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Le Entrevista a Susana Santos Silva e Torbjörn Zetterberg por Pedro Tavares [PT]

Recuperamos a entrevista que o Pedro Tavares conduziu com a trompetista portuguesa Susana Santos Silva (SSS) e o contrabaixista sueco Torbjörn Zetterberg (TZ). Calha bem, até porque se juntam novamente em Lisboa para concerto na Culturgest, no ciclo «Isto é Jazz?», comissariado por Pedro Costa, a 9 de Outubro.

Como correu o concerto? 

SSS : Gostei muito, estava inspirada. 

TZ : Foi divertido! É um sítio estranhamente inspirador.

SSS : Estranho não!

TZ : Não, não é estranho de todo! É apenas pouco habitual tocar num sítio assim.

Como se juntaram?

TZ : Bem, conhecemo-nos... Basicamente, conhecemo-nos num safari de vacas em Portalegre.

SSS : É autêntico!

TZ : Sim, é verdade. Na verdade soa...

SSS : Estávamos a tocar no festival Portalegre Jazz em Setembro [2012] e o Pedro Costa levou-nos num safari pelo meio das vacas. E então começámos a falar em tocar juntos. Eu fui a Estocolmo em Dezembro e gravámos o CD [«Almost Tomorrow», Clean Feed, 2013].

TZ : Na verdade, a primeira coisa que ouvi foi Lama [Lama Trio] que estava no alinhamento deste festival [Portalegre Jazz]. Essa, imagino, terá sido a primeira parte desta ideia musical.

SSS : Ele pensou que eu era maravilhosa.

TZ : Eu disse isso?

SSS : (ri-se) Estou a brincar.


Um dueto de trompete e contrabaixo. Se considerarem as características dos instrumentos... qual foi o entendimento? A apostar mais no experimentalismo?

SSS : Sim, não?


TZ : Não tínhamos nenhum compromisso quanto ao que tocar quando começámos. Assim, as primeiras coisas foram completamente não planeadas, não tínhamos nenhuma, nenhuma...


SSS : Ideia pré-concebida.

TZ : Pré-concebida, a começar. E então tínhamos algumas músicas que tentámos depois.

SSS : E a primeira música que gravámos, é a primeira faixa do nosso CD, não é?

TZ : Sim, está certo. 

SSS : Então começámos a colocar algumas coisas no papel, algumas pequenas ideias, ideias musicais, melodias e outras coisas, que pudessemos depois pegar e ensaiar.

TZ : Como… é experimental no sentido de ser tão música experimental quanto experimentarmos com o grupo e vemos aquilo que realmente podemos fazer. Também estamos a testar músicas não-experimentais, algo assim. Do meu ponto de vista, é testar o que podemos fazer com o contrabaixo e o trompete, o que pode caber no conceito... e connosco, também.

As vossas faixas mostram uma forma mais afirmativa de tocar e a abordagem instrumental é um pouco mais dura. Reparei nisso especialmente no tema «Knights of Storvålen». O que sentem quanto a esta afirmação?

TZ : Não sei quanto à afirmação, mas estou a pensar no todo... especialmente essa canção e algumas outras no CD... é bastante inspirada no ambiente onde foi tocada e gravada... Foi um Inverno duro...

Numa cabana coberta de neve...


TZ : Sim, tu leste! Era realmente nas montanhas, no Norte da Suécia. 

SSS : Sim, em Dezembro. 

TZ : Era muito sossegado, topos de montanha, imensa neve... um misterioso vibe. É assim que o imagino! É algo de que falámos... ainda que não o tenhamos posto na música, falámos em tentar capturar a atmosfera o máximo que pudéssemos. 

SSS : O sentimento que tínhamos era de transportá-lo para a música...

TZ : Acho que conseguimos fazê-lo.

SSS : Acho que sim! Boa!


Parece que há uma certa influência árabe nesta composição. É possível?


SSS : Ah, a chegada de Colombo... onde?

TZ : Härjedalen.

Onde é Härjedalen?

TZ : O local onde gravámos. 

SSS : Bem a Norte da Suécia. E é como: Colombo... devemos explicá-lo?

TZ : Força.

SSS : Não, explica tu porque foi tua a ideia... Colombo, sabes, ele perdeu-se e em vez de rumar à Índia, acabou em Härjedalen. Essa é a chegada de Colombro a Härjedalen.

TZ : E essa será a nossa ligação, português e sueco.

SSS : Sim. 

TZ : Bem, não sei... penso que essa canção...

SSS : Apenas saiu assim, não foi? 

TZ : É tão difícil de falar dela depois [da canção] porque, quando improvisas, quando as coisas vêm instantaneamente, é realmente difícil dizer de onde vieram... Nós temos todas estas influências, mas...

SSS : Bem, eu estava realmente a fazer algumas experiências, a tirar este pistão da válvula, para conseguir estes sons estranhos. Toquei, saiu assim, começámos a gravar e foi isso.

TZ : Será que isso a faz oriental?

SSS : Não, mas o som que retiras... A afinação que se consegue ao tirar esta válvula... torna-se estranha e monotónica de alguma maneira. Talvez por isso tenha este som, não?

TZ : Claro, se tu o dizes (ri-se). Eu diria que, desde que não tenhas nada específico em mente, quaisquer influências serão possíveis, dado que estamos a ouvir tantas coisas.

SSS : Diferentes tipos de música... A um dado ponto, mais cedo ou mais tarde, elas despontarão se continuarmos a tentar experimentar. Não foi propositado.

Que me podem dizer mais sobre o álbum que gravaram para a Clean Feed Records, o «Almost Tomorrow»?

SSS : O álbum foi gravado em Dezembro, nesta cabine nas montanhas. Foi uma experiência magnífica porque estávamos a fazer todas estas coisas na neve. Sabes, ir esquiar...

TZ : Down skiing, cross country skiing, snow scooter

SSS : Para mim foi uma experiência extraordinária, pois nunca o tinha feito. Foi a primeira vez que esquiei e, claro, tentámos colocá-lo na música de alguma maneira. Gravámo-lo, enviámos ao Pedro [Costa, da Clean Feed Records] e ele gostou.

Sei que têm vários concertos marcados para este ano. No entanto, qual o futuro para este dueto, o que podemos esperar?

TZ : Bem, falámos em fazer mais digressões e mais gravações, mas ainda é cedo para fazer planos.

SSS : Sim, quero dizer, pensamos no CD, na digressão e em tudo; mas parece-me que nos devemos concentrar no CD. Devemos tentar marcar concertos e digressões para promover este álbum. Esse é o nosso próximo passo!

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Enlace : http://ssstz.tumblr.com

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* Originalmente publicado a 3 de Outubro de 2013, na Le Cool Lisboa * 409

Le Entrevista a Nobuyasu Furuya por Pedro Tavares e Rafael Vieira [PT]

Fotografia por Nuno Martins.

Podíamos dizer que este saxofonista  e clarinetista é o japonês mais português. E um cozinheiro formidável. Falámos e partilhámos da sua música e paixões, em relação ao jazz e a Lisboa.


Primeiro Istambul, então Berlim e depois Lisboa, porquê? 

Porquê? Foi apenas um sentimento. Antes de decidir ficar em Lisboa, viajei até cá, talvez uma ou duas vezes e tive sempre um óptimo pressentimento em Lisboa. Que podia fazer a minha música aqui. A atmosfera antiga e os sentimentos de Lisboa e dos portugueses marcaram-me positivamente. Não pensei muito, simplesmente vim e tentei ficar. 

Como é que a música apareceu na tua vida?

Para mim a música é um trabalho que estou a fazer, mas claro que não consigo fazer dinheiro com isso. Mas concilio essa parte da minha vida, o meu trabalho tal como as minhas criações e eu, e tudo é completamente parte da minha vida. Não faço música, mas estou a fazer música e isso tornou-se parte da minha vida.

Tertúlia Jazz 2, na Livraria Barata




Joaquim Monte, «Sou um sortudo»

texto: Pedro Tavares 
fotografia: Nuno Martins

Regra geral, os apreciadores de música não estão conscientes da estrutura que está em redor dos músicos e que faz com que a própria música exista. É o caso da gravação, da fotografia, do «design» ou do trabalho de edição. Os músicos são o centro da atenção, mas para que o seu trabalho chegue ao público é necessário que todo um conjunto de pessoas garanta as condições da sua actividade.

Uma dessas figuras de bastidores é Joaquim Monte, director do estúdio de gravação Namouche, em Lisboa, responsável por uma grande fatia dos registos de jazz que se fazem no nosso país e não só. 

Esta segunda Tertúlia Jazz realizou-se na Livraria Barata em Julho passado, com a participação do público presente, e é agora reproduzida em simultâneo pelas revistas online Rua de Baixo, Le Cool Lisboa e jazz.pt. 

Como é que nasceu o Estúdio Namouche?

Inicialmente pertencia à Rádio Triunfo, mas não sei a história em detalhe. Foi com Arnaldo Trindade, em Abril de 1973, que passou a chamar-se Namouche. Inicialmente situava-se em Campolide, tendo-se transformado mais tarde num estúdio também muito conhecido, o Xangrilá. Há uma história curiosa com José Fortes, que inaugurou aquilo como director técnico. O Namouche abriu a 25 de Abril de 1973 e ele estava, na véspera, com um colega a fazer os últimos retoques. O colega disse-lhe: «Que grande dia! Amanhã devia ser feriado.» Um ano depois deu-se o 25 de Abril e neste dia é feriado deste então. Passou por lá muita coisa e durante muito tempo fez-se, essencialmente, publicidade.

