Le Entrevista a Twin Shadow por Luísa Rosa Baptista
"Pronto, têm 20 minutos! Quando estiver quase a acabar eu depois venho aqui avisar que é para fazerem as últimas perguntas, está bem?” E com as indicações da responsável portuguesa do Pepe Jeans Singular Festival começou a entrevista a Twin Shadow, meio-dia solarento, Chiado, Lisboa, 1 de Setembro de 2011.
Data extra no Clube Ferroviário, numa tournée já longa e que não tem prazo para acabar, uma vez que “o objectivo é cobrir o máximo da Terra possível”. Este concerto fez a cidade andar num reboliço à conta dos bilhetes. Os portugueses parecem adorá-lo, tocou 4 vezes este ano no nosso país. Nós chegamos pertinho para tentar saber o que este rapaz (George Lewis Jr.), nascido na República Dominicana e crescido na Flórida, tem de tão especial para andar a tocar nos melhores festivais do mundo. Numa conversa que acabou por ser tudo menos formal, revelam-se pequenos detalhes da vida do homem por detrás do músico.
A banda que o acompanha (Andy Bauer – baterista; Wynne Bennett – teclista e Russell Manning – baixista) estava presente e deu-nos algumas dicas. Mais cool que isto era fazer as malas e entrar com eles no próximo avião. Vontade não faltou.
Le Entrevista a Dj Ride por NunoT
Quem é Dj Ride?
Dj Ride é um miúdo que gosta de scratch, bicicletas, gadget's, electrónica e hip hop. Cheguei a fazer downhill quando tinha 14 anos, mas como perdia sempre virei-me para os campeonatos de Turntablism. Ficava dias e dias fechado em casa só a treinar scratch. Comecei por fazer festas no sótão com uns amigos, mas nunca ninguém aparecia. Tive alguns projectos com MCs e bandas, desde o jazz ao rock. Nessa altura conheci o Stereossauro e formámos os Beatbombers. Foi mais ou menos nessa altura em que participámos no primeiro campeonato de scratch, em Lisboa. Ninguém me conhecia na altura e, como ganhei, para além de levar algo bastante diferente dos outros djs, aquela noite teve mesmo muito impacto na comunidade de djs/turntablism nacional. Basicamente a partir daí nunca mais parei, lancei álbuns, vinis, colaborações com músicos, bandas e actuações de norte a sul do país e algumas idas lá fora também. Vi o meu hobby tornar-se aos poucos o meu full time job e tem sido incrível poder viver da música a fazer aquilo que
amo.
Le Entrevista a João Ferreira (Queer Lisboa) por Rafa.el
João Ferreira, director do Festival Queer Lisboa | Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa fala sobre a 15ª edição do Festival mais antigo de Lisboa que percorre a cidade de 16 a 24 de Setembro, pelo pólo habitual do Cinema São Jorge e prolongando-se este ano até ao Teatro do Bairro. Este ano sob o signo da transgressão e novamente esbatendo e expandindo os limites do que é um Festival subordinado ao cinema, em torno do Queer Lisboa 15, orbitam numerosos outros eventos que complementam o que se vai passar na tela.
O Festival mais antigo de Lisboa, 15 anos, sob o signo da trangressão. Apresenta-me o festival.
Vou começar pelo tema da transgressão, porque me pareceu um tema não só interessante como importante para a edição deste ano. Eu estou no Festival vai fazer 10 anos, o Festival faz 15. Acompanho o cinema Queer já há muitos anos. Evoluiu bastante nos últimos tempos, nesta última década principalmente, entrou para o circuito comercial e surgiram muitos sub-géneros dentro do cinema Queer. E a transgressão surge sobre uma reflexão quanto ao cinema Queer. A partir do momento em que ele toca tantos formatos e sub-géneros, qual é esse cunho que ele tem. A transgressão é o elemento que procuramos quando fazemos a selecção destes filmes. Continua a ser uma das características fundamentais do que distingue o cinema Queer.
Le Entrevista a José Garcia (Companhia do Chapitô) por Rafa.el
Em momento de celebração dos 15 anos da Companhia do Chapitô,
José Carlos Garcia - director artístico da Companhia do Chapitô e
vice-presidente do Chapitô, faz a resenha e o convite para o
apontamento de festejo.
