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Le Artista da Capa * 408, Rafael Vieira

Tenho uma colecção de hipnotismos quanto a Lisboa. Antes, nesse longíquo antes, ouvi-a descrita em canção como a cidade dos loucos. Um estribilho que sabia ser e interpretava como tal, dedicado não tanto a males de mente, mas a bens de coragem. Uma malta que era, ainda à distância e agora confirmando, loucamente apaixonados pela sua cidade.

A moldura alpina em recortado de colinas contra o horizonte, hipnotiza. A garganta do Tejo e as casas de Maluda a tocar-lhe os cabelos de margem, hipnotiza. A história de todos os becos e todos os filmes que falta deles fazer e todos os livros que falta deles escrever, hipnotiza. A cor dos cacilheiros e dos barcos, em bandeira muito própria e em aguada reflectida sobre o nosso Tejo, hipnotiza. A ponte que é mais nossa do que dos postais ou os eléctricos que reconhecemos pelo chilrear montanha-lusa abaixo, hipnotizam. E as gentes alfacinhas, em todos os seus cambiantes de mais ou menos verde, continuamente, me hipnotizam.

A ti não?

Le Capa * 408

por Rafael Vieira

Le Artista da Capa * 407

Sempre desenhei mãos. Comecei é por pôr os pés pelas mãos ao desenhá-las. 
Depois fui aprimorando a coisa.

Tenho um almanaque com mil e uma desenhadas. Em formas e posições para todos os gostos, como se fosse a milena e tal de receitas diferentes do fiel amigo. Sherazade ficaria orgulhosa e até daria à estampa uma por noite, para apimentar as contas.

Afixei uma data delas em folhas alinhadas junto ao Conservatório de Lisboa

Desapareceram num ápice, levadas por outras mãos em pinça de quero-te sem que as pudesse desenhar.

São quase sempre minhas, mas nem sempre. Umas parentes, outras amigas, uma ou outra imaginada, aquela em detesto.

Reparei que os povos se identificam e valorizam (e se valorizam) muito pelo que lhes sai das mãos. Não pela mão em isso, essa é a ferramenta necessária, mas pelo produto do seu trabalho. E toque e jeito e minúcia (o olho e o tacto também entram no jogo).

Filigranas, artesanatos, olarias, relojoeiros, artífices, artistas, joalheiros, bilros, tecedores, sapateiros, gravadores. Enfins, afins e infinitos sabeses. E desenhos de mãos. Claro.

Le Capa * 407

por Rafael Vieira

Le Entrevista a Nobuyasu Furuya por Pedro Tavares e Rafael Vieira [PT]

Fotografia por Nuno Martins.

Podíamos dizer que este saxofonista  e clarinetista é o japonês mais português. E um cozinheiro formidável. Falámos e partilhámos da sua música e paixões, em relação ao jazz e a Lisboa.


Primeiro Istambul, então Berlim e depois Lisboa, porquê? 

Porquê? Foi apenas um sentimento. Antes de decidir ficar em Lisboa, viajei até cá, talvez uma ou duas vezes e tive sempre um óptimo pressentimento em Lisboa. Que podia fazer a minha música aqui. A atmosfera antiga e os sentimentos de Lisboa e dos portugueses marcaram-me positivamente. Não pensei muito, simplesmente vim e tentei ficar. 

Como é que a música apareceu na tua vida?

Para mim a música é um trabalho que estou a fazer, mas claro que não consigo fazer dinheiro com isso. Mas concilio essa parte da minha vida, o meu trabalho tal como as minhas criações e eu, e tudo é completamente parte da minha vida. Não faço música, mas estou a fazer música e isso tornou-se parte da minha vida.

Le Entrevista a Rafael Vieira (Le Cool Team) por Marta Santos

Não eras arquitecto?

Essa forma verbal não existe para quem se fez arquitecto ou realizador, viste o Niemeyer? Até fenecer, desenhou. Agora que não abunde que arquitectar, é outra loiça. Nunca se deixa, nunca deixei nestes 11 anos, somando-lhe os cinco académicos em Coimbra, de esquissar e pensar o espaço que me rodeia. É uma bendição.

Haverá, nalgum código deontológico ou nalguma brochura da ERC, por exemplo, penalizações previstas para isto de entrevistar o «patrão»...

Não.
Por falar em relvismo... José Relvas, o «escolhido» para proclamar a República, a 5 de Outubro de 1910, da varanda da Câmara Municipal de Lisboa, afirmou certa vez que o «desengano foi cruel». Tempos cruéis em Lisboa? Ou o Tejo limpará tudo?

Já que comentamos um Relvas, eu endereço-te outro. Não aquele que anda por aí nas equivalências do mundo, mas o pai desse teu José Relvas, que conheci quando fui a uma Feira do Cavalo na Golegã. Carlos Relvas, fotógrafo da dobra do século que tem Casa-estúdio. Museu. A visita vale bem uma ida. 

Eu sou um optimista optimizado. Apontar desenganos é óptimo à mesa de café ou no Estádio. Mas depois do segundo cigarro que estou a deixar de fumar ou de se esfumar a espuma do quarto fino, pois faço tudo a pé ou de bicicleta, as ideias e as possibilidades continuam a brotar.

Tu, como o Afonso Henriques, vieste lá de «xima». Dizem que os convertidos são os piores. Já te sentes, digamos, alfacinha?

Eu vim do meio, de Coimbra, de onde alguns também anunciam ter vindo esse nosso primeiro Afonso. Talvez de Coimbra, talvez de Viseu, enfim. Em Coimbra está também o seu túmulo, naquele que é um dos dois Panteões Nacionais portugueses. O outro está "inacabado" ali em Alfama. Divago.

