Num ambiente pouco
usual, fomos conversar com o Afonso e o Salvador, núcleo duro dos You
Can´t Win Charlie Brown. No final de uma semana de trabalho e antes de
um jogo de futebol, sentámo-nos em casa de amigos comuns para
percebermos um pouco melhor quem são afinal os YCWCB. Não é dificil: são
gente normal. Gente que por acaso também gosta de criar música e que
dedica o tempo livre que vai tendo, os espacinhos que vão surgindo, à
sua grande paixão. Sonham fazer boa música, parir discos do caraças.
Para eles, não se trata de viver da música, mas sim de poderem dar-se ao
luxo de viver para ela. Nasceram há um ano, mas sentem que ainda estão a
começar.
Já passaram 6 aninhos desde aquele emblemático concerto em casa do Tomás, contem lá como é que foi esse dia?
A
: Isso era uma coisa que não tinha nada a ver com o que estamos a fazer
agora... Foi um concerto no jardim do Tomás, o nosso baterista, já há 6
anos pelos vistos. Não fazia ideia.
Foi o “começo” para alguns dos membros dos You Can’t Win, Charlie Brown ( YCWCB)?
S
: Sim, quer dizer, é todo um processo. Até foi antes. O Afonso e eu
tivemos a nossa primeira experiência músical num leitor de cassetes que
tinha um microfone de cada lado. Pusemo-nos a cantar Cake e a gravar.
Sem instrumentos, só voz. Tinhamos 13 anos, foi antes do Afonso vir da
Bélgica. Foi o nascimento. Foi aí que começou a nossa magia (risos).
Ainda havemos de recuperar essa gravação.
Voçês são quase uma familia...
A : É verdade, somos a Kelly Family portuguesa... o Salvador e eu somos primos direitos, e o Tomás também.
S : E não só, eu conheco o João Gil quase desde que nasci..
A
: E o David Santos e o Luis Costa foram pessoas que fomos conhecendo
através da música e com quem nos demos automaticamente bem tanto que
quando falámos da possibilidade de tocar juntos, foi uma coisa que
avançou logo e não houve qualquer tipo de dúvida.
Como é que começou este projecto?
S
: Nós começámos esta banda para experimentarmos coisas novas. Vínhamos
dum projecto que era fixo, um formato rock: baixo, guitarra, piano, voz
e bateria.. Estávamos fartos e decidimos que queríamos outras coisas,
tínhamos mais brinquedos para compor. Foi assim que nasceu o projecto,
do desejo de andar a brincar com outras coisas, do aborrecimento do
formato standart.
A : Queríamos fazer uma formacão que fosse
relativamente aberta e em que as pessoas pudessem entrar e sair. Tanto
damos concertos a 4 como a 6 como a 3, sem que haja um compromisso
demasiado sério e limitativo com o resto das pessoas. No fundo chegámos a
um consenso: o núcleo da banda é composto pelo Salvador e por mim e os
outros são membros convidados que participam. A única constante de todos
os concertos somos nós os 2, os outros infelizmente nem sempre podem.
Mas para todos os efeitos os YCWCB somos nós os 6. Falámos da questão
das pessoas puderem entrar e sair mas no fundo se calhar é um bocado
mentira porque as coisas já se estão a começar a cimentar e no fundo
quem acaba por ficar são aqueles com quem já temos uma relacão mais de
amizade, mais que a questão profisisonal, trata-se também do à vontade.
Neste
aspecto a música está mais “promíscua”. O David, por exemplo, que está
com vocês, tem um projecto a solo e tem também o vosso projecto.
Antigamente não havia isto.
A : Hoje em dia é normal,
vê se ai por todo o lado, muitos musicos que partilham bandas e
projectos, por um lado porque o circuito de musicos não é um circuito
que permita, ou muito raramente permite, que uma pessoa que queria fazer
da música a sua prioridade possa viver apenas de um projecto e portanto
acaba por ver-se muita gente a tocar em muitos sitios. Acho isso
óptimo, acho um espirito de colaboração excelente, que também só ajuda
os próprios musicos. É interessantissimo trabalhar com uma pessoa como o
David, por exemplo, com quem nunca tinhamos trabalhado antes e que tem
processos e ideias diferentes e disso surgem coisas diferentes do que
estavamos a pensar na sua origem. Acho isso muito interessante.
Bem, mas depois de terem começado, foi tudo um bocado de repente, certo?