Olhando para o que foi feito com
orgulho - mas projectando a visão para o futuro. Com exposição
retrospectiva em algumas estações do Metro de Lisboa e com evento
especial a começar no próximo dia 19, a Companhia do Chapitô mostra-se
grande e com passada certa. A Companhia celebra o aniversário de 15 anos
de trabalho constante e, a todos os níveis, feliz.
Fala-me um pouco da Companhia. Apresenta-a.
A
equipa constitui-se da Tânia Melo e Francisco Lyon na produção; de
Jorge Cruz, Tiago Viegas e Marta Cerqueira na representação, John Mowat
como encenador e José Garcia como director artístico e actor [partilha o
cargo com o de vice-presidente do Chapitô]. Viajamos muito e
valorizamos muito a inteligência humana, somos como uma família
criativa. O processo de trabalho é em inglês, ensaiamos em espanhol e
adaptamos para italiano e para outras audiências, representamos em
inglês com adaptações, pois queremos proximidade com o público.
A
Companhia está estabelecida no espaço do Chapitô, usa a logística
deste, mas é autónoma a nível criativo. Surgiu em 1996 com João Cena,
director de produção da casa e surgiu do sonho de criar uma companhia
que fosse o espelho do Chapitô. Co-criada por João Cena, José garica e
Rui Rebelo.
A nossa forma de estar é sempre uma postura de
pessoas normais, de estarmos ao mesmo nível. Valorizamos os valores
humanos, a amizade. Somos companheiros (partilhamos o pão).
E fazem teatro do gesto, teatro físico, pantomima?
É
teatro físico, é do gesto, é do objecto. É Commedia dell'Arte, mistura
de técnicas que foram sendo trazidas pelos seus elementos, junção de
experiências. John Mowat faz ainda teatro do gesto em Londres. Não temos
cenários, temos apontamentos de cenários, adereços. Não interessa o
cenário, interessa-nos apontamentos de cenário, de movimento e de
enquadramento e o público que preencha o resto.
A
pantomima é exterior ao corpo, na Companhia existe a qualidade do
movimento, é uma mímica corpórea, usando o próprio corpo, que para o
movimento é interessante. No Drákula há pantomima por interesse
dramatúrgico. A dança, e.g., faz-se em movimento contínuo para o
espectador ter leitura e a Commedia dell'Arte não é orgânica, como
somos.
Temos vários layers, o último layer é
actor/público. A obra é superior ao ego e trabalhamos muito para a obra.
Não somos académicos, somos operários do placo, fazemos filigrana do
gesto, da palavras, não ficamos apenas na ideia.
Como é o vosso processo de trabalho?
É
um trabalho colectivo, não temos método e esse é o nosso método. Um
espirro pode ser um estímulo. Ninguém sabe o que vai acontecer.O
trabalho é em inglês [em virtude da encenação ser conduzida por John
Mowat, britânico]. Na Companhia manipulamos objectos, é um circo
invisível.
Achas que se perde algo por ser em inglês?
Perde-se
algo nos textos, pois não é a nossa primeira língua. O texto não é o
motor, ajuda como catalizador para perceber a peça e é essencial para a
compreensão, não a essência, essencial.
É um trabalho de edição de teatro?
Sim. (risos) É isso mesmo.
Referências que tenham, Marceau, Tati, o Viegas.
A
Nola Rae é referência para mim. Vi o Elizabeth's Last Stand, em 92
talvez. Percebi que foi ali que fiquei com o gosto pelo toque do
objecto. E Nola Rae vai voltando.
E trabalham clássicos.
Usamos
clássicos, mas os textos são destruídos. O Grande Criador é a história
da bíblia, juntando-lhe partes do Ricardo III. Os textos são
desconstruídos, esta é uma pretensão cómica. Brecht dizia que "a comédia
leva à compreensão." Fizemos também comédia negra, como o Cão, o
Cemitério dos Prazeres. No próximo, o Crepúsculo dos Deuses, vamos
descontruir a questão da mulher com ilusão de estrelato [baseado no
texto original do filme de Billy Wilder].
E vão entrando novas pessoas, a equipa vai-se alterando?
À
Companhia interessa sangue novo, rotativamente. Tenho medo que a equipa
entre em decadência. Há sempre pessoas novas, vão entrando. Têm que ser
pessoas que tenham disponibilidade para viajar e que gostem do género.
