Le Editorial * 243 por Rafa

Lisboa é substantiva, Lisboa é feminina e masculina, Lisboa é superlativa, Lisboa é mestra e senhora e Lisboa é… Festas Populares!

Caríssimo Lecooliano que nos lês agorinha mesmo pestanejando o olho direito e comichando a remela do esquerdo, lê isto com Le atenção: enquanto descem os santinhos todos à cidade com o Antoninho à cabeça e de petiz dependurado do braço, desce também a Selecção à ponta sul africana, prometendo dobrar as outras equipas como aquele cabo a que demos o nome e fazer como o Bartolomeu, que lhe enfiou um padrão!

Por Lisboa o mês é de arraias, de Santa Sardinha e de São Bifano, da pingona ginginha e de chafurda cerveja, atropelam-se néctares e baila-se o imbailável – a cidade festeja e o brinde é à redondinha!

Santo René, São Miguel , Santa Mami e São Rafa abençoam Lisboa, os leitores e as Quinas! A cheirosa sardinha e a LeCool pavimentam o caminho para o céu!

Dá esta gorda sardinha a debicar ao teu amigo!

Le Entrevista a Santo António de Lisboa por Rafa

António, nasci em Lisboa como Fernando de Bulhões.

O António arranjei-o por Coimbra, mas por esse mundo fora conhecem-me tanto como António de Lisboa ou como António de Pádua. Não sei dizer, na verdade, qual nome de cidade é mais utilizado por aí. Sou Santo. Viajo muito por aí além, abençoando casais e noivos e realizo um milagre uma vez por outra. São já muitos anos disto. Também me chamam Doutor da Igreja. Escrevo, faço sermões e prego, gosto do contacto com as pessoas.

Mesmo viajando tanto, arranjo sempre tempinho para pular até Lisboa, sempre por alturas de Junho. Agrada-me a cidade nesta altura, é festiva, é alegre, há sardinhas e bailaricos por todas as ruas, nada que eu alguma vez tenha visto noutra cidade quando ando por aí ao andarilho. Perfeito em Lisboa são os arraiais e saborear a sardinha ainda a fumegar sobre uma fatia de pão caseiro. E refrescá-la a gosto com um bom tinto de Colares. Também gosto de ir comer papos de anjo à Suíça e dar um passinho de dança no Capela.

Le Capa * 242

Por Federico Pentito

Le Entrevista a Chacho Puebla por Rafa

Sou um argentino de Mendoza que chegou a Portugal em 2005. Trouxe-me a publicidade e fiquei por Lisboa. Obviamente que não gosto só de publicidade, gosto de muitas coisas mais e tento sempre fazê-las quanto tenho tempo. O que é fantástico na Europa, é que aqui a criatividade sente-se no ar e isso para mim é um estímulo permanente!
 
Lisboa tem tudo. Para mim é uma das melhores cidades da Europa, de longe – é uma dessas cidades que poucos conhecem e quando a apresentas ficam loucos. É amor à primeira vista. Vejo que não é para todos e isso é que a faz única. A minha tarde perfeita seria a tomar umas cervejas no Adamastor, ter grandes conversas com amigos até ao entardecer. Lisboa é para mim uma cidade mágica, porque uma tarde qualquer se pode tornar perfeita. Ultimamente o trabalho não me tem deixado tempo para outras coisas e assim aproveito para exigir-me mais. 

Le Editorial * 240, por Rafa

Lisboa é um ninho e berço de poetas, uma casa de poetas e um porto de poetas é. E é um braço de rio, um braço de mar, um braço de rio de mar é. E é um livro cheio de poetas e cheio da poesia dos poetas. Esta cidade é pasto de criação – é trigo para a poesia – espera por aí em redor o verso, agachado por de fora das casas, sonhando só o que pode Lisboa ser das entranhas. E o Tejo e o Mar dá-lhe tanto de possível.