S
: Sim, foi mesmo tudo muito de repente. Nós entrámos nos Novos Talentos
Fnac antes de termos dado algum concerto e antes de termos músicas
acabadas A única música acabada o Afonso acabou-a e mandou-a para o
Henrique Amaro na véspera. Estávamos mesmo embrionários e a partir daí
as coisas correram bem, fomos aoTermómetro e correu bem. Gravámos o EP
no Optimus Discos e foi tudo uma fase de aprendizagem no sentido de
estarmos a aprender como funcionávamos enquanto banda, qual era a nossa
sonoridade.
A : Sim, fez agora um ano que demos o nosso primeiro
concerto. Um ano até pode parecer muito mas não é, passa muito rápido,
sobretudo tendo em conta que isto infelizmente não é a nossa vida. Isto é
o que fazemos nos tempos livres, cada espacinho que há serve para a
música.
Depois de alguns anos mais com malta amiga a ver os concertos, rapidamente começaram a ter fãs que não conheciam..
A
: Os Novos Talentos Fnac 2009 deram a conhecer o projecto a muita gente
de fora. Os nossos primeiros concertos foram em Coimbra e depois em
Braga, portanto não havia amigos e mesmo assim estava gente. Felizmente
algumas pessoas já sabiam da nossa existência enquanto musicos graças
aos nossos projectos anteriores. Graças aos V Economics no nosso caso,
aos prejectos do Luis, e depois a entrada do David trouxe mais gente
ainda. É normal que ao principio fossem mais amigos, acho que é assim
com toda a gente e felizmente eles continuam a aparecer.
Como é que é o vosso processo de criação?
A
: A génese de cada música normalmente vem de um de nós os dois.
Obviamente que ao ser tocada por outras pessoas surgem sempre novas
ideias que às vezes até mudam estruturalmente a música. Gostarmos e
aceitamos o input de todas as pessoas que tocam connosco.
S :
Tanto eu como o Afonso compomos sempre quando estamos sozinhos.
Normalmente à noite. Quando mostramos as nossas coisas é sempre dificil,
já estamos muito à vontade mas, quer dizer, pões-te ali todo nu, estás a
expôr todo o teu processo criativo.
A : O Salvador e eu sempre
tocámos juntos, desde que aprendemos a tocar música tocamos os dois
juntos, aprendemos a gostar de música juntos, e o Tomás também, por isso
é que também existe uma cumplicidade já muito grande e que nos permite
fazer música à vontade sem termos chatices. Porque bebemos das mesmas
fontes.
E que fontes são essas? O que é que gostam de ouvir, que inspirações têm?
S
: Os Beatles são uma referência antiga. Depois temos influências de
bandas que ouvimos, que gostamos de ouvir.. Animal Collective, Grizzly
Bear.. Tom Waits, e aquelas antigas que toda a gente ouve: David Bowie,
Talking Heads.. LCD Soundystem também gostamos.. Tantas outras.. Não são
bem influências, são mais coisas que gostamos de ouvir e obviamente
devem acabar por nos influenciar.
Como é o vosso dia-a-dia (ou semana-a-semana) enquanto banda?
A
: É quase mais do que semana a semana.. É completamente errático. É
muito dificil conciliar o tempo livre de seis pessoas. Toda a gente
trabalha ou estuda e tem uma vida que não é dedicada inteiramente à
música. Muitas vezes funcionamos na base do email. Tem que ser,
infelizmente não há outra maneira. Passamos o dia inteiro à conversa, a
maior parte são conversas estúpidas, mas de vez em quando sai daí alguma
coisa produtiva e que interessa. Tocamos com gente que está
ocupadíssima. O David tem o projecto Noiserv e passa a vida a tocar em
todo lado. Depois o João Gil deve ser dos gajos que toca em mais bandas
em Portugal, tem um dedo em cada teclado português.
Conseguem destacar alguns momentos especiais enquanto YCWCB.
S
: Um dos momentos mais especiais foi o termómetro, a final. Estivémos
com o Manel Cruz, com o B Fachada, com o Úria e com o Alvim.
A :
Especialmente marcante o Manel Cruz, que na nossa adolescência era uma
referência. Para nós foi para aí o segundo ou terceiro concerto que
demos e já estavam quase 2000 pessoas. E acho que não estávamos sequer
prontos para isso. O nosso espéctaculo comparado com aquilo que foi
nesse dia está muito mais coeso e muito mais seguro. Mas foi uma noite
muito engraçada, conhecemos gente muito interessante, que foi bom. Mas
todos os concertos em geral são bons.
