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Entrevista a um Barco do Barreiro por Luís Carvalho
Há dias felizes, luminosos, em que um homem dá por si a colocar em causa o que sempre fez por igual, interroga-se da razão de um preconceito, do motivo para agir em repetição. O que fica desses dias não é conclusão ou resposta, mas a compreensão que tudo podia ser diferente sem nada estar incorrecto. Foi o que me aconteceu ontem. Uma pessoa anda de barco todos os dias, ao amanhecer ao entardecer, entra autómato sai a correr. E nisto se leva uma vida sem se perguntar “E o barco? Quem é este barco?” Posto isto, como não sou de me ficar com interrogações, saio do barco e sigo por dentro em direcção ao porto de barcos velhos, passo pela estação de comboios, encosto-me a um deles, pesado, branco debruado a azul como casa alentejana, os moinhos na plateia e Lisboa no balcão, ganho coragem e entabulo a conversa que a seguir vos resumo, salto directo, sem passar pelas apresentações e os atrapalhos inciais, para o cerne da conversa, quando a palavra já estava bem instalada.
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