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Le Vitória 15

Buenos Aires. Paris na América Latina. E quem o disse, sabia-o muito bem. Conhecemo-nos há nove meses, em Vilcabamba, no Equador. O tempo de uma gestação. Tempo esse cheio de ideias, de sonhos, de projetos, de dúvidas. Por terra viajei do Peru à Bolívia, por ar fui de La Paz a Santiago do Chile, sobrevoando toda a Cordilheira dos Andes, num suspiro constante, observando todas aquelas montanhas brancas e vulcões aos meus pés. São 11h da manhã quando chego ao aeroporto de Buenos Aires. Os meus joelhos tremem.

Le Vitória 13

Trujillo : Huanchaco. Chego num sábado ao fim da tarde. Entro no primeiro hostel que encontro, onde o meu quarto cheira a ratos mortos, mas não estou nem aí. Só quero água de mar e chinelo no pé. A praia está apinhada de gente, porque hoje termina o campeonato de surf.

Huanchaco é uma antiga vila pescatória, a cerca de 14 km a noroeste de Trujillo, a terceira maior cidade do Peru. O nome tem a sua origem por volta do século XVIII e significa “ lagoa de peixes dourados”. Isto porque reza a história de que os antigos pescadores antes de se lançarem ao mar, pintavam o peito de vermelho,
imitando uma ave que tem pelo nome de “huanchaco”, ficando apelidados assim de “huanchaqueros”.

Quando chegaram os espanhóis, resolveram chamar a este lugar a vila dos “ Cavalinhos de Totora “, que são uns pequenos barcos bem estilizados, feitos de umas canas semelhantes às de bambu, que dão pelo nome de “totora”. O cultivo desta cana, já vem desde o séc. XVII com a civilização Moche, característica desta zona, onde os “huachaques” eram poços de totora dos quais se aproveitavam as filtrações do subsolo, assim que daí ser possível a semelhança fonética entre “Huanchaco” e “ Huachaque”. Outra civilização pertencente a esta zona foram os Chimú. Tanto estes como os Moche, foram antecessores dos Incas, e Trujillo é uma
zona bastante turística desde que foram descobertos os seus templos, conhecidos por “Huacas”.

Qualquer amante do surf, sabe o que se passa por estes lados. A cerca de uma hora de Trujillo, na praia de Chicama, encontra-se a “esquerda mais larga do mundo”. Sofia Mulanovich, uma surfista peruana, foi campeã mundial no Campeonato de 2004, e estas praias são o seu quintal.

Huanchaco é um lugar simpático. Tem a sua onda. Aos fins-de-semana, é muito comum as famílias de Trujillo escaparem ao centro da cidade, para virem desfrutar dos seus apartamentos à beira da praia, qual Aroeira ou Costa da Caparica. “Cremoladas! Raspadillas! Tamales! Manzanas Dulces! Anticuchos! Picarones!
Marcianos de Lúcuma!! “ São os pregões dos comerciantes ambulantes ao longo de todo o paredão. Deitada na areia, perdida nos meus pensamentos, e sou abordada por um lindo menino de rua dizendo “Hola mi reina, me compra un chocolate?”. Um sol, dois soles, e assim se vão as moedas do fundo da carteira. Menus de 10 soles, com “ceviche” para entrada, um crocante “chicharrón” de peixe como prato principal, e para baixar pelo estreito, uma geladinha “ Inca Kola”.

Existem uns quantos cafés de estilo mais ocidental, com deliciosos menus vegetarianos e um ambiente bastante acolhedor. Classes de yoga na praia, à hora em que o sol acaricia o horizonte, onde todos param entre o terminar de um gelado, ou um partilhar de um abraço, em silêncio, antes de voltarem ao ritmo normal do seu passeio de fim de tarde.

Ruínas de Chan Chan. Às portas da maior cidade de barro do mundo, com uma extensão de 14 km2, um taxista aborda e tenta-me convencer com o seu serviço directo e eficaz a mais 3 atractivos turísticos, tudo por 50 soles com uma duração de 3 horas. E por mais que deteste agarrar estes pacotes, hoje o sol bate forte, e não estou em modo “ combi”. Hoje sou turista.

“ Huaca del Arco Íris”, “ Huaca del Esmeralda”, Museo de Sikan y “Chan Chan“. Recorri todas as pérolas da cultura Chimú, ficando-me a faltar as “Huacas del Sol, Luna y del Brujo”, da cultura Moche. Mas isso ficaria para o meu regresso.