Le Entrevista a Peter Evans (Octeto) por Pedro Tavares [PT]

O Peter Evans Octet vai tocar a 8 de Agosto em Lisboa, durante a 30ª edição do Jazz em Agosto na Fundação Gulbenkian. O Pedro Tavares trocou umas palavras familiares com o músico.

Este octeto surge do teu quinteto, com a inclusão de Brandon Seabrock, Dan Peck e Ian Antonio. O que estás a tentar alcançar e/ou explorar com esta adição e com estes músicos? 

Este grupo é sobretudo sobre juntar personalidades e «vozes» musicais incríveis - todos estes tipos são únicos. Posso dizer sobre os músicos que eles são «caracteres» extremos, em alguns casos, completamente lunáticos. Então a ideia é gerar uma situação e que os seus estilos e sons possam ser combinados e libertados para o público em geral. O meu objectivo é explorar com composição e improvisação com estes músicos e permitir que todos explorem o seu máximo alcance. Quase todos tocam múltiplos instrumentos.

Fala-me da importância de Mark Gould e Evan Parker no teu trabalho como músico.

Ambos são importantes influências e mentores na minha entrada na música criativa!

Quais são os teus favoritos trompetistas?





Aqui tens uma lista de alguns dos meus favoritos:
Roy Eldridge, Kenny Wheeler, Woody Shaw, Axel Dörner, Mongezi Feza, Nate Wooley.

Le Entrevista a Peter Evans (Octet) por Pedro Tavares [ENG]

Peter Evans Octet is due to play on the 8th of August 2013 in Lisbon, while on the 30th edition of Jazz in August (Jazz em Agosto) in Gulbenkian Foundation. Pedro Tavares exchanged a few familiar words with the musician.

This octet comes from your quintet, Brandon Seabrook, Dan Peck and Ian Antonio coming in. What are you trying to achieve and/or explore with this addition and with these musicians?

This group is mostly about featuring incredible personalities and musical voices - all of these guys are so unique. I can say about all of the players that they are extreme “characters”, in some cases complete lunatics. So the idea is to provide a situation where their sounds and styles can be combined and unleashed on the general public. My goal is to explore and experiment with composing for and improvising with these musicians and allowing everyone to explore their full range.  Almost everyone is playing multiple instruments. 

Tell me about the importance of Mark Gould and Evan Parker in your work as a musician.


Both are important mentors and influences at my entry into creative music making!

Who are your favorite trumpeters?

 Here is a short list of some of my favorites: Roy Eldridge, Kenny Wheeler, Woody Shaw, Axel Dörner, Mongezi Feza, Nate Wooley.

«QUANDO OS LOBOS UIVAM» (Mostra de Jazz-Off) por Pedro Tavares

Domingo, 23 Junho de 2013
Curadoria : Francisco Trindade / Direcção de Produção: Miguel Sá 
Um evento Fata Morgana 

Texto : Pedro Tavares
Fotos : Nuno Martins

No âmbito do centenário da Livraria Sá da Costa, situada em pleno coração do Chiado, realizou-se a 22 e 23 de Junho (sábado e domingo) a Mostra de Jazz-Off. Este evento integrou cerca de 30 músicos divididos por 8 projectos de diferentes estéticas do movimento artístico intitulado «Quando os Lobos Uivam».
 
CUNNILINGUS VERSUS FELLATIO

As honras de abertura da segunda noite do Jazz-Off ficaram a cargo de um quinteto  inédito, composto por quatro saxofones (tenor, soprano, barítono e alto) e um trombone. Era uma das actuações mais aguardadas, dada a especificidade instrumental.

Faltou intensidade no diálogo, tendo o grupo optado por uma lógica de contenção. Ainda assim, destaque para Matthieu Ehrlacher, no saxofone barítono, que tentou romper com a tónica dominante e impor mais liberdade na forma de tocar. Diogo Picão, no tenor, e Fernando Simões, no trombone, tiveram um ou outro rasgo de criatividade com algum interesse. Foi uma actuação que ficou aquém das expectativas!

VIMARANIS ENSEMBLE

O segundo concerto, e diga-se de passagem o melhor da noite, teve como intervenientes Manuel Guimarães (guitarra), Maria Radich (voz), Gil Dionísio (violino e voz) e Tiago Varela (acordeão). 

O rumo, se é que se pode falar de um rumo num projecto como este, foi conduzido inicialmente por Maria Radich que, como já vem sendo habitual, enriqueceu toda a actuação com a sua voz. Com o desenrolar do tempo, apareceu outra voz, a de Gil Dionísio, que estabeleceu com Radich uns diálogos verdadeiramente interessantes, acompanhados pelo seu violino. O acordeão de Tiago Varela testemunhou toda a actuação como pano de fundo, a recordar um belo tango, enquanto Manuel Guimarães colocava umas pinceladas intensas no confronto das vozes.

Em suma, tratou-se de uma performance equilibrada, forte e convicente, onde Gil Dionísio esteve de facto magistral!

LE VICE ANGLAIS

A terceira proposta da noite coube ao duo Bruno Parrinha (saxofone alto) e Ricardo Pires (guitarra eléctrica). Os músicos arrancaram com um diálogo intenso entre o saxofone e a guitarra eléctrica que, como o próprio nome indicava, prometia viciar a plateia. 

No entanto, aquele registo durou apenas alguns instantes. Um desentendimento no «gigante» jogo de pedais do Ricardo Pires deitou por terra um momento de jazz que reunia todos os ingredientes para ser único. Irremediavelmente, os acontecimentos que ditaram o fim prematuro do primeiro set acabaram por condicionar a restante actuação. Faltou coesão e entendimento na segunda metade. No entanto, não passou despercebido o saxofonista Bruno Parrinha, que mostrou por que é considerado um dos melhores improvisadores da cena jazz/improv nacional. Merecia mais… 

DRAMA

A encerrar a mostra, André Gonçalves, Carlos Santos, Miguel Sá, Rui Miguel, em electrónicas, e Luís Lopes em baixo eléctrico, fecharam em grande esta edição Jazz-Off. Se no início revelaram alguma prudência na escolha dos sons, com o tempo o discurso colectivo foi ganhando corpo e ficando mais complexo. 

A inclusão de Luís Lopes revelou-se uma mais-valia, conferindo mais profundidade ao grupo. O guitarrista explorou de uma forma muito interessante a sua guitarra, extraindo sons que mais pareciam vir da electrónica e mostrando, desta forma, uma especial sensibilidade e um grande à-vontade nestas andanças. No global, a performance primou pelo equilíbrio e pela sobriedade.

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* Originalmente publicada a 14 de Julho de 2013, na Le Cool Lisboa * 400

Tertúlia com Rui Eduardo Paes - Cinema City Classic Alvalade por Pedro Tavares

O autor do novo «’A’ Maiúsculo com Círculo à Volta», respondeu às perguntas de Pedro Tavares na primeira das Tertúlias Jazz organizadas em parceria pela Rua de Baixo e pela Le Cool Lisboa. A Jazz.pt associou-se à iniciativa, publicando em simultâneo, com as duas revistas online, a conversa decorrida ao vivo no Cinema City Classic Alvalade, em Lisboa.

texto Pedro Tavares 
fotografia Nuno Martins

Com 29 anos de actividade repartida entre o jornalismo cultural, a crítica de música e o ensaísmo teórico, Rui Eduardo Paes é autor de vários livros sobre as músicas criativas, abrangendo o leque de tendências que vai desde o avant-jazz até à música experimental, passando pelo rock alternativo, a new music e as músicas contemporânea, improvisada e electrónica.

É o editor da Jazz.pt, projecto que transitou para a Internet depois de o ter coordenado durante seis anos de edições em papel. É membro da direcção da associação Granular, dedicada à promoção do experimentalismo na música e nas artes audiovisuais e performativas portuguesas. Vem colaborando com instituições conceituadas, tais como a Fundação de Serralves, a Fundação Calouste Gulbenkian, a Culturgest e a Casa da Música, bem como com a editora discográfica Clean Feed.

Foi um dos fundadores da Bolsa Ernesto de Sousa, durante 20 anos tendo sido membro permanente do seu júri, em representação da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Assessorou a direcção do Serviço ACARTE da Fundação Calouste Gulbenkian e integrou o júri do concurso de apoios sustentados do então Instituto das Artes do Ministério da Cultura, para o quadriénio 2005-2008. A conversa com Pedro Tavares ocorreu na altura do lançamento do novo livro de REP, «’A’ Maiúsculo com Círculo à Volta», e pouco depois de o anterior, «Bestiário Ilustríssimo», saído em 2012, ter tido uma segunda edição. No Cinema City Classic Alvalade, em Lisboa, perante uma plateia bem preenchida e com transmissão em directo pela Rádio Zero, falou-se destas duas obras, mas também sobre jazz, a Jazz.pt, a Granular, o blogue Bitaites…

Pedro Tavares : Embora actualmente escrevas mais sobre as músicas experimental e improvisada, a tua ligação ao jazz é antes de mais diária, mas também o é de sempre, certo?

Rui Eduardo Paes : Certo. Acho que a influência do jazz na minha actividade e na minha vida tem um ascendente, digamos assim. Era a música que se ouvia em casa quando era pequeno. O meu pai era e é um entusiasta de todo o tipo de jazz. Ouve todas as tendências, incluindo as mais contemporâneas, e foi assim que me educou: a ouvir jazz todos os dias. Uma vez que é o tipo de música que mais fui ouvindo ao longo da vida, natural seria que dedicasse alguma atenção ao jazz. De maneira que aparecer como editor da Jazz.pt é uma consequência disso.