Não me converti, fiz uma translação. Coimbra é uma cidade-postal e será sempre a primeira. Temos Torga, togas, repúblicos e repúblicas, Chanfana e Queijada de Pereira. Sopa da avó, uma sagrada família, um conforto com lareira, uns terrenos para cultivar e um leite-creme de tia. Pode-se ser aeminiense e alfacinha ao mesmo tempo, estou confortável. 

Mas, também os futricas me apoiarão nisto, é-se da Briosa para sempre. O casco velho de Coimbra é o melhor sítio para conduzir em Portugal, sublinho-o em terceira. Como sou o maior teimoso que conheço acima ou abaixo do Mondego, continuo a pedir «uma nata» e «um fino», a dizer joêlho e pintêlho, a ler ministro e não menistro, a soletrar pis-cina e a usar cruzetas para dependurar as camisas, esteja no Chiado ou no Choupal. Só me falta é perceber se o Fado de Coimbra é também património imaterial.

Muitos forasteiros afirmam que a vida urbana em Lisboa não tem de invejar a ninguém. No entanto, perdura aquela sensação desconfortável de que a verdadeira vida está lá fora, mesmo que seja em Barcelona ou Hamburgo... Uma perspectiva defeituosa?

Pois eu já habitei Barcelona e prefiro Lisboa. E em Hamburgo encontras natas e café Delta, alguns dos combustíveis necessários. Cada português é que, por defeito, tem que ir. Seja para onde for. O desconforto pode advir é de não poder. É a nossa Hajj, andar por aí como Camões, sem palas. Também me chateia ficarmos inchados quando é alguém de fora a dizê-lo. Temos que perceber de uma vez para todas, que esta cidade é extraordinariamente rica. E que os percalços lhe fazem parte.

A cidade não corre o risco de vender a alma ao turismo?

Corre o risco de vender mais postais e miniaturas da Torre de Belém. Só no 28 é que bufo com a amálgama de turistas e nos passeios do Chiado devia ser imposto um livro de código para peões. Em mandarim e russo também, já a contar. Mas na Morais Soares acontece o mesmo e ouve-se português. No centro é que há muitos senhorios que vendem arrendamento-a-dias a milhares de almas. O que é pena, pois podiam arrendar a anos a outros milhares. E estes, claro está, podiam perfeitamente conviver com uns quantos hotéis e hostels, com ou sem charme.

O orçamento participativo de Lisboa tem contado com a tua contribuição. Tens necessidade de pensar a cidade com outra pretensão? 

Já participei em dois com três projectos: «Vilas Criativas» e o «Verde em Rede» (com Inês Mendes, Joana Lages e Maria Fonseca) e «Gema» com Liliana Marante. Talvez contribua este ano, é a ver. Isto tem a ver com o que te respondi na primeira pergunta, não há como o contornar, Lisboa surge-me a quatro dimensões.

A maioria das pessoas em «Lisboa» vive nos subúrbios. Não faria sentido uma reorganização administrativa mais profunda do que o colar a cuspo freguesias?

Vive nos subúrbios, mas desloca-se para o restante. As novas freguesias fazem sentido e nem esta foi a primeira ou única reforma de Lisboa. A nova freguesia de Santa Maria Maior, por exemplo, tem uma lógica muito atraente. Não só no mapa. Agora parece-me que se podia pensar numa coisa à Tóquio, que está dividida em grandes porções urbanas que são administradas como cidades. Há depois uma entidade maior que as une, para o necessário. É que há várias lisboas e faz-me confusão estar no Barreiro a desconsiderar aquilo como subúrbio. Um passo interessante seria criar um organismo metropolitano activo, que ligasse as pontas e as pontinhas.

A Le Cool Lisboa perdurará na eternidade?

Na eternidade à escala de revista, claro.

O Rafael é editor da Le Cool Lisboa desde Junho de 2010.

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* Originalmente publicada em 15 de Abril de 2013, na Le Cool Lisboa * 387

Le Entrevista a Anna Glogowski por Rafael Vieira


A meio caminho entre o início e o fim do doclisboa 2011, pergunta-se à sua actual directora, Anna Glogowski, sobre a sua relação com o documentário, com o doc e com Lisboa. Um relato próximo e documental da vida de alguém que encabeça aquele que é, neste momento, o segundo maior festival dedicado ao documentário na Europa, logo depois do IFFR de Rotterdam.

Apresente-se e partilhe por favor a sua relação imediata com Lisboa - como lhe surge Lisboa no percurso.

Tenho um afecto particular pela cidade de Lisboa, onde vivi de 74 a início de 78, trabalhando como socióloga e colaborando em alguns filmes ligados ao PREC.

Le Entrevista a Paula Pinto por Rafael Vieira

Numa estremunhada tarde de Outono em Lisboa, encontro-me com Paula Pinto e perante umas desafiantes Pataniscas de Bacalhau ao Adamastor.

A conversa fluiu entre garfadas de ataque ao Fiel Amigo e a longa carreira de Paula nos palcos, na Gulbenkian e no exterior, a plataforma Sentidos Ilimitados e o espectáculo Compota do próximo dia 30 ao Teatro do Bairro. Pelo caminho da conversa, foram surgindo outros temas, como a vida, o sonho, o futuro, metas e o suculento arroz de feijão que emparceirava a patanisca:

Fui bailarina do Ballet Gulbenkian durante 20 anos e saí dois anos antes da extinção. Sou de São Tomé e Príncipe, nasci em São Tomé, vivi na Guiné e um mês antes do 25 de Abril vim para Portugal. A dança começou em frente à minha casa na Guiné. Havia uma árvore muito grande, sempre com muita gente à volta, crianças a brincar, pessoas a tocar tambor. Portanto, era muito fácil, quando eu vinha da escola, participar daquelas celebrações. 

Que árvore era?

