Le Capa * 303

por Pedro Tavares

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* Originalmente publicado a 4 de Agosto de 2011, na Le Cool Lisboa * 299 

Le Vitória 7


Mancora. Norte do Peru. Sol e praia. Aqui comeca o primeiro passo para aquela que será a minha segunda viagem na América do Sul. Penso em tudo o que deixo para trás, mesmo sabendo que em pouco tempo estarei de volta. Estou curiosa também, no que os próximos dois meses terão reservados para mim.

Casco Viejo, Cidade do Panamá. A suar. Bem-vinda à América Central. Passeio pelas ruas do bairro antigo. Casas lindíssimas de arquitectura colonial, deixadas ao abandono numa cidade com um potencial enorme. Observo o Canal do Panamá e do outro lado há prédios e arranha-céus em demasia, cada um competindo a ver qual será o mais alto. Ao virar duma esquina espreito e vejo uma igreja. Entro e sento-me a escutar o silêncio. De repente, olho para o meu lado esquerdo e vejo-te a passar. Saio a correr para a rua e chamo pelo teu nome. Assim que virares as costas, sei que esse será o momento. Os meus olhos procuram os teus e quando olho, em ti vejo desejo, mas em mim não. Cada um diz adeus e segue viagem com um nó na garganta e aquele vazio no estômago. Agora sei que tu não foste a razao pela qual eu tinha que aqui estar.

Le Entrevista a Júlio Resende por Pedro Tavares

No seguimento do seu último álbum, o You Taste Like a Song, e na expectativa do concerto incluído na Festa do Avante de 2011 (leiam o artigo nesta edição da Le Cool Lisboa 303), Pedro Tavares entrevista Júlio Resende, músico de jazz, pianista, tudo.

Vais actuar na Festa do Avante no dia 4 de Setembro com o teu quarteto com Perico Sambeat, com o Joel e com quem mais?

Com o Matt Penman.

Fala-me um pouco do que se vai passar lá.

Vai ser a extensão deste último disco "You Taste Like a Song" em trio, vai passar a quarteto. E daí trazer novas possibilidades, novas cores à música. É um elemento mais, um elemento que é um músico extraordinário. Tudo se fará para que o conceito do disco se consiga colocar nesta formação também, em quarteto. Estou muito contente por colocar o Perico e o Matt a tocar juntos. Acho que eles se vão divertir muito e nós também.

Este ano apresentaste o teu último trabalho com um concerto na Culturgest, com um trio em que Matt Penman era convidado especial.

Bem, foi uma alegria gigante em vários sentidos. A Culturgest foi o primeiro sítio ao qual vim a Lisboa ver um concerto, teria para aí 18 anos. E passados 10 anos, estar lá a tocar no grande auditório, e com o Matt Pennam como convidado e com o meu companheiro Joel Silva, foi uma grande alegria. E que me deu um retorno musical que não é facilmente igualável e que eu espero repetir nos próximos anos.

Como surgiu a música na tua vida, tinhas antecedentes na família.

O meu pai toca um bocado de guitarra e foi ele que me comprou o teclado. E a partir daí o teclado fez sempre parte de mim. E o piano, depois mais tarde. Tinha quatro anos quando comecei a tocar.

E o jazz aparece quando na tua vida.

O jazz aparece mais tarde, aos 14/15 anos. Funk, música de fusão e o jazz, começa a aparecer tudo mesclado. E vou descobrindo que há uma música que tem a ver com improvisação. Que é o jazz. Improvisação essa que eu já faço quanto estou a tocar. Invento melodias. E sendo o jazz uma música que faz isso como essência, tentei perceber o que se passava. Gostei muito e descobri alguns discos, Joshua Redman, Coltrane, coisas que me iam emprestando também. Pat Metheny, Jim Hall. Foram os primeiros discos, os primeiros discos de jazz, jazz. Antes ouvia outras coisas, rock, pop.

Tanto quanto sei o Zé Eduardo foi fundamental para ti.

O Zé Eduardo foi a primeira pessoa, estando eu em Olhão e ele um músico de jazz que morava em Faro e dava aulas, foi a primeira pessoa que me deu as primeiras aulas de jazz mais a sério. Só tivemos tempo para duas aulas. Depois eu vim para Lisboa morar e ele deu-me o contacto do Rodrigo Gonçalves.

E que outras pessoas marcaram o teu percurso.

A minha professora de piano clássico do Conservatório em Faro, o Rodrigo Gonçalves. Essas pessoas vão orientando o teu percurso em termos musicais. Os discos sempre foram os meus maiores professores, são o país do jazz.

