Le Artista da capa * 285, Maria Inês


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* Originalmente publicado a 28 de Abril de 2011, na Le Cool Lisboa * 285

Le Capa * 285

por Maria Inês

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* Originalmente publicado a 28 de Abril de 2011, na Le Cool Lisboa * 285

Le Entrevista a Vik Muniz por Rafael Vieira + Carla Henriques


Por Sueli Ferreira de Souza

Vik Muniz está por Lisboa a acompanhar o lançamento de Lixo Extraordinário e para viabilizar - assim o desvendou - uma exposição em nome próprio em Lisboa. Trocámos umas palavras durante o festival FESTin, que continua no Cinema São Jorge até Sábado, dia 30.

Apresente-se e fale-me um pouco de quem é Vik Muniz, o homem por detrás do artista (ou o homem feito artista).

(Risos) O homem. O Homem é um homem normal. Simples. Acho que não tem muito mistério. As pessoas tem uma tendência a fantasiar um pouco a imagem do artista. Vem do facto que tem um aspecto histórico disso, os artistas quererem fazer aprender a gostar através dos tempos. Você vai imaginar sempre vidas conturbadas. Eu tinha esse defeito, imaginava artistas cortando orelhas, nunca vendendo quadros. É uma ocupação como qualquer outra, que não dá direito a saber mais. Do ponto de vista político, por exemplo, as pessoas acham que o artista vai saber mais da sociedade. Uma pessoa que vê através das coisas, que tem uma visão aprofundada. Eu sou contra, do ponto de vista político ele não sabe mais do que o padeiro, o policial ou o torneiro mecânico. Muito pelo contrário. Tem uma visão muito superficial da maneira como as coisas funcionam, pois vive num mundo meio fantasioso. Um mundo de imaginação.

Le Entrevista ao Teatro de Marionetas do Porto por Rafa

Somos uma companhia de Teatro com Marionetas, gostamos de encontrar problemas para a seguir nos desenvencilharmos deles alegremente por caminhos desconhecidos... A congeminar diariamente e em conjunto somos neste momento 7 pessoas oficialmente com funções diferentes que passam pela Sala de Ensaios, Oficina e Produção.

Na oficina nascem os protótipos e mais tarde as marionetas ou os objectos cinéticos, no escritório fervilha estrategicamente toda a produção e divulgação dos espectáculos, e na sala de ensaios, onde pessoalmente me encaixo com mais 2 colegas actores, lá viajamos compulsiva e transversalmente em todas as direcções possíveis tentando contagiar ao máximo os viajantes.

Mas é claro que o lema é realmente não nos abstermos de fazer o que é necessário sendo que nos auto-intitulamos multi-facetados, é realmente uma característica importante. (Sara)

Não se poderá dissociar a própria história e o crescimento do grupo do papel imenso do João Paulo Cardoso? Ele era um pai - um mentor - um artista do/para o grupo? (gostava que deixassem uma pequena nota de homenagem) Eu cresci a ver os Patafúrdios e o Gaspar - eu sou formado pelo trabalho do João Paulo [Seara Cardoso].

O João Paulo foi o criador e autor central de toda a obra criada para o Teatro de Marionetas do Porto. Foi o grande motor deste Teatro, tendo criado uma obra ímpar. Um artista com uma sensibilidade extrema que revolucionou o teatro de marionetas em Portugal e as nossas vidas. As suas criações colocaram a marioneta no centro também de uma reflexão filosófica. Cada criação era uma nova invenção, uma nova revolução, dada a forma como de cada vez a necessidade e urgência em criar novos desafios para novas respostas se impunha à equipa e muito especialmente aos actores/intérpretes.

A vivência contemporânea, o cruzamento com outras disciplinas e universos artísticos criaram uma marca que jamais será apagada na memória.

O João Paulo foi um criador/Mestre, no sentido de ter uma ideia do mundo e dos desejos a cumprir, e ter todo o tempo para se dedicar a essas ideias férteis, dando-lhes forma, conseguindo contagiar e entusiasmar equipas, ensinando caminhos e formas de inovar.  Um espírito inquietante, provocador nunca conformado e sempre a par do seu tempo.

A sua estética já contagiou e continuará a contagiar fortemente todos os que tiveram o grande prazer de trabalhar com ele. Todas as marionetas sentirão a sua falta.