Cidade triste e alegre , com suas casas, de várias cores, lá dizia e apontava Pessoa nas suas lides heteronómicas em intervalo de guarda-livros. E em passo largo apressava-se pela cidade, nos entretantos em que as coxas de Ofélia não lhe ocupavam a mente. Colo também um excerto de Cesariny, neste Poema a tal amada perdida pode bem ser a nossa Lisboa:

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Le Editorial * 239 por Rafa

… lá dizia o venerável Mies. E como é precioso o detalhe:

Sair aos tropeções da cama para descobrir já na rua que tens meias de cada nação, perder uma tarde a perseguir a gataria no Castelo para te insinuares pela noite à Gata da rua, apanhar o barco para o lado de lá apenas para dar meia volta para voltar para o lado de cá, mexer o café com afinco pela manhã para o ir beber sem açúcar, pedir um croissant para levar para o abrir ainda no bar, tirar monos do nariz distraidamente no meio do trânsito e dar conta que meia cidade reparou em ti, fazer fila só porque sim para perceber que a fila nem sequer existia só porque não, fingir que falas inglês e ir pedindo orientações a toda a gente da rua até te surgir alguém que o fale melhor que tu, ir ao supermercado e ter uma branca total do que querias no meio do corredor dos enchidos e bries e pegar qualquer coisa ao calhés e esquecer o aniversário de toda a gente e até mesmo o teu, nem que o marques no tele e no frigo.

Le Entrevista a Alípio Padilha por Rafa

Chamo-me Alípio Padilha. Tiro fotografias em Lisboa. Na infância costumava olhar por debaixo das minhas pernas e via o mundo ao contrário. Olhar dessa forma invulgar transformava então esse lugar. É assim ainda hoje que vejo a “escrita com luz”. Polaroids e um AE-1 foram as primeiras aliadas. Hoje, vivo onde sempre quis viver: Lisboa. Gosto da palavra, do lugar de passagem que sempre foi. A cultura urbana que se esconde e descobre a cada esquina, numa rua, num palco improvisado ou não, está acessível a todos os que a queiram adoptar. Estar atento a isso para mim é fotografá-la, espio tudo, atento, através do viewfinder de uma câmara. Um voyeur assumido.

Lisboa deixa-se fotografar. É exibicionista e vaidosa desde as calçadas onde se tropeça na alma dos lugares, aos miradouros românticos e sempre iluminada pelo Tejo. Há novos fados de Lisboa, basta olhar para eles. Eu registo-os com o que tenho à mão: a fotografia; desafia-me o trabalho no colectivo TPP e na Rua.

Le Editorial * 238 por Rafa

... sete colinas e meia a correr ao alto e ao baixo; casas e templos e bairros a formar um quadro, a emoldurar uma paisagem; eléctricos amarelos e um ou outro vermelho a chiar pelo Chiado adentro; perderes-te no emaranhado de Alfama para logo te encontrares na vastidão de Belém; esperar a dança dos pássaros sobre o Terreiro do Paço e adivinhar-lhe uma coreografia estudada; ver o sol adormecer por detrás da cidade desde o Cais do Ginjal e dormitar com o seu toque luminoso nos jardins da Gulbenkian; ler um livro num parque escolhido a dedo, fechar os olhos a gosto e acariciar a relva lentamente, adivinhando traços de avião escavando o céu; jogar ao esconde-encontra com o Tejo desde um dos muitos miradouros que a cidade criou apenas para ti; ouvir o burburinho colorido nos mercados e nas feiras e o movimento das gentes a encher as ruas. A tua cidade é tanto, é tudo e é tua, Lisboa a Grande, a Quente e a Boa, Lisboa a LeCool.

E a tua Lisboa é _ _ _ _ _ _ _ _ (preenche a teu gosto).

Le Capa * 238

por AyR

Le Entrevista a Célia F. por Rafa

Eu, sou apenas eu mesma. Aqui e agora. Um humano comum. Sou Célia F. e Selecta Alice. Dois lados da mesma unidade. Escrevo para revistas como a Dif, La Néctar, de Bs. As. e para projectos e produtoras de música. Atrás, estudei direito. Fiz Teatro e desde muito miúda toco piano. Fiz rádio e o amor persiste. Pinto. Sou selecta por amor à música e por acreditar na festa, ritual de encontro e reunião consigo e com os outros.
Lisboa é um dos meus ninhos, onde vivem muitos dos que com quem criativamente partilho a existência. Uma pequena babilónia abençoada por uma luz única e temperada por uma melancolia poética. Gosto de passear pelos bairros antigos sozinha. Parar nos detalhes. Na visão do Tejo. Gosto das pessoas que fazem a cidade. O que dá saudade? A energia única que tem por ser cidade, mas pequena.


Sonhos loucos?! Ando a fazer deles os meus objectivos desde que descobri que não eram loucura!