Quais são as tuas maiores influências além dos Beatles e dos Pink Floyd?

(risos) Em relação ao jazz, já ouvi e conheço muita coisa. Há uns que gosto mais, mas não posso dizer que me sinta influenciado por alguém em particular. Porque a música que faço tem muito a ver com experiências de vida, reflexão, cinema. Doutros sítios e coisas que te vão alimentando a alma de modo a poderes fazer música. Em relação aos Pink Floyd, Radiohead, Clã, Ornatos Violeta, Chico Buarque, João Gilberto, Jeff Buckley. Ouço muita coisa e tudo isso contribui para a minha música.

Neste momento o que andas a ouvir?

Neste momento comprei o CD do Ben Allison, contrabaixista. Comprei outro CD de Henry Arlan, ao vivo em Paris, que é muito bom. Tenho ouvido o novo CD dos Radiohead que também anda aí. E vou ouvindo outras coisas, o Jorge Palma (risos).

O que procuras na música, o mais concretamente na tua música.

Coração.

Coração? De resto no teu último trabalho há uma quantidade de frases. E há lá uma que fala precisamente do coração. Fala da alma, fala de coração.

Ah ok. Sobretudo o que quero é que a música seja uma força viva, viva no sentido de que não quero estar preocupado se é tecnicamente difícil ou tecnicamente fácil. Quero estar preocupado se isso está a servir a música, independentemente de ser difícil ou fácil, e normalmente é as duas coisas, quero que tenha um significado maior. Que tenha a ver com o coração, com a comunicação de mim para outros, de mim para a vida. E isso é importante para mim.

O que serve o quê, a técnica serve..

É sempre a técnica que serve a música.

Ou a arte, neste caso.

A arte, sim.

Qual o teu conceito de improvisação. Como filósofo, pensa-la?

Penso bastante. A improvisação é um espaço de liberdade, o que quer dizer que não tens que estar preso a nenhuma linguagem, nem a nenhuma história, inclusive à história do jazz, à linguagem do jazz. O jazz sempre foi uma música de rotura e sempre quis fazer disso uma pedra basilar da sua fundação. Nesse sentido é possível, até dentro do jazz, romper com a linguagem jazz, com aquilo que é mais canónico. É uma das coisas que mais gosto no jazz e é um dos conceitos de improvisação que mais me agrada. Improvisar também é – como alguém me disse um dia– compor em fast up. Isso quer dizer que quando estamos a compor, há mais coisas de ti que aparecem. O conseguires fazer da improvisação uma composição instantânea, uma composição no imediato. Isso é um bocadinho difícil. Fazer com que a improvisação seja um bocadinho tua. Sem grande fórmulas ou então a fórmula que tu já és. Aquilo que conseguiste adquirir em ti, é natural que assim seja. Uma espécie de natureza musical que está em ti, posta facilmente quando estás a tocar. Não que seja muito pensado, ou que seja pensado para ser difícil ou fácil. Pensada para ser natural. Natural e que tenha a ver comigo. Sou eu.

Eu também sou artista, e neste momento desde há cerca de meio ano desenvolvo um trabalho que se sente precisamente na improvisação dos desenhos que faço. Ao improvisar os desenhos nunca saem iguais, mesmo que queira fazer aquele modelo. O jazz têm limites para improvisares ou quando improvisas não estás obrigado a cumprir limites, a seguir paredes. Podes improvisar para onde quiseres?

É uma pergunta difícil.

Eu penso assim para o desenho.

Há uma questão, uma premissa, que é saber se estás a tocar sozinho ou com uma banda. Se estás a tocar com uma banda e com composições originais, elas estão estruturadas, têm uma estrutura. São temas. Podes fazer várias coisas, mas para romper com esta estrutura, tens que comunicar muito bem com a banda. tem que ser tudo muito bem comunicado musicalmente. Isso é muito interessante. Tu conseguires, dentro de uma estrutura, de repente olhar para a banda e construir uma banda que perceba que, se calhar, queres sair fora da forma e ficar só num momento sem forma, sem estrutura.

Pode ser trabalhado, em casa, em ensaios, mas, sobretudo, é mais fácil ser feito com uma comunicação musical, quando se está a tocar com uma banda capaz dissso. Esse é um limite do jazz quando estás a tocar em grupo. Quando estás a tocar sozinho podes ir para onde tu quiseres. Há sempre limites, tocas num piano, não tocas fora dele. Usas o piano, usas as suas possibilidades.