Aqui aconselho vivamente que se hospedem no Hostal My friend (com económicos menus) , e a noite a 10 soles com banho privado, ou para quem procura mais comodidade “Surf Lily Hostal” ou “Sudamérica Hostel“. Para os vegetarianos ou os tão ou mais “cafeteros” que eu: “Outra Cosa” com uma incrível vista para o mar, (onde também podem consultar bons guias de viagem e desfrutar de um mini-cinema), “Chocolate Café”, “La Casona” , "Abacaxi” e “Las Carmencitas” onde não podem perder dois bons dedos de conversa com a dona com o mesmo nome.

Equador : De Guayaquill para passar a fronteira e para chegar a Montañita na costa.

Em vez de venderem t-shirts na rua que dizem “I love Montañita”, deviam fazer outras a dizer “I FUCKING HATE MONTAÑITA”. A gringolândia sul americana em peso. Toda a Argentina e Chile decidiram mudar-se
para aqui nas férias da universidade.

Montañita é sujo, a praia não é grande espingarda, apesar de ser um bom destino para o surf, por onde quer que passes os “waykis” ( artesãos de pé-descalço ), saem-se com um constante “Hola amiga!”, como se tivessem andado contigo na escola, à espera que te derretas pelos seus longos cabelos negros, e corpo moreno musculado com tatuagens incas, achando assim que já te venderam o par de brincos mais “in” da
América Latina.

Se viajas sozinho esquece Montañita. Os dormitórios não são partilhados, assim que senão vais em grupo, estás lixado, as matrimoniais por alguma razão especial apenas alugam a casais, assim que onde dorme quem gosta de ser um pouco mais solitário? Aqui é a pura “juerga”. Sexo, drogas e reggaetown.

O Sr. Ruben é o único que às 8h da manhã de um domingo tem a sua banca aberta com boas empanadas de queijo e café quentinho. Falou-me do paraíso que era este lugar, há cerca de 30 anos antes de chegar o primeiro turista. Não existia dinheiro em Montañita. Trocavam-se peixes por arroz e batatas. Dinheiro? Nem sabia o que era disso. O caminho que me separa entre a banca dele e a saída do meu hostel, faz-me
andar aos ziguezagues para fugir dos comentários obscenos daqueles que ainda não dormiram, e caminham tipo “zombies” com uns olhos que mais parecem os faróis de um carro avariados.

Os meus planos de continuar a subir pela costa alteram-se. Não queria mais correr o risco de encontrar este tipo de festa à beira-mar e a preços estupidamente caros. Assim que regresso a Guayaquill para encontrar-me com um português que vive em Lima e seguirmos viagem, num destino que decidiremos mais à noite. Passamos horas à conversa no “malecón” de Guayaquill, uma cidade que antigamente pertenceu aos piratas. Parece que temos pilhas na língua, e trocamos o máximo de impressões possíveis, como que a matar saudades do que é falar em bom português.

Baños, Equador. Conhecida como a cidade das Cascatas e do vulcão Tungurahua, ainda ativo, que em 2006 foi a última vez que entrou em erupção. Depois de uma boa caminhada na montanha e a miradouros, e de fazermos o percurso das cascatas principais, rumbo a Latacunga, a Oeste de Quito, para desfrutar os últimos dias de viagem juntos, de volta à costa.

Mas agora acompanhada.

Por Ollantaytambo, sei que a vida continua tranquila, e a chover. E eu, mesmo de férias, sei que o trabalho não pode parar, tentando espalhar ao máximo a campanha para as vítimas das cheias em Urubamba, que senão alcançarmos parte do limite final, terá os seus últimos dias nos próximos meses. Assim que vos
peço que difundam o máximo que possam, e para os que possam fazer uma pequena contribuição, que se lembrem que por mais pequena que seja, aqui por estes lados, pouco significa muito. A comunidade agradece, e todos juntos com pequenos gestos podemos mudar o mundo.

Deixo-vos com um documentário publicitário sobre a cultura peruana. Espero que gostem e que assim de alguma forma possam perceber, como este país me apaixona cada vez mais, a cada dia que passa.

Ligações

Pintura por Augusto Brocca

Le Vitória 12


Feliz Ano Novo, Ollantaytambo.