Ah, não me lembro. Era daquelas muito grandes, com a copa muito larga. Cheia de animais, pássaros, macacos... Gente sempre reunida, com crianças e era muito normal ir para lá dançar, tocar, bater com os pés no chão e tocar tambores.

Uma vez contaram-me uma história sobre uma árvore muito larga, comunitária. Havia sempre um bando por debaixo.

Sim, as pessoas juntam-se onde faz uma grande sombra, aproveitam para vender os seus artesanatos, a sua comida. Fazem ali as suas refeições, era tudo feito ali. Era como com os banhos, caia uma chuva torrencial e ia tudo tomar banho para o meio da rua. Era fantástico. Foi uma infância bastante selvagem, bastante ligada à terra e isso fez-me a pessoa que sou. Vem um bocadinho daí, dessa ligação profunda.

É muita memória.

Muita muita. E os cheiros. Ainda há pouco tempo cheirei uma caixa de caju. Eu pedi para trazerem caju em fruta, não sei se já provaste?

Provei.

Nós apanhávamos da árvore. Limpávamos e comíamos. Há pouco tempo uma amiga que me trouxe caju de Cabo Verde. E quando abri a caixa e cheirei, tive que me sentar, deu-me uma tontura. Levou-me à memória. Nem os comi todos pois alguns estavam já passados da viagem, mas só o cheiro, foi assim uma coisa...

E voltaste lá?

Não. Não voltei. Voltei a Cabo Verde e ao Senegal com o Ballet Gulbenkian, mas à Guiné nunca mais voltei. E São Tomé também não. De São Tomé saí com dois anos de idade e aquilo que me lembro é aquilo que os meus pais me contam. Gostava muito de voltar e até de trabalhar em São Tomé. Até cheguei a contactar a Roça de São João. Há aquele senhor, o João Carlos da Silva, com um programa em que cozinha ao ar livre. Eles têm uma residência artística e um centro cultural e já os tentei contactar. Mas também há muita malária e eu não posso levar o meu filho com 11 anos e não posso levar e expô-lo ainda assim.

Quando fui para Sintra fui para um colégio onde havia ballet e eu gostava imenso de ballet, de dança. E o meu pai ofereceu-me um livro, o Ballet Sem Mestre, que era um livro pequenininho que ensinava as primeiras posições, a técnica dos braços, a posição dos pés, o Arabesque, as mãos... a minha mãe dizia que eu andava sempre a treinar, agarrada à barra da cama a treinar.

Foi assim que começou a tua formação?

Primeiro em África, com as danças mais tradicionais, mais espontâneas. Tudo mais espontâneo. E, depois, nos bailaricos cá em Lisboa, com o folclore e as festas e os Santos. E a ida para Sintra fez-me conhecer esta escola, que era duma senhora inglesa, a Neilma Williams. Que foi a minha mãe do ballet, a pessoa com quem trabalhei esses primeiros momentos para aprender um pouco a técnica, para além do livrinho. E ela despois sugeriu aos meus pais levarem-me à Gulbenkian, porque a Gulbenkian fazia cursos de bailado e fazia audições anuais para integrar outros alunos, miúdos jovens. E tinham cursos de bailado que foram criados pelo Jorge Salavisa. Eu fui à audição, tinha onze anos, quase a fazer 12.

Isso não é considerado tarde?

Sim, pode ser considerado tarde. Mas tive a sorte de passar na audição. Eu e outra colega minha, que depois continuou a ser minha colega durante 20 anos, que é a Paula Fernandes, que é artista plásticae faz jóias com motivos do Minho. E, a partir daí, tínhamos aulas ao final do dia, andava em Sintra no liceu e vinha de comboio para Lisboa todos os dias ao final do dia para fazer as aulas de dança clássica e de dança contemporânea com a Manuela Valadas. Aulas com o Jorge Salavisa de pas de deux. Paralelamente a isso, havia muita gente a vir à Gulbenkian ver os bailarinos, o Jorge sempre foi uma pessoa muito interessada.

Em expor?

Não só em expor, mas também em dar novas oportunidades às pessoas. Havia por exemplo, o Fernando Lima, que era coreógrafo do teatro de revista e televisão. Ele foi uma das pessoas que nos angariou para fazermos coisas. Uma das coisas que fiz foi uma peça do Bernardo Santareno no D. Maria II, com Ruy de Carvalho, Rui Mendes, todos esses grandes do Dona Maria II - nem consigo dizer o elenco todo, e estivemos em cena nove meses, o que foi uma experiência brutal. Isto para uma miúda de 14 anos! Fiz também trabalhos para a televisão, o Sabadabadu, publicidades também, sempre pela mão do Fernando Lima, porque ele estava muito ligado a essas produções de televisão e teatro. Depois, aos 16 anos, o Jorge Salavisa convidou-me para entrar para o Ballet Gulbenkian, como profissional. E eu aceitei, obviamente.

Foste bastante precoce, então. 

Foi uma experiência gira, toda essa dinâmica da televisão, dos programas e o contacto próximo com os organizadores, com os assistentes, com todas as equipas. Todo aquele mundo, abriu-me... Sempre fui muit aberta, sempre me considerei não portuguesa mas uma mulher do mundo. Eu sou terráquea. Sou habitante do planeta Terra. Até haver outra novidade, para mim não há fronteiras, não há delimitação.

A ideia da portugalidade é o fado, não é estática. Temos muito da raiz africana, também.

Temos essa raiz, sim.

Sou sempre ávida de conhecimento, apesar de não ler jornais, não ver televisão, não ver as notícias. Mas gosto de estudar, gosto de me informar. Tenho amigos que me telefonam a dar as notícias.

Eu compreendo isso, também não vejo televisão. Até vi ontem, mas calhou, estava ligada e passei. A televisão nem é minha, é da casa onde estou. 