Como é possível viver-se da escrita da música em Portugal?

Não é possível, de todo. Durante uns 20 anos fui escrevendo sobre música porque tinha um emprego ora na área do jornalismo, ora em estruturas culturais. Tinha o suporte do ordenado mensal, que me permitia escrever sobre música nos tempos livres, ou seja, à noite, aos fins-de-semana, nos feriados e nas férias. Às vezes, tratava de assuntos que tinham que ver com esse trabalho nas redacções por onde passei: e-mails que recebia e aos quais era necessário responder, pedidos de entrevistas etc. Em 2005 ou 2006 achei que estavam finalmente reunidas as condições para me dedicar só à música, não só escrevendo como também fazendo outras coisas. Durante uns dois ou três anos foi possível viver assim, mas depois tornou-se impraticável.

Continuo a fazer isso hoje a tempo inteiro, mas com consequências a nível financeiro que me têm obrigado, com demasiada frequência, a admitir a possibilidade de, pura e simplesmente, deixar de ter esta actividade. Vou resistindo, vou lutando contra isso. Vamos ver o que é que acontece daqui para a frente. As coisas pioraram muito nestes últimos anos devido à crise e às políticas de austeridade implementadas que, como sabem, têm como primeira vítima a cultura, por isso vamos ver o que acontece. Pode ser que daqui a um ano eu esteja a fazer a mesma coisa, pode ser que não, pode ser que nem sequer ande por cá, logo se vê.

Como é que lidas com a imparcialidade na crítica, uma vez que neste mundo tão pequeno como é o português, quase sempre se conhecem as pessoas sobre as quais estamos a falar?

Tenho uma postura muito objectiva em relação a esse assunto, que é a seguinte: considero que desempenho um serviço público, ou melhor, um serviço comunitário. Aquilo que faço destina-se aos ouvintes, aos músicos, a todos aqueles que lidam com estas músicas, sejam eles editores, produtores, directores artísticos, etc. E isto significa que as pessoas com quem convivo são estas. E eles sabem que o facto de serem meus amigos, e estão aqui vários presentes, não implica que, se fizerem um concerto ou um disco mau, eu elogie o que ouvi. Se é mau, eu escrevo que é mau. Eles sabem que é assim e respeitam isso. Regra geral.

Foste e és editor da Jazz.pt desde o seu início. Seis anos de edições em papel que culminaram no seu encerramento. O país é pequeno, como já foi aqui referido, e o universo do jazz é ainda mais reduzido. A prova disso é que publicações anteriores tiveram sempre um tempo de vida muito curto. Na tua opinião, o que contribuiu para que a Jazz.pt se tivesse mantido no mercado durante tanto tempo?

E que se mantenha por muitos mais anos! Por duas ordens de razões: a primeira, por teimosia, e diria mesmo mais, por casmurrice, e a segunda por loucura. Somos todos uns doidos varridos e uns casmurros que lutam contra todas as adversidades, porque nada disto é sustentável. Continuamos a fazê-lo, no entanto. Não faz sentido, mas continuamos.

O que mudou na Jazz.pt com o site e porque não se explorou este formato há mais tempo, sabendo quão caros eram a impressão em papel e o design?

As pessoas, regra geral, têm uma ligação particular com o objecto, com algo que se possa manusear, neste caso uma revista. Eu próprio tenho esse gosto de mexer no papel. Gosto de livros, de revistas e de jornais. E as pessoas preferem, ou preferiam até recentemente, que a Jazz.pt fosse uma revista. Deixou de ser porque tornou-se incomportável mantê-la. Os prejuízos eram enormes e somavam-se de número para número e, de facto, a Internet tornou-se a única alternativa possível. Também tem custos, obviamente, mas são mais suportáveis. Falámos várias vezes em ter um site da revista como complemento do papel, mas isso não foi para a frente. Substituímo-la agora, pronto. Está feito.

E quais as primeiras impressões desta nova fase da Jazz.pt?

As impressões que eu tenho são as de que a Jazz.pt é agora lida por um público maior. Em termos de visitas únicas, somam-se já a muitos, muitos milhares de visitas que o site teve e isso significa que muito mais gente está a acompanhar os artigos, as entrevistas, as críticas que publicamos, o que não acontecia antes.

O jazz nasce no início do século XX nos Estados Unidos. Hoje em dia, mais do que nunca, faz parte do nosso vocabulário, mas talvez muita gente não saiba a origem da palavra. O que significa «Jazz»?

Há várias teorias, pelo menos umas três ou quatro. Mas acabam todas por redundar numa de que gosto particularmente e que considero ser a mais próxima da verdade. Jazz é uma corruptela do verbo «to jass», que quer dizer, na gíria americana, fornicar. Portanto, é uma música de fornicação. A origem é essa. (risos)

Quais são as diferenças entre jazz e música improvisada, sem esquecer que o jazz é antes do mais improvisação?

A grande diferença entre jazz e música improvisada é que, regra geral, o jazz é tocado com base num tema, numa estrutura, numa composição. E a música improvisada não. Mas isto é em geral, porque depois há diferenças, nuances, particularidades. Pode haver uma música integralmente improvisada segundo os cânones do jazz. Só para dar um exemplo português: Rodrigo Amado toca jazz, mas tudo aquilo é improvisado, não há partituras. E pode haver uma improvisação não jazz tocada com algum tipo de estrutura. Essas nuances vão-se multiplicando, mas em traços gerais as diferenças são estas.

Aquilo a que se chama música improvisada ou de improvisação livre é um conceito nascido na Europa dos anos 1960 que corresponde ao desejo de uma série de músicos, como Peter Brötzmann, Alexander von Schlippenbach, Evan Parker e outros, que entenderam que tocar jazz, o jazz americano propriamente dito, não fazia muito sentido, porque eram europeus. O jazz tinha que ver com uma realidade sociomusicológica particular, a dos negros americanos, e eles acharam que deviam tocar música europeia e que seria interessante cruzar as premissas do jazz, sobretudo do free jazz, com as da música erudita contemporânea.

O curioso é que a história da música improvisada nos mostra que, em muitos casos, esses músicos acabaram por regressar de alguma maneira ao jazz. E isso acontece precisamente com os nomes que apontei. O Schlippenbach a interpretar Thelonious Monk, o Brötzmann em colaborações com músicos de Chicago e o Evan Parker cada vez mais a denotar influências de John Coltrane. Mas tudo isto é muito relativo, não há fronteiras muito definidas, as coisas vão fluindo e ainda bem.

E precisamente sobre a música improvisada fala-nos das tuas propostas Way Out.

Ah, os discos? Isso já foi há muito tempo. Nos anos 90 a editora AnAnAnA, que já não existe, convidou-me a organizar dois volumes de uma compilação dedicada à música improvisada e experimental. Obviamente que com materiais inéditos. Convidei uma série de músicos nacionais para me prepararem temas e foi o que aconteceu. Não havia nenhuma linha definitória: eles podiam fazer aquilo que entendessem e foi assim que surgiram esses dois discos. Participaram grandes figuras dos dias de hoje: Rodrigo Amado, Manuel Mota, Rafael Toral, tantos.

A Associação Granular dedica-se à promoção do experimentalismo na música e nas artes audiovisuais e performativas portuguesas. Fala-nos da Granular e dos objectivos a que se propõe.

A Granular está com 10 anos e meio de existência e foi constituída em 2002 com o propósito de incentivar, divulgar e promover o experimentalismo na música e não só. Nas artes audiovisuais, vídeo por exemplo, e nas artes performativas, em muitos casos fazendo pontes entre as várias disciplinas artísticas, uma área em que nos especializámos. Durante uma série de anos trabalhámos sem qualquer tipo de apoios financeiros do Estado ou de outros. Realizávamos pequenos eventos, à bilheteira. Aquilo que era possível, sabendo quais são as condições de existência destas músicas em Portugal. Em 2009 conseguimos pela primeira vez um subsídio do Ministério da Cultura e tivemo-lo durante algum tempo, o que nos permitiu passar para uns patamares acima e fazer coisas mais arrojadas. Trazer músicos estrangeiros de referência para participações em festivais, ciclos etc., e colocarmos músicos nacionais em espaços mais nobres, «mais mediáticos». Um dos nossos propósitos estatutários é dar visibilidade a estas músicas e tirá-las do underground.

Nesse aspecto foi um trabalho muito compensador. Entretanto, no último concurso de plurianuais da Direcção-Geral das Artes foi decidido retirar o apoio à Granular. A programação que tínhamos para este ano e para o próximo deixou de ser viável, logo, limita-nos a fazer as coisas que estavam acordadas com os nossos parceiros, designadamente com a Culturgest e com o Goethe Institut. Tivemos uma instalação performance com João Parrinha. Houve um pequeno ciclo temático no Goethe Institut em Junho, o Der Destruktive Charakter, inspirado em Walter Benjamin. Fomos a Berlim para um último encontro do projecto europeu Opensound. Em Julho, haverá ainda uma iniciativa com Susana Mendes Silva e Abdul Moimême. Depois disso, não sei…

O resto daquilo que tínhamos programado não será possível fazer. Os argumentos do júri da Direcção-Geral das Artes para não nos dar o subsídio são anedóticos, são autênticas falácias. Penalizaram-nos com noções que contrariam aquilo que disseram e decidiram em anos anteriores, quando tínhamos vertentes de trabalho até menos sólidas. Por exemplo, entre o ano passado e este a Granular conseguiu uma grande implantação em outros países da Europa, mediante uma parceria com seis associações congéneres em países como Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Noruega e Itália. Um dos argumentos da DGA é o de que não temos difusão internacional suficiente. Quando a que tínhamos há uns anos, quando nos apoiou, era bastante menor.