Gostava que derrotassem por palavras a ideia pré-concebida de que Marionetas e Teatro de Marionetas é somente para crianças (irritem-se, gritem, xinguem, dêem-me exemplos, amofinem-se). Eu vejo três grandes exemplos em como não: Svankmajer, os irmãos Quay e o marionetista do filme Being John Malkovich. E vi uma criação há uns tempos no Chapitô do Teatro de Montemuro. Há obra para adultos (não quero dizer de adulto - se bem que a referência seria hilariante)?

O Teatro de marionetas é antes de mais teatro. E nesse sentido, segundo a nossa concepção, dirige-se a crianças e adultos. O preconceito não faz sentido. As Marionetas são um dos signos do espectáculo estão ao serviço das necessidades cénicas. Trabalhar com elas é também trabalhar através delas.  É verdade que existe vários contextos em que se inserem. Apesar de não se dissociarem do lado infantil (que é uma vertente de bastante interesse), elas representam sempre o passaporte para um universo onde tudo é possível dentro de um jogo surreal em que a metáfora é a palavra chave.

O grande eixo criativo contemporâneo do Teatro da Marionetas está focado em Lisboa (com os seus FIMFA, Tarumba e o Museu) ou o Porto e as Marionetas do Porto têm mais do que argumentos para o contrariar? Refiram-me Festivais - participações - colaborações e sinergias que tenham com Porto e periferias.

Uma das principais marcas do trabalho do TMP, através das criações do João Paulo Seara Cardoso sempre foi a contemporaneidade. A apresentação das suas várias criações no Porto, pelo país e também com uma significativa circulação no estrangeiro, criaram uma referência incontornável.

O Festival de Marionetas do Porto, criado em 89, foi também uma das fortes referências para a apresentação no Porto de companhias com universos diversos. Posteriormente surgem outras propostas na cidade que contribuem para que o universo das marionetas exista na sua diversidade.

Pelo país existem outros pólos importantes onde as marionetas são o centro do trabalho de companhias e estruturas, com as quais o João Paulo e o Teatro de Marionetas têm mantido excelentes relações e através das quais as criações do TMP têm  sido regularmente apresentadas, Bime, FIMFA… entre outros.

O Belomonte foi uma vitória? Esperam-se mais umas quantas certamente - refiram e comentem projectos que tenham e que irão avançar. Falem-me do projecto do Museu.

O Teatro de Belomonte foi inaugurado com a estreia de Miséria, integrando o Festival de Marionetas do Porto. Miséria é o espectáculo que de alguma forma marca o inicio de todo um percurso para a Companhia.

Esse espaço, tornou-se num lugar muito especial de apresentações de alguns espectáculos que ficaram em cena, e que fazem parte da memória de muitas pessoas, falamos nomeadamente de Vai no Batalha, Joanica Puff, IP5 ou Óscar. Neste espaço está reunida a equipa de trabalho, a Oficina e a Produção, e será sempre a sala de bolso da companhia, que normalmente trabalha para espaços e dimensões muito maiores.

O Museu  é o último projecto que o João Paulo Seara Cardoso criou, e para o qual todos os esforços serão feitos no sentido de ver o mesmo concluído. O TMP possui mais de 1200 peças, entre marionetas e objectos cénicos com grande interesse expositivo. O Museu poderá ser um símbolo cultural da cidade do Porto.

É verdade que é difícil ser criativo fora da capital - mas a contrariedade aguça o engenho?

O Porto é uma cidade muito bonita e com uma dimensão especial. Naturalmente os artistas vivem da visibilidade, e sair da cidade é quase inevitável. Esta questão colocou-se sempre para os artistas que optaram em ficar. Ficar é o seguir o caminho mais difícil. No Porto a política cultural é algo de distante. Relativamente à criatividade, ela existe ou não.

No caso do trabalho do Teatro de Marionetas e dada a constante inquietação do João Paulo, todo o trabalho realizado com  a equipa do TMP sempre teve uma forte marca que ultrapassa as questões do lugar onde nasce, ou seja, as criações têm a marca do Mundo Contemporâneo. As referências são muito largas e o facto da Companhia viajar imenso, permitiu sempre um contacto directo com as mais diversas referências. Assim, a questão da localização da Companhia no Porto, terá eventualmente a sua única desvantagem na dificuldade de ver apoiado o trabalho de uma forma afirmativa sobretudo se pensarmos na importância que representa para a cidade.