Aos
15 anos, não estou nada cansado da Companhia, nada fatigado. Surgiu-me
o cansaço [há uns tempos] pelas viagens e fiz uma pausa quando entrei
na carrinha da tour, quando em Pamplona - surgiu-me que andava com a
casa às costas, e precisei de ver e ouvir outras coisas.
E quanto ao Chapitô?
O Chapitô não é uma escola de circo. E há sempre pessoas que vão circulando para outros países, para outras companhias.
Somos
muito acarinhados, o Chapitô é único no mundo, com três áreas
integradas - é escola, formação, cultura e acção social. Trabalham 120
pessoas no Chapitô, faz-se o trabalho de reinserção social por via das
artes nas prisões juvenis - os chamados colégios. No último piso do
Chapitô temos a Casa do Castelo, lar de transição para uma vida mais
organizada, onde os habitantes aprendem a gerir o seu dinheiro e têm
apoio psicológico. Temos 150 apoiados e não há problemas com as pessoas,
todas são iguais, não etiquetamos, nem diferenciamos o tratamento.
É
uma aldeia, temos ATl, biblioteca, hortas, uma loja, audiovisuais, a
Oficina Faz Tu(do). Falta uma mercearia. Isto tudo define os valores do
Chapitô, que é uma casa aberta a todos, todos são bem vindos.
Fala-me do evento do 15º aniversário.
Vejo
sempre o teatro como a sala de estar, recebemos o público como se
viessem para jantar e contamos uma história. Abolimos a quarta parede,
os convidados estão ali para ouvir uma história. Quanto ao evento [que
arranca a dia 19], o espectador escolhe o que quer ver, a votação
decorre no facebook também. A comunicação é próxima.
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Entrevista feita no Chapitô.
Companhia do Chapitô : http://companhia.chapito.org
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* Originalmente publicada a 15 de Setembro de 2011, na Le Cool Lisboa * 305
Le Vitória 7
Mancora. Norte do Peru. Sol e praia. Aqui comeca o primeiro passo para aquela que será a minha segunda viagem na América do Sul. Penso em tudo o que deixo para trás, mesmo sabendo que em pouco tempo estarei de volta. Estou curiosa também, no que os próximos dois meses terão reservados para mim.
Casco Viejo, Cidade do Panamá. A suar. Bem-vinda à América Central. Passeio pelas ruas do bairro antigo. Casas lindíssimas de arquitectura colonial, deixadas ao abandono numa cidade com um potencial enorme. Observo o Canal do Panamá e do outro lado há prédios e arranha-céus em demasia, cada um competindo a ver qual será o mais alto. Ao virar duma esquina espreito e vejo uma igreja. Entro e sento-me a escutar o silêncio. De repente, olho para o meu lado esquerdo e vejo-te a passar. Saio a correr para a rua e chamo pelo teu nome. Assim que virares as costas, sei que esse será o momento. Os meus olhos procuram os teus e quando olho, em ti vejo desejo, mas em mim não. Cada um diz adeus e segue viagem com um nó na garganta e aquele vazio no estômago. Agora sei que tu não foste a razao pela qual eu tinha que aqui estar.
Le Entrevista a Júlio Resende por Pedro Tavares
No seguimento do seu último álbum, o You Taste Like a Song, e
na expectativa do concerto incluído na Festa do Avante de 2011 (leiam o
artigo nesta edição da Le Cool Lisboa 303), Pedro Tavares entrevista
Júlio Resende, músico de jazz, pianista, tudo.
Vais actuar na Festa do Avante no dia 4 de Setembro com o teu quarteto com Perico Sambeat, com o Joel e com quem mais?
Com o Matt Penman.
Fala-me um pouco do que se vai passar lá.
Vai
ser a extensão deste último disco "You Taste Like a Song" em trio, vai
passar a quarteto. E daí trazer novas possibilidades, novas cores à
música. É um elemento mais, um elemento que é um músico extraordinário.
Tudo se fará para que o conceito do disco se consiga colocar nesta
formação também, em quarteto. Estou muito contente por colocar o Perico e
o Matt a tocar juntos. Acho que eles se vão divertir muito e nós
também.
Este ano apresentaste o teu último
trabalho com um concerto na Culturgest, com um trio em que Matt Penman
era convidado especial.
