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Le Entrevista a Susana Santos Silva e Torbjörn Zetterberg por Pedro Tavares [PT]

Recuperamos a entrevista que o Pedro Tavares conduziu com a trompetista portuguesa Susana Santos Silva (SSS) e o contrabaixista sueco Torbjörn Zetterberg (TZ). Calha bem, até porque se juntam novamente em Lisboa para concerto na Culturgest, no ciclo «Isto é Jazz?», comissariado por Pedro Costa, a 9 de Outubro.

Como correu o concerto? 

SSS : Gostei muito, estava inspirada. 

TZ : Foi divertido! É um sítio estranhamente inspirador.

SSS : Estranho não!

TZ : Não, não é estranho de todo! É apenas pouco habitual tocar num sítio assim.

Como se juntaram?

TZ : Bem, conhecemo-nos... Basicamente, conhecemo-nos num safari de vacas em Portalegre.

SSS : É autêntico!

TZ : Sim, é verdade. Na verdade soa...

SSS : Estávamos a tocar no festival Portalegre Jazz em Setembro [2012] e o Pedro Costa levou-nos num safari pelo meio das vacas. E então começámos a falar em tocar juntos. Eu fui a Estocolmo em Dezembro e gravámos o CD [«Almost Tomorrow», Clean Feed, 2013].

TZ : Na verdade, a primeira coisa que ouvi foi Lama [Lama Trio] que estava no alinhamento deste festival [Portalegre Jazz]. Essa, imagino, terá sido a primeira parte desta ideia musical.

SSS : Ele pensou que eu era maravilhosa.

TZ : Eu disse isso?

SSS : (ri-se) Estou a brincar.


Um dueto de trompete e contrabaixo. Se considerarem as características dos instrumentos... qual foi o entendimento? A apostar mais no experimentalismo?

SSS : Sim, não?


TZ : Não tínhamos nenhum compromisso quanto ao que tocar quando começámos. Assim, as primeiras coisas foram completamente não planeadas, não tínhamos nenhuma, nenhuma...


SSS : Ideia pré-concebida.

TZ : Pré-concebida, a começar. E então tínhamos algumas músicas que tentámos depois.

SSS : E a primeira música que gravámos, é a primeira faixa do nosso CD, não é?

TZ : Sim, está certo. 

SSS : Então começámos a colocar algumas coisas no papel, algumas pequenas ideias, ideias musicais, melodias e outras coisas, que pudessemos depois pegar e ensaiar.

TZ : Como… é experimental no sentido de ser tão música experimental quanto experimentarmos com o grupo e vemos aquilo que realmente podemos fazer. Também estamos a testar músicas não-experimentais, algo assim. Do meu ponto de vista, é testar o que podemos fazer com o contrabaixo e o trompete, o que pode caber no conceito... e connosco, também.

As vossas faixas mostram uma forma mais afirmativa de tocar e a abordagem instrumental é um pouco mais dura. Reparei nisso especialmente no tema «Knights of Storvålen». O que sentem quanto a esta afirmação?

TZ : Não sei quanto à afirmação, mas estou a pensar no todo... especialmente essa canção e algumas outras no CD... é bastante inspirada no ambiente onde foi tocada e gravada... Foi um Inverno duro...

Numa cabana coberta de neve...


TZ : Sim, tu leste! Era realmente nas montanhas, no Norte da Suécia. 

SSS : Sim, em Dezembro. 

TZ : Era muito sossegado, topos de montanha, imensa neve... um misterioso vibe. É assim que o imagino! É algo de que falámos... ainda que não o tenhamos posto na música, falámos em tentar capturar a atmosfera o máximo que pudéssemos. 

SSS : O sentimento que tínhamos era de transportá-lo para a música...

TZ : Acho que conseguimos fazê-lo.

SSS : Acho que sim! Boa!


Parece que há uma certa influência árabe nesta composição. É possível?


SSS : Ah, a chegada de Colombo... onde?

TZ : Härjedalen.

Onde é Härjedalen?

TZ : O local onde gravámos. 

SSS : Bem a Norte da Suécia. E é como: Colombo... devemos explicá-lo?

TZ : Força.

SSS : Não, explica tu porque foi tua a ideia... Colombo, sabes, ele perdeu-se e em vez de rumar à Índia, acabou em Härjedalen. Essa é a chegada de Colombro a Härjedalen.

TZ : E essa será a nossa ligação, português e sueco.

SSS : Sim. 

TZ : Bem, não sei... penso que essa canção...

SSS : Apenas saiu assim, não foi? 

TZ : É tão difícil de falar dela depois [da canção] porque, quando improvisas, quando as coisas vêm instantaneamente, é realmente difícil dizer de onde vieram... Nós temos todas estas influências, mas...

SSS : Bem, eu estava realmente a fazer algumas experiências, a tirar este pistão da válvula, para conseguir estes sons estranhos. Toquei, saiu assim, começámos a gravar e foi isso.

TZ : Será que isso a faz oriental?

SSS : Não, mas o som que retiras... A afinação que se consegue ao tirar esta válvula... torna-se estranha e monotónica de alguma maneira. Talvez por isso tenha este som, não?

TZ : Claro, se tu o dizes (ri-se). Eu diria que, desde que não tenhas nada específico em mente, quaisquer influências serão possíveis, dado que estamos a ouvir tantas coisas.

SSS : Diferentes tipos de música... A um dado ponto, mais cedo ou mais tarde, elas despontarão se continuarmos a tentar experimentar. Não foi propositado.

Que me podem dizer mais sobre o álbum que gravaram para a Clean Feed Records, o «Almost Tomorrow»?

SSS : O álbum foi gravado em Dezembro, nesta cabine nas montanhas. Foi uma experiência magnífica porque estávamos a fazer todas estas coisas na neve. Sabes, ir esquiar...

TZ : Down skiing, cross country skiing, snow scooter

SSS : Para mim foi uma experiência extraordinária, pois nunca o tinha feito. Foi a primeira vez que esquiei e, claro, tentámos colocá-lo na música de alguma maneira. Gravámo-lo, enviámos ao Pedro [Costa, da Clean Feed Records] e ele gostou.

Sei que têm vários concertos marcados para este ano. No entanto, qual o futuro para este dueto, o que podemos esperar?

TZ : Bem, falámos em fazer mais digressões e mais gravações, mas ainda é cedo para fazer planos.

SSS : Sim, quero dizer, pensamos no CD, na digressão e em tudo; mas parece-me que nos devemos concentrar no CD. Devemos tentar marcar concertos e digressões para promover este álbum. Esse é o nosso próximo passo!

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Enlace : http://ssstz.tumblr.com

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* Originalmente publicado a 3 de Outubro de 2013, na Le Cool Lisboa * 409

Le Entrevista a Nobuyasu Furuya por Pedro Tavares e Rafael Vieira [PT]

Fotografia por Nuno Martins.