Como é ser actor de uma companhia de teatro de marionetas? É doce conjugar diariamente o verbo marionetar?

Sim, esse é um verbo que anda várias vezes nas nossas bocas... Fundamentalmente marionetar, é atirar sentidos em todas as direcções.

O nosso trabalho é muito especial e nada monótono. Os ensaios, as estreias, estar em cena, ou os momentos de pausa, constituem uma dinâmica muito rica e que está sempre em constante evolução. Numa companhia desta dimensão, os actores têm um trabalho muito activo e muito diverso. Participam muito nas questões, e são constantemente “provocados” para novos desafios.

Falem-me da companhia com um olhar mais íntimo - para o grupo e o ambiente de trabalho que têm.

Um pouco na sequência da resposta anterior, podemos dizer que trabalhar no TMP, é trabalhar num lugar especial.  A dinâmica é muito intensa e variada. Até agora sempre muito impulsionado pelo centro, pelo motor que foi o João Paulo, o trabalho nesta companhia é muito estimulante e activo. A criação, o espírito de equipa, e a vontade de fazer coisas novas, são a forma como estamos nos colocamos dentro desta equipa.

Que produções futuras poderemos esperar vossas? Refiram as do Porto e também digressões.

No mês de Dezembro tivemos "Cinderela" em cena, e em Janeiro a estreia da nova produção infantil "Frágil". Ao longo do ano temos agendados vários espectáculos em digressão e faremos uma ou duas novas criações em função dos apoios que a Companhia irá ter para o seu trabalho.

Agora falem-me do Porto como cidade - é um teatro também de marionetas? Quem puxa os fios por aqui?

A cidade do Porto é como já dissemos uma bela cidade, entre o rio e o mar. Tem lugares especiais e está cada vez mais cosmopolita. É uma cidade que tem tudo para ser atraente e conquistar a vontade de viver e criar projectos. Infelizmente o olhar dos responsáveis é desviante e focado na rentabilização económica. A cultura é algo de profundamente estranho e “coisa” de gente que nada produz. Nós fazemos parte gente, somos sobreviventes inconformados com o estado de sonolência cultural da autarquia. Queremos que a cidade exista!

Sugiram-me uma noite ideal na cidade (pode ser individual a sugestão)

Gare para acabar! (Rui Pedro)

E para finalizar - convidem os leitores a ir ver uma peça das Marionetas do Porto!

Convidamos o público a descobrir a mais recente criação do Teatro de Marionetas do Porto: Frágil que estreou em Janeiro no balleteatro auditório. Esta nova criação tem encenação de João Paulo Seara Cardoso e uma forte participação do colectivo.

Fotografias por Susana Neves
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Teatro Marionetas do Porto | www.marionetasdoporto.pt 




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* Originalmente publicado a 22 de Abril de 2011, no Facebook da Le Cool Porto

Le Entrevista a Joclécio Azevedo por Rafa

Nasci no Brasil, em Fortaleza. Os meus pais faleceram ainda muito jovens e passei metade da vida a viajar e a viver em diversas cidades brasileiras com outros familiares. Há 20 anos fui parar ao Porto a convite de um amigo que escrevia muitas vezes a dizer que se um dia eu o fosse visitar iria me apaixonar pela cidade. E foi de facto o que aconteceu, apaixonei-me não só pelo Porto mas especialmente pelas pessoas que conheci inicialmente e que me fizeram sentir imediatamente integrado e em casa.

Já no Porto estudei Teatro mas posteriormente, quase que por acidente, comecei a desenvolver um interesse cada vez maior pela Dança e pela Performance.

Le Capa * 284


Por Nagazaki

Le Entrevista a Chloe McCloskey por Rafa


Vim do Canadá, estou em Londres e vou para... França; para fugir ao Casamento Real? Oli, o meu lindo companheiro, levou-me de fim-de-semana a Lisboa no passado Outubro para celebrar um aniversário.

Sou a Publishing Editor da Le Cool London. Ajudo o nosso editor - Mat Osman - a fazer o nosso magazine semanal que faz chegar aos londrinos o melhor da música, cultura, noite, comida e experiências que a nossa cidade tem para oferecer.  Também materializo o nosso podcast, o nosso novo blog e eventos de quando em quando. Gosto também de escrever sobre comida, viagens e sobre a cultura hip hop.

