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Le Entrevista a Filipe Raposo por Francisca Carvalho


No insert do teu disco “First Falls” encontrei uma frase que me chamou à atenção: “algumas descobertas tornam-se parte de nós como cicatrizes na pele”. Como é que, no teu processo criativo, um fragmento, uma impressão, uma página de um livro ou uma imagem de um filme se transmutam numa música?

Quando componho ou toco, há uma tentativa de exteriorizar através da música, imagens poéticas que vou construindo, recolhidas da literatura, colhidas de uma imagem ou até de simples partilhas diárias... são uma espécie de quadros sonoros, que vou desenhando na estrutura formal das minhas composições e improvisações, criando uma espécie de "história" compacta, que se materializa na voz do meu piano.

Neste sentido algumas destas descobertas são tão importantes que se tornam "cicatrizes", no sentido que permanecem na nossa pele, evocando a experiência do impacto da descoberta. Na realidade diariamente somos confrontados com muita informação (por vezes até demasiada informação), no entanto só algumas descobertas se projetam no futuro.

Le Entrevista a Von Rau Pipiska (Le Cool Team) por Francisca Carvalho


Sabendo que V.Exª é de nórdica descendência, a luz de Lisboa é para a sua cútis um bálsamo ou um punhal?

Lisboa pode ser isso mesmo, uma luz transcendente que nos apunhala na esquina de uma rua. A minha humilde origem aristocrática remete-me para uns idos tempos passados em Kaalasluspa, Verões de cura solar, pelas bordas do lago Kaalasjärvi cujas águas têm ricos minérios protecionistas de dita cútis. Com a caída acentuada das noites (e porque não do valor das acções do senhor meu pai) e o frio tornando-se
em algo subsistente, a fuga solucionada trouxe-me até ao país dos brandos costumes e apunhaladas solares.

Tendo em conta a sua origem aristocrática, descreva para si o cenário mais horrendo:  Ser obrigado a cumprimentar o D. Duarte com as mãos a cheirar a camarão tigre ou com o blazer empestado de sardinha
assada.

Cresci entre as paragens reais mais monárquicas que uma Europa decadente pode oferecer, e indo eu, como boa educação juvenil de ocupação dos tempos livre, para o sequeiro do arenque e truta salmonada, apertar a mão de uma qualquer figura de proa real, com cheiro de carne de veado, alce ou mesmo peixe ressecado, parece apropriado desde que com um toque de Grav Lax. Dito isto, nada melhor que um surtido nórdico adaptado à realidade portuguesa. Num serão de convívio monárquico com os dignitários nacionais serviria a versão lusa do Janssons frestelse. E tenho dito, copo de água e palito!


Le Entrevista a Francisca Carvalho (Le Cool Team) por Francisco Pinheiro


De uma Francisca para um Francisco, como me resumirias esta aventura de uma escalabitana em Lisboa?

Esta aventura é mais um reposição da peça “o bom filho a casa torna” do que uma estreia absoluta. Na verdade, sou uma espécie de híbrido ribacinho ou alfaçano, já que fui emprestada à Lezíria com 4 anos e retomei a Lisboa em 2002 quando entrei na faculdade. Sou natural da freguesia de S. Cristóvão e S. Lourenço, nasci à vista do Tejo, ali onde a cidade se inclina em direção ao castelo..

Reparei que usas peep toes com um salto assim para o meio alto. Não dás meias quedas pela calçada da cidade?

Essa pergunta tem piada, precisamente porque a única vez em que caí não ia de saltos. Foi nas escadas do metro da Baixa-Chiado. Tendo passado com distinção as principais, fui meter os pés pelos pés nas de acesso ao cais. Aterrei de cabeça no patamar intermédio. Quem me deu a mão e uns quantos lenços de papel para estancar o sangue, foi um cozinheiro-samaritano que estava de regresso ao Porto e perdeu o comboio porque só saiu “da minha beira” quando chegou o INEM. Contas feitas: cabeça aberta e um cotovelo partido, para além da convicção plena de que, se estivesse de saltos, aquilo não tinha acontecido.

Le Entrevista a Pedro Diniz Reis por Francisca Carvalho


Apesar do reconhecimento público que o seu trabalho tem merecido por parte da crítica nos últimos anos e que esta exposição na Culturgest (De A a Z) vem atestar, Pedro Diniz Reis – artista plástico alfacinha de 38 anos – fala-nos do seu trabalho com uma desconcertante modéstia.

Pedro licenciou-se em pintura pela F.B.A.U.L., terminando em 2000.

O seu interesse pelo vídeo enquanto forma de expressão artística, manifestou-se logo nos primeiros anos de faculdade e nasce da lógica e consciência do tempo próprio da pintura em confronto com as possibilidades abertas pelo vídeo na exploração do tempo enquanto narrativa.

Do tempo e dos seus compassos, que marcam os primeiros trabalhos do artista, chegamos à linguagem e aos seus ritmos. Neste conjunto de trabalhos que agora apresenta na Culturgest, debruça-se sobre diferentes alfabetos e toma-os como matéria abstracta para os reconfigurar em composições visuais e sonoras geradoras de novos significados e que se aproximam da poesia concreta.

A sua relação com a cidade manifesta-se numa opção clara pelos espaços de interioridade vs espaços públicos. É essa cidade oculta e íntima, impossível de ver de fora, que interessa a Pedro Diniz Reis.