Mas dentro da estrutura também gosto de estar fechado numa estrutura e fazer qualquer coisa como parecer que estou a romper isso. Isso é o mais interessante do jazz, na minha opinião. Tocar um standard, que é uma estrutura fixa, uma estrutura que foi repetida n vezes, mas que tocá-la pode ser tão diferente em cada pessoa e isso é uma coisa que dá muito que pensar. Tu tens uma tela ou uma folha de papel, tens que fazer algo de novo...

Eu tenho os limites da folha e tenho que procurar um caminho ali dentro.

Exacto. E lá dentro pode ser tão maior do que aquela folha, e isso é interessante. De qualquer modo tem que estar contido à folha, senão não cabe.

Tocar um standard tem a exigência, por isso é um standard. Quando vais fazer a interpretação dum standard, sabes que há inevitavelmente a comparação ao standard.

É isso, por aí. Já foi tantas vezes repetido, que tem que ser dito com uma força diferente.

A filosofia tem sido determinante para o teu trabalho?

A filosofia enquanto acto de reflexão é determinante para qualquer pessoa na vida. Na arte é igualmente importante, tens que reflectir sobre aquilo que fazes. Sobre aquilo que queres fazer, sobre aquilo que és. Se aquilo que fazes faz sentido, se o sentido vem de ti ou te é dado por outra pessoa qualquer. E isso até se torna um pouco falso. Encontrar sentido, fazer sentido. E reflectir sobre aquilo que aconteceu e sobre aquilo que queres que aconteça. Sobre aquilo que tu és. É parte de qualquer humano que se queria dizer como tal. Enquanto ser pensante. A filosofia é muito importante. A própria filosofia no ponto de vista de literatura e aquilo que eu li e filósofos que eu conheci, também me inspiram.

Tens editado de dois em dois anos...

Exacto.

E editaste um álbum em Fevereiro. No entanto, já pensas noutro projecto ou vamos ter de esperar mais dois anos, inevitavelmente?

Estava a fazer uma música antes de vir para aqui. Provavelmente dois anos e sai um novo disco meu. Acho que os discos merecem algum tempo, pelo menos um ano, normalmente merecem. Mas tenho outros projectos, o projecto com a Maria João, que vai sair no final deste ano.

O projecto Ogre.

O projecto Ogre. O projecto com a cantora Elisa Rodrigues no qual estou muito empenhado. E outros projectos que ainda não têm edição pensada, mas dos quais eu vou fazendo parte. O meu grupo e o que vai acontecer, ainda não penso nisso, talvez daqui a alguns meses, largos, comece a pensar.

Nos projectos em que estás envolvido és o líder ou o frontman?  

Nesses que acabámos de falar.

Eu vi-te tocar naqueles duetos do CCB e depois vi-te tocar num Jazz às Quintas, com o Joel Silva, se não estou em erro. Foi uma quinta-feira em que deram um concerto que fica para a memória.

Ainda bem. Foi um momento ocasional, era aquela série de duetos que existe no CCB durante o Inverno, entre um músico português e um músico estrangeiro. Foi um concerto montado para fazer esse conceito e que me deu grande gozo. Gostava até de ter gravado, mas...

Não pensas em manter esse dueto.

Para um próximo disco não, mas talvez mais tarde. O próximo disco ainda não sei muito bem qual será a formação, mas começará no trio.

Mas na Festa do Avante será quarteto. E esse é um quarteto teu, fixo?

Sim, esse é um quarteto com que eu espero vir a tocar mais vezes. De qualquer modo, estes próximos anos serão mais dedicados ao trio. Eu, enquanto músico de jazz gosto de tocar em várias formações. Eu próprio fazer várias abordagens. Isso alimenta-me, desafia-me e faz-me crescer.

E editar um álbum com um trio, esta formação, esse pode ser o próximo álbum a lançar?

Pode ser.

Os teus três trabalhos até agora editados, não apresentam nunca uma formação base. Existe sempre um ou outro  elemento comum – o Joel, o Bruno Pedroso, um elemento comum, mas aparecem sempre vários nomes. Existe alguma razão especial para que assim seja?

Sim. Ainda que tenha uma base, como neste último disco era o Joel e o Ole, e depois toco regularmente com o João Custódio, músico português, e com o Bruno Pedroso. Eu quis que fizessem parte deste disco porque eles são parte da minha música. Daquilo que é construído ao longo destes ano, em que eu passo a pensar ou a tentar construir esse disco. E gosto que eles façam parte disso. Para além de trazerem no próprio disco, às vezes uma cor diferente. E isso é sempre interessante do ponto de vista de quem está a ouvir. Passa por aí, passa por isso tudo.