Vê-se, pois, que são argumentos falsos, usados apenas como desculpa para não nos darem dinheiro. Enfim, o júri escolhido pela Direcção-Geral das Artes para Lisboa e Vale do Tejo foi constituído por pessoas da música clássica e uma da pop, que calha ser também o director editorial da revista Blitz e um director adjunto do Expresso, Miguel Cadete. Portanto, pessoas que não têm qualquer conhecimento do que é a música experimental, do que é a música de pesquisa. Decidiram sem conhecer o sector. É assim que se fazem as cousas, como dizia o Gil Vicente há uns séculos.

Agora, não sei se a Granular morre, se ficará a hibernar até melhor oportunidade. Vamos ver, mas isto significa uma valente machadada nestas áreas musicais em Portugal.

Voltando ao jazz, sei que leccionaste história do jazz até há bem pouco tempo. Fala-nos dessa experiência, o que representou para ti essa transmissão de conhecimentos. Gostas de ensinar?

Adoro ensinar. Aliás, desde os anos 90 que dedico uma parte da minha actividade à realização de conferências, seminários, aulas e acções com crianças, adolescentes e adultos. Dei aulas sobre música num curso de jornalismo e de crítica de música na ETIC, onde leccionava História do Jazz e História da Música Contemporânea. Mais recentemente, dei História do Jazz na Escola Superior de Artes e Tecnologia de Lisboa. Esta vertente pedagógica é-me extremamente importante.

Aliás, devo dizer que estou longe, hoje, de me considerar um jornalista. Digamos que sou um escritor que, na maior parte do tempo, pratica jornalismo e actividades de divulgação, pedagogia, promoção e curadoria, esta com a Granular. A minha acção multiplica-se em diversos tipos de intervenção que extravasam o jornalismo. O jornalismo é, apenas, a área a que dedico a maior parte do meu tempo, mas a partir de determinada altura comecei a deixar de entender que havia compartimentos em tudo o que faço. Para mim, também fazem parte do tal serviço comunitário e público que desempenho. Intervenho onde sou necessário.

Na tua opinião, como vês a evolução do jazz no nosso país nos últimos 30 anos?

Se me perguntasses isso há dois anos, eu falar-te-ia de um boom... O fenómeno do jazz e das músicas criativas em Portugal estava na altura no auge: havia cada vez mais músicos a tocar, cada vez mais bons músicos e cada vez mais discos, cada vez mais concertos. E tanto assim era que a imprensa internacional e os melómanos de outros países começaram a reparar que havia uma realidade musical muito particular em Portugal. De facto, instalaram-se uma grande dinâmica, uma grande energia e muita qualidade no nosso país. 

Porém, se as coisas assim se mantêm, os constrangimentos que temos estado a viver ultimamente estão a prejudicar a força que havia e isso sente-se. Há menos concertos, menos condições para se tocar e, às vezes, não há mesmo condições nenhumas. Começa a tornar-se confrangedor e eu espero que isso não venha matar a música.

Escreves regularmente para um blogue, juntamente com o jornalista Marco Santos, designado por Bitaites, para pequenos e médios intelectuais. É um slogan provocador. O que pretendem com este blogue?

É um slogan provocatório. «Pequenos e médios intelectuais» é, enfim, uma brincadeira. Este blogue, tal como todos os demais, não pretende fazer jornalismo. O que escrevemos são devaneios, são bitaites, movidos apenas pelo que nos apetece escrever... E eu no Bitaites escrevo sobre tudo. Sobre música, claro, mas com um tipo de abordagem que não utilizo na Jazz.pt ou em outro meio de comunicação. Os textos são mais pessoais, mais subjectivos. O eu está mais presente, que é uma coisa que no jornalismo não é conveniente. Digamos que serve para dizer algo como: olha, gosto muito da música deste vídeo. E permite-me também escrever sobre outras coisas, porque escrever só sobre música cansa, não é? De vez em quando escrevo sobre outros temas. Sexo, por exemplo.

Como no texto sobre PJ Harvey?

Exactamente! Mas aí era música e sexo. Às vezes escrevo só sobre sexo. Ou sobre literatura, ou sobre, sei lá, dança. Mas o tema «música e sexo» anda a interessar-me muito. Um dos últimos textos que publiquei no Bitaites foi sobre a pila do Iggy Pop.

Está respondido?

(Risos)

Lançaste cinco livros, «Ruínas», «A Orelha Perdida de Van Gogh», «Cyber Parker», «Phonomaton» e «Stravinsky Morreu», editados pela editora já desaparecida Hugin. Há pouco mais de um ano, publicaste «Bestiário Ilustríssimo», editado pela Chili Com Carne, e que recentemente teve uma segunda edição. Agora saiu «’A’” Maiúsculo com Círculo à Volta«. Mais concretamente sobre o «Bestiário Ilustríssimo», gostava de te colocar algumas questões.

Este livro é um mostruário de monstros da música, uma obra que reflecte sobre as músicas da actualidade e as suas infinitas conexões. É um livro que teve origem em textos reciclados, publicados anteriormente noutros contextos. Como foram o processo, os critérios de selecção dos textos e quais as temáticas abordadas?

Ora bem, há muitas coisas a dizer sobre isso. Resolvi fazer o livro com base numa reciclagem de textos porque, em primeiro lugar, gosto de reciclar textos. Acho que um texto nunca está acabado e tenho particular gosto em pegar em prosas que escrevi há anos e levá-las para outras leituras, para outras consequências, dando-lhes uma nova vida. Em segundo lugar, porque estive nove anos sem editar e nove anos é muito tempo. A minha editora, a Hugin, faliu e eu, de repente, fiquei sem saber onde é que os meus livros paravam, se estavam nas lojas ou em alfarrabistas. Volta e meia ia sabendo que apareciam nas feiras do livro do metro e em sítios assim. Portanto, senti a necessidade de fazer uma ligação com o passado, de conectar o novo livro com os anteriores e dar uma unidade ao meu percurso como autor.

Havia da minha parte a vontade de fazer algo que fosse uma espécie de enciclopédia, mas não sendo uma enciclopédia propriamente dita. Tenho um bocado de horror a formatos estanques, e daí que a minha escrita seja híbrida. Não é jornalismo, mas também não é musicologia. Foi o que pretendi fazer com este livro. Uma sucessão de textos, sem ordenação alfabética, que funcionassem como “retratos” de músicos de que gosto. E de músicos cuja obra me permitisse desenvolver as minhas ideias relativamente às ligações da música com a filosofia, com a sociologia e com as outras artes. Interesso-me muito pela arte “intermedia”, pela performance e pela dança. Aliás, nos anos 80 escrevi muito sobre dança e performance-arte. Foi tudo isso que resultou no “Bestiário Ilustríssimo”.

Sobre as infinitas conexões, são particularmente interessantes as que fazes com a arte, porque como dizes no capitulo 11, «Retro Inovadores», e passo a citar «A arte é uma reacção à realidade em que vivemos«. Explica-me de que forma as correntes referidas por ti, da noise music ao reducionismo, representam um confronto com a realidade em que vivemos. O que é isso de reagir?

Pois, isso é um conceito do Marcuse. Sim, a arte é uma reacção ao quotidiano, à realidade de todos os dias. O reducionismo e o noise são os dois extremos opostos desta questão. Se deres atenção ao ambiente áudio de uma cidade como Lisboa, reparas que há um nível de ruído que está constantemente presente, ou quase. E a música como é que reage a isso? Reage para cima e para baixo. Quando reage para cima, temos Luís Lopes com a guitarra noise, e quando reage para baixo, temos Ernesto Rodrigues com a viola quase a não se conseguir ouvir. Isto é, ou toca-se a um nível sonoro mais elevado do que o barulho da cidade, para a calar, ou toca-se a um nível sonoro que ignora a cidade.

No capítulo 21 do «Bestiário Ilustríssimo» falas sobre o dadaísmo e afirmas que os postulados Dada foram adoptados pelas práticas musicais vanguardistas e pós-vanguardistas, algo que se manteve até aos dias de hoje.

De que forma crês que o dadaísmo influenciou a música de vanguarda e a actual?

Podemos ter duas leituras do dadaísmo. Ou é apenas uma influência vanguardista vinda do início do século XX, ou trata-se de algo que continua vivo. Eu considero que continua vivo. Estas práticas musicais são dadaístas ou uma consequência dessa tendência. Lembro-me que, aqui há uns anos, quando fiz uma conferência na Faculdade de Belas Artes de Lisboa sobre o dadaísmo e suas influências na actualidade, abri a minha intervenção com um tema de Maja Ratkje em que a ouvimos aos berros e depois a processar os gritos electronicamente. A peça é ensurdecedora, violentíssima, ultrapassando tudo o que o metal e o punk fizeram.

Iniciei a minha palestra com aquilo, interrompi de repente e disse «boa tarde!». As pessoas desataram-se todas a rir. Aquilo foi um acto dadaísta. Depois fui falando de vários exemplos do dadaísmo propriamente dito, que até não teve grande expressão musical, e apresentei exemplos da actualidade que continuavam as premissas dos dadaístas no início do século XX.

