitude”. No seguimento dessa torre há uma linha desenhada no chão em sentido vertical, onde coloco um pé em cada lado. O único lugar no mundo onde podemos estar ao mesmo tempo nos dois hemisférios.

Le Vitória 8

Portobelo-Arquipélago de San Blas.

Dois veleiros - Fenicia e Odisseia. Uma semana a navegar pelo mar das Caraíbas. Dezassete pessoas. Mochileiros e tripulação. Austrália, Canadá, Holanda, Colômbia, Uruguai, Equador e Portugal. Já o Sol se pôs e despedimo-nos de Portobelo, rumo a um dos maiores arquipélagos e a uma das viagens de barco mais paradisíacas que este nosso cantinho chamado mundo tem. Vamos todos em silêncio, de olhos fechados e em pele de galinha, desfrutando da magia que paira no ar. Passamos ao longo de toda a Cordilheira de Dárien e da pequena Ilha de Drake, onde foi enterrado um dos piratas mais temidos em toda a história dos Piratas das Caraíbas.

Com emoção navegamos sobre as estrelas, sobre a luz de Júpiter e seguimos uma rota rica em histórias, lendas e aventuras. Sento-me ao lado de um equatoriano que manejava o veleiro. Vamos lado a lado, partilhando apenas o som da quilha a bater nas ondas do mar, a lua cheia, o céu estrelado e levamos o tempo todo sorrindo, sem dizer uma única palavra. Não conseguimos tirar os olhos de cima um do outro. Um homem lindo, descendente de indígenas, pele escura, de longos cabelos negros, uns olhos escuros que espelham o legado Inca que lhe corre no sangue. Amor à primeira vista, no Caribe. Adormeço na proa do barco, com o coração cheio de adrenalina, com a incógnita de quão mágicos serão os próximos dias.

São 6h da manhã e acordo com o nascer do sol. O capitão sorri para mim e o seu olhar diz-me "Olha à tua volta". E quem disse que o paraíso ainda não desceu à terra? San Blas, também conhecido por Arquipélago das Mulatas, pertencem aos índios da comarca Kuna Yala. 369 ilhas, onde apenas 80 estão habitadas. Há ilhas para todos os gostos. Uma palmeira, duas palmeiras, três, quatro, com mais ou menos sombra, mais ou menos cocos, mais ou menos areia branca. Atracamos em Cayos Holandeses, numa ilha deserta, que seria só nossa nos próximos 3 dias.

As horas são divididas entre muito mergulho e muita partilha. O sol põe-se e extasiados observamos a força das cores fogo a deitarem-se no horizonte e a lua a espreitar-nos para nos dar as boas vindas. Hora de jantar. Chegam os índios Kuna no seu "cayuco" de madeira, com lagostas, caranguejos e afins, acabadinhos de pescar. Tripulação ao fogão! De estômago bem cheio, segue-se o trabalho de equipa. Tendas, muito rum e uma boa fogueira. Banhos de meia noite, à luz da lua cheia. Beijos de água salgada e abraços de areia. O que levavas para uma ilha deserta? Muito amor e uma cabana. E assim foi nos dias que se seguiram.

Ilha Tigre. Aqui ficamos por mais dois dias. Uma das poucas ilhas habitadas pelos índios Kuna. Ao contrário de outras, esta ilha não é nada turística, porque infelizmente também os índios já foram contagiados pela febre do turismo. Descalços caminhamos pela ilha onde as ruas são de areia como se fosse uma praia gigante. Cabanas feitas de madeira e folhas de palmeira. Os índios são baixinhos, considerados a comunidade de estatura mais baixa a seguir aos pigmeus. As mulheres sao exóticas, de pele bem escura, e cabelo negro curto. As suas vestes são incrivelmente coloridas e exibem ao longo dos braços e das pernas pulseiras de missangas com diferentes motivos. Têm uma hierarquia bem estruturada e regras bem estritas. Vivem da sua própria agricultura, da venda de algum artesanato, e muitas vezes trocam cocos por outros artigos que não podem produzir com os barcos de carga. Uma partida de futebol está marcada entre nós e os Kuna, que foram seleccionados para jogar no Campeonato Mundial de Futebol Indígena, na semana que se segue no Canadá.