Da Alma, Assim Falava Jazzatustra e You Taste Like a Song. Fala-me sobre destes três discos, em que diferem, evoluções e se há espaço para mais.

Os dois primeiros são em quarteto, formação que sempre gostei e este último em trio. Sobretudo os três duma coisa que é aquilo que me agrada mais, sobretudo vivem por serem temas meus. Não por serem meus, mas torna os discos em obras mais pessoais. Se calhar antes não conseguia fazer dum standard uma coisa tão pessoal. Acho que agora já consigo. Não fazia muitos standards. Tinha muitas coisas minhas para dizer e os meus temas são isso. Gosto disso nos três discos, e gosto muito dos músicos que lá tocam, em cada um dos discos. E muitas vezes ouço, sobretudo por causa deles. O primeiro disco tem o Zé Pedro, o João Lobo, o João Rijo. Gosto de ouvir e reouvir. Na verdade, nem os ouço muito. Ouço mais quando eles estão quase a sair. Tenho que ouvir os takes e depois tenho que descansar um bocado disso. Gosto muito do segundo, o Perico a partir a loiça, é muito gratificante ouvi-lo nesse disco. E este último é o que me dá mais espaço, também me exige mais, mas estou contente.

Gosto muito dos teus três trabalhos, talvez mais este último. Talvez este último me diga mais qualquer coisa. Há ali muitas influências rockeiras. Neste último há um maior tratamento na textura sonora. O som é mais clean. Há um cuidado maior, deste um destaque maior à textura.

A qualidade da gravação também é muito superior, gravámos o primeiro disco num auditório. Sem as condições para gravar um disco. Actualmente com a qualidade de som que os discos têm... Não o fizemos nas condições ideais. O último foi gravado num estúdio, com condições xpto, e isso torna logo o som diferente. Em relação à própria música, eu espero ter evoluído e espero feito com que a música tenha ganho alguns pontos de clareza. Mais pelas performances. A minha própria performance.

Porquê o nome You Taste Like a Song.

Porque eu gosto muito de canções. Há uma expressão na música clássica, que é o cantabile. Que quer dizer que o pianista, neste caso um pianista ou outro instrumentista, tem que tocar de modo a que pareça que está a ser cantado. E normalmente melodias que são pensadas para ser cantadas, o canto exige respiração. O saxofone também exige respiração, mas os instrumentistas têm mais vícios a dar muitas notas.

A sensação que me dá neste último álbum é que tu tocas as composições, todos os temas de modos diferentes, com o teu cunho. E dás a provar com o título, para mim que sou o cliente final ou para o público geral a provar, o jazz de várias maneiras e várias formas. Um sai mais ao estilo do rock e outro ao estilo do jazz?

Eu podia responder mas a frase é tão bonita e não fui eu que a inventei. É quase como um verso e não merece que a gente a desfaça ou a descodifique. Acho que é mais interessante assim.

Até agora todos os teus discos levaram o selo da Clean Feed. Como aconteceu, como nasceu esta relação.

À maneira antiga, com uma maquete que eu enviei à Clean Feed e que o Pedro Costa decidiu então gravar comigo e temos tido uma relação bestial desde então. Com o primeiro disco, com o segundo, com este agora. Estamos ambos contentes e acho que vamos continuar.

Foste convidado para tocar no 10º aniversário da Clean Feed. Que representou este momento para ti?

É incrível que uma editora portuguesa, de jazz, esteja neste momento tão cotada e interessante. Estamos a falar dum país onde o jazz não tem uma expressão muito significativa, mas tem uma editora de jazz que é considerada uma das melhores do mundo. E tem músicos de jazz, que para mim, são dos melhores do mundo. E, nesse sentido, é uma felicidade que tenham durado estes 10 anos. E fiquei muito feliz de ver as mensagens de cada músico espalhadas pelas paredes. Venham mais.

Crês ser um reconhecimento de todo um trabalho, foi uma aposta ganha?

Eu espero que sim, foi sobretudo uma relação que deu bons frutos para ambos, acho que eles estão contentes por me terem no seu catálogo, um músico português, que tem felizmente tido das melhores críticas lá fora e eu fico muito contente por ter uma editora interessada na minha música.

Somos um país pequeno com um mercado e um público bastante limitado. Temos uma óptima publicação bimestral como é a Jazz.pt, temos várias editoras com destaque para a Clean Feed, que é considerada pela especialidade uma das melhores do mundo. Óptimos festivais e excelentes músico. Que balanço fazes da cena do jazz no nosso país? Como prevês o futuro? Somos um case study ou o jazz está na moda?