Podíamos dizer que este saxofonista  e clarinetista é o japonês mais português. E um cozinheiro formidável. Falámos e partilhámos da sua música e paixões, em relação ao jazz e a Lisboa.


Primeiro Istambul, então Berlim e depois Lisboa, porquê? 

Porquê? Foi apenas um sentimento. Antes de decidir ficar em Lisboa, viajei até cá, talvez uma ou duas vezes e tive sempre um óptimo pressentimento em Lisboa. Que podia fazer a minha música aqui. A atmosfera antiga e os sentimentos de Lisboa e dos portugueses marcaram-me positivamente. Não pensei muito, simplesmente vim e tentei ficar. 

Como é que a música apareceu na tua vida?

Para mim a música é um trabalho que estou a fazer, mas claro que não consigo fazer dinheiro com isso. Mas concilio essa parte da minha vida, o meu trabalho tal como as minhas criações e eu, e tudo é completamente parte da minha vida. Não faço música, mas estou a fazer música e isso tornou-se parte da minha vida.

Tertúlia Jazz 2, na Livraria Barata




Joaquim Monte, «Sou um sortudo»

texto: Pedro Tavares 
fotografia: Nuno Martins

Regra geral, os apreciadores de música não estão conscientes da estrutura que está em redor dos músicos e que faz com que a própria música exista. É o caso da gravação, da fotografia, do «design» ou do trabalho de edição. Os músicos são o centro da atenção, mas para que o seu trabalho chegue ao público é necessário que todo um conjunto de pessoas garanta as condições da sua actividade.

Uma dessas figuras de bastidores é Joaquim Monte, director do estúdio de gravação Namouche, em Lisboa, responsável por uma grande fatia dos registos de jazz que se fazem no nosso país e não só. 

Esta segunda Tertúlia Jazz realizou-se na Livraria Barata em Julho passado, com a participação do público presente, e é agora reproduzida em simultâneo pelas revistas online Rua de Baixo, Le Cool Lisboa e jazz.pt. 

Como é que nasceu o Estúdio Namouche?

Inicialmente pertencia à Rádio Triunfo, mas não sei a história em detalhe. Foi com Arnaldo Trindade, em Abril de 1973, que passou a chamar-se Namouche. Inicialmente situava-se em Campolide, tendo-se transformado mais tarde num estúdio também muito conhecido, o Xangrilá. Há uma história curiosa com José Fortes, que inaugurou aquilo como director técnico. O Namouche abriu a 25 de Abril de 1973 e ele estava, na véspera, com um colega a fazer os últimos retoques. O colega disse-lhe: «Que grande dia! Amanhã devia ser feriado.» Um ano depois deu-se o 25 de Abril e neste dia é feriado deste então. Passou por lá muita coisa e durante muito tempo fez-se, essencialmente, publicidade.

Tertúlia com Rui Eduardo Paes - Cinema City Classic Alvalade por Pedro Tavares

O autor do novo «’A’ Maiúsculo com Círculo à Volta», respondeu às perguntas de Pedro Tavares na primeira das Tertúlias Jazz organizadas em parceria pela Rua de Baixo e pela Le Cool Lisboa. A Jazz.pt associou-se à iniciativa, publicando em simultâneo, com as duas revistas online, a conversa decorrida ao vivo no Cinema City Classic Alvalade, em Lisboa.

texto Pedro Tavares 
fotografia Nuno Martins

Com 29 anos de actividade repartida entre o jornalismo cultural, a crítica de música e o ensaísmo teórico, Rui Eduardo Paes é autor de vários livros sobre as músicas criativas, abrangendo o leque de tendências que vai desde o avant-jazz até à música experimental, passando pelo rock alternativo, a new music e as músicas contemporânea, improvisada e electrónica.

É o editor da Jazz.pt, projecto que transitou para a Internet depois de o ter coordenado durante seis anos de edições em papel. É membro da direcção da associação Granular, dedicada à promoção do experimentalismo na música e nas artes audiovisuais e performativas portuguesas. Vem colaborando com instituições conceituadas, tais como a Fundação de Serralves, a Fundação Calouste Gulbenkian, a Culturgest e a Casa da Música, bem como com a editora discográfica Clean Feed.

Foi um dos fundadores da Bolsa Ernesto de Sousa, durante 20 anos tendo sido membro permanente do seu júri, em representação da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Assessorou a direcção do Serviço ACARTE da Fundação Calouste Gulbenkian e integrou o júri do concurso de apoios sustentados do então Instituto das Artes do Ministério da Cultura, para o quadriénio 2005-2008. A conversa com Pedro Tavares ocorreu na altura do lançamento do novo livro de REP, «’A’ Maiúsculo com Círculo à Volta», e pouco depois de o anterior, «Bestiário Ilustríssimo», saído em 2012, ter tido uma segunda edição. No Cinema City Classic Alvalade, em Lisboa, perante uma plateia bem preenchida e com transmissão em directo pela Rádio Zero, falou-se destas duas obras, mas também sobre jazz, a Jazz.pt, a Granular, o blogue Bitaites…

Pedro Tavares : Embora actualmente escrevas mais sobre as músicas experimental e improvisada, a tua ligação ao jazz é antes de mais diária, mas também o é de sempre, certo?

Rui Eduardo Paes : Certo. Acho que a influência do jazz na minha actividade e na minha vida tem um ascendente, digamos assim. Era a música que se ouvia em casa quando era pequeno. O meu pai era e é um entusiasta de todo o tipo de jazz. Ouve todas as tendências, incluindo as mais contemporâneas, e foi assim que me educou: a ouvir jazz todos os dias. Uma vez que é o tipo de música que mais fui ouvindo ao longo da vida, natural seria que dedicasse alguma atenção ao jazz. De maneira que aparecer como editor da Jazz.pt é uma consequência disso.

Como é possível viver-se da escrita da música em Portugal?

Não é possível, de todo. Durante uns 20 anos fui escrevendo sobre música porque tinha um emprego ora na área do jornalismo, ora em estruturas culturais. Tinha o suporte do ordenado mensal, que me permitia escrever sobre música nos tempos livres, ou seja, à noite, aos fins-de-semana, nos feriados e nas férias. Às vezes, tratava de assuntos que tinham que ver com esse trabalho nas redacções por onde passei: e-mails que recebia e aos quais era necessário responder, pedidos de entrevistas etc. Em 2005 ou 2006 achei que estavam finalmente reunidas as condições para me dedicar só à música, não só escrevendo como também fazendo outras coisas. Durante uns dois ou três anos foi possível viver assim, mas depois tornou-se impraticável.