Sobre o teu mais recente trabalho, «’A’” Maiúsculo com Círculo à Volta», o que nos podes desvendar desse novo livro. De que se trata exactamente?

O título «’A’” Maiúsculo com Círculo à Volta» permite que a capa seja apenas uma figura, um ‘A’ maiúsculo com círculo à volta. E o ‘A’ com círculo à volta é o ‘A’ de anarquia. Este é o meu livro anarquista. Há coisa de um ano coloquei duas hipóteses: ou fundava uma organização de guerrilha urbana, o que poderia ser perigoso para mim (risos), ou aprofundava uma série de conhecimentos sobre o pensamento anarquista e libertário, sobretudo o mais recente, que é extremamente rico. Investiguei alguns nomes que ainda não conhecia de autores mais recentes, muitos deles, curiosamente, americanos, e encontrei um mundo fascinante.

A ideia de que parti para este projecto foi: ok, quando estamos a falar de algum jazz e de improvisação refere-se o impulso libertário, a influência anárquica. O meu desafio foi verificar no que é que isso consistia realmente. Há também aquela conotação que se faz entre o punk e a anarquia, às vezes abusivamente, porque há muito punk que não tem nada que ver com anarquismo. Mas achei que havia ali um tema, uma possibilidade de equação, música e anarquia, e foi isso que me propus explorar. O que daí resulta é este livro com ilustrações de 11 artistas ligados à Chili Com Carne. É um livro provocatório e louco, por vezes humorístico, ainda que com alguma acidez.

Tanto o «Bestiário Ilustríssimo» como o «’A’” Maiúsculo com Círculo à Volta» são complementados por ilustrações. Porque razão fazes questão de utilizar este recurso nos teus livros?

É simples. Porque sou fã das artes visuais, da banda desenhada, do cartoonismo, da ilustração.

E já que falamos de livros e de ilustrações, fala-nos de um livro que gostavas de ter editado, o «Senso» com Carlos «Zíngaro».

Esse foi, infelizmente, um livro que ficou na gaveta. O «Senso», que era um livro mais literário do que propriamente ensaístico, amplamente ilustrado pelo Carlos «Zíngaro», estava para ser editado pela Hugin. Há dez anos fui bater à porta da editora com o livro já paginado e não estava lá ninguém. Liguei para lá e não me atenderam. Sendo que, um mês antes, eu tinha falado com os editores para definir os últimos pormenores relativos à publicação. Naquele espaço de um mês, a Hugin faliu e fechou. E eles esqueceram-se de me dizer fosse o que fosse, o que, enfim, é lamentável. Fiquei com o livro na mão. 

Contactei então cerca de 30 editoras, mas o facto de o livro ser um quadrado constituía um problema. Implicava um corte de papel caro. Houve duas ou três que se interessaram, mas também declinaram depois de fazerem as contas, pelo que o objecto ficou a apanhar pó lá em casa. Poderás perguntar, então porque é que não publicaste esse livro em vez do «Bestiário Ilustríssimo»? Bom, porque entretanto já não me reconheci em alguns dos textos e achei que tinha de aparecer com uma coisa nova, em vez de voltar 10 anos atrás.

Estará a precisar de uma reciclagem?

Um desses textos aparece no «Bestiário» e outros desse livro vão aparecer no segundo volume, que se tudo correr bem será publicado em 2014. Por exemplo, 40 partituras em prosa para violino e grupos de corda à maneira do Fluxus e de Yoko Ono.

Para terminar, quando é que te vais dedicar à música barroca?

A música barroca é uma das minhas paixões. Aliás, estudei flauta barroca com um professor privado, o Hélio. Encontrei-o ontem, já não o via há imenso tempo. Tive de desistir porque, enfim, não tinha tempo para tudo. Ao mesmo tempo que estava a estudar flauta barroca, comecei a usar flautas de bambu, madeira e cana e a tocar uma mistura de blues, rock, jazz, música árabe e música indiana. Uma coisa estranha, com intervalos curtos, multifónicos, harmónicos. 

Aqui há tempos o Bruno Parrinha ofereceu-me uma flauta de bambu e voltei a dar uns toques outra vez. A música barroca é algo que ouço frequentemente, mas não me atrevo a escrever sobre ela porque, enfim, não dá para escrever sobre tudo.





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* Originalmente publicada a 12 de Julho de 2013, na Le Cool Lisboa * 400

Le Entrevista aos Electric Super Sex por Pedro Tavares


Aqui vai a entrevista dos Electric Super Sex, uma banda de rock progressivo que vem do Barreiro, uma cidade com muita tradição na cena rock portuguesa. Definem-se como uma banda de Stoner rock, psicadélico e Jam. Agrada-lhes a comparação com os barcelences Black Bombaim. A Le Cool esteve à conversa com os Electric Super Sex, antes do concerto no Bacalhoeiro. 

Os Electric Super Sex são: Luís Canto (LC) no baixo, Ricardo Graça (RG) na guitarra, André Neves (AN) na bateria e Zé  Bica (ZB) nos efeitos e no sintetizador.

Le Entrevista a Irina Sales Grade (VJ Receyecler) por Pedro Tavares



Como surgiu o VJing na tua vida, quando decidiste que era isto que querias fazer?

 
   
Uma produtora em Coimbra, a Cosa Nostra, organizava festas, sobretudo techno, na área da electrónica e tinha residência num bar, na altura acho que era o Lounge. 

Eu na altura não os conhecia, comecei a ir às festas deles porque gostava da música, e entretanto, eles passaram a fazer festas na Via Latina e eu continuei a ir às festas por causa da música, depois acabei por conhecê-los e ficámos amigos. 

 
Começámos a organizar festas, jantares lá em casa. Paralelamente a isto, eu tinha um grupo de amigos e colegas do departamento de arquitectura e dois deles começaram a fazer vídeo nas festas lá do departamento, uns lençóis com jpeg animados, faziam também vídeos para a Cosa Nostra. E eu tive sempre curiosidade. 
 
Bom, um deles foi para Barcelona e o António, que era o Photaumatic, ficou sozinho e ele ia lá para casa, sexta-feira à tarde, preparar os vídeos e eu estava a cozinhar porque a malta costumava ir lá jantar à sexta-feira.
 
Inevitavelmente, enquanto a comida se fazia, sentava-me ao lado dele a ver como se editava vídeo, a fazer perguntas, e comecei a experimentar. Daí a começar a fazer coisas foi um saltinho. Comecei a ajudar o António, tive praticamente um ano em que preparava loops e ele depois é que fazia a parte da manipulação em tempo real, isto em 2006, se não me engano. Depois é que comecei a trabalhar muito mais na pesquisa de vídeos, o que é que pode ou não funcionar. Entretanto, houve uma festa grande e o António não lhe apetecia, acho que também se queria divertir e não queria estar a trabalhar. Eles disseram-me vem e fazes tu os vídeos. Foi o primeiro live do Júlio, e estreámo-nos os dois: ele a fazer o primeiro live de electrónica e eu a fazer o primeiro set de vídeo. A partir daí comecei a fazer regularmente. A Cosa Nostra ainda hoje organiza festas. Entretanto conheci o Afonso Macedo, DJ, também membro da Cosa Nostra, com quem entretanto criámos a Put Some e com quem trabalho desde 2007.   

 
Em que consiste o colectivo Receyecler? Em que consiste a reciclagem, como se processa e quais os seus níveis?    
 
O colectivo Receyecler foi formado também em 2007, na altura comigo e com o António Correia, VJ Photaumatic, por uma questão prática. As festas eram todas as sextas, o António já estava a começar a trabalhar, eu também e foi uma forma de termos sempre o nome no flyer, de garantirmos que um dos dois ia, mas sem termos que decidir com tanta antecedência qual dos dois é que ia.  
 
Normalmente o António era o VJ do Afonso, fazia mais ou menos as noites dele, e eu fazia mais as noites do David Rodrigues. E assim era uma forma de estarmos mais à vontade. Entretanto o António saiu e fiquei com o projecto Receyecler, que decidi manter e continuar até hoje. O António já saiu em 2008, há cinco anos. Tal como o nome indica, Receyecler refere-se à reciclagem, neste caso de vídeos. A reciclagem refere-se a um conceito teórico da comunicação que é muito utilizado, que é a «remediação». Tem muito a ver com o tempo em que vivemos, nós remediamos tudo. Na prática, parto do princípio de agarrar numa coisa que já existe e usá-la de outra forma, ou transformá-la noutra coisa.  
 
Eu filmo poucas coisas, a maior parte das coisas de video jamming não são filmadas por mim. Eu filmo para lives, pré-preparados e que se pretende apresentar um projecto conjunto e não sou capaz de usar coisas que não sejam minhas, quando estou a trabalhar em projectos como o «Projectionist’s Nightmare», e coisas afins. E portanto, recicla-se a vários níveis. Primeiro, reciclo muito lixo que encontro. Normalmente vou sempre à procura de coisas com um tema ou com uma estética, dependendo da música ou do que eu quero fazer. Trabalho o material que encontro, edito, construo os loops e vejo o que é que consigo fazer com aquilo, que misturas podem ser feitas, sempre na perspectiva de conseguir chegar a uma estética ou linguagem pré-definida. Depois, ponho aquilo a dar na televisão e filmo, para ter aquele efeito granulado. 

