Le Entrevista a Ana Pracaschandra por Rafa



Fala-me de ti como se entre nós estivesse apenas uma mesa de café, descontraidamente. Passa-me um cigarro, no entretanto.

Ui, se há desafio grande para mim é esse mesmo. Vivo habituada a fazer perguntas aos outros e sinto-me sempre desajeitada para falar de mim. Bem, posso começar por aí. Desajeitada a falar sobre mim mesma. Inquieta por natureza, sempre curiosa e com uma pergunta na manga. Sou observadora e gosto de me guiar pelo hemisfério direito do meu cérebro. Sou intuitiva, emocional e apaixonada por 1001 coisas ao mesmo tempo.

Sou uma especialista em multitasking e um zero à esquerda para me focar em apenas uma coisa de cada vez. Por isso sou distraída e atenta a tudo ao mesmo tempo. Sou um paradoxo andante. Insatisfeita à procura de satisfação em cada canto. Um caso bicudo complicado. Sou oito ou oitenta em modo agridoce. Como respondi a alguém um dia: «eu nunca disse que ia ser simples».

E o teu nome? Parece saído dum romance de Le Carré se este fosse alfacinha ou um belíssimo reflexo de como andámos pelo mundo. Acerto ou é nom de plume para quando escreves?

Oh, o nome... Fui gozada na escola até aos dezasseis anos. As pessoas pequenas são cruéis com a diferença. Hoje em dia agradeço por ter esta “imagem de marca”. É um apelido Hindu. Quer dizer qualquer coisa como “Luz da Lua”. O meu pai é indiano. O nome está mal registado… e deu nisto.

Conta-me das tuas lides profissionais, por onde param as tuas ideias e para onde se esvai o teu tempo?

Esvair o tempo… suspiro… Realmente o tempo dissipa-se demasiado rápido para tantos projetos em que quero meter o bedelho. Se há coisa que eu passo a fazer quase todas a santas horas do meu dia, é ouvir música. Desde que acordo, quando pego no carro, chego ao escritório ou volto a casa. Sou jornalista e colaboro num guia turístico online. Depois vou fazendo outras coisas em paralelo. Como andei pelos meandros da psicologia antes de me bater de frente com a Comunicação Social, nunca deixei de lado a minha curiosidade pelo desenvolvimento pessoal, por isso entretanto, especializei-me em Metodologias Expressivas e tenho um projeto em mãos que quero desenvolver, para “conquistar o mundo” através da expressão e da criatividade. 

Vou muito ao teatro. Vou menos do que queria ao cinema. Adoro palmilhar Lisboa e calcorrear cantos por descobrir (há sempre). Adoro jantar fora. Beber um bom vinho. Viajar, lá fora, cá dentro, pela maionese.

Lisboa, quantas sílabas de prazer tem este nome? Sugere-me aí os melhores espaços de entre casas de Lisboa para deambular.

Bem, isso é tarefa árdua. Terias que me dizer por tema. Noite? Dia? Jardins? Miradouros? Chás? Cafés? Lisboa tem carisma suficiente para podermos fazer um dossier de atividades interminável. Mas vou guiar-me pela intuição e responder-te os primeiros que me vêm à cabeça. 

Se me levantasse de manhã como uma turista na minha própria cidade, levar-me-ia pelos pezinhos para a zona ribeirinha, descia pela Rua do Alecrim, e ia até Santa Apolónia tomar o pequeno-almoço à Deli Delux. Voltava à Baixa e tomava um chá no Fábulas, dava uma ronda no MUDE, almoçava no Origami do Príncipe Real, ia ver um filme ao King e acabava a tarde a comer um gelado da Santini no Miradouro S. Pedro de Alcântara. À noite, se tivesse todo o tempo
do mundo, ia petiscar e ouvir um fado na Bela e Petiscos em Alfama, bebia um copo de vinho no Bairrus Bodegas, passava na Bica para ver uma curta no Shortcutz, descia até ao Cais e ia abanar-me aos ritmos do Roterdão. Acabava de exorcizar os demónios dançantes no Lux, numa noite de música imperdível como só esta casa tem. 