S : O Santiago Alquimista foi uma grande surpresa, estava cheio e não estávamos nada à espera.
Já andaram aí pelas casas mais batidas.
A
: Sim, em Lisboa fizemos as algumas casas, o Maxime, o Alquimista, o
Musicbox onde vamos voltar agora. É claro que não tocámos em todo o
lado. Infelizmente tocamos quase exclusivamente em Lisboa devido à
questão de falta de tempo de que acabámos de falar.
Se calhar agora parece banal, mas se vos tivessem dito há 6 anos talvez não imaginassem.
A
: Claro... Mas quer dizer, imaginar até imaginámos não é (risos)? Sempre
tentámos e sempre foi esse o objectivo. Não é tão megalómano quanto
isso... Se eu há 6 anos dissesse que queria estar hoje a tocar no Pavilhão
Atlântico se calhar já era um bocado puxado...
S : ..Mas ainda havemos de tocar lá (risos)!
E agora? O que é que têm no forno?
A
: Estamos agora a gravar o primeiro albúm, não podemos revelar muitas
informacões porque não as temos, não fazemos ideia quando, como, quando e
o que é que vai sair dali, mas está a ser gravado com o Mário Feliciano
do Real Combo Lisbonense e estamos a fazer o nosso trabalho calmamente
no tempo que temos, para que saia dali uma coisa que nos faça sentir
orgulhosos. É esse o objectivo, fazer música de que gostamos, sentir que
temos ali um produto que podemos guardar e recordar-nos com orgulho,
mais do que outra coisa qualquer. Neste momento estamos mais
concentrados no albúm, é essa a prioridade, mas qualquer proposta que
apareça, desde que seja dentro das nossas possiblidades, tentamos
corresponder sempre, gostamos de dar concertos.
S : E acho que se
vai notar uma diferença bastante grande porque já estamos mais
identificados com aquilo que é o nosso som e com aquilo que queremos
realmente fazer enquanto que no caso do EP, embora tivessemos feito uma
seleccão que foi minimamente coesa, eram mais músicas a vulso juntas num
disco do que aquilo que vai acontecer agora, espero eu...
Com que “brinquedos” é que andam a tocar?
S
: Tocamos com milhões de instrumentos. Como agora estamos a gravar com
o Mário Feliciano temos uma data de instrumentos. Ele como hobbie
compra instrumentos, tem uma colecção. E tem nos emprestado, quase todos
os instrumentos são dele. Temos uma data de orgãos diferentes, a maior
parte são cenas dos anos 80, anos 70, cenas vintage que ele foi
arranjando. O David leva sempre outras coisas, brinquedos dele, uns
orgãos Yamanha, uns sintetizadores. Temos também metalofone, uns
sininhos... o baixo, guitarra, piano, viola...
E o
que é que vos dá mais gozo na música, acabar de produzir uma música e
pensar “epá isto até está porreiro” ou dar concertos, ouvir a malta
cantarolar as vossas músicas?
A : Acho que depende de
pessoa para pessoa. Pessoalmente o que me dá mais gozo é a parte da
criação e da composição de uma música. Parir aquilo. Até porque às vezes
não sabemos bem de onde é que aquilo vem. É uma melodia que te entra na
cabeça, no carro, no chuveiro onde quer que seja, e aquilo está quase
feito. Às vezes é extremamente trabalhoso pôr no papel e nunca sai da
cepa torta mas quando sai tambem é extramemente gratificante. para mim
isso é o melhor, mais do que ter as pessoas a bater palmas, que é optimo
obviamente e que sabe extremamente bem, mas a criação é a parte melhor.
Parecendo que não muitas vezes até sabe melhor sermos nós próprios a
acreditar que fizemos uma coisa bem e sabemos que a fizemos do que ter
gente de fora a achar isso, algo que obviamente também sabe sempre bem.
As
músicas antes de sairem do estúdio sao vossas. Mas depois quando saem
cá para fora, quando passam na rádio, passam também a ser de cada
pessoa que as ouve. Pessoas que as associam a momentos, que as ouvem em
determinados estados de espírito. Têm noção que podem ter este tipo de
impacto nas pessoas, como certamente outras bandas mais ou menos
conhecidas tiveram e têm em vocês?
S : Olha, nunca pensei
nisso por acaso.. Aliás, nem consigo imaginar isso sinceramente. Quando
demos um concerto nas festa do mar um miudo americano de 18 anos que
tinha ido passar férias com o pai a Portugal e que nem era suposto ir
ouvir-nos escreveu-nos um mail para o Myspace a dizer que tinha adorado.