Paixões e sonhos que Lisboa te tenha despertado - delicatessen da comida, bebida e noite. What rocked your socks?

Por onde começar? Tivemos uma estadia incrível. Ficámos em Santa Catarina num lindíssimo e moderno apartamento com uma cortina controlada por controlo remoto.

CICLO PARIS NO CINEMA

Paris no cinema é luz, bicicletas com cestos em flor, baguettes. Miúdas com pernas longas e franja, croissants, charme em estado puro. Paris no cinema é a Françoise Hardy no corpo e alma de Isabel Huppert, mexilhões e um copo de vinho do vale do Loire. Paris no cinema são bocas perfeitinhas e inocentes, mais perfeitinhas que inocentes, macarrons e a voz de Jean-Paul Belmondo. Cafés em que apetece viver e a língua mais freudiana do mundo. Paris no cinema é o Claude de há quatro verões, que acabou tudo com uma frase lacónica e a quem pedi que repetisse. Três vezes. Hoje entardeço em Paris, dentro e fora da película.

Onde: Instituto Franco-Português | Avenida Luís Bívar, nº 91
Quando: Às 19h
Quanto: Entrada livre

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* Originalmente publicado a ??, na Le Cool Lisboa * 000

Le Capa * 283


Por Guilherme Almeida

Le Entrevista a Stefano Savio por Rafa


Quem é Stefano Savio, situe-nos a sua ocupação profissional. Sei que divide o seu tempo por Portugal entre o Estoril Film e a Festa do Cinema Italiano (que conquista Lisboa a partir de dia 14 de Abril). Partilhe qual a sua relação com il cinema.


Uma das minhas primeiras tarefas enquanto criança era de gravar em VHS os filmes que passavam na televisão e que o meu pai não podia ver porque estava fora de casa. Aos quinze anos as cassetes de vídeo já não cabiam no meu quarto. Quando tinha vinte anos fui trabalhar num dos maiores arquivos de vídeo da Itália. Durante anos enchi as prateleiras com filmes de todos os géneros. Muitos dos quais nunca foram visionados.

Le Entrevista a Filipe Caetano por Daniela Catulo


Açoriano de São Miguel, veio para Lisboa há treze anos para estudar e por cá ficou. Filipe Caetano respira música, vive no meio dela e não se imagina sem ela. A música foi tomando um papel cada vez mais importante ao longo dos anos. Como qualquer jovem, frequentava festas, clubes, discotecas, mas Filipe não era apenas um party-boy, ele estava atento à alternativa e ao que de melhor se fazia no meio e foi aguçando o gosto e a experiência.

Filipe é DJ FLiP, é um dos elementos dos DOUBLE DAMAGE (juntamente com o colega Rodrigo Schanderl), é dos membros do Distotexas, Faz parte da banda PMDS (o primeiro álbum está quase a sair, fiquem atentos!) trabalhou com a emblemática Rooster Agency e ainda participa em vários outros projectos com actuações ao vivo.

Uff! Querem mais razões? O resultado de todo este percurso musical, contactos que foi estabelecendo e influências? A fundação, em Novembro de 2010, do SPACE Lisboa – juntamente com Rodrigo Schanderl e Jari Marjamaki.

Le Artista da capa * 282, Fátima Castaño


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* Originalmente publicada a 7 de Abril de 2011, na Le Cool Lisboa * 282

Le Capa * 282

por Fátima Castaño

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* Originalmente publicada a 7 de Abril de 2011, na Le Cool Lisboa * 282

Le Vitória 2


Vale Sagrado de Ollantaytambo

Novos projectos. E um par de muletas.

Passei parte do mês de molho, por causa da queda. Mas assim que melhorei, mãos ao trabalho. Reabilitámos um albergue no Vale Sagrado em Ollantaytambo. Raparigas adolescentes que vivem nas comunidades rurais, caminham entre 4 a 6 horas até à escola mais próxima, e daí muitas vezes a meio do ano lectivo acabam por desistir, dedicando-se à producao de artesanato e roupas tradicionais. E como Ollanta nao é excepção, mais uma vez o seu desenvolvimento pessoal, intelectual e profissional nao passa do mesmo que as gerações anteriores. Um americano e uma peruana depois de viverem algum tempo no Vale aperceberam-se desta realidade. Uma antiga escola foi doada pela comunidade a estes dois amigos, que a transformaram num projecto que consistia em dar casa e comida a estas raparigas durante a semana, poupando-lhes o esforço e a perda de tempo na caminhada, podendo voltar às suas famílias pelo fim de semana.