Le Editorial * 237 por Mami

Molha os pés, bate as palmas, assobia, lambe os dedos, faz o mapa estelar dos teus sinais, dá piparotes no nariz, ressona, come terra, boceja como as leoas, toma banho de luz apagada, rói as unhas até doer, faz caretas mesmo feias, anda às cavalitas, gargareja, ri-te alto, anda a olhar para o céu, faz uma cicatriz nova, gira até ficares tonto, cai no chão, coça a cabeça, dá a mão, pica o pé, gritaaaaaa, faz cocegas, espirra bem, dá cambalhotas, morde orelhas, morde a bochecha, salta mais alto, fecha os olhos, beija o teu ombro, prova o acido e depois o salgado, faz tudo só com a mão esquerda, queima-te no fogo, queima-te no gelo, beija com bâton, chora de beleza, chora de tristeza, pára de chorar, agora acorda, respira fundo, mais fundo ainda, ainda mais, pés no chão, cabeça do ar e estás pronto para começar…

Le Editorial * 236 por Mami

Camaradas comunistas, fascistas, absolutistas, satanistas, exibicionistas, saudosistas, altruístas, terroristas, accionistas, otorrinolaringologistas, acordeonistas, alquimistas, ambientalistas, anarquistas, intervencionistas, pensionistas, politeístas, sebastianistas, narcisistas, capitalistas, halterofilistas, artistas, vigaristas, neocolonialistas, vanguardistas, propagandistas, trapezistas, surrealistas, tabagistas, niilistas, meteorologistas, taxistas, gestaltistas, surfistas, seminaristas, evolucionistas, sexistas, retalhistas, puristas, salazaristas, sadomasoquistas, leninistas, epicuristas, catequistas e alguns míopes.

Le Editorial * 235 por Mami

Na rua tal há uma pacata residencial com nome de cidade ancestral. Ou “a pensão do coração” como lhe chama o patrão da menina Assunção.

Há uma lojeca de ortopedia moderna, com imagens de morfologia externa e uma prótese de perna.
E depois há um velho baeta forreta (que ao que consta também é proxeneta) promete penteados aperaltados e rostos bem escanhoados, por uma nota preta.

Vizinho da velha garagem da Castrol, onde se vê futebol ao lado do calendário de uma tipa nua, só de cachecol.

O alfarrabista fez-se à pista para se dedicar ao comércio de alpista ou para ser artista (já não sei). Livros sobre educação sexual, manuais para o estudante mais anormal, literatura ocidental, o almanaque animal e até o folhetim imoral, esperam novo dono com capital.

A cabeleireira Tila, é dona tranquila mas tem um filho reguila que aniquila a freguesia que ela depila com cera de argila.

Só falta a boite profana, onde o Aníbal conheceu a Ana, essa cinquentona balzaquiana, ex-paroquiana ovolactovegetariana.

E a tasca da esquina, onde a cozinheira é uma marroquina albina e franzina, que faz ordinarices em plasticina.

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* Originalmente publicada a 15 de Abril de 2010, na Le Cool Lisboa * 235

Le Entrevista a Gonçalo Prazeres


Sou o Gonçalo Prazeres, músico de profissão, mas nas horas vagas faz-se de tudo. Costumava tocar guitarra, mas converti-me ao saxofone porque dá mais estilo. Gosto de jazz, de música independente, de BD, de revistas sensacionalistas para ler no consultório, de andar à deriva por cidades que desconheço e de não pagar parquímetro. Neste momento o que mais gosto é de ver o meu disco “Depois de Alguma Coisa” à venda nas lojas.

Lisboa é a melhor cidade do mundo e pronto! A zona ideal é a Estefânia, onde vivo. Fica perto de tudo e diversidade não lhe falta. Transformava a Praça de Touros num mercado vegetariano, juntava-lhe uma boa livraria, uma loja de discos decente, punha no jardim do Príncipe Real a vista do miradouro da Graça, o Bicaense e o novo Hot Clube (que tal nesta zona da cidade?). Sonho fazer uma tournée mundial, ter direitos ao passar recibos verdes e fazer uma cura de sono.

Le Editorial * 234 por Mami

Deitas-te de lado na relva quente, à romana, espreguiças-te e tudo. Saboreias pelos ouvidos, o teu Beethoven de bolso toca a Pastoral. Estás num jardim municipal a curtir o idílico e o bucólico ao mesmo tempo.