Na altura disse que achava que devíamos receber imensos mails de fãs e
que se calhar nem íamos ler, mas a verdade é que nao recebemos nada,
tanto que este mail está vivo na minha memória.
Acontece vos olhar para uma música antiga e pensar “o que é que é esta porcaria”?
A
: Constantemente.. Sim, eu acho que é normal e acontece a toda a gente.
Acho que isso é um bocado uma auto-crítica que se aplica a toda a
gente, em trabalhos criativos. uma pessoa tem sempre dúvidas e quem diz
que não tem ou e ingénuo ou é mentiroso.
S : Agora por exemplo,
no caso do album, temos músicas feitas e estamos a ouvir e há dias em
que estou a ouvir e penso que está tudo uma mauzinho...
A : ...mas não está, mas não está (risos)!
S
: E depois há dias em que oiço com atencão antes de adormecer e afinal
já acho que está uma coisa mesmo como deve ser. Há esses dois lados. Às
vezes ficas farto porque estás sempre a ouvir e parece que está tudo mal
e ja estás a ser picuinhas demais e às vezes quando estás mais liberto
dos problemas todos que aquilo tem, soa bem. E a maior parte das vezes a
mim tem me soado bem.
E têm músicas preferidas, é algo que existe?
S : Eu normalmente gosto muito das músicas do Afonso.
A
: E eu gosto muito das músicas do Salvador.. Se calhar é uma questão da
pessoa estar mais afastada e não ter aquelas dúvidas de que acabámos de
falar.
S : Mas do EP talvez goste mais da Sort Of. No caso do novo álbum não consigo dizer.
Visto de fora, já fizeram qualquer coisa. Vocês tem algum sonho na música, viver da música?
A
: O Nosso sonho, nós costumamos dizer, é fazer boa música. Fazer discos
do caraças. Mas obviamente noutro plano sim, viver da música, para ter
mais tempo para música.
S : Se tivermos uma oportunidade, uma
proposta que nos faça largar o trabalho, é claro que vamos seguir para a
música a 100%. A nossa grande paixão é a música sem sombra de duvidas,
está sempre lá em cima. A : Mas até é estranho pensar na música como
trabalho. Nós sempre fizemos isto pelo prazer.
Têm alguma curiosidade para nos contar?
(alguns momentos de hesitação)
S
: Há uma curiosidade em que muito poucas pessoas reparam mas que é um
bocado óbvio: eu toco com uma viola de 3 cordas. Não é que eu seja uma
pessoa excêntrica, género “sou muita bom toco com 3 cordas”.. Ou então
sou muita mau não sei tocar com mais.. (risos) A viola que eu uso é
quase tão velha como eu, era da minha irmã. Um dia estava com uma
insónia e queria compor qualquer coisa e a única viola que tinha era
essa. Acontece que o meu irmão mais novo tinha-lhe partido as 3 cordas
mais graves, então pus-me a tocar só com as 3 cordas agudas. E a partir
daí passei sempre a compôr com uma viola só com 3 cordas e agora
sinto-me mesmo à vontade e para mim aquele instrumento tem 3 cordas.
A
: Fico sempre surpreendido com as coisas que ele nos traz com essa tal
guitarra de 3 cordas porque acaba por ter de arranjar maneiras de variar
a melodia e os arranjos, tem que dar a volta por outro lado e acaba por
ser sempre muito menos convencional do que numa guitarra normal.
E, para terminar, contem lá alguns episódios engraçados que tenham tiod neste ano que passou desde o primeiro concerto?
A
: Nós tocámos no Portugal no Coração, e não quero estar a gozar com o
programa, até porque nós gostámos imenso de lá ter ido. Mas de facto não
é facil manter a concentração quando tens o João Baião aos saltos e
trinta sexagenárias a bater palmas fora de ritmo. Mas foi lindo. É um
momento que fica. Nunca me vou esquecer de olhar para o lado e ver o
João Baião a fazer um rodopio no chão, um 360. Adorei, adorei.
S :
A Tânia Ribas uma vez também teve uma saída engraçada. A seguir a
anunciar-nos, “aqui estão os You Can't Win, Charlie Brown... e realmente
não conseguem ganhar”. Está bem, está bem. Obrigadinho Tânia!
Ouçam-nos aqui > http://www.myspace.com/youcantwincharlieb