Le Artista da capa * 281, Stephanie Poell


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* Originalmente publicada a 31 de Março de 2011, na Le Cool Lisboa * 281

Le Capa * 281

por Stephanie Poell

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* Originalmente publicada a 31 de Março de 2011, na Le Cool Lisboa * 281

Le Entrevista a Teresa Ricou por Rafael Vieira

Teresa Ricou em discurso directo:

Nasci em Novembro de 1946, na Praia de Granja, a Norte de Portugal, no seio de uma família burguesa.
Segunda filha de Eduardo Ricou, médico de lepra de origem suíça, embarco, em 1949, para Luanda, com ele e com a minha mãe, Alda, brasileira de sangue italiano e mais as minhas irmãs por essas terras de África, a levar a cura ao corpo desses povos negros de pele e transparentes de alma. Dos irmãos que tinha e dos irmãos que vieram somam-se sete.

E foi em terras de Angola, a fazer casinhas e castelos e a misturar o pó vermelho da terra com as mil cores dos sonhos que aprendi as tantas cores que tem o Mundo, o que era a Cultura e tive a certeza do que queria ser. Nem mulher recatada nem mulher casada, antes Tété – Mulher Palhaço. Com espontaneidade, adquiri o gosto pela fantasia de ser, dia a dia, uma mulher livre de preconceitos mas com sentido do mundo onde navegamos.

De volta à metrópole, vivia já os meus 17 anos, os meus pais inscrevem-me no Instituto de Cultura Alemã e depois na Alliance Française do Porto e depois num outro colégio para depois eu voltar a trocar as voltas ao predestinado e partir, desta vez para Londres, acompanhada pelo amigo de família Joaquim Paço d’Arcos, ao encontro dos melhores amigos de Angola.

Aqui, sem a rede dos meus pais, aprendi a viver, a sobreviver, a lutar, a procurar, a não dizer que a conquista da emancipação é impossível.

Fui muita coisa. Dog-sitter e baby-sitter, guia turística, empregada de mesa, disco-jockey. Vendi bilhetes no mercado negro para a primeira World Coup de futebol, aproveitando para assistir, na 1.ª fila, a todos os jogos. Até vi o Eusébio a chorar no célebre jogo com os coreanos na companhia dos velhos amigos de Luanda a que se foram juntando outros tantos: Carlos Monjardino, José Megre, Domingos Sá Nogueira.

Uma amiga, Maria João Campos, ex-assistente de bordo da TAP inscreveu-me num concurso para novas hospedeiras e levou-me de volta a Lisboa.

Casei, fui dona de casa e fui mãe.

Separada, fui cara de campanhas publicitárias, convivi com cineastas, poetas, escritores, pintores e intelectuais. Tudo girava à volta da Arte e das Letras, sempre na descoberta peugada da Arte do Circo. Nos passeios pelo Parque Eduardo VII, com o Nuno num braço e o Mundo de tantas outras crianças no outro, fui encontrando formas de educar pela arte, com animação. Trabalhei com elas dando-lhes aulas de pintura e, no sótão de uma livraria partilhada com Camilo Mortágua, Padre Felicidade, Padre Fanhais e outros revolucionários, dei os primeiros passos em direcção àquele que viria a ser, anos mais tarde, o fundamento de um projecto de Reinserção Social através das Artes.

Com Calvet de Magalhães, director da Francisco Arruda, trabalhei com jovens iniciando-os no mundo das artes e da transformação do Velho em Novo Portugal, Lisboa, a polícia política, tudo isto me asfixiava. Fui para Paris onde vendi jornais na rua, privei com prostitutas, travestis e turistas, mergulhei na boémia parisiense, conheci artistas. Estudei a Arte de fazer Rir na École Jacques Lecoq e frequentei o Gymnase du Cirque do velho Palhaço-mestre Bonot. Aprendi sapateado, acrobacia e dança. Frequentei a Cartoucherie de Vincennes onde os ensinamentos filosóficos e artísticos de uma senhora chamada Ariane Mnouskine, num primeiro estágio, os clowns, deram-me a orientação necessária para prosseguir esta minha vida artística.