Investigo tudo o que tem a ver com sustentabilidade, com ciência, com diversidade, são coisas que me interessam. Novas descobertas da ciência, tudo isso me interessa muito, gosto muito. A expansão do Universo, isso é que realmente é importante, não se o Manel matou a Maria. Naturamente as pessoas morrem e nascem, a cada segundo, mas interessam-me outros tipos de informações. Faço a triagem da informação, daquela que me faz realmente pulsar e avançar e não aquela que me prende ao sistema no qual eu não me sinto muito pertencente.

A triagem é importante, há demasiado lixo.

Entretanto, achei que precisava de conhecer mais, de ampliar a formação em dança clássica e moderna. Pedi uma bolsa de estudo à Fundação, a qual não foi aceite. E, então, despedi-me, tinha 17 anos.

Querias ir para fora?

Sim. Eu queria ir para a London Contemporary, o The Place. Eu tinha feito uma audição e tinha entrado e apesar de já ser velha - eu teria 16, 17 anos. Eu já era velha, entre aspas, mas gostaram e escreveram uma carta de recomendação.

Estavas ainda no Ballet Gulbenkian?

Estava no Gulbenkian, sim.

Causa-me sempre estranheza falar de ballet e juntar-lhe contemporâneo. 

O Gulbenkian sempre foi contemporâneo, a partir da altura que eu entrei, já apanhei numa fase neo-clássica a caminhar para o contemporâneo. Já não se faziam aquelas produções clássicas tradicionais, já não se fazia. A última que vi foi quando tinha para aí nove ou dez anos e foi o Quebra-Nozes. Eu assisti ao Quebra-Nozes e disse à minha mãe: "Mãe, eu quero estar ali naquele palco, eu quero ser bailarina com esta companhia."

Passados uns anos, conseguiste.

E fui.

Associa-se o ballet ao clássico.

Sim, associa-se ao clássico. Dança contemporânea é dança contemporânea. Tem várias famílias, várias vertentes ou caminhos.

Variantes. 

Variantes, sim. Dança moderna, Isadora Duncan, Martha Graham e por aí fora.

E foste para Londres?

Acabei por não ir para Londres, porque não ganhei a bolsa de estudo e não tinha capacidade financeira para pagar a escola. Despedi-me e fui para o centro de dança da Rosella Hightower em Cannes, que é uma escola internacional. Fantástica, onde tive parcialmente uma bolsa de estudo. Durante algum tempo trabalhei com o marido da Rosella Hightower, na construção de grandes guarda-roupas para ópera. Ele era figurinista e cenógrafo e na casa dele tinha um atelier enorme onde tinha duas costureiras. E eu fui ajudante, separava as peças, ajudar a colocar os brocados e a fazer as missangas. E aí também, o lado meu de figurinos, também o fiz. A oportunidade de trabalhar com ele foi muito gira, a oportunidade de observar, pois eu estava ali a ajudar e a assistir. E depois fazia a escola e aquilo era o que ajudava a pagar a escola. Depois, para ganhar algum dinheiro, criámos um grupo de breakdance, mais três rapazes.

Isso foi quando?

Teria 18, foi em 84. Sempre gostei muito de dança jazz, de flamenco. Sempre tentei fazer uma formação ampla, tem a ver comigo. Eu gosto de tentar isto, de tentar aquilo. Claro que aprofundei mesmo a dança clássica, a dança contemporânea. Mas depois também a dança jazz, disto e daquilo, experimentar um pouco de tudo. Agora ando a querer aprender a dançar o tango, a dançar o tango à séria.

Depois, ao final de um ano, recebi um novo convite do Jorge Salavisa, Director Artístico do Ballet Gulbenkian, nessa altura. E aceitei, com o meu coração muito grato, porque eu sou portuguesa, apesar de ser uma mulher do mundo. Sou patriota, gosto muito de Portugal e acho que temos aqui muito para dar e é bom voltar para casa. Foi mesmo essa sensação que eu tive, de voltar para casa.

Não ficaram ressentidos? 

Não, não havia razões para ficar.

Nas áreas criativas há uma coisa essencial, que é a mobilidade. 

Também acho, é muito importante. O que é mais importante mesmo é a partilha de ideias, e não digo o confronto, confronto é uma palavra muito forte. Mas o facto de te dispores voluntariamente a novas culturas, de forma a testar novas ideologias, novos ambientes. Tudo isso, é enriquecedor.

Voltei para o Ballet Gulbenkian, foi maravilhoso, reencontrar muitos amigos e colegas da escola. Aquele ano em França foi muito importante para mim, para o meu crescimento especialmente como pessoa. Voltei para casa sem perspectiva de voltar a sair tão cedo. Andava sempre aqui e ali. Fui uma pessoa que ganhei poucas raízes e voltar para casa naquele momento foi importante para ajudar a construir uma base. Mas foi sol de pouca dura, pois ao fim duns anos já estava outra vez com vontade de sair para aprender mais ainda, apesar da experiência no Ballet Gulbenkian foi um privilégio, incrivelmente enriquecedora. Os coreógrafos que vinham, toda a dinâmica, o repertório que tínhamos, as viagens que fazíamos. A companhia é reconhecida internacionalmente.

Conseguias propor as tuas ideias? 

Havia espaço. Foi daí que surgiram muitos dos coreógrafos que tens por aí. A Olga Roriz, a Vera Mantero, tanta gente que entrou nos estúdios coreográficos do Ballet Gulbenkian.

Era um ambiente fértil para criar.