O país é pequenino como disseste. E tem, felizmente, músicos que não são nada pequeninos. Levam o país além fronteiras e dentro do país, aumentam. Em relação à cena jazz isso acontece. Era bom que o país tivesse mais força para exportar os seus artistas Isso é um problema do país, não da arte. É um problema da imagem do país, um problema político. Em relação ao futuro do jazz há cada vez mais escolas, o que é bom, mas é necessário haver mais sítios para tocar. Há muitas pessoas por aí, que serão grande músicos e não terão grandes oportunidades para tocar. Há cada vez mais gente formada. O Hot Clube teve um incêndio e felizmente vai reabrir, e espero que abram a pouco e pouco vários clubes de jazz pelo país. O Engenheiro Bernardo Moreira disse numa entrevista uma coisa que me pareceu muito acertada, que é que às vezes se gasta muito dinheiro em festivais de jazz. Se houvesse alguém a fazer um clube de jazz e a apoiar esse clube de jazz, as pessoas da vila ou da cidade, fosse possível ir ver um concerto semanal, criando um culto em torno do jazz e não fazendo tudo em dois dias e gastar rios de dinheiro nisso e não haver mais nada durante o ano. Isto parece-me uma excelente ideia, para além dos músicos tocarem pelo país. Mesmo ganhando menos, mas tocando mais vezes. Isso é o que gostamos de fazer, de tocar. Isto é uma boa ideia, mas duvido que aconteça.

António Pinho Vargas, Mário Laginha, Bernardo Sassetti, João Paulo Esteves da Silva, Rodrigo Pinheiro. Tu. Como te sentes em relação aos outros, sentes-te herdeiro, ao mesmo nível.

Sinto-me herdeiro, obviamente. Ouvi-os, foram pessoas que eu ouvi. E agora sinto-me como um amigo que aprendeu e que está a disposto a fazer a sua própria natureza musical crescer. Eles são incríveis, e são incríveis porque são muito singulares, aprenderam a cultivar isso nas suas carreiras. Eu espero fazer o mesmo, em relação ao peso que têm na história do jazz em portugal. A história demora a fazer-se e eu espero ter tempo para fazer parte disso. Para poder fazer parte dela, vivendo nela.

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* Originalmente publicado a 1 de Setembro de 2011, na Le Cool Lisboa * 303

Le Capa * 302


Por 1ma63

Le Entrevista a Pedro Vilar por Rafa


Vim do Porto para Lisboa, com paragem em Barcelona, onde vivi durante 6 anos e desenvolvi a maior parte da minha carreira profissional. Conceitos, briefings, ideias, maquetes, projectos e deadlines. Cartazes, logotipos, embalagens, revistas e campanhas. Fotografia, ilustração e tipografia. Marcas, a sua identidade e comunicação. Tudo isto faz parte do meu dia-a-dia enquanto um dos responsáveis pela direcção criativa da EuroRSCG Design & Arquitectura. 

Comenta-me os projectos em que estejas envolvido e demais ideias e aspirações profissionais.

O trabalho diário na agência ocupa grande parte do meu dia e não me deixa muito tempo livre para outros projectos a nível profissional. Tenho a sorte de fazer diariamente uma das coisas que mais gosto e de poder participar em inúmeros projectos interessantes. Sempre que posso e que o tempo me pemite, tento também colaborar em projectos ligados ao design, mas de cariz não comercial. 

Le Capa * 301


Por José Carvalho

Le Entrevista a Left Hand Rotation por Rafael


Os Left Hand Rotation por eles próprios :

Left Hand Rotation é um colectivo artístico que trabalha em intervenções no espaço público, em vídeo e instalações - aquilo que viemos a denominar de Alterações. A expressão "Left Hand Rotation" tem a sua origem nos parafusos que se apertam da direita para a esquerda em lugar de ser da esquerda para a direita, algo como em "contra-mão".

O colectivo trabalha de forma anónima, sendo que duas pessoas são o seu núcleo principal. No www.lefthandrotation.com aparecem os nossos projectos e convidamos outros artistas interessantes a participar.

Left Hand Rotation pretende provocar um aluvião incessante de contradições irresolúveis, cuja finalidade é a busca da sua integração paradóxica. Como colectivo, trabalhamos com os meios e os formatos na fronteira entre a arte e todos os demais canais, adoptando a forma do que viemos a chamar de "arte questionável" (que não questionadora).

Tudo o descrito anteriormente pode cair anulado a qualquer momento, devido a uma alteração constante de estratégia.