Continuo a fazer isso hoje a tempo inteiro, mas com consequências a nível financeiro que me têm obrigado, com demasiada frequência, a admitir a possibilidade de, pura e simplesmente, deixar de ter esta actividade. Vou resistindo, vou lutando contra isso. Vamos ver o que é que acontece daqui para a frente. As coisas pioraram muito nestes últimos anos devido à crise e às políticas de austeridade implementadas que, como sabem, têm como primeira vítima a cultura, por isso vamos ver o que acontece. Pode ser que daqui a um ano eu esteja a fazer a mesma coisa, pode ser que não, pode ser que nem sequer ande por cá, logo se vê.

Como é que lidas com a imparcialidade na crítica, uma vez que neste mundo tão pequeno como é o português, quase sempre se conhecem as pessoas sobre as quais estamos a falar?

Tenho uma postura muito objectiva em relação a esse assunto, que é a seguinte: considero que desempenho um serviço público, ou melhor, um serviço comunitário. Aquilo que faço destina-se aos ouvintes, aos músicos, a todos aqueles que lidam com estas músicas, sejam eles editores, produtores, directores artísticos, etc. E isto significa que as pessoas com quem convivo são estas. E eles sabem que o facto de serem meus amigos, e estão aqui vários presentes, não implica que, se fizerem um concerto ou um disco mau, eu elogie o que ouvi. Se é mau, eu escrevo que é mau. Eles sabem que é assim e respeitam isso. Regra geral.

Foste e és editor da Jazz.pt desde o seu início. Seis anos de edições em papel que culminaram no seu encerramento. O país é pequeno, como já foi aqui referido, e o universo do jazz é ainda mais reduzido. A prova disso é que publicações anteriores tiveram sempre um tempo de vida muito curto. Na tua opinião, o que contribuiu para que a Jazz.pt se tivesse mantido no mercado durante tanto tempo?

E que se mantenha por muitos mais anos! Por duas ordens de razões: a primeira, por teimosia, e diria mesmo mais, por casmurrice, e a segunda por loucura. Somos todos uns doidos varridos e uns casmurros que lutam contra todas as adversidades, porque nada disto é sustentável. Continuamos a fazê-lo, no entanto. Não faz sentido, mas continuamos.

O que mudou na Jazz.pt com o site e porque não se explorou este formato há mais tempo, sabendo quão caros eram a impressão em papel e o design?

As pessoas, regra geral, têm uma ligação particular com o objecto, com algo que se possa manusear, neste caso uma revista. Eu próprio tenho esse gosto de mexer no papel. Gosto de livros, de revistas e de jornais. E as pessoas preferem, ou preferiam até recentemente, que a Jazz.pt fosse uma revista. Deixou de ser porque tornou-se incomportável mantê-la. Os prejuízos eram enormes e somavam-se de número para número e, de facto, a Internet tornou-se a única alternativa possível. Também tem custos, obviamente, mas são mais suportáveis. Falámos várias vezes em ter um site da revista como complemento do papel, mas isso não foi para a frente. Substituímo-la agora, pronto. Está feito.

E quais as primeiras impressões desta nova fase da Jazz.pt?

As impressões que eu tenho são as de que a Jazz.pt é agora lida por um público maior. Em termos de visitas únicas, somam-se já a muitos, muitos milhares de visitas que o site teve e isso significa que muito mais gente está a acompanhar os artigos, as entrevistas, as críticas que publicamos, o que não acontecia antes.

O jazz nasce no início do século XX nos Estados Unidos. Hoje em dia, mais do que nunca, faz parte do nosso vocabulário, mas talvez muita gente não saiba a origem da palavra. O que significa «Jazz»?

Há várias teorias, pelo menos umas três ou quatro. Mas acabam todas por redundar numa de que gosto particularmente e que considero ser a mais próxima da verdade. Jazz é uma corruptela do verbo «to jass», que quer dizer, na gíria americana, fornicar. Portanto, é uma música de fornicação. A origem é essa. (risos)

Quais são as diferenças entre jazz e música improvisada, sem esquecer que o jazz é antes do mais improvisação?

A grande diferença entre jazz e música improvisada é que, regra geral, o jazz é tocado com base num tema, numa estrutura, numa composição. E a música improvisada não. Mas isto é em geral, porque depois há diferenças, nuances, particularidades. Pode haver uma música integralmente improvisada segundo os cânones do jazz. Só para dar um exemplo português: Rodrigo Amado toca jazz, mas tudo aquilo é improvisado, não há partituras. E pode haver uma improvisação não jazz tocada com algum tipo de estrutura. Essas nuances vão-se multiplicando, mas em traços gerais as diferenças são estas.

Aquilo a que se chama música improvisada ou de improvisação livre é um conceito nascido na Europa dos anos 1960 que corresponde ao desejo de uma série de músicos, como Peter Brötzmann, Alexander von Schlippenbach, Evan Parker e outros, que entenderam que tocar jazz, o jazz americano propriamente dito, não fazia muito sentido, porque eram europeus. O jazz tinha que ver com uma realidade sociomusicológica particular, a dos negros americanos, e eles acharam que deviam tocar música europeia e que seria interessante cruzar as premissas do jazz, sobretudo do free jazz, com as da música erudita contemporânea.

O curioso é que a história da música improvisada nos mostra que, em muitos casos, esses músicos acabaram por regressar de alguma maneira ao jazz. E isso acontece precisamente com os nomes que apontei. O Schlippenbach a interpretar Thelonious Monk, o Brötzmann em colaborações com músicos de Chicago e o Evan Parker cada vez mais a denotar influências de John Coltrane. Mas tudo isto é muito relativo, não há fronteiras muito definidas, as coisas vão fluindo e ainda bem.

E precisamente sobre a música improvisada fala-nos das tuas propostas Way Out.

Ah, os discos? Isso já foi há muito tempo. Nos anos 90 a editora AnAnAnA, que já não existe, convidou-me a organizar dois volumes de uma compilação dedicada à música improvisada e experimental. Obviamente que com materiais inéditos. Convidei uma série de músicos nacionais para me prepararem temas e foi o que aconteceu. Não havia nenhuma linha definitória: eles podiam fazer aquilo que entendessem e foi assim que surgiram esses dois discos. Participaram grandes figuras dos dias de hoje: Rodrigo Amado, Manuel Mota, Rafael Toral, tantos.

A Associação Granular dedica-se à promoção do experimentalismo na música e nas artes audiovisuais e performativas portuguesas. Fala-nos da Granular e dos objectivos a que se propõe.

A Granular está com 10 anos e meio de existência e foi constituída em 2002 com o propósito de incentivar, divulgar e promover o experimentalismo na música e não só. Nas artes audiovisuais, vídeo por exemplo, e nas artes performativas, em muitos casos fazendo pontes entre as várias disciplinas artísticas, uma área em que nos especializámos. Durante uma série de anos trabalhámos sem qualquer tipo de apoios financeiros do Estado ou de outros. Realizávamos pequenos eventos, à bilheteira. Aquilo que era possível, sabendo quais são as condições de existência destas músicas em Portugal. Em 2009 conseguimos pela primeira vez um subsídio do Ministério da Cultura e tivemo-lo durante algum tempo, o que nos permitiu passar para uns patamares acima e fazer coisas mais arrojadas. Trazer músicos estrangeiros de referência para participações em festivais, ciclos etc., e colocarmos músicos nacionais em espaços mais nobres, «mais mediáticos». Um dos nossos propósitos estatutários é dar visibilidade a estas músicas e tirá-las do underground.