  
 
Tenho oito televisões em casa com efeitos diferentes e todas funcionam. Umas são Nacional, 
dos anos 80, outras mais antigas ainda e outras mais recentes. Ou projecto na parede e volto a 
filmar por cima com outras coisas. E depois há a forma como 
misturamos, posso ter um set, e o mesmo set em noites diferentes posso misturar de maneiras 
diferentes e esse já é outro nível de reciclagem. Por fim, muitas das vezes agarro nos vídeos 
que já editei, já refilmei e refilmei e volto a refazer. Eram horas e horas de pesquisa. 
Apanhávamos coisas e íamos reciclando e reciclando. Acontecia muitas vezes que, quando estávamos os dois a trabalhar e com vidas já bastante complicadas, muitas das 
vezes entravamos na brincadeira, opá, vamos reciclar o que já temos. Então, mas já 
reciclámos isso uma vez, mas reciclamos outra vez.  
 
De reciclar em reciclar, acabou por ficar o 
Receyecler. Esse espírito mantém-se. Portanto, ando sempre à rasca, sempre com falta de 
tempo e sempre a reciclar.

    
 
E o que é remediação?    
 


Nos tempos modernos, «remediação» parte do pressuposto que nós estamos 
sempre a tentar remediar uma realidade que já existe. É um conceito enunciado no livro «
Remediation: Understanding New Media», de Jay Bolter e Richard Grusin, publicado em 2000. 
Por exemplo, o cinema remedeia «a vida real», a televisão está a tentar remediar o cinema. É 
uma forma de mediares uma realidade com outra. Por exemplo, no «Video Projection Mapping», 
a fachada do edifício vai servir duas funções: serve como tela para uma imagem de vídeo e 
serve como ecrã porque emite. Neste caso a fachada está a remediar a tela de cinema, está a 
reaproveitar. A reutilizar e a reciclar o conceito da tela de cinema nela própria e está a remediar o 
conceito de ecrã nela própria.   

  
 
Voltando ao colectivo Receyecler, tu trabalhas com a Joana…  
 
Eu ao longo dos anos fui organizando workshops de VJ e sempre que surgiram pessoas 
interessadas e interessantes, elas foram entrando para o colectivo, sempre neste espírito 
também da partilha. Em conjunto funcionamos melhor do que separados e 
também houve uma altura em que eu tinha demasiadas festas e não conseguia dar conta do 
recado sozinha e tinha que ter malta comigo, que estivesse a aprender. O colectivo já foi maior, 
tivemos o VJ André e o Jorge Ribeiro que entraram e entretanto saíram. O Jorge ainda nos dá 
algum apoio técnico uma vez que é engenheiro informático. A Joana é ultra eficaz e eficiente, 
acabou por descobrir que não gosta assim tanto de fazer manipulação em tempo real, portanto, 
dá-me apoio muitas vezes na parte de corte, loops, e na preparação do material, e depois, o 
que ela gosta mais de fazer e para o qual eu estou a tentar encaminhá-la mais, é a parte de marketing, que não está nada bem gerido.   
 
E nos tempos que correm nós 
precisamos de vender cada vez mais o nosso trabalho e a Joana agora está a trabalhar nisso, 
tanto que está a tirar um mestrado em marketing e está a ficar mais com essa parte. Acho que 
vai passar a ser ela a fazer toda a comunicação externa, porque não tenho tempo para tudo. 
Apesar de agora a Receyecler ter acalmado por causa do meu mestrado. Como tinha aulas à 
sexta e ao sábado tive que cortar a maior parte das noites no ano passado. A Joana faz 
parte, colabora em quase tudo, embora não seja VJ.

    
 
É o único projecto em que te encontras envolvida, ou tens outras parcerias?

    
 
Tenho outras.  
 
Com vídeo, tenho mais uma parceria que é o «Suspension of 
Disbelief», projecto que nós criámos este Verão. Juntei-me com um fotógrafo, o Eduardo 
Nascimento, que também está a acabar arquitectura e que tem um projecto, «Do Mal, o Menos», 
que é de fotografia de arquitectura e juntámo-nos para fazer uma vídeo instalação. E esse 
projecto não é um projecto fechado, ou seja, fizemos o primeiro esboço este Verão e vamos 
continuar. Isto porque ao longo dos anos, Receyecler não fez só video jamming. Comecei a ser 
solicitada para outro tipo de colaborações e comecei a sentir que precisava de ter um 
projecto paralelo, que está a nascer, a «Decollage», que trabalha sobretudo na criação de 
ambientes de arquitectura e vídeo. Tudo o que seja palcos, sobretudo direccionado para teatro 
e tudo o que seja layouts de festas e instalação vídeo na parte mais técnica, desenho de 
instalação vídeo/conceito do ambiente todo dos espaços. E para além disso fiz o «Projectionist’s 
Nightmare», com o Afonso Macedo (DJ) e a Margarida Cabral (performer).  
 
Mas esse tipo de 
projectos vão ter de ganhar uma personalidade própria porque não fazem muito sentido no 
contexto de Receyecler. O «Projectionist’s Nightmare» foi um live film, é um filme de 45 
minutos que é montado em tempo real. Isto foi um convite do MUCO em 2010. O Afonso 
sugeriu um poema, que deu o título ao projecto, e que já tinha sido remediado numa música. 
Agarrei no poema e na música, na altura o André ainda estava no colectivo, trabalhámos num 
conceito e decidimos filmar. Falei com a Margarida, que é uma uma performer do CITAC 
(Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra), que trabalha na DEMO (Dispositivo Experimental Multidisciplinar e Orgânico).   
 
Numa conversa com a Margarida disse-lhe, este poema, com este ambiente, com esta roupa mais ou menos, com este tipo de 
maquilhagem, vamos fazer umas coisas. Mandei uns vídeos e umas coisas do género. A 
Margarida viu, gostou, encontrou o vestido perfeito e fechámo-nos uma tarde inteira no CITAC 
a filmar. Mais tarde disse-lhe, olha Margarida, eu não vou fazer uma coisa fechada, vou fazer 
isto ao vivo. Isso é interessante. O Afonso prepara o set dele, a única 
música fixa é a que se chama Projectionist’s Nightmare, do Deer, e eu não sei o que é que ele 
vai fazer. E decidimos normalmente uns minutos antes quem é que começa e depois o outro 
vai atrás. Portanto, são 1200 loops que fazem sempre sentido, independentemente da ordem 
em que são apresentados, é uma narrativa não linear. Em cada apresentação são utilizados 
cerca de 600 a 800 loops e há sempre uns sets que ficam de fora.  
 
Eu trabalho com teclados, 
com um software muito antigo, que já é dos anos 90, que é o Arkaos, é o paleolítico do video 
jamming. Sou gozada em todo o lado por ainda usar esse software, mas a verdade é que vai 
funcionando e faz o que eu quero. Monto os teclados, o Arkaos como é muito antigo é menos 
intuitivo em termos de ir buscar coisas que não estejam já lá enfiadas. Depois é muito mais 
fácil, obriga-te a ter tudo muito mais preparado em casa e muito mais pensado, o que te 
permite durante uma actuação a seres muito mais livre. A performance, não é uma pessoa 
chegar lá sem saber o que fazer, e fazer qualquer coisa. Há que preparar tudo, um conjunto de 
mini regras que se pré-estabeleceu e trabalhar com as regras, improvisar sobre essa mesma 
regra que se pré-estabeleceu.  
 
O Arkaos, uma vez tudo preparado e os sets por teclado 
montados, depois posso fazer o que quiser e não tenho que estar tão preocupada. É mais 
intuitivo na «hora H». Durante as actuações ao vivo, aquilo é só carregar em teclas e eu consigo que me dê uma resposta à música muito mais imediata, muito mais 
pessoal e muito mais intuitiva do que se tiver que andar com ratos a arrastar coisas. Durante as 
actuações quero trabalhar com a música e com o público. 

    
 
E estás a fazer um mestrado?
 
Comunicação Multimédia na Universidade de Aveiro, ramo Audiovisual Digital 
e estou a fazer uma tese em Video Projection Mapping.  
 
O Video Projection Mapping surge, 
não há uma data, eu não consegui estabelecer um início para quando é que isto se começou 
a fazer. Mas posso mais ou menos adiantar que uma das coisas que marca o panorama 
internacional dentro desta técnica (eu não gosto de lhe chamar técnica, porque acho que é 
mais uma forma de expressão artística), é o festival Mapping, que surgiu em 2005 em 
Genebra. Tem um conceito, mas em 2005 ainda não tinha trabalhos de video projection 
mapping propriamente dito.    
 
Uma imagem é projectada sobre uma superfície e a imagem é igual 
à superfície. Ao movimentarmos a imagem, parece criar a ilusão de que a superfície também 
está em movimento. Portanto, a tese é sobretudo direccionada na parte de video projection 
mapping de superfícies arquitectónicas. Estou a trabalhar na relação com o espaço urbano 
e portanto, nós preparamos um vídeo com base na fachada em que vamos projectar para 
criarmos o efeito de ilusão que a fachada está em movimento. O princípio é este.

    
 
O que é para ti a improvisação do ponto de vista da música e da imagem?  
 


Ora bem, em video jamming é um pouco diferente do resto, por causa do 
contexto. Porque não é só improvisar em relação à música e à imagem, mas também em 
relação ao público, para mim é a coisa mais importante, são as pessoas que estão ali. E claro 
que, sendo um espectáculo de dança ou teatro, um palco, como o palco RUC (Rádio 
Universidade de Coimbra) ou uma discoteca, são espaços completamente diferentes.    
 