Le Capa * 300


Por P28

Le Entrevista ao Luís Lopes Humanization 4Tet por Pedro Tavares e Rafael Vieira


Não há envolvente melhor para lançar os alicerces a uma entrevista com os Humanization 4Tet do que aquela que se nos apresentou sábado, 6 de Agosto de 2011. Ainda embalado pelo travo deliciado a freejazz e a slam despejado em grande na noite anterior no Anfiteatro da Gulbenkian por Cecil Taylor, é na Trem Azul - pátria da Clean Feed Records, que nos encontramos com Aaron González, Luís Lopes, Rodrigo Amado, Stefan González e António Júlio Duarte.

Este último acompanha a banda como fotógrafo, aqueles, que burilavam acordes em ensaio no estúdio da Clean Feed, são nomes já bem reconhecidos na cena jazz neste binómio de continentes, cidades e países que os unem e não afastam: Lisboa e Dallas, Portugal e EUA.

É também na expectativa do concerto no Teatro do Bairro de dia 9 de Agosto, incluído no Jazz em Agosto 2011, que a conversa gravita.

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Acrónimos chave para a entrevista:

Aaron González AG
Luís Lopes LL
Rodrigo Amado RA
Stefan González SG
António Júlio Duarte AJD

Le Cool (Pedro Tavares + Rafael Vieira) LC

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Le Capa * 299


por Ana Mendes Pizarro, David Almeida e Maria Mendes Pizarro

* Originalmente publicado a 4 de Agosto de 2011, na Le Cool Lisboa * 299

Le Entrevista a Rui Neves por Josué Mendes

A entrevista a Rui Neves, director artístico do Jazz em Agosto da Fundação Calouste Gulbenkian foi conduzida descontraidamente entre grupos de gente a circular em hora de refeição ou em trânsito para as exposições do CAM. O resultado foi mais uma boa conversa do que uma entrevista estruturada por linhas cosidas a notícia, com um apreciador e profundo conhecedor de jazz. Uma verdadeira torrente de informação em cascata de paixão bem nutrida por anos de experiência.

Em discurso directo: Este ano decidimos que o Jazz em Agosto tem um mote, quatro figuras do jazz actual em gratos retornos. São personagens gratas à música, que voltam a tocar no Jazz em Agosto em retorno musical.

Cecil Taylor no Jazz em Agosto de 1998 (e que foi o único repetente no CCB em 2004, onde trabalhei como consultor de jazz). Cecil, que tem 82 anos e é um criador especial de linguagem. Na linha dos gratos retornos temos o Wadada Smith, membro da AACM, Association for the Advancement of Creative Musicians, de Chicago, vem apresentar um projecto novo, um grupo diferente, com três guitarras eléctricas e piano. Tem também um Vj, Jesse Gilbert, que projecta imagens em tempo real.

Peter Brõtzmann, Sac, tem 70 anos e já tocou no Jazz em Agosto em 2000 com os Die Like a Dog Quartet e tinha antes outro quarteto, Last Exit. Toca muito com gente nova, pratica uma música libertária europeia. O jazz é um belo exemplo de música cooperativa, onde se preserva o individualismo do músico, em música colectiva. Todos pensamos num sentido individualista, num viver colectivo.

John Hollenbeck, que tocou no Jazz em Agosto em 2006, vem com um large ensemble num projecto mais ambicioso. Toca Third Stream, que é a aproximação da música jazz à música contemporânea ocidental. Hollenbeck tocou com várias correntes, neste aspecto é uma atitude de renovação, polémica em relação ao purismo do jazz.

Acho ridículas as polémicas em torno do jazz, do purismo. Em comparação com o rock, no rock há mais liberdade. Tenho 63 anos e comecei pelo rock. As programações são sincrónicas no jazz, mas devem ser diacrónicas, focar o presente, não esquecendo o passado. Interessa conhecer bem o presente. O jazz bem centrado sem esquecer o passado, o conhecer a evolução no jazz. Peter Brõzmann faz freejazz, não vem reproduzir o passado, vem actualizar o passado.

Outros factores relevantes além das quatro personagens em grato retorno, é que no Anfiteatro vamos ter Ingrid Laubrock, Sax, que constituiu um grupo com uma nova geração de NY. É um encontro com o rock. Para os puristas não é música. Isso é uma enormidade, o jazz deu os blues e o rock.

Depois temos um duo power rock (um quarteto - The Ex Guitars Meet Nilssen-Love / Vandermark Duo), com dois guitarristas mais dois músicos jazz, em tensão, em confrontação, rock com jazz e que apresentam características de cada estilo musical.