Deixei de fora outros mil e um espaços que adoro como a Fábrica do Braço de Prata e as suas noites de bailaricos, a Casa do Alentejo, o Vertigo e o Atheneu, a esplanada do Restaurante Terra, a vista do LeChat e a comidinha vegetariana caseira do Hari Kristna na Rua D. Estefânia. Enfim, por isso é que os dias deviam ter 48 horas e nós devíamos ter sete vidas que nem os gatos. Lisboa é sexy por todos cantos, e destila prazer por todas as esquinas.

Anarchicks


Já as viram ao vivo? Já leram alguma entrevista? Já ouviram o single? O resto das músicas? Os imensos vídeos que por aí as divulgam? É um gozo enorme ver a rapidez com que as boas novas se espalham. Ler críticas feitas por quem é suposto fazê-las. Tirando todo o estigma de ser música feita por mulheres, mais ou menos despreocupadas, com riffs a lembrar isto e aquilo, com influências não sei bem de quê misturadas com um bocado do outro também, que soam muito bem, soam. E isso para mim é mais que suficiente. Nunca me considerei um crítico de música, antes um ouvinte.

Le Editorial da Le Cool * 376 por Ana Ema

Papoilha

O meu avô repetia uma frase que me desengonçava: «Desde que vi um cão a andar de bicicleta...». Foi ao crescer e aparecer por Lisboa que lhe percebi o fundamento. Os mistérios do Entroncamento também têm lugar nestes bairros trajados de sombra e de luz. Uma senhora que vende poesia à folha. Outra que fala com anjos sobre o ombro, correndo a rua. Um sem-abrigo artista. Alguém que vende o património de alfarrabista na Feira da Ladra. Um mendigo rapper. Sei que todas as cidades têm o seu ângulo, mas aqui aquilo que me causa estranheza, faz parte desse romantismo que se cola a Lisboa que nem bolo de chocolate à língua. É o ópio de uma papoilha cidade. / Ana Ema

Le Artista da Capa * 376, Sara A.

Eu sou o músculo da Sara, o tal que obtura a máquina quando Lisboa se insinua defronte da câmara. A cada instante, um apelo da sua imagem. Sabes onde é o Jardim Botto Machado? Se acertares, dou-te o restante músculo que me faz o braço, em abraço. Lisboa é a minha cidade, biologias e ornitologias incluídas, berço onde um grafologista encontraria certamente traços da minha persolidade em contentamentos no ponto do i.

Le Cool * 376


Por Sara A.

Le Entrevista à Associação Cultural Pantalassa por Ana Pracaschandra

“A cultura é uma coisa viva, é uma coisa que se mistura e transforma.” Franklin Soares

A Associação Cultural Pantalassa, promove a obtenção de sinergias no desenvolvimento de projetos em torno do espaço cultural lusófono. Esta associação vai realizar um programa multidisciplinar em regime de
residência artística em São Tomé e Príncipe, entre 7 de fevereiro e 1 de
março de 2013.
Para conhecer um pouco mais deste projeto, a Le Cool conversou com a Raquel Lima e o Franklin Soares, mais conhecido como Frankão, dois dos responsáveis pela criação da Pantalassa.

Como nasceu a Pantalassa? Quando e como começaram? Qual o âmbito em que atuam?
Raquel Lima: A ideia da associação surgiu antes de a constituirmos, em conversas entre mim, o Frankão, a Filipa Batista e outros amigos, que hoje em dia nem fazem parte da associação formalmente, mas que estão sempre presentes. Sentimos que havia uma necessidade de criar uma rede entre países que falam português, de forma a divulgar os artistas desse espaço. Sentimos que havia ausência de uma plataforma de promoção dos artistas da Lusofonia. Criámos a associação em 2011, com alguns receios em relação à palavra Lusofonia, porque não queremos ficar centrados num conceito, para muitos, ultrapassado. Queríamos propor uma visão da Lusofonia mais contemporânea, que não fosse apenas relacionada com a língua, que tivesse a ver com hábitos culturais, como a tradição oral, a alimentação, ou seja com coisas mais subtis do dia-a-dia, sem ser uma coisa meramente geo-política.