Nesse aspecto foi um trabalho muito compensador. Entretanto, no último concurso de plurianuais da Direcção-Geral das Artes foi decidido retirar o apoio à Granular. A programação que tínhamos para este ano e para o próximo deixou de ser viável, logo, limita-nos a fazer as coisas que estavam acordadas com os nossos parceiros, designadamente com a Culturgest e com o Goethe Institut. Tivemos uma instalação performance com João Parrinha. Houve um pequeno ciclo temático no Goethe Institut em Junho, o Der Destruktive Charakter, inspirado em Walter Benjamin. Fomos a Berlim para um último encontro do projecto europeu Opensound. Em Julho, haverá ainda uma iniciativa com Susana Mendes Silva e Abdul Moimême. Depois disso, não sei…

O resto daquilo que tínhamos programado não será possível fazer. Os argumentos do júri da Direcção-Geral das Artes para não nos dar o subsídio são anedóticos, são autênticas falácias. Penalizaram-nos com noções que contrariam aquilo que disseram e decidiram em anos anteriores, quando tínhamos vertentes de trabalho até menos sólidas. Por exemplo, entre o ano passado e este a Granular conseguiu uma grande implantação em outros países da Europa, mediante uma parceria com seis associações congéneres em países como Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Noruega e Itália. Um dos argumentos da DGA é o de que não temos difusão internacional suficiente. Quando a que tínhamos há uns anos, quando nos apoiou, era bastante menor.

Vê-se, pois, que são argumentos falsos, usados apenas como desculpa para não nos darem dinheiro. Enfim, o júri escolhido pela Direcção-Geral das Artes para Lisboa e Vale do Tejo foi constituído por pessoas da música clássica e uma da pop, que calha ser também o director editorial da revista Blitz e um director adjunto do Expresso, Miguel Cadete. Portanto, pessoas que não têm qualquer conhecimento do que é a música experimental, do que é a música de pesquisa. Decidiram sem conhecer o sector. É assim que se fazem as cousas, como dizia o Gil Vicente há uns séculos.

Agora, não sei se a Granular morre, se ficará a hibernar até melhor oportunidade. Vamos ver, mas isto significa uma valente machadada nestas áreas musicais em Portugal.

Voltando ao jazz, sei que leccionaste história do jazz até há bem pouco tempo. Fala-nos dessa experiência, o que representou para ti essa transmissão de conhecimentos. Gostas de ensinar?

Adoro ensinar. Aliás, desde os anos 90 que dedico uma parte da minha actividade à realização de conferências, seminários, aulas e acções com crianças, adolescentes e adultos. Dei aulas sobre música num curso de jornalismo e de crítica de música na ETIC, onde leccionava História do Jazz e História da Música Contemporânea. Mais recentemente, dei História do Jazz na Escola Superior de Artes e Tecnologia de Lisboa. Esta vertente pedagógica é-me extremamente importante.

Aliás, devo dizer que estou longe, hoje, de me considerar um jornalista. Digamos que sou um escritor que, na maior parte do tempo, pratica jornalismo e actividades de divulgação, pedagogia, promoção e curadoria, esta com a Granular. A minha acção multiplica-se em diversos tipos de intervenção que extravasam o jornalismo. O jornalismo é, apenas, a área a que dedico a maior parte do meu tempo, mas a partir de determinada altura comecei a deixar de entender que havia compartimentos em tudo o que faço. Para mim, também fazem parte do tal serviço comunitário e público que desempenho. Intervenho onde sou necessário.

Na tua opinião, como vês a evolução do jazz no nosso país nos últimos 30 anos?

Se me perguntasses isso há dois anos, eu falar-te-ia de um boom... O fenómeno do jazz e das músicas criativas em Portugal estava na altura no auge: havia cada vez mais músicos a tocar, cada vez mais bons músicos e cada vez mais discos, cada vez mais concertos. E tanto assim era que a imprensa internacional e os melómanos de outros países começaram a reparar que havia uma realidade musical muito particular em Portugal. De facto, instalaram-se uma grande dinâmica, uma grande energia e muita qualidade no nosso país. 

Porém, se as coisas assim se mantêm, os constrangimentos que temos estado a viver ultimamente estão a prejudicar a força que havia e isso sente-se. Há menos concertos, menos condições para se tocar e, às vezes, não há mesmo condições nenhumas. Começa a tornar-se confrangedor e eu espero que isso não venha matar a música.

Escreves regularmente para um blogue, juntamente com o jornalista Marco Santos, designado por Bitaites, para pequenos e médios intelectuais. É um slogan provocador. O que pretendem com este blogue?

É um slogan provocatório. «Pequenos e médios intelectuais» é, enfim, uma brincadeira. Este blogue, tal como todos os demais, não pretende fazer jornalismo. O que escrevemos são devaneios, são bitaites, movidos apenas pelo que nos apetece escrever... E eu no Bitaites escrevo sobre tudo. Sobre música, claro, mas com um tipo de abordagem que não utilizo na Jazz.pt ou em outro meio de comunicação. Os textos são mais pessoais, mais subjectivos. O eu está mais presente, que é uma coisa que no jornalismo não é conveniente. Digamos que serve para dizer algo como: olha, gosto muito da música deste vídeo. E permite-me também escrever sobre outras coisas, porque escrever só sobre música cansa, não é? De vez em quando escrevo sobre outros temas. Sexo, por exemplo.

Como no texto sobre PJ Harvey?

Exactamente! Mas aí era música e sexo. Às vezes escrevo só sobre sexo. Ou sobre literatura, ou sobre, sei lá, dança. Mas o tema «música e sexo» anda a interessar-me muito. Um dos últimos textos que publiquei no Bitaites foi sobre a pila do Iggy Pop.

Está respondido?

(Risos)

Lançaste cinco livros, «Ruínas», «A Orelha Perdida de Van Gogh», «Cyber Parker», «Phonomaton» e «Stravinsky Morreu», editados pela editora já desaparecida Hugin. Há pouco mais de um ano, publicaste «Bestiário Ilustríssimo», editado pela Chili Com Carne, e que recentemente teve uma segunda edição. Agora saiu «’A’” Maiúsculo com Círculo à Volta«. Mais concretamente sobre o «Bestiário Ilustríssimo», gostava de te colocar algumas questões.

Este livro é um mostruário de monstros da música, uma obra que reflecte sobre as músicas da actualidade e as suas infinitas conexões. É um livro que teve origem em textos reciclados, publicados anteriormente noutros contextos. Como foram o processo, os critérios de selecção dos textos e quais as temáticas abordadas?