Frequentei o Musée de l’Homme onde descobri a cultura africana, as mulheres Mumuila e dos Cuanhama através da etnologia. Com Jean Rouche dei o meu primeiro passo no Audiovisual. Durante o mandato de Langlais, a Cinemateca era o lugar dos grandes encontros. Arrabal foi o desfecho e a oportunidade de realização profissional pela mão de um grande amigo, o Novais Teixeira, um comunista profissional do cinema exilado em Paris. Participei em acções de animação cultural com a comunidade portuguesa e fui directora artística da Maison des Jeunes et de la Culture de Gentilly, um modelo de casa de Cultura que me inspirou e que, anos mais tarde, traria para Lisboa e dar-lhe-ia o nome de Chapitô, assumindo um sério compromisso com a vertente da Reinserção Social e Formação nas Artes.

Na madrugada de 24 para 25 de Abril recebo o telefonema da minha prima Ede, locutora de rádio. Corri para Lisboa e fiz a Festa da Revolução.

Integro o Sindicato dos Trabalhadores do Espectáculo, cruzo-me com Luciano Nobre, o mestre dos Palhaços e, nas Portas de Santo Antão, encostados ao café Castanheira, deixo-me misturar com o cinzento da noite, conhecendo os empresários do Circo, nomeadamente o Ricardo Covões.

Sou convidada para fazer parte do Grupo Faz Tudo do Coliseu dos Recreios, a catedral do Circo. Contratada por outros empresários e de parelha com o Mestre Luciano Lopes, segui em tournées de norte a sul do país. De volta à cidade, depois de ter vivido, pressentido e pensado acerca da condição social e cultural que legava ao esquecimento a Arte do Circo, fui escrevendo uma proposta para a criação de uma base de apoio social e o reconhecimento desta cultura circense. Na Secretaria de Estado da Cultura, no 1.º mandato do Partido Socialista, o Secretário de Estado Dr. António Reis aceitou a minha proposta de integração de um Departamento do Circo, lado a lado com o Departamento de Teatro, passando a fazer parte da Lei Orgânica da Secretaria de Estado.

Mas não esqueço nunca o meu objectivo: aliar as artes ao social. Não me bastava uma mesa e uns papéis na Secretaria de Estado da Cultura, nem me alimentava o conforto de Funcionária Pública. Não tinha desistido do Circo, nem de dar voz aos que fantasiam esta arte, mas muitos mais caminhos haviam para percorrer e o meu chamava-me à Justiça Social. Foi exactamente o desejo do Ministério da Justiça que me levou aos colégios. Nasce o Chapitô.

Com um grupo de sociólogos, pensadores e intelectuais, reunimos esforços e ideias à volta de uma mesa. Um pensamento comum, um sonho que finalmente se concretiza: era a construção do projecto Chapitô a nascer dos escombros da antiga Cadeia das Mónicas ao Castelo, em Lisboa. A 7 de Janeiro de 1981 é criada a Colectividade Cultural e Recreativa de Santa Catarina, uma IPSS – Instituição Particular de Solidariedade Social e mais tarde uma ONGD – Organização Não Governamental para o Desenvolvimento de reconhecido mérito social e cultural.

O Chapitô:

Chapitô: Casa de Cultura – Uma Tenda de espectáculos, um Bar ao estilo vintage de sala de estar, uma Esplanada e uma fórmula mágica para se Ser Criativo.

Chapitô: Projecto pedagógico único em Portugal, uma escola profissional de artes de nível secundário que não termina no terceiro ano, mas prolonga-se através do acompanhamento que é feito pela equipa pedagógica ao percurso profissional de cada aluno que desce a Costa do Castelo, muitas vezes em direcção a Universidades e Instituições de Ensino Superior sedeadas nas grandes capitais da Europa, como Paris, Espanha, Londres e tantas outras...

Chapitô: Projecto social pensado nos jovens e para os jovens, um local de Liberdades e trans-inserção alicerçado na educação para a cidadania. Através do conceito Animação em Acção, pedagogos, sociólogos, artistas e animadores desta Casa acompanham a integração dos jovens nos Centros Educativos Navarro de Paiva e Bela Vista sob tutela do Ministério da Justiça.

Ainda nesta vertente, a Casa do Castelo, no berço deste local a que alguns chamam “babilónia comedida”, recebe alguns destes jovens, dando-lhes alternativa habitacional. Aqui encontram um espaço que é um salto para um outro salto maior: a vida em Sociedade.