Frankão: Na verdade, nós preocupamo-nos muito mais com a linguagem do que com a língua. Com as várias linguagens que existem dentro da Lusofonia. Dentro da Lusofonia existem várias línguas, e nós não estamos propriamente focados na questão da língua portuguesa. O nosso projeto é muito mais
voltado para a linguagem. Acho que é mais interessante preocuparmo-nos com as variadas formas de linguagem do que exatamente com a língua.

Que projetos desenvolvem na Pantalassa?
Raquel Lima: Começámos a tentar elaborar projetos que conseguissem valorizar o que dissemos atrás, através da pedagogia por exemplo, indo às escolas, começando com coisas simples, onde é importante, com as crianças. Começámos a fazer umas oficinas que se chamam “Oficinas Itinerantes da Lusofonia” onde se desenvolvem temas como a “Folia de Reis”, que é uma manifestação que nasceu na Península Ibérica, depois foi para o Brasil, e apanhou com influências indígenas e africanas.

Frankão: A “Folia de Reis” neste caso é um tema que vai ter outros temas ligados à Lusofonia, e à mistura de culturas. Nós acreditamos que a cultura é uma coisa viva, é uma coisa que se mistura e transforma. E a maneira como trabalhamos o tema da “Folia de Reis” é muito livre, para eles criarem, para mostrar para eles que a cultura também sofre isso. A cultura quando é tratada como uma coisa intocável, morre, torna-se numa peça de museu. A cultura é viva, vai-se transformando, adaptando aos tempos e as gerações vão mudando, e as informações também. E é essa didática que nós buscamos nas “Oficinas Itinerantes”.

Para além da divulgação dos artistas que tinham falado no início, outro dos objetivos da Pantalassa passou a ser uma presença ativa no contexto educacional, foi isso?

Raquel Lima: Na verdade a Pantalassa tem várias ações. Tem esse lado das oficinas, que para além da “Folia dos Reis”, está a desenvolver a “Agridoce Cultura”, que promove a construção de um trajeto de frutas e legumes num espaço lusófono e não só.

A Pantalassa tem esse lado educacional, e depois tem um lado de apoio à produção de artistas, em que tentamos apoiar artistas que estão em Portugal, com trabalho realizado e que têm uma certa dificuldade em promover. Depois além disso, temos um projeto que é mensal, de poesia, o Poetry Slam Sul, que se realiza em Almada.

Temos também o “Moscatela”, que começou no mês passado e também é periódico. Consiste numa mostra de cinema amigo, em que filmes de pessoas mais ou menos próximas de nós, são projetados e o público pode assistir a um filme e beber moscatel.

Há um workshop que o Frankão desenvolve, sobre Arte e Educação em zonas de risco, que já se realizou seis vezes em Lisboa e uma no Porto.

Frankão: É um workshop para formadores, pessoas que têm interesse em trabalhar nesse tipo de condições precárias.

Raquel Lima: Ainda temos o intercâmbio. O ano passado trouxemos uma banda de São Paulo para uma tournée pequena aqui em Lisboa e arredores. Nesta perspetiva de intercâmbio agora vamos para São Tomé.

O que vai acontecer nesta iniciativa em São Tomé?
Raquel Lima: A residência em São Tomé foi feita no âmbito de um apoio da Direção Geral das Artes, o Apoio à Internacionalização das Artes. E nós concorremos com um projeto que chamamos “Portugal Contemporâneo com São Tomé e Príncipe” que era em formato de residência artística, durante três semanas lá, em que oito artistas faziam várias coisas. Uma das iniciativas é uma banda que se chama Tapete, que é com os meus poemas em spokenword acompanhados de quatros músicos: Joana Guerra no violoncelo, o Bernardo Álvares no contrabaixo, o António Ramos no saxofone e o Jorge Nunes na percussão. Vamos realizar ensaios abertos e concertos durante esse período. Depois a Joana Guerra, que vai estar presente com o seu projeto a solo com voz e violoncelo, e acabou de lançar recentemente o seu primeiro álbum "Gralha"! Vai acontecer a Folia de Reis, com a Mariana Marques e com o Frankão, em três escolas de São Tomé. Nas escolas vai haver também uma oficina de  construção de audiolivros, com o Jorge Nunes. O workshop do Frankão de Arte e Educação também vai decorrer em São Tomé e é aberto ao público. Haverá um workshop de música improvisada com os músicos de Tapete, e um evento de Poetry Slam que eu irei dinamizar com os miúdos das escolas.