Muito muito. Sempre houve um espírito muito familiar de reaproveitar tudo o que havia de figurinos, de cenografia de obras anteriores que tinham sido feitas. Mais uma vez precisei de apanhar ar e fiz um projecto com o Jan Fabre. Precisava duma pessoa para integrar a equipa dele para fazer uma criação no Frankfurt Ballet e ele veio na altura a Portugal. Não sei se assistiu a um espectáculo, mas disse-me: “Queres vir comigo?”, “Quero.” Então estivemos quinze dias na Bélgica a tentar estruturar a criação que ele ia fazer para o Ballet de Frankfurt, para a companhia do Forsythe. E depois fomos viver para Frankfurt durante dois meses e meio e a trabalhar todos os dias com o Ballet de Frankfurt. Foi uma coisa espectacular, não tanto a obra do Jan Fabre, mas a experiência com o Forsythe e com os bailarinos, excelentes bailarinos. E depois daí fui para Nova York, fui bolseira e estive lá uns meses, até – se não estou em erro - Maio de 91. E ali fiz aulas com todos aqueles que já ouviste falar, com o Cunningham e mais.

Depois, Lisboa. Nova Iorque foi extenuante, não só pela experiência de andar de um lado para o outro de Metro, mas também porque fazia cerca de seis aulas por dia. Eu chegava exausta ao final do dia. Eu sinto Portugal dentro de mim, adoro estar aqui. O que eu mais gosto é mesmo a humanidade, a humanidade do português.

(Passa uma versão portuguesa dum Chakda, ao qual a Paula tira foto com o telemóvel e eu explico o que é de facto um Chakda indiano)

Há muito muito para ver, tanto para descobrir.

Quando eu voltei para o Ballet Gulbenkian, continuei o meu trabalho e chegou a altura de parar. Eu tenho muitas lesões físicas e depois fiquei grávida, também. Foi outro projecto e a dança ficou para trás, já há nove ou dez anos que não faço nada na área. Quando eu saí da Gulbenkian, fui ainda trabalhar com a Olga Roriz durante um ano e meio, fizemos umas produções juntas, como bailarina ainda. E, depois, parei mesmo. Saí de Lisboa, fui viver para o campo, para junto do mar. E a minha vida, durante dois anos, resumia-se a fazer meditação, em levar o meu filho à escola e a estudar, a pesquisar, a aprender, a procurar resposta para a transformação que eu própria estava a sentir. Fiz muitos cursos pequeninos, de gestão de projectos e de gestão de projectos culturais. Pequenos cursos de formação. Comecei a sentir que precisava de aprofundar conhecimentos. Inscrevi-me na Universidade, tenho estado a fazer uma licenciatura em estudos artísticos.

E foi então que surgiu essa intenção enorme, que eu não podia mais fingir que não estava a acontecer e achei que era interessante criar uma entidade que pudesse ser e representar esse sentido e propósito de vida em todas as direcções. E dei-lhe um nome, Sentidos Ilimitados. E se reparares nas iniciais, formam SI. O sentimento de si.

Não acolhendo apenas a dança.

Em todas as direcções. Claro que a minha formação é de dança.

A Compota surge dentro dos Sentidos Ilimitados.

É anterior à criação da marca, que a SI é uma marca registada e que depois se tornou em associação. A Compota surge numa brincadeira em que se falava “Vamos juntar artistas e fazer uma jam”, e alguém disse “Ah, ya, vamos fazer uma compota.” Foi o Vítor Garcia, que também foi bailarino e que trabalhou muito tempo no Ballet de Frankfurt e que agora é professor aqui na Escola Superior de Dança e que trabalhou muitos anos com improvisação. Excelente pessoa, excelente bailarino, excelente mestre de bailado. E, em conversa com o Vítor, começámos a brincar. “Olha, compota.” “Compota é giro, bora lá.”

Começámos a organizar umas sessões aqui no Conservatório, cederam-nos a sala, começámos a juntar artistas e muita gente veio. E tomou proporções muito grandes, agora são cerca de duzentos e tal colaboradores. Era muita gente a querer participar de várias áreas. Mas aquilo chegou a um ponto, que sem uma estrutura por detrás e sem uma equipa de gestão de projecto, se tornou insustentável. Eu queria criar uma marca e não o fiz e então o projecto esteve parado durante cinco anos. Em 2009, a pedido de várias famílias, como se costuma dizer, recuperei o projecto.

E a marca?

A marca surge duma motivação artística de querer providenciar um serviço que seja verdadeiramente útil, que as pessoas possam mesmo beneficiar pelo contacto, pela proactividade, pela proximidade com o projecto em si. Não só o artista ou o colaborador da actividade, mas quem está presente também possa beneficiar. Que seja uma actividade que toque as pessoas e que possa conduzir a uma ideia de serviço pelas artes. Pela ideia de progresso enquanto artista e enquanto pessoa.

O Manifesto ID justifica-se por esse querer?

E a Compota também.

A Compota é uma mistura de várias coisas.

É uma mistura de ingredientes.

E cada espectáculo é diferente.

Sempre diferente. É única e irrepetível. Estamos a falar de improvisação, é composição improvisada que não é possível de replicares. Há imenso material no canal Youtube da Sentidos Ilimitados. Há muita coisa. E são sempre diferentes.

E depende também de quem está presente.

Depende. Há ainda e é perfeitamente normal, alguma resistência por parte do público de participar. Apesar de o desejar ardentemente, ainda tem algum receio. Eu acho que as pessoas gostam de se sentirem integradas nas coisas.

Agostinho da Silva dizia que todos nós “somos estrelas de brilho ímpar.” E que ele, não tem o direito de dizer o que deve ser feito, mas ajudar para seres tu próprio. O mesmo dever que ele consigo próprio é de ser quem ele é. Um direito e, ao mesmo tempo, um dever de ser quem ele é. E a ideia de ser o que sou, com toda a sua exuberância ou não, porque nem todas as pessoas são extrovertidas. Interessa valorizar o que és e aquilo que sabes. Todos nós somos criativos, todos temos capacidades que devem ser nutridas.