Chapitô: Uma Companhia - projecto de convergências e diálogos que, com uma matriz linguística e de expressão fortemente marcada pelo teatro físico - “gesto” -, recuperou o ideal de criação colectiva, transformando peças de autores em campos de discussão entregues ao domínio do público.
Chapitô: Uma obra com história, memória fotográfica e videográfica; uma Biblioteca que foi buscar o nome à poeta Luíza Neto Jorge, grande amiga da Casa que, lado a lado com Agostinho da Silva, ajudou a dar forma ao pequeno Centro de Documentação / Biblioteca.

Como estes, outros amigos nos ajudaram a construir os diferentes espaços: Zeca Afonso, Mariano Franco, Tótó Campos, Luciano Lopes, Quinito, etc. Este espaço é, indiscutivelmente, o único testemunho fiel da História do Circo em Portugal e no Mundo, da história da única Casa que transforma jovens marginalizados em Líderes das Artes Performativas, privilegiado o espaço da Rua e pisando os palco dos Teatros.

Um dos exemplos da nossa contribuição, mais do que na cidade, na sociedade passa pela presença da palavra “Chapitô” no discurso de políticos, comentadores e jornalistas: - “Isto parece um Chapitô”.
Julgo que o Chapitô é uma referência nacional à parte do ainda preconceito de uma cultura portuguesa que, atrevo-me a afirmar, ainda é um pouco provinciana, tradicional.

Pese embora o facto, somos premiados sobretudo pelas culturas do norte da Europa que vêm neste tipo de projectos modelos de sociedade onde as suas culturas são recebidas, reconhecidas e integradas. Quanto a Lisboa, às entidades oficiais falta-lhes o olhar mais sério e atento sobre o modelo, a realidade do Chapitô como mais valia para o país. Não basta reconhecê-lo, é preciso sê-lo.

Qual é o circo, qual é ele, que antes de o ser já o era? O Chapitô… Neste mundo global, rapidamente nos reconhecem pela bela vista sobre o Tejo, pela esplanada e todas as propostas de restauração, mas acima de tudo, e quando não nós tentamos, reconhecem-nos pelo projecto cultural e de acção social. Aqui deixo três testemunhos/ exemplos do nosso trabalho transversal: acção social, educação e cultura.

O sucesso só será sucesso verdadeiro se for o resultado de um trabalho, passo a passo, formiguinha, para que não seja um esforço efémero. Aliado a este sucesso estão muitas vidas e é por isso que nada do que fazemos hoje pode cair no esquecimento amanhã. Todo o nosso esforço tem que, diariamente, reverter-se numa realidade. Neste pressuposto, acredito que Lisboa e Portugal mereçam um espaço como o Chapitô. Mas é preciso que as entidades oficiais também acreditem, ser comprometam e incentivem.

A primeira aposta é terminar o trabalho feito com os alunos que saem agora para o 12.º ano, fazendo-o de forma a reverter o nosso trabalho em resultados positivos para o sistema educativo nacional. O próximo passo, em estudo, passa pela construção do 4.º ano da especialidade e a abertura do caminho ao ensino das artes do circo ao nível superior. Em negociação está a criação de uma estrutura universitária e previsto um espaço com dimensões adequadas para receber esse projecto, isto para além de manter o Chapitô Castelo em plena acção.

Contámos com várias parcerias na área das artes e dos ofícios do espectáculo. Sempre mantendo um modelo integrado. Alguns empresários foram desafiados, temos uma grande esperança no trabalho que estamos a fazer e estamos certos que semearemos os resultados muito em breve. É tempo de investir, o prestígio é sempre uma mais valia para o empresário e os lucros, bem geridos e bem aplicados, revertem positivamente para a humanidade.

E Lisboa:

Para tomar uma refeição, o Restô do Chapitô. Sempre! Fora isso, sugiro a Bica do Sapato. Para espreitar o rio e Lisboa inteira aos seu pés, o Castelo de São Jorge, onde, este ano, temos planos para encenar um grande espectáculo com os nossos alunos, seja essa a vontade das entidades locais. Um parque, ou antes um jardim, sugiro o Jardim Botânico. Num ano em que se fala tanto da preservação da natureza e da questões ambiental, eis um bom exemplo de preservação do bom que temos em Lisboa e em Portugal.

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* Originalmente publicada a 31 de Março de 2011, na Le Cool Lisboa * 281