Ora bem, há muitas coisas a dizer sobre isso. Resolvi fazer o livro com base numa reciclagem de textos porque, em primeiro lugar, gosto de reciclar textos. Acho que um texto nunca está acabado e tenho particular gosto em pegar em prosas que escrevi há anos e levá-las para outras leituras, para outras consequências, dando-lhes uma nova vida. Em segundo lugar, porque estive nove anos sem editar e nove anos é muito tempo. A minha editora, a Hugin, faliu e eu, de repente, fiquei sem saber onde é que os meus livros paravam, se estavam nas lojas ou em alfarrabistas. Volta e meia ia sabendo que apareciam nas feiras do livro do metro e em sítios assim. Portanto, senti a necessidade de fazer uma ligação com o passado, de conectar o novo livro com os anteriores e dar uma unidade ao meu percurso como autor.

Havia da minha parte a vontade de fazer algo que fosse uma espécie de enciclopédia, mas não sendo uma enciclopédia propriamente dita. Tenho um bocado de horror a formatos estanques, e daí que a minha escrita seja híbrida. Não é jornalismo, mas também não é musicologia. Foi o que pretendi fazer com este livro. Uma sucessão de textos, sem ordenação alfabética, que funcionassem como “retratos” de músicos de que gosto. E de músicos cuja obra me permitisse desenvolver as minhas ideias relativamente às ligações da música com a filosofia, com a sociologia e com as outras artes. Interesso-me muito pela arte “intermedia”, pela performance e pela dança. Aliás, nos anos 80 escrevi muito sobre dança e performance-arte. Foi tudo isso que resultou no “Bestiário Ilustríssimo”.

Sobre as infinitas conexões, são particularmente interessantes as que fazes com a arte, porque como dizes no capitulo 11, «Retro Inovadores», e passo a citar «A arte é uma reacção à realidade em que vivemos«. Explica-me de que forma as correntes referidas por ti, da noise music ao reducionismo, representam um confronto com a realidade em que vivemos. O que é isso de reagir?

Pois, isso é um conceito do Marcuse. Sim, a arte é uma reacção ao quotidiano, à realidade de todos os dias. O reducionismo e o noise são os dois extremos opostos desta questão. Se deres atenção ao ambiente áudio de uma cidade como Lisboa, reparas que há um nível de ruído que está constantemente presente, ou quase. E a música como é que reage a isso? Reage para cima e para baixo. Quando reage para cima, temos Luís Lopes com a guitarra noise, e quando reage para baixo, temos Ernesto Rodrigues com a viola quase a não se conseguir ouvir. Isto é, ou toca-se a um nível sonoro mais elevado do que o barulho da cidade, para a calar, ou toca-se a um nível sonoro que ignora a cidade.

No capítulo 21 do «Bestiário Ilustríssimo» falas sobre o dadaísmo e afirmas que os postulados Dada foram adoptados pelas práticas musicais vanguardistas e pós-vanguardistas, algo que se manteve até aos dias de hoje.

De que forma crês que o dadaísmo influenciou a música de vanguarda e a actual?

Podemos ter duas leituras do dadaísmo. Ou é apenas uma influência vanguardista vinda do início do século XX, ou trata-se de algo que continua vivo. Eu considero que continua vivo. Estas práticas musicais são dadaístas ou uma consequência dessa tendência. Lembro-me que, aqui há uns anos, quando fiz uma conferência na Faculdade de Belas Artes de Lisboa sobre o dadaísmo e suas influências na actualidade, abri a minha intervenção com um tema de Maja Ratkje em que a ouvimos aos berros e depois a processar os gritos electronicamente. A peça é ensurdecedora, violentíssima, ultrapassando tudo o que o metal e o punk fizeram.

Iniciei a minha palestra com aquilo, interrompi de repente e disse «boa tarde!». As pessoas desataram-se todas a rir. Aquilo foi um acto dadaísta. Depois fui falando de vários exemplos do dadaísmo propriamente dito, que até não teve grande expressão musical, e apresentei exemplos da actualidade que continuavam as premissas dos dadaístas no início do século XX.

Sobre o teu mais recente trabalho, «’A’” Maiúsculo com Círculo à Volta», o que nos podes desvendar desse novo livro. De que se trata exactamente?

O título «’A’” Maiúsculo com Círculo à Volta» permite que a capa seja apenas uma figura, um ‘A’ maiúsculo com círculo à volta. E o ‘A’ com círculo à volta é o ‘A’ de anarquia. Este é o meu livro anarquista. Há coisa de um ano coloquei duas hipóteses: ou fundava uma organização de guerrilha urbana, o que poderia ser perigoso para mim (risos), ou aprofundava uma série de conhecimentos sobre o pensamento anarquista e libertário, sobretudo o mais recente, que é extremamente rico. Investiguei alguns nomes que ainda não conhecia de autores mais recentes, muitos deles, curiosamente, americanos, e encontrei um mundo fascinante.

A ideia de que parti para este projecto foi: ok, quando estamos a falar de algum jazz e de improvisação refere-se o impulso libertário, a influência anárquica. O meu desafio foi verificar no que é que isso consistia realmente. Há também aquela conotação que se faz entre o punk e a anarquia, às vezes abusivamente, porque há muito punk que não tem nada que ver com anarquismo. Mas achei que havia ali um tema, uma possibilidade de equação, música e anarquia, e foi isso que me propus explorar. O que daí resulta é este livro com ilustrações de 11 artistas ligados à Chili Com Carne. É um livro provocatório e louco, por vezes humorístico, ainda que com alguma acidez.

Tanto o «Bestiário Ilustríssimo» como o «’A’” Maiúsculo com Círculo à Volta» são complementados por ilustrações. Porque razão fazes questão de utilizar este recurso nos teus livros?

É simples. Porque sou fã das artes visuais, da banda desenhada, do cartoonismo, da ilustração.

E já que falamos de livros e de ilustrações, fala-nos de um livro que gostavas de ter editado, o «Senso» com Carlos «Zíngaro».

Esse foi, infelizmente, um livro que ficou na gaveta. O «Senso», que era um livro mais literário do que propriamente ensaístico, amplamente ilustrado pelo Carlos «Zíngaro», estava para ser editado pela Hugin. Há dez anos fui bater à porta da editora com o livro já paginado e não estava lá ninguém. Liguei para lá e não me atenderam. Sendo que, um mês antes, eu tinha falado com os editores para definir os últimos pormenores relativos à publicação. Naquele espaço de um mês, a Hugin faliu e fechou. E eles esqueceram-se de me dizer fosse o que fosse, o que, enfim, é lamentável. Fiquei com o livro na mão. 