Os dias passam e está na hora de seguir rumo para a Colômbia, agora dois dias em mar aberto. E foi aqui que mais uma vez a Mãe Natureza nos mostra a sua força e nos faz sentir o quanto pequenos somos. São 3h da manhã e a meio de uma brutal tempestade ficamos sem bateria. Sem motor e sem combustível. Ao ficarmos sem bateria a Fenicia por estar sem motor estava a ser puxada por uma corda pela Odisseia e com a força com que parámos quase que nos choca. Vimos todos a vida a andar para trás. O capitão manda-nos todos para dentro e diz que nos agarrássemos onde pudéssemos. As escotilhas estavam fechadas mas mesmo assim ouvíamos a água a inundar o barco na parte de cima. Tudo caía e abanava por todos os lados. Os ruídos eram ensurdecedores e parecia que nunca mais acabavam. Consigo levantar-me e olho pela janela. Vejo a Fenicia, iluminada por relâmpagos, o mar revoltado, a tempestade a querer engolir-nos naquele mar imenso, parecia um filme de náufragos que acaba da pior maneira. Ouvimos o capitão e os outros tripulantes a gritarem: " La Fenicia!! El Vertigo!! Nos vamos a morir!!!" E a rirem-se ao mesmo tempo!! Estes marinheiros... Finalmente adormeço e a manhã seguinte permanece silenciosa entre todos. Ninguém sabia como quebrar aquele momento, até que o capitão solta uma gargalhada acompanhada de um "cagaram-se todos ontem, não??" A Fenicia teve que ser solta, por umas horas enquanto carregávamos a bateria, e em que voltaríamos a cruzar-nos com eles para lhes dar de comer. Assim que nos cruzamos os meus olhos procuram os do meu índio, querendo só que aqueles dias de tempestade passassem para nos juntarmos de novo. Como num conto de histórias.

O dia seguinte segue-se com mais uma tempestade eléctrica, voltámos ao caminho, ventos sul, com o veleiro a navegar a 45 graus, agarrados à proa e a levarmos com a rebentação das ondas em cima! Que adrenalina!! As sensações intensificam-se num limiar entre a vida e o medo! Tudo é partilhado. A comida que começa a faltar, a água e os poucos cigarros que restam. Passamos quatro horas assim, até que: "Terra à vista!!! Bienvenidos à Colômbia!! Cartagena de las Indias!!", gritamos todos. Os corações acalmam e os veleiros cruzam-se.Trocam-se abraços e beijos quentes entre todos!! Grandes edificios à vista, majestosos, mas que conferem alguma beleza a este porto. Por detrás desta cidade moderna esconde-se um centro histórico cheio de vida.

Cartagena. A cidade querida da América Latina. Uma das cidades mais bonitas que já vi em toda a minha vida. As paredes são de cores quentes e coloridas, uma arquitectura colonial perfeitamente restaurada e há música em todo o lado. Caminhamos todos abraçados, com sorrisos pregados à cara que mal conseguimos tirar. Todos dançam felizes boleros mexicanos e salsas caribenhas. As pessoas abrem as portas das suas casas e fazem das suas cozinhas restaurantes. Cortam cabelos na rua a horas que não lembra a ninguém. Calor, boa energia, música, comida. Como uma típica cidade-porto, os habitantes são descendentes de escravos negros. As senhoras que vendem fruta, vestidas nos seus trajes vermelhos com estampados coloridos, carregam-nas em enormes cestas na cabeça e assim caminham tranquilamente pelas ruas. Linda Cartagena, hei-de voltar de novo para te abraçar. É com uma lágrima ao canto do olho que nos despedimos todos, com esperança de nos encontrarmos de novo, para nos rirmos desta linda aventura.

Bogotá. Uma capital como outra qualquer, a 2500 metros de altitude. Tem a sua beleza, mas não é cidade para mim. Prédios em cima de prédios, sinto-me fechada. No entanto, é uma cidade limpa, de certa forma organizada, super moderna e os colombianos são super boa gente, sempre sorrindo, bastante atenciosos, com bastante orgulho na sua cultura.

Cali, a capital da salsa. Fiquei hospedada no Bairro de San Antonio, um bairro cuidado, moderno, com boa gente e uma vida impressionante.  "La 5a" é a avenida mais conhecida para esta atracção. Onde se dança salsa, rumba, merengue, bachata, todos os ritmos latinos conhecidos e desconhecidos de Segunda a Segunda.