Eu costumo dizer que cada pessoa, mesmo por mais desfasada que pareça, tem sempre algo para oferecer.

Eu acredito piamente nisso.

Nem que seja a fazer uma tarte de maçã.

Por isso eu dizia que acredito na pessoa, acredito na humanidade. Na identidade, e daí o manifesto identidade.

O Manifesto iD. 

Identidade.

Explica-me um pouco...

O Manifesto iD? Eu estreei um solo na Malaposta e o Manifesto iD foi um estudo meu sobre a minha natureza, a natureza humana. E fiz um solo como um desafio para mim própria como outra coisa que eu queria oferecer. As pessoas gostaram bastante. E o meu grande objectivo era tocar, tocar-te. E emocionou-me.

Tudo o que tens feito, anda muito à volta da identidade, da participação.

Sim.

Parece-me a procura da essência. 

Eu acho que não ando à procura da essência, eu acho que já vislumbrei.

Queres é partilhá-la.

Quero é partilhar esse sentido e esse propósito, o sentido de vida e esse propósito meu. O que eu gostava mesmo é que as pessoas redescobrissem isso em si e pudessem partilhá-lo também. Porque é que o Agostinho da Silva eu me sinto tão próxima – apesar de não ter lido a obra toda. É um pedagogo, existe arte no saber e no fazer, toda a sua obra é muito humanista, universalista. É assim que me vejo, cheia de humanidade, e quero os projectos que se façam providenciei essa oportunidade a quem participa. Não é uma coisa que se possa fazer de repente, para as massas, mas um trabalho muito íntimo, muito cuidado, muito delicado, com muito amor. Porque não pode ser feito doutra maneira. As pessoas são muito diferentes, cada pessoa é um mundo.
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Enlaces

Sentidos Ilimitados YT : www.youtube.com/sentidosilimitados

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* Originalmente publicada a 24 de Novembro de 2011, na Le Cool Lisboa * 315

Le Entrevista ao Luís Lopes Humanization 4Tet por Pedro Tavares e Rafael Vieira


Não há envolvente melhor para lançar os alicerces a uma entrevista com os Humanization 4Tet do que aquela que se nos apresentou sábado, 6 de Agosto de 2011. Ainda embalado pelo travo deliciado a freejazz e a slam despejado em grande na noite anterior no Anfiteatro da Gulbenkian por Cecil Taylor, é na Trem Azul - pátria da Clean Feed Records, que nos encontramos com Aaron González, Luís Lopes, Rodrigo Amado, Stefan González e António Júlio Duarte.

Este último acompanha a banda como fotógrafo, aqueles, que burilavam acordes em ensaio no estúdio da Clean Feed, são nomes já bem reconhecidos na cena jazz neste binómio de continentes, cidades e países que os unem e não afastam: Lisboa e Dallas, Portugal e EUA.

É também na expectativa do concerto no Teatro do Bairro de dia 9 de Agosto, incluído no Jazz em Agosto 2011, que a conversa gravita.

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Acrónimos chave para a entrevista:

Aaron González AG
Luís Lopes LL
Rodrigo Amado RA
Stefan González SG
António Júlio Duarte AJD

Le Cool (Pedro Tavares + Rafael Vieira) LC

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Le Entrevista a Vik Muniz por Rafael Vieira + Carla Henriques


Por Sueli Ferreira de Souza

Vik Muniz está por Lisboa a acompanhar o lançamento de Lixo Extraordinário e para viabilizar - assim o desvendou - uma exposição em nome próprio em Lisboa. Trocámos umas palavras durante o festival FESTin, que continua no Cinema São Jorge até Sábado, dia 30.

Apresente-se e fale-me um pouco de quem é Vik Muniz, o homem por detrás do artista (ou o homem feito artista).

(Risos) O homem. O Homem é um homem normal. Simples. Acho que não tem muito mistério. As pessoas tem uma tendência a fantasiar um pouco a imagem do artista. Vem do facto que tem um aspecto histórico disso, os artistas quererem fazer aprender a gostar através dos tempos. Você vai imaginar sempre vidas conturbadas. Eu tinha esse defeito, imaginava artistas cortando orelhas, nunca vendendo quadros. É uma ocupação como qualquer outra, que não dá direito a saber mais. Do ponto de vista político, por exemplo, as pessoas acham que o artista vai saber mais da sociedade. Uma pessoa que vê através das coisas, que tem uma visão aprofundada. Eu sou contra, do ponto de vista político ele não sabe mais do que o padeiro, o policial ou o torneiro mecânico. Muito pelo contrário. Tem uma visão muito superficial da maneira como as coisas funcionam, pois vive num mundo meio fantasioso. Um mundo de imaginação.

Le Entrevista a Teresa Ricou por Rafael Vieira

Teresa Ricou em discurso directo:

Nasci em Novembro de 1946, na Praia de Granja, a Norte de Portugal, no seio de uma família burguesa.
Segunda filha de Eduardo Ricou, médico de lepra de origem suíça, embarco, em 1949, para Luanda, com ele e com a minha mãe, Alda, brasileira de sangue italiano e mais as minhas irmãs por essas terras de África, a levar a cura ao corpo desses povos negros de pele e transparentes de alma. Dos irmãos que tinha e dos irmãos que vieram somam-se sete.

E foi em terras de Angola, a fazer casinhas e castelos e a misturar o pó vermelho da terra com as mil cores dos sonhos que aprendi as tantas cores que tem o Mundo, o que era a Cultura e tive a certeza do que queria ser. Nem mulher recatada nem mulher casada, antes Tété – Mulher Palhaço. Com espontaneidade, adquiri o gosto pela fantasia de ser, dia a dia, uma mulher livre de preconceitos mas com sentido do mundo onde navegamos.