Depois irradiamos para um belíssimo espaço no Bairro Alto, um espaço cosmopolita, onde apresentamos três grupos que fazem a ligação entre os dois fins-de-semana. Preenchendo as semanas, faz a tarefa de clube de jazz mais informal, com o espaço do bar. Temos o grupo luso-americano Humanization 4tet, com duas digresões e bem rodado. Um grupo de Brooklyn, os Little Women, com dois sax, uma guitarra e uma bateria muito original. E um grupo escandinavo com Gustaffson, que tocou no Jazz em Agosto em 2002, em performance actuou diversas vezes e ganhou um prémio recentemente na Dinamarca.

São músicos celebrados, com os focos sobre eles.

Quanto ao cinema, apresentamos títulos não disponíveis no mercado. Conheço o meio e os filmes são especiais, os próprios realizadores apresentam. Na primeira semana, talvez o melhor filme sobre Taylor. E o outro filme, sobre o processo de condução, The Black February, em digressão.

Na segunda semana, Women in Jazz, damos muito relevo a este aspecto, pensa-se sempre em cantoras jazz. E temos este ano a Mary Halvorson, Angelica Sanchez e Ingrid Laubrock. O outro filme é de Julian Benedikt sobre os primórdios do jazz na Europa. Um erro é dizer que o jazz será americano o jazz é universal, o jazz começou por inspirar-se na Broadway e agora no rock (não tem problema). Depois é a conferência de Bill Shoemaker, sobre Cecil Taylor. Explicou que quando Cecil apareceu, foi rejeitado e lutou.

O jazz é exigente, nem toda a gente pode aderir ao jazz, mas adere. Eu fiz Rádio Comercial, Rádio XFM, continuo a fazer rádio e a escrever neste formato. Este festival é não profit e dos mais antigos a seguir ao Estoril. Temos bastante oferta de Jazz em Lisboa, como a Festa do Jazz no São Luíz - a melhor montra do jazz português, o Outjazz, o Hot Clube (que voltará), o de Valado de Frades.

Foto por Joaquim Mendes

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* Originalmente publicado a 4 de Agosto de 2011, na Le Cool Lisboa * 299

Le Vitória 6

Julho está a chegar ao fim assim como a minha estadia em Lima. O curso de cinema documental termina depois de uma dose de partilha de informação do nosso tão querido professor José Balado, director e fundador de DOCUPERÚ. A paixão dele por cinema contagia qualquer um.

No entanto o que me resta é digerir toda a informação adquirida e com isso desenvolver o meu documentário. Julho. Cuzco ferve-me no sangue, mas o meu corpo, mente e instinto dizem-me que me retire por um bom par de semanas. Este país abriu-me os olhos e o coração. Aqui sinto-me viva, aqui sinto-me mais pessoa. No entanto, há sempre dúvidas que permanecem e outras que surgem. E neste momento preciso de me afastar um pouco para aclarar as minhas ideias. Afastar também é amar. E como alfacinha de gema que sou, sinto que me falta luz, calor e praia. Deveria voltar para Cuzco? Sim. Deveria voltar para a comunidade? Também. Mas eles irão compreender. E como sempre digo, nada é por acaso nesta vida.

Peru na Copamérica. Depois de 17 fracassados anos na história do futebol , pela primeira vez chegamos aos quartos de final. E mais. Ficámos em terceiro lugar! É um acontecimento histórico! Todo o centro de Lima está em festa! Fuerza Perú! Julho é também o mês das festas pátrias. Em Cuzco festejam-se os 100 anos de Machu Pichu. A maior ironia da história deste país. Esse senhor americano Hiran Bingham que, diz-se, descobridor da cidade perdida quando esta já existia, e que deixou o povo do Vale Sagrado na miséria depois de roubar todo o ouro e jóias incas. E hoje em dia isso é motivo de festa, apenas pelo turismo, apenas porque traz dinheiro.

28 de Julho – Independência do Peru. As ruas cobrem-se de vermelho e branco. Os peruanos são orgulhosos de ser quem são, depois de tanta batalha, depois de tanto sofrimento, depois de tanto sangue derramado desde a conquista dos espanhóis à guerra com o Chile, passando pela ditadura Fujimorista onde foram cometidas as maiores atrocidades contra os direitos humanos da história política deste país.

Susana Baca foi eleita Ministra da Cultura. Uma das maiores referências da música criolla peruana, está a cargo de defender e promover o seu sangue dentro e fora do seu país. Tal como Lula, Ollanta, o nosso novo presidente, está a seguir as suas pegadas, quando elegeu Gilberto Gil para Ministro da Cultura no Brasil. Fico feliz, por saber que estamos a tomar as decisões correctas, depois de tanta opressão imposta à cultura popular por parte dos demais.