Trazemos-te, quais ninfas Kellogg’s, o melhor branche (aportuguesamento já necessário desse hábito importado) de sempre.

Há cereais às cores e uns híbridos deliciosos entre estrelitas e chocapic que emagrecem só de olhar. Há leites das mais originais ordenhas e sumos de tudo o que tem cor. Morangos do tamanho de uvas, figos doces e nêsperas, algumas cerejas. Os ovos quentes, os queijos, as carnes frias juntam-se à orgia. Panquecas e pães pedem banhos de doce.

Esta semana, o jardim municipal é o teu cenário de Dejeuner sur l’herbe(Branche na Relva), desfruta-o em escândalo e delicia René, Miguel & Mami.

Le Editorial * 234 por Mami

Deitas-te de lado na relva quente, à romana, espreguiças-te e tudo. Saboreias pelos ouvidos, o teu Beethoven de bolso toca a Pastoral. Estás num jardim municipal a curtir o idílico e o bucólico ao mesmo tempo.

Trazemos-te, quais ninfas Kellogg’s, o melhor branche (aportuguesamento já necessário desse habito importado) de sempre.

Há cereais às cores e uns híbridos deliciosos entre estrelitas e chocapic que emagrecem só de olhar. Há leites das mais originais ordenhas e sumos de tudo o que tem cor. Morangos do tamanho de uvas, figos doces e nêsperas, algumas cerejas. Os ovos quentes, os queijos, as carnes frias juntam-se à orgia. Panquecas e pães pedem banhos de doce.

Esta semana, o jardim municipal é o teu cenário de Dejeuner sur l’herbe(Branche na Relva), desfruta-o em escândalo e delicia

Le Editorial * 232 por Mami

Hoje vimos umas andorinhas nos céus do Cais do Sodré, eram poucas mas gritavam como loucas. Cheirámos o pólen doce das flores que ainda não nasceram, ficámos tontos de tanto licor. Espiámos namorados aos beijos em jardins alcatifados. Comemos morangos ilegais comprados às escondidas, e laranjas com mel vindas da China. Hoje alguém misturou cor de rosa com o azul do céu, e imaginem, ficou bem! Hoje choveu mas o ar estava quente e apeteceu dançar, mesmo sem par. Hoje dissemos adeus ao longo Inverno. A Primavera está aí toda, em calda, já não há volta a dar. As andorinhas estão a chegar….

Le Editorial * 231 por Mami

O Carmo era um rapazote quase obeso, de carácter teso e fazia um dinheirão (sempre que não era preso). A Trindade era uma mocinha de figura atroz, filha de pais já avós, sabia bordar com nós e passava as tardes a ler Eça de …

Num belo dia, na cidade, daqueles que se acorda com vaidade e se vai tomar café ali para os lados do IADE, estes dois se encontraram, ao som da última música da Sade. Mas eis que logo se desprezaram, levantaram as vistas e passaram com o desdém que convém a quem, no fundo, não se contém.

E então, cheia de sagacidade e sem ser um segundo mais tarde, Lisboa decide abanar com vontade…
E foi assim que se acharam, naquela idade, caídos nos braços um do outro, o Carmo e a Trindade.

Le Editorial * 230 por Mami

Íamos dedicar este editorial ao desenvolvimento da grande questão mística enunciada um dia da seguinte maneira: “Mas afinal quem são os estranhos fulanos que comem aquelas maçãs ranhosas e assadas, polvilhadas de açúcar, com um pau de canela espetado à laia de “A Espada era a Lei”?” Mas depois pensámos que devem ser os mesmos indivíduos que chegam ao mesmo café e pedem um ovo cozido (que está sempre refastelado numa caminha de sal). Sim, os exactamente os tipos que chegam ao balcão e mandam vir um “Babá”, uma “Orelha”, um “Claudino”, um “Rim” ou uma “Sogra”. Aqueles que pedem a mousse de chocolate mesmo sabendo que “caseiro” é sinónimo de “Alsa”, aqueles que arriscam o Molotof com ar de coisa criada na Perestroilka. E então decidimos brindar a esses lisboetas audazes. Sem eles os nossos cafés não tinham mesmo graça nenhuma.
Esta semana esquece as empadas e os croquetes e arrisca qualquer coisa da qual te possas arrepender.