O tipo de 
improvisação é outro. Improvisas sempre em cima da música, mas tu tens sempre o factor 
espaço e público que é sempre diferente. O facto de estarem num espaço, num espaço 
diferente, é diferente. Quando trabalho com um VJ, eu gosto normalmente de já os conhecer, e 
gosto mais dos trabalhos que tenham maior continuidade, sobretudo quando são residências 
no mesmo espaço, ou em certo tipo de festas, ou com VJ ou com DJ. Porque tu podes criar 
uma relação com o público muito diferente e tu consegues, por um lado, que o público te 
acompanhe numa viagem mais a longo prazo, e não numa viagem tão curta de uma noite que 
cais ali de para-quedas. Vê-te ali aquela noite, é um público que não te conhece muito 
probablemente porque os VJ, a maior parte deles ainda não são muito conhecidos. Portanto, 
cais ali de pára-quedas, tens uma noite para comunicar com o público e vais-te embora. Isso é 
uma coisa. Outra coisa é quando tu tens um longo prazo e sabes que vais ter um ano pela 
frente para trabalhar com o público e podes fazer as coisas com outros timmings. Podes levá-
los numa viagem mais lenta, encaminhá-los e educá-los.    
 
Em relação à música, eu acho que há 
um trabalho de respeito pelo DJ que está ao teu lado. Ele está a passar música e ele sabe o 
que está a fazer também. E portanto, nós estamos ali a entrever, a interpretar sons e estamos 
a criar uma segunda via de comunicação entre o DJ e o público.    
 
Eu acho que nós temos que 
respeitar muito o trabalho que ele está a fazer e por outro lado tempos que o interpretar e 
introduzir a nossa sensiblidade na tela de vídeo. Nós damos muito apoio a quem está numa 
discoteca sozinho, as pessoas saem numa sexta ou sábado à noite, para beber copos, 
esquecer a realidade que tiveram durante a semana, para desanuviar, para dançar, 
conhecer pessoas... É um acto cultural, para mim é um acto cultural. Eu vou sair à noite e eu 
quero que me dêem coisas boas, coisas que eu nunca vi e coisas que nunca ouvi. Eu não 
tenho pachorra para pesquisar música. Para isso há DJ, certo?    
 
Portanto, eu vou sair à noite e 
quero que me surpreendam, eu quero ter vontade de ir ter com o DJ e perguntar que música é 
que está a passar. E eu acho que é o mesmo com os vídeos. Nós tomamos conta de um 
público que está à nossa frente, que entra na discoteca e deposita uma confiança em nós, em 
que o vamos tratar bem o resto da noite. Que podem relaxar, divertir e beber à vontade, porque 
estão ali, uma, duas, três pessoas e toda a estrutura do staff que o acompanha até ao fim da 
noite, para ir para casa e querer voltar. Eu acho que o nosso trabalho é um pouco 
esse.    
 
Depois podemos ter várias técnicas. Em momentos em que a música sobe muito, 
dependendo das noites, eu às vezes gosto de aliviar o vídeo e dar espaço à música para 
respirar sozinha, há outras alturas em que se calhar a música é tão forte e eu naquele dia 
estou com mais energia e então apetece-me intensificar com a imagem e tornar isto num 
momento muito forte. E portanto, estamos a provocar experiências, estamos a comunicar com 
o público. Eu costumo muitas vezes falar que há ali um jogo de sedução, onde o público é 
seduzido pela música e pelas imagens e andamos ali todos, uns atrás dos outros. Quando não 
é video jammimg, é diferente.

    
 
Um dos objectivos a que se propõem os VJ/Video Jamming é a manipulação das 
imagens em tempo real. Explica-me como se processa essa manipulação. Podemos pensar que esse caminho passa 
pela reciclagem de fragmentos (samples)?  
 


Passa também, pode passar ou não. Não há um método, cada um de nós tem 
o seu próprio set up, cada VJ, normalmente. Isto demora anos até encontrar o set up certo, 
ou seja, que tipo de vídeos, com que software, em que computador, com que MIDI controller é 
que eu consigo funcionar melhor. E isto é um trabalho de pesquisa pessoal que cada um de 
nós teve de fazer. E eu própria não uso sempre o mesmo tipo de set up, consoante o tipo de 
actuação. Por exemplo, se for num palco, tenho cinco ecrãs, preciso de não sei quantas 
mesas de mistura, de uma data de coisas que não preciso numa noite normal numa discoteca. 
A primeira coisa que faço é ouvir a música. Eu penso sempre o line up com antecedência e 
muito raramente vou para um sítio sem ter ouvido ou sem fazer ideia do que é que estou à 
espera.  
 
Ouço, normalmente de uma forma descontraída, crio assim uma playlist e vou fazer 
limpezas, porque quero apanhar aquele lado mais lúdico e mais descontraído da música. 
Depois também faço normalmente outra coisa antes de ir dormir, é pôr headphones e esticar-me no sofá de olhos fechados a ouvir. Portanto, a base é sempre a música, parto sempre daí. E há outros truques. Faço toda uma pesquisa, normalmente com os vídeos que já 
tenho, depois agarro na música, meto os meus vídeos, faço mini simulações em casa para ver 
o que é que pode funcionar ou não, e quando encontro mais ou menos o tipo de linguagem que 
funcione, vou à procura de coisas novas nessa linha. Cortamos loops, que são trechos 
de vídeo, normalmente cíclicos, que podem não ter princípio nem fim. Eu não trabalho com 
loops, trabalho com pequenos trechos de vídeo, mas eles não são infinitos, portanto, eles tem 
princípio, meio e fim. Portanto, é muito raro cortar loops, isso é tudo feito em software de 
edição de vídeo em casa. Consoante o software ou a forma como tu gostas de 
trabalhar, preparas mais ou menos a tua noite. E, na hora, uma parte dos softwares 
acabam por fazer coisas muito parecidas, uns com mais capacidade numa coisa ou em outra. 
  
 
O que é que nós fazemos na hora. Vamos buscar o vídeo que achamos indicado para aquele 
momento da música, por exemplo, imagina que a música te sugere um cavalo a galopar na 
areia, e eu tenho um cavalo a galopar numa floresta, mas eu queria um a galopar no mar, 
então vamos buscar um cavalo, vamos buscar um mar, vamos sobrepôr. É quase a teoria da 
fotomontagem. Nós vamos colando umas coisas por cima das outras. Claro, tudo isto 
sincronizado com a música. Nós podemos dessincronizar, e isso é interessante, e faz-se, faço-o muito. Mas para isso depende, lá está, se o público já nos «conhece» e confia em nós, podemos passar uma noite inteira a dessincronizar e eles sabem que aquilo não é má técnica, 
é porque naquela noite nos apeteceu fazer aquilo. Porque aquilo pode irritar, como o 
excesso de strob ou flashes   

  
 
A música é indissociavel neste processo?

  
 
Eu acho que sim, fazer vídeos sem música para mim é quase impensável. No 
caso das instalações vídeo é diferente. Tínhamos um conceito que 
nós gerámos e pedimos a um colega, o André Tejo, produtor de música electrónica, e 
dissemos exactamente o que é que queríamos e ele fez. Inclusive, esteve a montar música 
connosco em cima. Mas uma coisa precisa da outra, a música vai-te dar a profundidade de 
campo que o vídeo às vezes não tem.   

  
 
Explica-me a relação com o vídeo enquanto peça criativa, enquanto elemento de criação 
de som e enquanto objecto abstracto, manipulado em tempo real.   

  
 
Ora bem, há dois conceitos. Há o conceito de música visual e o de imagem 
sonora. E agora, quando é que é uma coisa, ou quando é que andamos na outra?  
 
Há 
imagens que te provocam logo imediatamente sensações sonoras. Por exemplo, se eu 
agarrar nas minhas unhas e as passar em cima de um quadro de giz, tu não estás a ouvir, 
mas já te está a arrepiar, certo? E não é a imagem que te arrepia, é o som que isso provoca. 
Não estando lá o som, e aí posso dizer-te que acho que é uma imagem sonora, porque 
a reacção é pelo som. Depois existe o contrário, há som, é mais fácil de imaginar sons que 
te provocam imediatamente imagens. Por exemplo, vamos a uma coisa básica, um cavalo 
a galopar, tu imaginas logo o som do cavalo. Agora a criatividade aqui está na forma como 
tu vais relacionar a imagem com o som.  
 
Se a música até te sugere um cavalo a galopar e tu 
imediatamente pensaste nisso, mas se a seguir pensares, epá não. E se for um cão ou se 
for uma pessoa a correr, a andar para trás. Todas as associações de objectos - a 
criatividade também parte disso - fazeres associações insólitas de coisas que já existem, mas 
tu olhas para elas de repente de outra forma e é aí que o video jamming ganha corpo e força, 
sendo em tempo real, com tudo o que isso implica. Tens menos de 20 segundos para reagir à 
música e depois se não arranjaste o vídeo certo, tens muito pouca coisa que consegues fazer. 
Tens que te aguentar até que a música vire um bocado para que consigas introduzir novos 
elementos.

    
 
Sei que participaste como VJ numa actuação com os Pão. Como foi essa experiência?

  
 
Sim, participei. Foi muito engraçada porque eu nunca tinha feito nada do 
género, nem com jazz, nem com a improvisação de jazz e todos a improvisar. Eles vinham a 
Coimbra, ao Jazz ao Centro, sabiam que eu estava em Coimbra e perguntaram-me se eu 
não queria fazer vídeos para eles. Sendo que não é a minha especialidade, porque eu trabalho 
com techno desde sempre e, de repente, fazer imagem para aquilo não era muito óbvio. Tinha 
conhecido o Travassos não há muito tempo e ele ligou-me a perguntar se eu não queria fazer 
isso e eu disse-lhe logo na altura, não sei se vai dar, porque estava sem tempo. 