Sem dúvida nesta viagem, vivi momentos intensos de coração e de aventura, que mais uma vez me fazem pensar o quanto é importante, pormos de lado tantas preocupações supérfluas. Saber viver, desfrutar, sem ter que olhar para trás e pensar que o faríamos diferente, aceitar as transformações, aceitar-nos como somos, aceitar os medos que temos e ouvir o coração, caminhar na rua e assobiar, de tão estupidamente contentes que estamos. Depois disto, é com um sorriso na cara que digo que sou feliz pelos momentos que vivi e por não saber aqueles que me esperam, mas sabendo que não há pressas para nada, conectar-me e aceitá-lo porque tudo nesta vida tem uma razão para ser.

Depois de uma aventura em mar aberto, conhecer a bela Colômbia. Está na hora de conhecer esse belo país primo daquele que agora é o meu país, e reencontrar-me com aquele que agora aquece o meu coração. Mochila às costas, pé na estrada, preparada para cruzar mais uma fronteira, mas desta vez por terra!

Equador aqui vou eu!

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* Originalmente publicada a 29 de Setembro de 2011, na Le Cool Lisboa * 307 

Le Vitória 7


Mancora. Norte do Peru. Sol e praia. Aqui comeca o primeiro passo para aquela que será a minha segunda viagem na América do Sul. Penso em tudo o que deixo para trás, mesmo sabendo que em pouco tempo estarei de volta. Estou curiosa também, no que os próximos dois meses terão reservados para mim.

Casco Viejo, Cidade do Panamá. A suar. Bem-vinda à América Central. Passeio pelas ruas do bairro antigo. Casas lindíssimas de arquitectura colonial, deixadas ao abandono numa cidade com um potencial enorme. Observo o Canal do Panamá e do outro lado há prédios e arranha-céus em demasia, cada um competindo a ver qual será o mais alto. Ao virar duma esquina espreito e vejo uma igreja. Entro e sento-me a escutar o silêncio. De repente, olho para o meu lado esquerdo e vejo-te a passar. Saio a correr para a rua e chamo pelo teu nome. Assim que virares as costas, sei que esse será o momento. Os meus olhos procuram os teus e quando olho, em ti vejo desejo, mas em mim não. Cada um diz adeus e segue viagem com um nó na garganta e aquele vazio no estômago. Agora sei que tu não foste a razao pela qual eu tinha que aqui estar.

Le Vitória 6

Julho está a chegar ao fim assim como a minha estadia em Lima. O curso de cinema documental termina depois de uma dose de partilha de informação do nosso tão querido professor José Balado, director e fundador de DOCUPERÚ. A paixão dele por cinema contagia qualquer um.

No entanto o que me resta é digerir toda a informação adquirida e com isso desenvolver o meu documentário. Julho. Cuzco ferve-me no sangue, mas o meu corpo, mente e instinto dizem-me que me retire por um bom par de semanas. Este país abriu-me os olhos e o coração. Aqui sinto-me viva, aqui sinto-me mais pessoa. No entanto, há sempre dúvidas que permanecem e outras que surgem. E neste momento preciso de me afastar um pouco para aclarar as minhas ideias. Afastar também é amar. E como alfacinha de gema que sou, sinto que me falta luz, calor e praia. Deveria voltar para Cuzco? Sim. Deveria voltar para a comunidade? Também. Mas eles irão compreender. E como sempre digo, nada é por acaso nesta vida.

Peru na Copamérica. Depois de 17 fracassados anos na história do futebol , pela primeira vez chegamos aos quartos de final. E mais. Ficámos em terceiro lugar! É um acontecimento histórico! Todo o centro de Lima está em festa! Fuerza Perú! Julho é também o mês das festas pátrias. Em Cuzco festejam-se os 100 anos de Machu Pichu. A maior ironia da história deste país. Esse senhor americano Hiran Bingham que, diz-se, descobridor da cidade perdida quando esta já existia, e que deixou o povo do Vale Sagrado na miséria depois de roubar todo o ouro e jóias incas. E hoje em dia isso é motivo de festa, apenas pelo turismo, apenas porque traz dinheiro.

28 de Julho – Independência do Peru. As ruas cobrem-se de vermelho e branco. Os peruanos são orgulhosos de ser quem são, depois de tanta batalha, depois de tanto sofrimento, depois de tanto sangue derramado desde a conquista dos espanhóis à guerra com o Chile, passando pela ditadura Fujimorista onde foram cometidas as maiores atrocidades contra os direitos humanos da história política deste país.