Haverá ainda um atelier de artes plásticas com Mariana Marques. Ao todo são sete artistas e três responsáveis pela produção a trabalharem nesta iniciativa, o Alix Sarrouy, a Filipa Batista e a Ana Fradique.

O que significa para a Pantalassa o concretizar do projeto “Portugal Contemporâneo com São Tomé e Príncipe”?
Raquel Lima: Para nós é a primeira oportunidade de ir com a Pantalassa para fora. Já recebemos pessoas e artistas, mas é a primeira vez que vamos juntos para fora, e para nós é brutal. Vai ser intenso. Depois, em maio, nós vamos estar na Bienal de Culturas Lusófonas na Malaposta, e vamos ter uma parte reservada para mostrar o que andámos a fazer em São Tomé.

Como é que a Pantalassa se sustenta? São vocês que sustentam a associação? Dedicam-se a full time a este projeto, ou têm outras atividades em paralelo?
Frankão: Dedicamo-nos em part-time. Na verdade, todos nós temos os nossos trabalhos individuais, para além da Pantalassa. Formar uma associação não é fácil. Leva tempo e maturidade. Estamos numa época de crise e cortes nos apoios, mas temos que nos adaptar e fazer acontecer de outra forma. Não podemos ficar presos a apoios, buscamos de outras formas.

Raquel Lima: Esse discurso pessimista do “ai a crise”… as pessoas estão mais abertas a ajudar por causa da crise. A unirem-se e a fazerem coisas juntas. Dá para aproveitar esta altura para crescer também. Todos os membros têm os seus trabalhos, na área cultural à mesma: pessoas na área artística, e outros trabalhos precários que apareçam que nós tenhamos que fazer. Ninguém vive só da associação. Ainda é um sonho, se calhar, daqui a alguns anos conseguirmos criar postos de trabalho para alguns.
E é com este sonho futuro que finalizamos esta entrevista a dois dos grandes responsáveis pelo projeto Pantalassa. Relembramos que esta semana acontecerá a 8ª edição do Poetry Slam em Almada, no Espaço da Cerca, no dia 25 de Janeiro, sexta-feira.

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Uma questão de carácter

João de Deus devia deixar o Henry Miller ruborizado. Ou pelo menos um pouco envergonhado. Ou, vá, talvez boquiaberto. Tal como ficaria certamente ao ver este "As Bodas de Deus", de 1998. Último filme da trilogia (e o cinema português pena por trilogias e mitologias) lançada por João César Monteiro com um anti-herói que pode ou não ser a caricatura do próprio realizador (decide por ti isto), é um filme daqueles que se podem dizer... qual a palavra... de charneira para uma filmografia lusa.

Fica bonito assim escrito. E será descrito e apresentado por Luís Gouveia Monteiro, numa sessão que inaugura o ciclo "Uma questão de carácter" na Cinemateca Portuguesa, na solarenta Lisboa. Dia 23 de Janeiro de 2013 às 21h30, aponta aí na agenda do telefone.

Mesa Corrida Indian Food

Sempre que vejo algo a anunciar jantarada e sobretudo esta, a Mesa Corrida Indian Food, desfaço-me em cataratas e cataratas de niágara de saliva. Eu sou umas papilas gustativas deliciadas e não, não sou as do cão do Pavlov, sou umas que querem debicar nos pratos preparados por Ana Margarida Ferreira. Para já, produzo baba em antecipação ao ler o cardápio: 

Pão Nan, Achar de Manga, Molho de hortelã pimenta, Chiken Tikka Massala com arroz Basmati e Mousse de Manga.