O ano entrou em força cheio de projetos na cabeça, prontos a passarem para o papel, e a vida vive-se tranquilamente por aqui. As férias começaram e tenho cerca de 30 crianças inscritas no meu curso de arte-terapia. Por vezes eles estranham um pouco as aulas. Para os métodos a que estão habituados, a forma como lhes ensino acaba por ser liberal demais. Há música para dançar e relaxar, sentam-se no chão descalços a desenhar e tudo lhes soa interessante e estranho ao mesmo tempo. Uns gostam e outros nem por isso. O que por vezes acaba por ser um pouco frustrante para mim, mas ao mesmo tempo sinto que é um trabalho desafiador e que me faz lutar todos os dias um pouco mais.

Le Vitória 11


Viver em Ollantaytambo, a 2750 metros acima do nível do mar, num povoado com 1500 habitantes no centro, cerca de 3500 pela montanha. Depois de tantos meses a viajar dentro e fora do Peru, chegou a hora de assentar. Arrendei um quarto num pátio castiço, com vista para as ruínas, numa rua construída pelos próprios Incas.

Ollantaytambo é a cidade viva dos Incas. O único lugar onde os espanhóis foram derrotados e por essa mesma razão ainda hoje se mantém tal como há 500 anos. A cerca de 3 horas de caminho pelo meio da montanha com vistas incríveis, passando pelos 100 terraços agrícolas Incas, estão as ruínas de Pumamarca, construídas a 3200 metros de altitude, num ponto estratégico com um ângulo de 360º, para que os Incas pudessem avistar a chegada do inimigo. Aqui, foram encarcerados os espanhóis quando tentaram invadir este lindo povo.

Le Vitória 10

Le Petit Routárd: Pérou et Bolivie.

MachuPicchu pela segunda vez em low budget. Em Ollantaytambo tomo uma combi até Piscacucho, ao km 82, onde começa o famoso “Inca Trail”. Até Aguas Calientes são 28 kms. São 9h da manhã e são cerca de 8 horas a caminhar seguindo a linha do comboio. Poucos minutos depois encontro umas ruínas Incas. Entro e faço um pago à Pachamama, com folhas de coca e um pouco de água florida, e peço-lhe para que nos acompanhe nesta caminhada. Estamos rodeados por montanhas de cor terra, áridas, o clima é seco e a vegetação de verdes suaves.

Ao longe do nosso lado esquerdo avistamos parte do Caminho Inca, que leva numa subida muito íngreme a vários aglomerados de ruínas. Depois de 5 horas sentimos o ar húmido, as montanhas de um verde tropical e ruídos ligeiros: estamos a entrar na selva. Em menos de 4 horas chegamos a Aguas Calientes. No hostel deito-me, com as pernas doridas e só quero dormir, dormir e dormir, mas não posso. Amanhã o despertador toca às 4h da manha para subir a Machu Picchu.

Os planos de viajar pelo Peru alteram-se: à última da hora decidimos ir À Bolívia fazer o Salar de Uyuni e visitar as minas em Potosi. Em Tupiza, no sul da Bolívia, já quase na fronteira com a Argentina marcamos uma tour de 4 dias e 3 noites para o Salar de Uyuni. Santos era o nosso condutor e guia e a pequena Maria com apenas 19 verdes anos era a cozinheira que sofria de anemia crónica e passava o tempo todo a dormir e apenas acordava à hora das refeições e que, incrivelmente, nos colocava delícias no prato a condições inóspitas, a 4400 metros de altitude.

Aqui vi das paisagens mais bonitas de toda a minha vida. Lagoas de cores e tons sem fim. Brancas, azuis, verdes, vermelhas e depois de 4 dias a viajar pelo meio do deserto, no último dia dormimos num hotel feito de sal e acordamos às 5 h da manha para ver o sol a nascer no Salar. Somos os primeiros a chegar. E observamos em silêncio os primeiros raios de sol a nascer num horizonte tão perfeito, num branco mais belo que o branco da neve. Santos passa-me o jeep para as mãos e é com emoção que conduzo no maior deserto de sal do mundo. Terminamos no Cemitério dos Comboios em Uyuni, onde se encontram abandonados a maior parte dos comboios que os espanhóis trouxeram da Europa para a América do Sul.