Contactei então cerca de 30 editoras, mas o facto de o livro ser um quadrado constituía um problema. Implicava um corte de papel caro. Houve duas ou três que se interessaram, mas também declinaram depois de fazerem as contas, pelo que o objecto ficou a apanhar pó lá em casa. Poderás perguntar, então porque é que não publicaste esse livro em vez do «Bestiário Ilustríssimo»? Bom, porque entretanto já não me reconheci em alguns dos textos e achei que tinha de aparecer com uma coisa nova, em vez de voltar 10 anos atrás.

Estará a precisar de uma reciclagem?

Um desses textos aparece no «Bestiário» e outros desse livro vão aparecer no segundo volume, que se tudo correr bem será publicado em 2014. Por exemplo, 40 partituras em prosa para violino e grupos de corda à maneira do Fluxus e de Yoko Ono.

Para terminar, quando é que te vais dedicar à música barroca?

A música barroca é uma das minhas paixões. Aliás, estudei flauta barroca com um professor privado, o Hélio. Encontrei-o ontem, já não o via há imenso tempo. Tive de desistir porque, enfim, não tinha tempo para tudo. Ao mesmo tempo que estava a estudar flauta barroca, comecei a usar flautas de bambu, madeira e cana e a tocar uma mistura de blues, rock, jazz, música árabe e música indiana. Uma coisa estranha, com intervalos curtos, multifónicos, harmónicos. 

Aqui há tempos o Bruno Parrinha ofereceu-me uma flauta de bambu e voltei a dar uns toques outra vez. A música barroca é algo que ouço frequentemente, mas não me atrevo a escrever sobre ela porque, enfim, não dá para escrever sobre tudo.





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* Originalmente publicada a 12 de Julho de 2013, na Le Cool Lisboa * 400

Le Entrevista a Júlio Resende por Pedro Tavares

No seguimento do seu último álbum, o You Taste Like a Song, e na expectativa do concerto incluído na Festa do Avante de 2011 (leiam o artigo nesta edição da Le Cool Lisboa 303), Pedro Tavares entrevista Júlio Resende, músico de jazz, pianista, tudo.

Vais actuar na Festa do Avante no dia 4 de Setembro com o teu quarteto com Perico Sambeat, com o Joel e com quem mais?

Com o Matt Penman.

Fala-me um pouco do que se vai passar lá.

Vai ser a extensão deste último disco "You Taste Like a Song" em trio, vai passar a quarteto. E daí trazer novas possibilidades, novas cores à música. É um elemento mais, um elemento que é um músico extraordinário. Tudo se fará para que o conceito do disco se consiga colocar nesta formação também, em quarteto. Estou muito contente por colocar o Perico e o Matt a tocar juntos. Acho que eles se vão divertir muito e nós também.

Este ano apresentaste o teu último trabalho com um concerto na Culturgest, com um trio em que Matt Penman era convidado especial.

Bem, foi uma alegria gigante em vários sentidos. A Culturgest foi o primeiro sítio ao qual vim a Lisboa ver um concerto, teria para aí 18 anos. E passados 10 anos, estar lá a tocar no grande auditório, e com o Matt Pennam como convidado e com o meu companheiro Joel Silva, foi uma grande alegria. E que me deu um retorno musical que não é facilmente igualável e que eu espero repetir nos próximos anos.

Como surgiu a música na tua vida, tinhas antecedentes na família.

O meu pai toca um bocado de guitarra e foi ele que me comprou o teclado. E a partir daí o teclado fez sempre parte de mim. E o piano, depois mais tarde. Tinha quatro anos quando comecei a tocar.

E o jazz aparece quando na tua vida.

O jazz aparece mais tarde, aos 14/15 anos. Funk, música de fusão e o jazz, começa a aparecer tudo mesclado. E vou descobrindo que há uma música que tem a ver com improvisação. Que é o jazz. Improvisação essa que eu já faço quanto estou a tocar. Invento melodias. E sendo o jazz uma música que faz isso como essência, tentei perceber o que se passava. Gostei muito e descobri alguns discos, Joshua Redman, Coltrane, coisas que me iam emprestando também. Pat Metheny, Jim Hall. Foram os primeiros discos, os primeiros discos de jazz, jazz. Antes ouvia outras coisas, rock, pop.

Tanto quanto sei o Zé Eduardo foi fundamental para ti.

O Zé Eduardo foi a primeira pessoa, estando eu em Olhão e ele um músico de jazz que morava em Faro e dava aulas, foi a primeira pessoa que me deu as primeiras aulas de jazz mais a sério. Só tivemos tempo para duas aulas. Depois eu vim para Lisboa morar e ele deu-me o contacto do Rodrigo Gonçalves.

E que outras pessoas marcaram o teu percurso.

A minha professora de piano clássico do Conservatório em Faro, o Rodrigo Gonçalves. Essas pessoas vão orientando o teu percurso em termos musicais. Os discos sempre foram os meus maiores professores, são o país do jazz.

Quais são as tuas maiores influências além dos Beatles e dos Pink Floyd?

(risos) Em relação ao jazz, já ouvi e conheço muita coisa. Há uns que gosto mais, mas não posso dizer que me sinta influenciado por alguém em particular. Porque a música que faço tem muito a ver com experiências de vida, reflexão, cinema. Doutros sítios e coisas que te vão alimentando a alma de modo a poderes fazer música. Em relação aos Pink Floyd, Radiohead, Clã, Ornatos Violeta, Chico Buarque, João Gilberto, Jeff Buckley. Ouço muita coisa e tudo isso contribui para a minha música.

Neste momento o que andas a ouvir?

Neste momento comprei o CD do Ben Allison, contrabaixista. Comprei outro CD de Henry Arlan, ao vivo em Paris, que é muito bom. Tenho ouvido o novo CD dos Radiohead que também anda aí. E vou ouvindo outras coisas, o Jorge Palma (risos).

O que procuras na música, o mais concretamente na tua música.

Coração.

Coração? De resto no teu último trabalho há uma quantidade de frases. E há lá uma que fala precisamente do coração. Fala da alma, fala de coração.

Ah ok. Sobretudo o que quero é que a música seja uma força viva, viva no sentido de que não quero estar preocupado se é tecnicamente difícil ou tecnicamente fácil. Quero estar preocupado se isso está a servir a música, independentemente de ser difícil ou fácil, e normalmente é as duas coisas, quero que tenha um significado maior. Que tenha a ver com o coração, com a comunicação de mim para outros, de mim para a vida. E isso é importante para mim.

O que serve o quê, a técnica serve..

É sempre a técnica que serve a música.

Ou a arte, neste caso.

A arte, sim.

Qual o teu conceito de improvisação. Como filósofo, pensa-la?