Julho. Documentários, café, cigarros e paixão, ou será que posso dizer amor? Todos os dias passavas por mim e metias-te comigo. E eu que nunca te fiz caso. Até ao teu último dia em Lima. Restavam-nos apenas algumas horas. Tu foste a correr ao terminal de autocarros e compraste um bilhete para o dia seguinte. Os meus olhos brilharam e o meu sorriso estendeu-se por largos minutos. Pôr-do-sol na praia, um ceviche na Bajada de Baños ao som da linda música criolla peruana, com a guitarra e o “cajón” dos senhores Pepe e Javier. Felizes dancamos um bolero. E um quarto de hotel. O dia amanhece e tens que seguir viagem. Pedes-me que te siga, que não te deixe cruzar o oceano sem que nos vejamos outra vez. Tu segues e há um vazio à minha volta. Dou voltas à minha cabeça tentando compreender o que fazer e como fazer. Fiz as contas aos dias e percebi onde te poderia encontrar. Que coincidência... Estão dois amigos portugueses aí
também. Porque não?

E porque quero eu fazê-lo? Estarei eu apenas à procura de uma boa história para contar e escrever uma curta-metragem? Ou estarei eu mesmo apaixonada? Sei que não devo, sei que poderá ser um erro, sei que nem sequer és o homem da minha vida, sei que vou atravessar fronteiras para te ver por mais umas escassas horas? Sei. Sei que sinto. Porque o meu coração diz “Vai!”. Vai por mais que seja uma loucura, por mais que te entregues, por mais que chores ou que sorrias depois, por mais que te encha o estômago de borboletas ou por mais que depois sintas um vazio no coração e aquele nó na garganta, mas “Vai!”. Porque a vida é curta demais para pensarmos demasiado, porque sem paixão sei que não posso viver, porque quem não chora não pode ser feliz, porque só assim me sinto viva, porque amar e desfrutar de outro ser humano é a coisa mais linda que se pode fazer nesta vida, porque não importa que sejamos felizes ou não. ”Mais vale viver que ser feliz” e “ Por imortal que seja, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”, já dizia o velho Vinicius.

Panamá. Já estou a caminho e aqui vou-te encontrar. E o meu coração bate tão depressa. Mal posso esperar.

Peru. Viajo porque preciso. Volto porque te amo.

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* Originalmente publicado a 4 de Agosto de 2011, na Le Cool Lisboa * 299

Le Capa * 296


Por Andra Malhão

Le Entrevista a Pedro Diniz Reis por Francisca Carvalho


Apesar do reconhecimento público que o seu trabalho tem merecido por parte da crítica nos últimos anos e que esta exposição na Culturgest (De A a Z) vem atestar, Pedro Diniz Reis – artista plástico alfacinha de 38 anos – fala-nos do seu trabalho com uma desconcertante modéstia.

Pedro licenciou-se em pintura pela F.B.A.U.L., terminando em 2000.

O seu interesse pelo vídeo enquanto forma de expressão artística, manifestou-se logo nos primeiros anos de faculdade e nasce da lógica e consciência do tempo próprio da pintura em confronto com as possibilidades abertas pelo vídeo na exploração do tempo enquanto narrativa.

Do tempo e dos seus compassos, que marcam os primeiros trabalhos do artista, chegamos à linguagem e aos seus ritmos. Neste conjunto de trabalhos que agora apresenta na Culturgest, debruça-se sobre diferentes alfabetos e toma-os como matéria abstracta para os reconfigurar em composições visuais e sonoras geradoras de novos significados e que se aproximam da poesia concreta.

A sua relação com a cidade manifesta-se numa opção clara pelos espaços de interioridade vs espaços públicos. É essa cidade oculta e íntima, impossível de ver de fora, que interessa a Pedro Diniz Reis.

Le Capa * 295


Por Andra Malhão

Le Vitória 5

Cinema Documental. Uma das minhas paixões. E Cuzco, outra.

Desde que comecei a viver aqui e me consciencializei da realidade e da necessidade constante nesta cidade com tanto contraste social, que a vontade de produzir um documentário surgiu naturalmente. A oposição entre o turismo e as vidas deixadas ao abandono, com a vertente histórica, sem um acesso às condições básicas de vida deixa-me revoltada. É complicado explicá-lo em poucas palavras. O mundo precisa de saber o que se passa, num dos países mais ricos em recursos naturais e mais forte culturalmente na América do Sul.