Já com saudade despedimo-nos de Santos e de Maria, e está na hora de seguirmos viagem. Potosi: a cidade mais alta do mundo, a 4000 metros, foi no tempo da colonização a cidade mais rica do mundo, pela riqueza das suas minas de prata assim como a maior cidade do mundo. Londres, Paris e Nova Iorque cabiam dentro dela e ainda sobrava espaço para mais alguns. Todos queriam viver em Potosi e depois dos espanhóis lhes terem sugado toda a prata que puderam, uma cidade tão rica transformou-se numa cidade-fantasma e numa das mais pobres de toda a América Latina. Hoje em dia, ainda existem minas activas e uma das maiores fica no Cerro Rico, a 4600 metros de altitude. São 8h da manhã quando o bus nos apanha no hostel e nos leva ao Cerro Rico. Óscar um ex-mineiro é o nosso guia. Antes de entrarmos, vestimo-nos a rigor: capacete com luz, fato-macaco e botas de borracha. Compramos tabaco, folhas de coca, sumos, água e dinamite como oferendas aos mineiros. Sabemos que vamos passar até ao 4º nível, a praticamente 300 metros abaixo da terra, onde quase não há oxigénio.

Não gosto de espaços fechados nem escuros, mas para isso aqui estou. Para ver outra realidade e enfrentar este medo. Ao entrarmos no segundo nível temos que nos deitar no chão, pois a passagem não passa dos 50 cm de diâmetro. Concentro-me tanto em todas as manobras a serem executadas, as condições de segurança são escassas e tudo é escorregadio e vejo buracos sem fundo por todo o lado. Este processo é tão complexo que não há tempo para o sequer pensar no medo. Ao mesmo tempo sinto adrenalina por querer saber como será lá em baixo. Hoje é segunda-feira e disseram-nos que há muita gente a trabalhar na mina. A passagem para o terceiro nível é mais perigosa e dão-nos folhas de coca para aguentarmos a caminhada. O pó aumenta, a temperatura está demasiado alta, começamos a suar, o oxigénio já começa a ser cada vez menos, mas o que incomoda mais é o cheiro insuportável a enxofre. Chegámos ao inferno. Estamos numa cova onde 4 mineiros trabalham arduamente em tronco nu, onde os seus poros vertem água a cada segundo que passa. Num processo manual aqui chegam os minerais dos níveis abaixo vagão a vagão, cada um contendo duas toneladas de minerais em bruto. E há que parti-los nesta pequena cova para passar para os níveis acima. Somos 9 pessoas a contar com os mineiros, não há tubos de ar, assim que cada um respira o oxigénio do outro e o espaço é demasiado pequeno e perigoso.

Estou a transpirar demasiado e tenho o coração a mil, tentando encontrar uma respiração moderada. O pó que paira no ar é tão denso que mal nos podemos distinguir. O Óscar passa-me uma pá para a mão e diz-me: “Trabalha! Ajuda! Há que dar dois minutos de descanso a estes homens!“ Ele mesmo despe-se e começa a ajudá-los.

Sei que não posso dizer que não e não quero dizer que não porque quero ajudar, mas tento ganhar consciência da tarefa que tenho pela frente e só consigo pensar onde vou arranjar a força para o fazer. Enquanto carrego os minerais, ao meu lado reparo num mineiro encostado, com o suor a queimar-lhe os olhos e pela primeira vez vejo que respira fundo de descanso. Olho à minha volta, as condições são desumanas, olho estes homens no fundo dos seus olhos e não consigo sentir pena, senão respeito e admiração. Estamos todos os turistas a trabalhar, enquanto os mineiros se limpam, bebem água e mascam mais folhas, até ficarem com uma bola de coca tão grande que lhes chega a deformar a cara.

O cansaço é tanto, que penso que não vou aguentar mais. Mas Óscar diz-me que a saída está no nível abaixo e já pouco falta para terminar. Mal baixamos e surpreendentemente sentimos uma ligeira brisa de ar fresco. Aos poucos cada um já controla a respiração ao seu ritmo. Aqui Óscar fala-nos da vida dos mineiros. Já o pai dele era mineiro, assim como o seu avo e bisavô. E quando a próxima geração nasce, o homem mineiro será. E não é como uma obrigação, senão como que uma atitude de respeito para com os seus antecessores, e também, porque hoje em dia não há muito mais que um homem possa fazer em Potosi.

Estes homens dão o suor e o sangue para estarem 8 a 10 horas por dia, nestes pequenos buracos
que se parecem com o inferno, ao saberem que não passarão dos 40 ou dos 50 anos de idade, e sem terem um salário fixo. O rendimento depende da quantidade e da qualidade do mineral recolhido a cada dia. Já perto da saída visitamos o “El Tio”- o santo padroeiro dos mineiros. Tem a figura de um diabo e está rodeado de vários tipos de oferendas.