Penso bastante. A improvisação é um espaço de liberdade, o que quer dizer que não tens que estar preso a nenhuma linguagem, nem a nenhuma história, inclusive à história do jazz, à linguagem do jazz. O jazz sempre foi uma música de rotura e sempre quis fazer disso uma pedra basilar da sua fundação. Nesse sentido é possível, até dentro do jazz, romper com a linguagem jazz, com aquilo que é mais canónico. É uma das coisas que mais gosto no jazz e é um dos conceitos de improvisação que mais me agrada. Improvisar também é – como alguém me disse um dia– compor em fast up. Isso quer dizer que quando estamos a compor, há mais coisas de ti que aparecem. O conseguires fazer da improvisação uma composição instantânea, uma composição no imediato. Isso é um bocadinho difícil. Fazer com que a improvisação seja um bocadinho tua. Sem grande fórmulas ou então a fórmula que tu já és. Aquilo que conseguiste adquirir em ti, é natural que assim seja. Uma espécie de natureza musical que está em ti, posta facilmente quando estás a tocar. Não que seja muito pensado, ou que seja pensado para ser difícil ou fácil. Pensada para ser natural. Natural e que tenha a ver comigo. Sou eu.

Eu também sou artista, e neste momento desde há cerca de meio ano desenvolvo um trabalho que se sente precisamente na improvisação dos desenhos que faço. Ao improvisar os desenhos nunca saem iguais, mesmo que queira fazer aquele modelo. O jazz têm limites para improvisares ou quando improvisas não estás obrigado a cumprir limites, a seguir paredes. Podes improvisar para onde quiseres?

É uma pergunta difícil.

Eu penso assim para o desenho.

Há uma questão, uma premissa, que é saber se estás a tocar sozinho ou com uma banda. Se estás a tocar com uma banda e com composições originais, elas estão estruturadas, têm uma estrutura. São temas. Podes fazer várias coisas, mas para romper com esta estrutura, tens que comunicar muito bem com a banda. tem que ser tudo muito bem comunicado musicalmente. Isso é muito interessante. Tu conseguires, dentro de uma estrutura, de repente olhar para a banda e construir uma banda que perceba que, se calhar, queres sair fora da forma e ficar só num momento sem forma, sem estrutura.

Pode ser trabalhado, em casa, em ensaios, mas, sobretudo, é mais fácil ser feito com uma comunicação musical, quando se está a tocar com uma banda capaz dissso. Esse é um limite do jazz quando estás a tocar em grupo. Quando estás a tocar sozinho podes ir para onde tu quiseres. Há sempre limites, tocas num piano, não tocas fora dele. Usas o piano, usas as suas possibilidades.

Mas dentro da estrutura também gosto de estar fechado numa estrutura e fazer qualquer coisa como parecer que estou a romper isso. Isso é o mais interessante do jazz, na minha opinião. Tocar um standard, que é uma estrutura fixa, uma estrutura que foi repetida n vezes, mas que tocá-la pode ser tão diferente em cada pessoa e isso é uma coisa que dá muito que pensar. Tu tens uma tela ou uma folha de papel, tens que fazer algo de novo...

Eu tenho os limites da folha e tenho que procurar um caminho ali dentro.

Exacto. E lá dentro pode ser tão maior do que aquela folha, e isso é interessante. De qualquer modo tem que estar contido à folha, senão não cabe.

Tocar um standard tem a exigência, por isso é um standard. Quando vais fazer a interpretação dum standard, sabes que há inevitavelmente a comparação ao standard.

É isso, por aí. Já foi tantas vezes repetido, que tem que ser dito com uma força diferente.

A filosofia tem sido determinante para o teu trabalho?

A filosofia enquanto acto de reflexão é determinante para qualquer pessoa na vida. Na arte é igualmente importante, tens que reflectir sobre aquilo que fazes. Sobre aquilo que queres fazer, sobre aquilo que és. Se aquilo que fazes faz sentido, se o sentido vem de ti ou te é dado por outra pessoa qualquer. E isso até se torna um pouco falso. Encontrar sentido, fazer sentido. E reflectir sobre aquilo que aconteceu e sobre aquilo que queres que aconteça. Sobre aquilo que tu és. É parte de qualquer humano que se queria dizer como tal. Enquanto ser pensante. A filosofia é muito importante. A própria filosofia no ponto de vista de literatura e aquilo que eu li e filósofos que eu conheci, também me inspiram.

Tens editado de dois em dois anos...

Exacto.

E editaste um álbum em Fevereiro. No entanto, já pensas noutro projecto ou vamos ter de esperar mais dois anos, inevitavelmente?

Estava a fazer uma música antes de vir para aqui. Provavelmente dois anos e sai um novo disco meu. Acho que os discos merecem algum tempo, pelo menos um ano, normalmente merecem. Mas tenho outros projectos, o projecto com a Maria João, que vai sair no final deste ano.

O projecto Ogre.

O projecto Ogre. O projecto com a cantora Elisa Rodrigues no qual estou muito empenhado. E outros projectos que ainda não têm edição pensada, mas dos quais eu vou fazendo parte. O meu grupo e o que vai acontecer, ainda não penso nisso, talvez daqui a alguns meses, largos, comece a pensar.

Nos projectos em que estás envolvido és o líder ou o frontman?  

Nesses que acabámos de falar.

Eu vi-te tocar naqueles duetos do CCB e depois vi-te tocar num Jazz às Quintas, com o Joel Silva, se não estou em erro. Foi uma quinta-feira em que deram um concerto que fica para a memória.

Ainda bem. Foi um momento ocasional, era aquela série de duetos que existe no CCB durante o Inverno, entre um músico português e um músico estrangeiro. Foi um concerto montado para fazer esse conceito e que me deu grande gozo. Gostava até de ter gravado, mas...

Não pensas em manter esse dueto.

Para um próximo disco não, mas talvez mais tarde. O próximo disco ainda não sei muito bem qual será a formação, mas começará no trio.

Mas na Festa do Avante será quarteto. E esse é um quarteto teu, fixo?

Sim, esse é um quarteto com que eu espero vir a tocar mais vezes. De qualquer modo, estes próximos anos serão mais dedicados ao trio. Eu, enquanto músico de jazz gosto de tocar em várias formações. Eu próprio fazer várias abordagens. Isso alimenta-me, desafia-me e faz-me crescer.

E editar um álbum com um trio, esta formação, esse pode ser o próximo álbum a lançar?

Pode ser.

Os teus três trabalhos até agora editados, não apresentam nunca uma formação base. Existe sempre um ou outro  elemento comum – o Joel, o Bruno Pedroso, um elemento comum, mas aparecem sempre vários nomes. Existe alguma razão especial para que assim seja?

Sim. Ainda que tenha uma base, como neste último disco era o Joel e o Ole, e depois toco regularmente com o João Custódio, músico português, e com o Bruno Pedroso. Eu quis que fizessem parte deste disco porque eles são parte da minha música. Daquilo que é construído ao longo destes ano, em que eu passo a pensar ou a tentar construir esse disco. E gosto que eles façam parte disso. Para além de trazerem no próprio disco, às vezes uma cor diferente. E isso é sempre interessante do ponto de vista de quem está a ouvir. Passa por aí, passa por isso tudo.