Susana Baca foi eleita Ministra da Cultura. Uma das maiores referências da música criolla peruana, está a cargo de defender e promover o seu sangue dentro e fora do seu país. Tal como Lula, Ollanta, o nosso novo presidente, está a seguir as suas pegadas, quando elegeu Gilberto Gil para Ministro da Cultura no Brasil. Fico feliz, por saber que estamos a tomar as decisões correctas, depois de tanta opressão imposta à cultura popular por parte dos demais.

Julho. Documentários, café, cigarros e paixão, ou será que posso dizer amor? Todos os dias passavas por mim e metias-te comigo. E eu que nunca te fiz caso. Até ao teu último dia em Lima. Restavam-nos apenas algumas horas. Tu foste a correr ao terminal de autocarros e compraste um bilhete para o dia seguinte. Os meus olhos brilharam e o meu sorriso estendeu-se por largos minutos. Pôr-do-sol na praia, um ceviche na Bajada de Baños ao som da linda música criolla peruana, com a guitarra e o “cajón” dos senhores Pepe e Javier. Felizes dancamos um bolero. E um quarto de hotel. O dia amanhece e tens que seguir viagem. Pedes-me que te siga, que não te deixe cruzar o oceano sem que nos vejamos outra vez. Tu segues e há um vazio à minha volta. Dou voltas à minha cabeça tentando compreender o que fazer e como fazer. Fiz as contas aos dias e percebi onde te poderia encontrar. Que coincidência... Estão dois amigos portugueses aí
também. Porque não?

E porque quero eu fazê-lo? Estarei eu apenas à procura de uma boa história para contar e escrever uma curta-metragem? Ou estarei eu mesmo apaixonada? Sei que não devo, sei que poderá ser um erro, sei que nem sequer és o homem da minha vida, sei que vou atravessar fronteiras para te ver por mais umas escassas horas? Sei. Sei que sinto. Porque o meu coração diz “Vai!”. Vai por mais que seja uma loucura, por mais que te entregues, por mais que chores ou que sorrias depois, por mais que te encha o estômago de borboletas ou por mais que depois sintas um vazio no coração e aquele nó na garganta, mas “Vai!”. Porque a vida é curta demais para pensarmos demasiado, porque sem paixão sei que não posso viver, porque quem não chora não pode ser feliz, porque só assim me sinto viva, porque amar e desfrutar de outro ser humano é a coisa mais linda que se pode fazer nesta vida, porque não importa que sejamos felizes ou não. ”Mais vale viver que ser feliz” e “ Por imortal que seja, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”, já dizia o velho Vinicius.

Panamá. Já estou a caminho e aqui vou-te encontrar. E o meu coração bate tão depressa. Mal posso esperar.

Peru. Viajo porque preciso. Volto porque te amo.

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* Originalmente publicado a 4 de Agosto de 2011, na Le Cool Lisboa * 299

Le Vitória 5

Cinema Documental. Uma das minhas paixões. E Cuzco, outra.

Desde que comecei a viver aqui e me consciencializei da realidade e da necessidade constante nesta cidade com tanto contraste social, que a vontade de produzir um documentário surgiu naturalmente. A oposição entre o turismo e as vidas deixadas ao abandono, com a vertente histórica, sem um acesso às condições básicas de vida deixa-me revoltada. É complicado explicá-lo em poucas palavras. O mundo precisa de saber o que se passa, num dos países mais ricos em recursos naturais e mais forte culturalmente na América do Sul.

Le Vitória 4


6 de Maio. Eu e o fotógrafo japonês Tatsuya Kato organizámos um evento para apoiar as vítimas do derrumbe de Ayahuayco ocorrido no mês passado. Amaru Puma Condor aceitaram o nosso convite para tocar a favor da beneficência para os danificados.

Conseguimos dinheiro suficiente para alugar as máquinas para removerem toda a terra para as pessoas poderem construir as suas casas de volta. No entanto continuará a batalha de tentar proteger o resto da comunidade de que o mesmo se volte a passar, pois vivem numa zona geograficamente sensível a derrubes. Maio maduro Maio, já Zeca Afonso dizia. No meu caso diria mais, Maio duro Maio!

Le Vitória 3


2 de Abril. Uma da manhã. Três casas destruídas. Nove famílias na rua. Nove mortos, incluindo 3 crianças. Um monte de terra, por causa das chuvas colapsou e atingiu estas pessoas numa pequena comunidade chamada Ayahuayco, no centro de Cuzco.