Quando um mineiro entra na mina, Deus e os problemas ficam do lado de fora. Aqui dentro só existe o companheirismo e o El Tio. Aqui dentro jamais se diz “ Não se pode.” Os meus olhos enchem-se de lágrimas que não lutam muito por sair e escorrem-me pela cara coberta de pó. Engolimos todos em seco e temos o batimento cardíaco acelerado não desta vez pela falta de oxigénio, senão pelo nó que temos na garganta. A visita chegou ao fim, e eu queria mais. Queria entrar de novo e ficar a trabalhar com estes homens. Mas às mulheres não lhes é permitido trabalhar nas minas. No entanto, Potosi ficará para sempre guardado no meu peito.

Bolívia, mostraste-me o que de melhor tens em ti. Santos, o guia mais profissional, alegre e companheiro do Salar de Uyuni. Eduardo um ex-mineiro dono do hostel Koala Den em Potosi. O melhor anfitrião que em pouco depois de chegarmos já estávamos com a sua família a beber e a comer do bom e do melhor. Dançámos as melhores “morenadas” bolivianas horas sem fim, com o mesmo copo de whisky a rodar entre todos. Óscar o melhor guia das minas de Potosi, que espero que siga com a paixão das minas a correr-lhe pelas veias. Depois de me mostrares a tua melhor gente. Depois de um Sudoeste repleto de paisagens incríveis, áridas, rudes, de cores que só vemos em arco-íris, de ver o nascer do Sol no maior deserto de sal do mundo com uma extensão de 18 mil kms, mostras-me um mundo de pó, de condições desumanas,
de temperaturas extremas, de homens dignos, respeituosos e companheiros, mostras-me um inferno onde jamais pensei que pudesse existir tanta vida e tanta esperança.

E em ti Bolívia, encontrei mais uma das minhas paixões assolapadas que tanto me fazem sentir viva. Gosto de ti e não sei porque. Mas julgo que é sempre assim. Talvez é essa tua timidez e esses olhos verdes, azuis, cinzentos, que mesmo depois de tanto prenderem no meu olhar não percebo de que cor são. E também tu te apaixonaste seriamente por mim.

Caros amigos e leitores: o meu tempo no Peru está a chegar ao fim. Assim diz o meu coração.

Quero voltar a pisar as minhas pedras da calçada, a voltar a sentir o cheiro a sardinha assada, ouvir o eléctrico a passar e a ver as ruas da minha Lisboa cheias de cores dos Santos Populares. Quero voltar a pedir ao Sr. Ulisses da Bijou do Calhariz : “Uma meia de leite e sandes mista no pão da casa, se faz favor. “Quero voltar a olhar nos olhos dos meus amigos e rir e sorrir com eles. Quero voltar a dançar kizomba e kuduro no calor da minha família de que tantas saudades tenho. Quero beber minis na Bica e dançar no Cais do Sodré. Quero conhecer melhor a França, Espanha e Holanda. Quero trabalhar nesses campos maravilhosos a apanhar fruta e conhecer novas gentes. Quero fazer o caminho de Santiago. Quero passear pelos jardins de Londres e perder-me nas livrarias da Charing Cross Road. Quero caminhar tranquilamente pelas ramblas de Barcelona e que me cresça água na boca na “La Boqueria.

E se até lá eu não te esquecer e tu não te esqueceres de mim, quero pisar esse branco das montanhas no coração da Europa onde vives, meter-te no meu carro, levar-te a conhecer a minha tão querida Costa Vicentina e perdermo-nos nas suas dunas, como diz a música dos GNR.

No entanto, sei que assim que pisar esse lado, vou morrer de saudades deste lindo continente que me faz tão feliz. E por essa mesma razão eu vou voltar. Europa: quero desbundar agora nas tuas terras, quero reviver tudo isto, porque sei que tão cedo não irei regressar. Estas gentes, estas culturas, estas cores, estes caminhos, estas paisagens, estas vidas, estas lutas, estas comidas, estas danças, estes cheiros, estes mares, estas montanhas, estes segredos, estas crianças, estas caras, estas peles, estes olhos tão escuros cheios de tanta história, isto sou eu que tanto procurei e que finalmente encontrei.

Mais uma vez América Latina: Viajo porque preciso, Volto porque te amo, porque por agora
não consigo viver sem ti.

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Ligações

http://www.boliviahostels.com/Hostal_Koala_Den-Potosi_713-es.html


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* Originalmente publicado a 1 de Dezembro de 2011, na Le Cool Lisboa * 316