A língua já dança e as cordas vocais desfiam: nham! O jantar vale 16€ por pessoa e tem apenas 25 vagas. Corre porque terminam hoje - dia 21 - as inscrições. Faz por aqui. A janta corrida? É dia 23 de Janeiro de 2013, às 20h30. No Primeiro Andar.






Os Cubanos


É engraçado perceber como o cubano mais conhecido no mundo é precisamente um argentino (se bem que Fidel fique alguns polegares atrás nessa corrida). Não desfazendo no papel histórico de Ernesto Guevara, Cuba tem mais coisas interessantes além de rum e de oftalmologistas. Tem sobretudo cubanos. E não, não falo de puros, falo mesmo da gente que vive naquela ilha. E na da Juventude também. A Casa da América Latina segue com o ciclo dedicado aos povos do subcontinente que lhe dá o nome, mostrando "Os Cubanos", de Arturo Sotto, de 2008.

Dia 23 de Janeiro, pelas 19h. Aponta aí com o teu bolígrafo.

Conversas com Rosto























Conversas com Rosto é precisamente o contrário de falar para o boneco. Com um rosto a conversa enriquece e, dado melhor nisto de tertuliar, ganha uma cara. Dia 22 de Janeiro de 2013, pelas 19h, Lucien Donnat conversa com Vítor Pavão dos Santos. Vamos ver o que um dos mais importantes cenógrafos, figurinistas e decoradores do teatro português dá em dois dedos de conversa a um historiador.

De entrada livre, no Salão Nobre do Teatro Nacional de Dona Maria II. É pegar e não largar. 

Dreadfire + Auschwitz + The Medusa Smile + Laydown

Lisboa é a casa do mundo, onde as tribos todas e as gentes de todo o lado se juntam para beber minis em comunhão. Alfacinha a sério tem costela daqui e dali, até do Lafões, zona (Dão dlão) que bomba vinhos dos melhores que este país já sorveu. Hic hic, confere.

A Casa de Lafões, ponto de encontro dos migrantes daquelas partes, é também onde a música pesada vem fazer a sua colheita de concertos de tempos a tempos. Como a 19 de janeiro de 2013, a partir das 15h30, com Dreadfire, Auschwitz, The Medusa Smile e Laydown.
E com entrada a 5€, o que, dando 1,25€ a banda, é uma pechincha a não perder!

Le Editorial * 375 por La Cucarafa

Pêpinos

Agora que 2013 assentou arraias e as colinas de Lisboa são já tracejadas com alguns raios de sol, é de pensar em plantar pêpinos nas hortas que abundam na nossa cidade. Isso ou feijões, antes que chovam malas na altura de desabrochar. Eu gosto de pensar que a Le Cool é um feijoeiro mágico que te leva a trepar até ao Castelo de São Jorge e a uma data de eventos todas as semanas. Para te colocar bem nas nuvens. Se este país tem uma polémica por dia, porque não uma boa novidade diária que lhe faça frente? Isto tudo metido numa balança do Mercado da Ribeira, levava com prece e pregão: «Ó cara linda, leva esta pêtingas, que vão bem com tudo!» / La Cucarafa

Le Capa * 375


Por Raquel Garrancho

Le Artista da Capa * 375, Raquel Garrancho

Parte de mim é isto, uma parte necessária, presente desde que há memória.

A ideia de ilustrar como modo de vida começou a ganhar terreno durante a universidade, na mesma altura em que a paixão pela minha área oficial de estudo diminuiu exponencialmente. Querendo mudar de ares, mudei de cidade, afastei-me de Lisboa e de tudo o que ela oferece e, mesmo depois de todo este tempo distantes, ainda consigo ouvir uma pequena voz afirmando que eu e Lisboa temos que passar ainda mais tempo juntas... ela ainda não me mostrou nem metade do que tem.