Da Alma, Assim Falava Jazzatustra e You Taste Like a Song. Fala-me sobre destes três discos, em que diferem, evoluções e se há espaço para mais.

Os dois primeiros são em quarteto, formação que sempre gostei e este último em trio. Sobretudo os três duma coisa que é aquilo que me agrada mais, sobretudo vivem por serem temas meus. Não por serem meus, mas torna os discos em obras mais pessoais. Se calhar antes não conseguia fazer dum standard uma coisa tão pessoal. Acho que agora já consigo. Não fazia muitos standards. Tinha muitas coisas minhas para dizer e os meus temas são isso. Gosto disso nos três discos, e gosto muito dos músicos que lá tocam, em cada um dos discos. E muitas vezes ouço, sobretudo por causa deles. O primeiro disco tem o Zé Pedro, o João Lobo, o João Rijo. Gosto de ouvir e reouvir. Na verdade, nem os ouço muito. Ouço mais quando eles estão quase a sair. Tenho que ouvir os takes e depois tenho que descansar um bocado disso. Gosto muito do segundo, o Perico a partir a loiça, é muito gratificante ouvi-lo nesse disco. E este último é o que me dá mais espaço, também me exige mais, mas estou contente.

Gosto muito dos teus três trabalhos, talvez mais este último. Talvez este último me diga mais qualquer coisa. Há ali muitas influências rockeiras. Neste último há um maior tratamento na textura sonora. O som é mais clean. Há um cuidado maior, deste um destaque maior à textura.

A qualidade da gravação também é muito superior, gravámos o primeiro disco num auditório. Sem as condições para gravar um disco. Actualmente com a qualidade de som que os discos têm... Não o fizemos nas condições ideais. O último foi gravado num estúdio, com condições xpto, e isso torna logo o som diferente. Em relação à própria música, eu espero ter evoluído e espero feito com que a música tenha ganho alguns pontos de clareza. Mais pelas performances. A minha própria performance.

Porquê o nome You Taste Like a Song.

Porque eu gosto muito de canções. Há uma expressão na música clássica, que é o cantabile. Que quer dizer que o pianista, neste caso um pianista ou outro instrumentista, tem que tocar de modo a que pareça que está a ser cantado. E normalmente melodias que são pensadas para ser cantadas, o canto exige respiração. O saxofone também exige respiração, mas os instrumentistas têm mais vícios a dar muitas notas.

A sensação que me dá neste último álbum é que tu tocas as composições, todos os temas de modos diferentes, com o teu cunho. E dás a provar com o título, para mim que sou o cliente final ou para o público geral a provar, o jazz de várias maneiras e várias formas. Um sai mais ao estilo do rock e outro ao estilo do jazz?

Eu podia responder mas a frase é tão bonita e não fui eu que a inventei. É quase como um verso e não merece que a gente a desfaça ou a descodifique. Acho que é mais interessante assim.

Até agora todos os teus discos levaram o selo da Clean Feed. Como aconteceu, como nasceu esta relação.

À maneira antiga, com uma maquete que eu enviei à Clean Feed e que o Pedro Costa decidiu então gravar comigo e temos tido uma relação bestial desde então. Com o primeiro disco, com o segundo, com este agora. Estamos ambos contentes e acho que vamos continuar.

Foste convidado para tocar no 10º aniversário da Clean Feed. Que representou este momento para ti?

É incrível que uma editora portuguesa, de jazz, esteja neste momento tão cotada e interessante. Estamos a falar dum país onde o jazz não tem uma expressão muito significativa, mas tem uma editora de jazz que é considerada uma das melhores do mundo. E tem músicos de jazz, que para mim, são dos melhores do mundo. E, nesse sentido, é uma felicidade que tenham durado estes 10 anos. E fiquei muito feliz de ver as mensagens de cada músico espalhadas pelas paredes. Venham mais.

Crês ser um reconhecimento de todo um trabalho, foi uma aposta ganha?

Eu espero que sim, foi sobretudo uma relação que deu bons frutos para ambos, acho que eles estão contentes por me terem no seu catálogo, um músico português, que tem felizmente tido das melhores críticas lá fora e eu fico muito contente por ter uma editora interessada na minha música.

Somos um país pequeno com um mercado e um público bastante limitado. Temos uma óptima publicação bimestral como é a Jazz.pt, temos várias editoras com destaque para a Clean Feed, que é considerada pela especialidade uma das melhores do mundo. Óptimos festivais e excelentes músico. Que balanço fazes da cena do jazz no nosso país? Como prevês o futuro? Somos um case study ou o jazz está na moda?

O país é pequenino como disseste. E tem, felizmente, músicos que não são nada pequeninos. Levam o país além fronteiras e dentro do país, aumentam. Em relação à cena jazz isso acontece. Era bom que o país tivesse mais força para exportar os seus artistas Isso é um problema do país, não da arte. É um problema da imagem do país, um problema político. Em relação ao futuro do jazz há cada vez mais escolas, o que é bom, mas é necessário haver mais sítios para tocar. Há muitas pessoas por aí, que serão grande músicos e não terão grandes oportunidades para tocar. Há cada vez mais gente formada. O Hot Clube teve um incêndio e felizmente vai reabrir, e espero que abram a pouco e pouco vários clubes de jazz pelo país. O Engenheiro Bernardo Moreira disse numa entrevista uma coisa que me pareceu muito acertada, que é que às vezes se gasta muito dinheiro em festivais de jazz. Se houvesse alguém a fazer um clube de jazz e a apoiar esse clube de jazz, as pessoas da vila ou da cidade, fosse possível ir ver um concerto semanal, criando um culto em torno do jazz e não fazendo tudo em dois dias e gastar rios de dinheiro nisso e não haver mais nada durante o ano. Isto parece-me uma excelente ideia, para além dos músicos tocarem pelo país. Mesmo ganhando menos, mas tocando mais vezes. Isso é o que gostamos de fazer, de tocar. Isto é uma boa ideia, mas duvido que aconteça.

António Pinho Vargas, Mário Laginha, Bernardo Sassetti, João Paulo Esteves da Silva, Rodrigo Pinheiro. Tu. Como te sentes em relação aos outros, sentes-te herdeiro, ao mesmo nível.

Sinto-me herdeiro, obviamente. Ouvi-os, foram pessoas que eu ouvi. E agora sinto-me como um amigo que aprendeu e que está a disposto a fazer a sua própria natureza musical crescer. Eles são incríveis, e são incríveis porque são muito singulares, aprenderam a cultivar isso nas suas carreiras. Eu espero fazer o mesmo, em relação ao peso que têm na história do jazz em portugal. A história demora a fazer-se e eu espero ter tempo para fazer parte disso. Para poder fazer parte dela, vivendo nela.

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* Originalmente publicado a 1 de Setembro de 2011, na Le Cool Lisboa * 303