De volta à metrópole, vivia já os meus 17 anos, os meus pais inscrevem-me no Instituto de Cultura Alemã e depois na Alliance Française do Porto e depois num outro colégio para depois eu voltar a trocar as voltas ao predestinado e partir, desta vez para Londres, acompanhada pelo amigo de família Joaquim Paço d’Arcos, ao encontro dos melhores amigos de Angola.

Aqui, sem a rede dos meus pais, aprendi a viver, a sobreviver, a lutar, a procurar, a não dizer que a conquista da emancipação é impossível.

Fui muita coisa. Dog-sitter e baby-sitter, guia turística, empregada de mesa, disco-jockey. Vendi bilhetes no mercado negro para a primeira World Coup de futebol, aproveitando para assistir, na 1.ª fila, a todos os jogos. Até vi o Eusébio a chorar no célebre jogo com os coreanos na companhia dos velhos amigos de Luanda a que se foram juntando outros tantos: Carlos Monjardino, José Megre, Domingos Sá Nogueira.

Uma amiga, Maria João Campos, ex-assistente de bordo da TAP inscreveu-me num concurso para novas hospedeiras e levou-me de volta a Lisboa.

Casei, fui dona de casa e fui mãe.

Separada, fui cara de campanhas publicitárias, convivi com cineastas, poetas, escritores, pintores e intelectuais. Tudo girava à volta da Arte e das Letras, sempre na descoberta peugada da Arte do Circo. Nos passeios pelo Parque Eduardo VII, com o Nuno num braço e o Mundo de tantas outras crianças no outro, fui encontrando formas de educar pela arte, com animação. Trabalhei com elas dando-lhes aulas de pintura e, no sótão de uma livraria partilhada com Camilo Mortágua, Padre Felicidade, Padre Fanhais e outros revolucionários, dei os primeiros passos em direcção àquele que viria a ser, anos mais tarde, o fundamento de um projecto de Reinserção Social através das Artes.

Com Calvet de Magalhães, director da Francisco Arruda, trabalhei com jovens iniciando-os no mundo das artes e da transformação do Velho em Novo Portugal, Lisboa, a polícia política, tudo isto me asfixiava. Fui para Paris onde vendi jornais na rua, privei com prostitutas, travestis e turistas, mergulhei na boémia parisiense, conheci artistas. Estudei a Arte de fazer Rir na École Jacques Lecoq e frequentei o Gymnase du Cirque do velho Palhaço-mestre Bonot. Aprendi sapateado, acrobacia e dança. Frequentei a Cartoucherie de Vincennes onde os ensinamentos filosóficos e artísticos de uma senhora chamada Ariane Mnouskine, num primeiro estágio, os clowns, deram-me a orientação necessária para prosseguir esta minha vida artística.

Frequentei o Musée de l’Homme onde descobri a cultura africana, as mulheres Mumuila e dos Cuanhama através da etnologia. Com Jean Rouche dei o meu primeiro passo no Audiovisual. Durante o mandato de Langlais, a Cinemateca era o lugar dos grandes encontros. Arrabal foi o desfecho e a oportunidade de realização profissional pela mão de um grande amigo, o Novais Teixeira, um comunista profissional do cinema exilado em Paris. Participei em acções de animação cultural com a comunidade portuguesa e fui directora artística da Maison des Jeunes et de la Culture de Gentilly, um modelo de casa de Cultura que me inspirou e que, anos mais tarde, traria para Lisboa e dar-lhe-ia o nome de Chapitô, assumindo um sério compromisso com a vertente da Reinserção Social e Formação nas Artes.

Na madrugada de 24 para 25 de Abril recebo o telefonema da minha prima Ede, locutora de rádio. Corri para Lisboa e fiz a Festa da Revolução.

Integro o Sindicato dos Trabalhadores do Espectáculo, cruzo-me com Luciano Nobre, o mestre dos Palhaços e, nas Portas de Santo Antão, encostados ao café Castanheira, deixo-me misturar com o cinzento da noite, conhecendo os empresários do Circo, nomeadamente o Ricardo Covões.

Sou convidada para fazer parte do Grupo Faz Tudo do Coliseu dos Recreios, a catedral do Circo. Contratada por outros empresários e de parelha com o Mestre Luciano Lopes, segui em tournées de norte a sul do país. De volta à cidade, depois de ter vivido, pressentido e pensado acerca da condição social e cultural que legava ao esquecimento a Arte do Circo, fui escrevendo uma proposta para a criação de uma base de apoio social e o reconhecimento desta cultura circense. Na Secretaria de Estado da Cultura, no 1.º mandato do Partido Socialista, o Secretário de Estado Dr. António Reis aceitou a minha proposta de integração de um Departamento do Circo, lado a lado com o Departamento de Teatro, passando a fazer parte da Lei Orgânica da Secretaria de Estado.

Mas não esqueço nunca o meu objectivo: aliar as artes ao social. Não me bastava uma mesa e uns papéis na Secretaria de Estado da Cultura, nem me alimentava o conforto de Funcionária Pública. Não tinha desistido do Circo, nem de dar voz aos que fantasiam esta arte, mas muitos mais caminhos haviam para percorrer e o meu chamava-me à Justiça Social. Foi exactamente o desejo do Ministério da Justiça que me levou aos colégios. Nasce o Chapitô.

Com um grupo de sociólogos, pensadores e intelectuais, reunimos esforços e ideias à volta de uma mesa. Um pensamento comum, um sonho que finalmente se concretiza: era a construção do projecto Chapitô a nascer dos escombros da antiga Cadeia das Mónicas ao Castelo, em Lisboa. A 7 de Janeiro de 1981 é criada a Colectividade Cultural e Recreativa de Santa Catarina, uma IPSS – Instituição Particular de Solidariedade Social e mais tarde uma ONGD – Organização Não Governamental para o Desenvolvimento de reconhecido mérito social e cultural.