    
 
Mas tu estás habituada a fazer interpretação da música para a aplicação da imagem…  
Sim, sim

.  
 
Mas só fazes isso no techno?  
 
Não, faço isso com outras coisas. O que eu queria era estar mais preparada, 
precisava de mais tempo.  
 
O que é que aconteceu? Eles ligaram-me com pouco tempo de 
antecedência, parece que não, mas foi um mês. Durante esse mês eu estava com muito 
trabalho, tinha a apresentação da peça de teatro do CITAC, o Normal e foi o mês 
antes da estreia da peça, e ainda tive os quatro dias do palco RUC, que é um palco em que eu 
não faço só video jamming. Eu faço quase a produção técnica do palco, na parte toda que é 
imagem e luzes. E só um palco leva mais de dois meses a preparar. E depois disto 
tudo, aparecem-me cá os Pão.  
 
Era um projecto em que eu queria ter investido mais e que na altura disse ao Travassos, vou fazer o que puder, mas não vou conseguir preparar nada de 
especial. Por acaso consegui preparar. Eu tirei o fim-de-semana com a Joana e ouvi a música, 
o pouco que havia. Achei a música complexa e necessitava de vídeos pesados, com bastante 
complexidade. Mas depois tinha aquela leveza, daquela coisa natural, da natureza. Então, 
eu andei a filmar na Estrada da Beira, sobretudo naqueles montes, quando aquilo faz curvas 
que, quando filmas, parece que tudo se vira sozinho. Fiz muitas horas de filmagem aí. E 
tinha filmagens que me tinham sobrado do Normal que não tinha usado.  
 
Eu trabalho muito 
com o corpo humano, é um elemento transversal a quase tudo o que faço. Eu não trabalho 
com vídeos gráficos, é muito raro, não gosto. É estranho, eu sei, sou arquitecta, desenho 
espaço, mas eu não consigo atribuir sentimentos a uma linha a mexer-se ou a uma bola. É 
muito complicado para mim aquilo, simplificar a música àquilo e identificar-me com isso. Por 
exemplo, há trabalhos de outros VJ que eu gosto de ver, são muito gráficos e muitas vezes 
fazem sentido, mas eu não conseguia fazer aquilo.

    
 
Como por exemplo?  
 


Epá, por exemplo o Lucas Gutierrez. Ele tem um trabalho 
muito gráfico, que eu gosto muito, inclusivamente já o convidei. Gosto do trabalho dele, mas não me identifico a fazer aquilo. Quando estou a 
pensar a música e que imagem é que lhe vou associar, nunca me surgem gráficos, é muito 
raro. Surge-me mais depressa um tique irritante de um nariz a franzir, do que uma linha a 
tremer.  
 
Bom, então eu tinha as imagens do Normal que não tinha usado, que ficaram de 
lado, e tinha as filmagens das viagens na Estrada da Beira e depois foi todo um trabalho de 
edição em casa, o que é que vou fazer com isto, o que é que pode funcionar. E normalmente 
eu estou a editar com música ligada. A mistura entre o corpo e as paisagens foi toda feita na 
hora. Portanto, andei foi a testar muitas combinações de misturas e de como é que aquilo 
podia funcionar. Acabou por funcionar ainda melhor porque esse efeito de curva quando está a 
filmar, que parece que aquilo mexe sozinho, a sala em que aquilo foi projectado tinha um tecto 
abobadado o que enfatizou ainda mais esse efeito que o vídeo dava e acabou por funcionar 
muito bem.  
 
O espaço nunca é um elemento que não existe. Existe sempre, está lá e é para 
ser trabalhado. Tens que perceber quais vão ser as movimentações das pessoas ao longo da 
noite, para perceberes onde é que a imagem pode ser mais importante. Apesar de que gosto 
muito do setup básico do vídeo atrás do DJ. Isso por si só funciona bem.

    
 
E gostavas de participar em outros projectos de música improvisada ou até mesmo com 
jazz?  
 


Sim, mas quero que me dêem algum tempo para preparar as coisas.    
 


Tens alguma ideia com quem gostavas de trabalhar nessa área?  
 


Eu acho que gostava de voltar a trabalhar com o Travassos, com os Pão, 
aquilo funcionou bem, nós comunicámos bem uns com os outros.

    
 
À semelhança de outros projectos, por exemplo, do DJ Ride com o André Fernandes e 
com o Rodrigo Amado, que te parece a inclusão do video jamming nessas parcerias?   

  
 
Não sabia desses projectos, mas parece-me interessante a ideia, sim. Muito 
embora o scratch, de todos os géneros, é para mim o mais complicado de trabalhar em termos 
de imagem. O scratch ou o Hip hop.

    
 
Porquê?

      
 
Eu tenho muita dificuldade de desassociar o scratch e o Hip hop da imagem 
Street art. Eu já fiz algumas experiências 
com Hip hop e algumas correram muito mal, não tanto pelo público, que à partida parece ter 
gostado, eu é que não. Não fiquei contente com o resultado final. Eu tenho esse problema com 
o Hip hop, é muito difícil fazer um tipo de vídeo, estás a ouvir a música e sentes que aquilo 
faz parte de um todo, e que faz sentido uma coisa com a outra. Fora desse estilo Street art, 
acho realmente complicado.    
 


E participares num projecto de criação de música em tempo real?  
 


Sim, isso já fiz. São sets trabalhados com antecedência. Podes preparar sets, 
e é um trabalho muito interessante, porque é um trabalho de casa, de comunicação entre duas 
pessoas, que é estar a produzir música e vídeo para um live set exclusivo.  
 
Depois há o trabalho 
de teatro, que também é outra coisa bastante diferente e o palco, que é outra coisa. Num 
palco, tu tens bandas, DJ, tens vários estilos. No caso do Palco RUC, é um palco que está 
normalmente organizado por temas. São quatro noites, cada uma com o seu tema musical. Neste último ano, foi pop, electrónica e depois dub step e techno. Toda a imagem, o 
trabalho de luzes e de vídeo tem que ser diferente. E depois tens o vídeo de frente para as 
pessoas e tu estás de costas para o público. O palco é um trabalho de equipa com encenador 
e com os actores. Nós temos de fazer parte do processo criativo de alguma forma, o que nos 
leva a assistirmos a muitos ensaios e a ensaiar com eles. E depois, os lives. Esses devem ser 
preparados com antecedência.   

  
 
Quais são as tuas referências no Vjing?  
 


Todo o trabalho que foi efectuado nos anos 60.  
 
Há autores dos 
anos 90 particularmente importantes porque, embora não sendo os primeiros a trabalhar na 
reciclagem, trabalham sobretudo nessa área, que é o Martin Arnold e o Peter Tscherkassky. 
O Matthias Müller também tem um trabalho de reciclagem muito interessante. As minhas 
referências de vídeo vêm todas da vídeo arte dos anos 60. Faço pesquisa e leio sobre isso há 
muitos anos.  
 
Actualmente, em termos de vídeo, há uma VJ francesa de que gosto muito, a Julie Meitz que também trabalha muito nesta questão da reciclagem e no reaproveitamento, 
muito embora ela depois misture coisas, mas eu gosto da ironia dela. Ela tem dois conceitos 
engraçados, um que é o conceito de video jockey e de film jockey, com um projecto de Super 
8, de manipulação de imagem em tempo real. Acompanho normalmente o trabalho dela. Os 
ciclos de vídeo arte que vou organizando normalmente reflectem as minhas referencias no 
vídeo. 

    
 
Como é a cena VJ em Portugal?

  
 
Não somos muitos e há poucos espaços que apostam realmente na imagem como elemento de atracção, quase tão importante quanto a música. Ainda não estamos no mesmo patamar, somos o parente pobre das discotecas. Em 
último caso, somos os últimos a ser pagos depois da empregada da limpeza. Nós somos 
os únicos que logo à partida podemos ser excluídos. Portanto, esta é um pouco a postura dos 
produtores no geral. Ou seja, contratam o DJ, o bar, o técnico de som e depois, uma semana 
antes, ah e se tivéssemos vídeo? Quando não é na véspera. E depois chegamos lá, queremos 
coisas, e depois não temos e depois é caro… 

    
 
E os DJ, dão importância ao vosso trabalho?

    
 
Da minha experiência, quando eles gostam e sentem que o trabalho está a ser bem feito, dão. Eles sabem que, havendo essa continuidade, a longo prazo as festas ou aquele tipo de produções ganha coerência e homogeneidade. Acontece é que é sempre um 
trabalho a longo prazo e hoje em dia todos querem resultados a curto prazo. Honestamente, 
já encontrei DJ que não querem saber se há ou não VJ. Nem todos ainda têm muito essa sensibilidade para a imagem. Nós somos poucos VJ, existe uma boa comunicação entre nós, há um grupo grande aqui em Lisboa que vai comunicando regularmente e que vai acompanhando o trabalho uns dos outros.   
 
E projectos, o que tens em mente ou gostavas de fazer?

  
 
Para além da tese, de que não posso falar porque ainda não foi publicada e que espero apresentar em Outubro, não tenho muitos planos. Dadas as circunstâncias, nem sei bem se fique em Portugal. Depende das oportunidades que surgirem entretanto.

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* Originalmente publicado a 21 de Junho de 2013, na Le Cool Lisboa * 397