Podes conhecer-me por aqui e por aqui.

Le Entrevista a Sara Ribeiro (Offbeatz) por João Freire

Boa tarde. Fala-me um pouco sobre o Offbeatz, como surgiu, como se impôs e como são as perspetivas de futuro?

O Offbeatz surgiu das ideias que o Rui de Brito tem no duche! (risos) Ele imaginou o formato e modos de divulgar ainda mais a música portuguesa e assim nasceram as sessões ao vivo, que numa primeira instância aconteciam no Frágil, no Bairro Alto. Depois veio tudo o resto e a plataforma em si - o Offbeatz - que tem várias vertentes. Não só temos o club no Musicbox, como um site e um programa de televisão, na SIC Radical, que compila as sessões ao vivo.  

Tem tudo o mesmo objetivo que é impulsionar o talento e a música portuguesa. E, na realidade, as coisas correram sempre muito bem porque sentimos que estávamos a fazer a diferença e a preencher uma lacuna de divulgação no meio. E percebemos isso devido ao feedback e apelo das bandas, das editoras etc. É para eles e com eles que trabalhamos.

Apercebemo-nos também que interferimos positivamente com os costumes do público. De repente, habituámos as pessoas a descobrir mais música porque o Club Offbeatz é sempre composto por quatro bandas nacionais. Isto faz com que uma pessoa vá ver aquela de que gosta e por consequência descubra outras. E a entrada nessa experiência é por conta da casa!
No futuro queremos expandir essa dinâmica que é o Club a outras cidades. O Porto vem já a seguir na lista. Em paralelo, estamos a pensar noutros formatos mas para já não posso revelar nada.

Fala-me da equipa. Qual a diferença na vossa abordagem que está a fazer este projeto um de enorme sucesso e importância no panorama musical português?

A equipa é unida e acredita no Offbeatz.

O mundo mudou, não há volta a dar, e temos de ser cada vez mais determinados para fazer com que as coisas aconteçam. É incrível ter um grande número de pessoas que se revê neste projeto, que está lá todas as semanas e que faz tudo funcionar. São pessoas ativas e com garra, o que não é assim tão fácil de encontrar por aí. Para além de motivados, acreditam todos na filosofia do projeto. Têm todas as suas vidas, mas encaixam o Off numa parte delas.

Ora, acho mesmo que podem retirar uma lição da nossa equipa. Muita gente critica ou pasma-se com o facto de fazermos isto à base de voluntariado, mas a verdade é que o fazemos, com prazer, porque todos nós encontramos algo que nos recompensa. E estando essa motivação apoiada no facto de contribuirmos para a história musical portuguesa, com os nossos registos, e podermos ajudar bandas e realizadores, faz com que o Offbeatz seja um óptimo ‘trabalho’.

Esperavam tamanha adesão? Acham realmente que esta forma de "mostrar" e fazer as coisas faz a diferença na divulgação da música portuguesa?

Começámos devagar mas fomos tomando força. Ao início, eu e o Rui andámos a distribuir flyers no Bairro Alto para que as pessoas soubessem das sessões. Hoje em dia, temos casa cheia e as pessoas procuram-nos. Foi surpreendente este sucesso, mas penso que vem do quão único é o Offbeatz e da falta que fazia. Conheces outro movimento que apresente 4 bandas nacionais por semana e ainda faça entrevistas, programa de TV, divulgação online e tudo o resto?

Uma vez, um rapaz inglês disse-me «wow, isto nem em Londres acontece!» Pois bem, acontecerá quando o Club Offbeatz estiver por lá. Divulgamos a música gratuita e regularmente, registamo-la para a eternidade e divulgamo-la através de vários meios. Esta é a nossa forma de fazer as coisas e acreditamos que é a certa. Quantos mais o fizeram, melhor.

E, já agora, qual a tua forma de ver os novos fenómenos musicais portugueses? Achas que há um aumento de qualidade, ou essa sempre esteve lá e as pessoas tornaram-me mais sensíveis e disponíveis para ouvir e apreciar?