O Chapitô:

Chapitô: Casa de Cultura – Uma Tenda de espectáculos, um Bar ao estilo vintage de sala de estar, uma Esplanada e uma fórmula mágica para se Ser Criativo.

Chapitô: Projecto pedagógico único em Portugal, uma escola profissional de artes de nível secundário que não termina no terceiro ano, mas prolonga-se através do acompanhamento que é feito pela equipa pedagógica ao percurso profissional de cada aluno que desce a Costa do Castelo, muitas vezes em direcção a Universidades e Instituições de Ensino Superior sedeadas nas grandes capitais da Europa, como Paris, Espanha, Londres e tantas outras...

Chapitô: Projecto social pensado nos jovens e para os jovens, um local de Liberdades e trans-inserção alicerçado na educação para a cidadania. Através do conceito Animação em Acção, pedagogos, sociólogos, artistas e animadores desta Casa acompanham a integração dos jovens nos Centros Educativos Navarro de Paiva e Bela Vista sob tutela do Ministério da Justiça.

Ainda nesta vertente, a Casa do Castelo, no berço deste local a que alguns chamam “babilónia comedida”, recebe alguns destes jovens, dando-lhes alternativa habitacional. Aqui encontram um espaço que é um salto para um outro salto maior: a vida em Sociedade.

Chapitô: Uma Companhia - projecto de convergências e diálogos que, com uma matriz linguística e de expressão fortemente marcada pelo teatro físico - “gesto” -, recuperou o ideal de criação colectiva, transformando peças de autores em campos de discussão entregues ao domínio do público.
Chapitô: Uma obra com história, memória fotográfica e videográfica; uma Biblioteca que foi buscar o nome à poeta Luíza Neto Jorge, grande amiga da Casa que, lado a lado com Agostinho da Silva, ajudou a dar forma ao pequeno Centro de Documentação / Biblioteca.

Como estes, outros amigos nos ajudaram a construir os diferentes espaços: Zeca Afonso, Mariano Franco, Tótó Campos, Luciano Lopes, Quinito, etc. Este espaço é, indiscutivelmente, o único testemunho fiel da História do Circo em Portugal e no Mundo, da história da única Casa que transforma jovens marginalizados em Líderes das Artes Performativas, privilegiado o espaço da Rua e pisando os palco dos Teatros.

Um dos exemplos da nossa contribuição, mais do que na cidade, na sociedade passa pela presença da palavra “Chapitô” no discurso de políticos, comentadores e jornalistas: - “Isto parece um Chapitô”.
Julgo que o Chapitô é uma referência nacional à parte do ainda preconceito de uma cultura portuguesa que, atrevo-me a afirmar, ainda é um pouco provinciana, tradicional.

Pese embora o facto, somos premiados sobretudo pelas culturas do norte da Europa que vêm neste tipo de projectos modelos de sociedade onde as suas culturas são recebidas, reconhecidas e integradas. Quanto a Lisboa, às entidades oficiais falta-lhes o olhar mais sério e atento sobre o modelo, a realidade do Chapitô como mais valia para o país. Não basta reconhecê-lo, é preciso sê-lo.

Qual é o circo, qual é ele, que antes de o ser já o era? O Chapitô… Neste mundo global, rapidamente nos reconhecem pela bela vista sobre o Tejo, pela esplanada e todas as propostas de restauração, mas acima de tudo, e quando não nós tentamos, reconhecem-nos pelo projecto cultural e de acção social. Aqui deixo três testemunhos/ exemplos do nosso trabalho transversal: acção social, educação e cultura.

O sucesso só será sucesso verdadeiro se for o resultado de um trabalho, passo a passo, formiguinha, para que não seja um esforço efémero. Aliado a este sucesso estão muitas vidas e é por isso que nada do que fazemos hoje pode cair no esquecimento amanhã. Todo o nosso esforço tem que, diariamente, reverter-se numa realidade. Neste pressuposto, acredito que Lisboa e Portugal mereçam um espaço como o Chapitô. Mas é preciso que as entidades oficiais também acreditem, ser comprometam e incentivem.

A primeira aposta é terminar o trabalho feito com os alunos que saem agora para o 12.º ano, fazendo-o de forma a reverter o nosso trabalho em resultados positivos para o sistema educativo nacional. O próximo passo, em estudo, passa pela construção do 4.º ano da especialidade e a abertura do caminho ao ensino das artes do circo ao nível superior. Em negociação está a criação de uma estrutura universitária e previsto um espaço com dimensões adequadas para receber esse projecto, isto para além de manter o Chapitô Castelo em plena acção.

Contámos com várias parcerias na área das artes e dos ofícios do espectáculo. Sempre mantendo um modelo integrado. Alguns empresários foram desafiados, temos uma grande esperança no trabalho que estamos a fazer e estamos certos que semearemos os resultados muito em breve. É tempo de investir, o prestígio é sempre uma mais valia para o empresário e os lucros, bem geridos e bem aplicados, revertem positivamente para a humanidade.

E Lisboa:

Para tomar uma refeição, o Restô do Chapitô. Sempre! Fora isso, sugiro a Bica do Sapato. Para espreitar o rio e Lisboa inteira aos seu pés, o Castelo de São Jorge, onde, este ano, temos planos para encenar um grande espectáculo com os nossos alunos, seja essa a vontade das entidades locais. Um parque, ou antes um jardim, sugiro o Jardim Botânico. Num ano em que se fala tanto da preservação da natureza e da questões ambiental, eis um bom exemplo de preservação do bom que temos em Lisboa e em Portugal.

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* Originalmente publicada a 31 de Março de 2011, na Le Cool Lisboa * 281