O município ajudou-os nos primeiros dois dias trazendo tendas e mantimentos, e comparticipando com todo o processo dos funerais. E mais já é pedir muito. Um fotógrafo japonês contactou-me e desde aí  temos-nos reunido procurando soluções de forma a ajudar esta gente. Por causa da segunda volta das eleições e do início da alta temporada, nada saiu nos jornais. Keiko vs Ollanta. Uma democrata capitalista filha de Fujimori, contra um ex-militar que quer nacionalizar o país e com propaganda paga por Chávez. Em menos de uma semana, o crescimento económico no Peru caiu cerca de 12%, coisa que não acontecia há mais de dez anos. Em Junho será a decisão final.

Abril. Águas mil. De dilemas e pensamentos. A Semana Santa entra e dá-me espaco para pensar. Sem razão aparente a saudade por Lisboa aperta, e dou por mim a colocar a hipótese do “Se”, nem que fosse apenas por umas semanas. Mas não. Nao posso deixar esta gente, nao posso deixar a comunidade em Urubamba. Prometi a mim mesma que só deixava o Peru quando eles fossem ter as suas casas de volta fosse de que maneira fosse.

Le Vitória 2


Vale Sagrado de Ollantaytambo

Novos projectos. E um par de muletas.

Passei parte do mês de molho, por causa da queda. Mas assim que melhorei, mãos ao trabalho. Reabilitámos um albergue no Vale Sagrado em Ollantaytambo. Raparigas adolescentes que vivem nas comunidades rurais, caminham entre 4 a 6 horas até à escola mais próxima, e daí muitas vezes a meio do ano lectivo acabam por desistir, dedicando-se à producao de artesanato e roupas tradicionais. E como Ollanta nao é excepção, mais uma vez o seu desenvolvimento pessoal, intelectual e profissional nao passa do mesmo que as gerações anteriores. Um americano e uma peruana depois de viverem algum tempo no Vale aperceberam-se desta realidade. Uma antiga escola foi doada pela comunidade a estes dois amigos, que a transformaram num projecto que consistia em dar casa e comida a estas raparigas durante a semana, poupando-lhes o esforço e a perda de tempo na caminhada, podendo voltar às suas famílias pelo fim de semana.

Le Entrevista a Joana Vitória Martins por El Rafa


Joana Vitória Martins. Pau para toda a obra, desde estilista, a monitora de atelier, empregada de mesa, professora de arte-terapia, promotora de bebidas, a coordenadora de projectos de voluntariado.

Lisboa, será menina e moça para sempre na minha alma e coração. Sou alfacinha de gema, no meio de mais 6 tipos de sangue. Lisboa fez-me ser quem sou, quem quero ser e aonde quero estar. Mas neste momento, Lisboa está longe, mas perto. Agora. América do Sul. Peru. Cuzco. Apesar de todas as qualidades da minha bela cidade no país à beira mar plantado, algo me faltava.

Vazio, materialismo, stress em Lisboa. Solução: viajar. Alargar novos horizontes. Enfrentar os meus medos. Novembro. Lisboa - Rio de Janeiro – Argentina – Chile – Peru em Cuzco. Dezembro. De uma vulgar viagem a Machu Pichu, resultou uma estadia na cidade perdida sem data para terminar e com muita vontade de continuar e crescer.

Le Vitória 1


Há cerca de um ano atrás que várias comunidades no Vale Sagrado de Machu Picchu, foram destruídas pelas cheias. E em algumas delas, o apoio que tiveram do governo até hoje consistiu em tendas e comida uma vez num ano. Nessa altura, Loki Hostel percorreu quase todo o Vale à procura de quem necessitava de ajuda. Em Urubamba, numa comunidade chamada Paca Vilcanota, encontraram Celestino, um homem de meia idade a apanhar no chão os destroços da sua casa.

Até Junho do ano passado Loki ajudou-os com voluntários a limpar tudo o que foi destruído. Cerca de 90 famílias ficaram sem nada. Assim que tive conhecimento desta situação decidi ir visitá-los. Mulheres agarraram-se a mim a chorar a pedir por tudo para que eu fizesse algo por eles. Tive que manter o sangue frio porque estava prestes a desmanchar-me. Naquele preciso momento percebi que eu era a força e a esperança para 90 famílias.