Eu penso que hoje em dia as pessoas ouvem mais música, porque há mais facilidade. Agarram-se a uma coisa, contribuem para os fenómenos, e pouco depois agarram outra novidade. O truque por parte de quem faz música será manter o interesse. E isso não quer obrigatoriamente dizer que os projetos não tenham qualidade mas sim que é difícil permanecer num mundo em constante produtividade.

Em Portugal existem projetos de qualidade, e há bandas que vão sabendo manter essa curiosidade viva por isso não estou preocupada. O que acontece é que, por vezes, vejo umas que poderiam tentar ter um pouco mais de visão e de ousadia só para evitarem seguirem os caminhos mais normais.

Houve alguma noite que te ficou cravada na memória?

Nunca vou ter outra igual à primeira, corria o ano 2010. O caminho até lá fez-se de determinação e incertezas, o que desde logo a marcou. E depois, quando finalmente chegou, viveu-se num ambiente muito underground. O Frágil estava cheio de pessoas da indústria, o que eu achei porreiro para as bandas (Youthless e The Doups), arrasou-se no palco, houve momentos de improviso e, bem, eu sentia-me feliz por conseguirmos realizar a primeira sessão. Como podes ver, não se esquece.

Há outras noites que memorizo também como quando existem bandas de hip hop que lá vão, quase acabadas de serem concebidas, e de repente têm o Sam the Kid na plateia. Um momento como esse torna-se bom para eles e para nós, que possibilitamos isso.

Onde achas que está o futuro da música em Portugal? Em tempos de crise apertada, o facto dos vossos eventos serem gratuitos vai continuar a fazer com que desempenhem um papel fundamental na divulgação de novos valores, ou mesmo assim vai-se refletir na adesão do público?

Acho que o presente já está a pedir que pensemos em novas maneiras de fazer as coisas, quanto mais o futuro. Se não há dinheiro, terão de ser inventadas formas diferentes para desenvolver as ideias. E isto não se aplica apenas à música, mas a todas as outras áreas. O Offbeatz é um exemplo de um formato pensado de maneira alternativa e apelativa, não só para as bandas que tocam mas também para o público. É um modelo que funciona. E estaremos por cá até deixar de fazer sentido.

O Rui de Brito costumava responder «nunca!» quando nos perguntavam quando acabaríamos com as sessões. Entretanto nunca mais respondeu a isso porque o pessoal começou a perceber que vamos continuar.

A crise só faz com que as pessoas queiram poupar e ali terão sempre uma noite gratuita. E ainda há imenso para mostrar, porque já percebemos que a música portuguesa não pára de surpreender. E com isto acho que não é preciso dizer mais nada.

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* Originalmente publicado a 17 de Janeiro de 2013, na Le Cool Lisboa * 375

Casa do Cinema

Adivinha, adivinha.

Que terão em comum o IndieLisboa, o doclisboa, o Monstra, o FESTin, o Temps d'Images e o Queer Lisboa?

Aparte o serem festivais de cinema - coisa que dirias logo de pé para a mão - não há muito que os ligue, pois cobrem géneros tão diferentes da sétima arte. Seria comparar bananas com abacaxi porque são frutos de árvore ou pimento vermelho com tomate, só porque a natureza lhes deu cores assim, de assustar touros.

Blaze & The Stars

Gosto de lugares inusitados de concertos, de apresentações de músicos em locais improváveis, de lançamentos inesperados e de aparições improvisadas. Gosto mesmo. Cenas em rooftops com riffs de guitarra a cuspir sobre a cidade e malhas de baixo em talhos, com a bateria afundada entre miudezas e costeletas do cachaço. Assim como em lojas também. 

É entre os corpetes da Ás de Espadas que os Blaze & The Stars se afirmam no seu encontro entre "a velha tradição dos blues e do rock" e "um imaginário pós-industrial". Eletrónica e rock, nada de novo por aqui, mas de revisitação necessária a que qualquer post- vai acenar que sim.  A 19 de janeiro pelas 22h30, de entrada livre, na Ás de Espadas Vintage Store.