Bem, foi uma alegria
gigante em vários sentidos. A Culturgest foi o primeiro sítio ao qual
vim a Lisboa ver um concerto, teria para aí 18 anos. E passados 10 anos,
estar lá a tocar no grande auditório, e com o Matt Pennam como
convidado e com o meu companheiro Joel Silva, foi uma grande alegria. E
que me deu um retorno musical que não é facilmente igualável e que eu
espero repetir nos próximos anos.
Como surgiu a música na tua vida, tinhas antecedentes na família.
O
meu pai toca um bocado de guitarra e foi ele que me comprou o teclado. E
a partir daí o teclado fez sempre parte de mim. E o piano, depois mais
tarde. Tinha quatro anos quando comecei a tocar.
E o jazz aparece quando na tua vida.
O
jazz aparece mais tarde, aos 14/15 anos. Funk, música de fusão e o
jazz, começa a aparecer tudo mesclado. E vou descobrindo que há uma
música que tem a ver com improvisação. Que é o jazz. Improvisação essa
que eu já faço quanto estou a tocar. Invento melodias. E sendo o jazz
uma música que faz isso como essência, tentei perceber o que se passava.
Gostei muito e descobri alguns discos, Joshua Redman, Coltrane, coisas
que me iam emprestando também. Pat Metheny, Jim Hall. Foram os primeiros
discos, os primeiros discos de jazz, jazz. Antes ouvia outras coisas,
rock, pop.
Tanto quanto sei o Zé Eduardo foi fundamental para ti.
O
Zé Eduardo foi a primeira pessoa, estando eu em Olhão e ele um músico
de jazz que morava em Faro e dava aulas, foi a primeira pessoa que me
deu as primeiras aulas de jazz mais a sério. Só tivemos tempo para duas
aulas. Depois eu vim para Lisboa morar e ele deu-me o contacto do
Rodrigo Gonçalves.
E que outras pessoas marcaram o teu percurso.
A
minha professora de piano clássico do Conservatório em Faro, o Rodrigo
Gonçalves. Essas pessoas vão orientando o teu percurso em termos
musicais. Os discos sempre foram os meus maiores professores, são o país
do jazz.
Quais são as tuas maiores influências além dos Beatles e dos Pink Floyd?
(risos)
Em relação ao jazz, já ouvi e conheço muita coisa. Há uns que gosto
mais, mas não posso dizer que me sinta influenciado por alguém em
particular. Porque a música que faço tem muito a ver com experiências de
vida, reflexão, cinema. Doutros sítios e coisas que te vão alimentando a
alma de modo a poderes fazer música. Em relação aos Pink Floyd,
Radiohead, Clã, Ornatos Violeta, Chico Buarque, João Gilberto, Jeff
Buckley. Ouço muita coisa e tudo isso contribui para a minha música.
Neste momento o que andas a ouvir?
Neste
momento comprei o CD do Ben Allison, contrabaixista. Comprei outro CD
de Henry Arlan, ao vivo em Paris, que é muito bom. Tenho ouvido o novo
CD dos Radiohead que também anda aí. E vou ouvindo outras coisas, o
Jorge Palma (risos).
O que procuras na música, o mais concretamente na tua música.
Coração.
Coração?
De resto no teu último trabalho há uma quantidade de frases. E há lá
uma que fala precisamente do coração. Fala da alma, fala de coração.
Ah
ok. Sobretudo o que quero é que a música seja uma força viva, viva no
sentido de que não quero estar preocupado se é tecnicamente difícil ou
tecnicamente fácil. Quero estar preocupado se isso está a servir a
música, independentemente de ser difícil ou fácil, e normalmente é as
duas coisas, quero que tenha um significado maior. Que tenha a ver com o
coração, com a comunicação de mim para outros, de mim para a vida. E
isso é importante para mim.
O que serve o quê, a técnica serve..
É sempre a técnica que serve a música.
Ou a arte, neste caso.
A arte, sim.
Qual o teu conceito de improvisação. Como filósofo, pensa-la?
Penso
bastante. A improvisação é um espaço de liberdade, o que quer dizer que
não tens que estar preso a nenhuma linguagem, nem a nenhuma história,
inclusive à história do jazz, à linguagem do jazz. O jazz sempre foi uma
música de rotura e sempre quis fazer disso uma pedra basilar da sua
fundação. Nesse sentido é possível, até dentro do jazz, romper com a
linguagem jazz, com aquilo que é mais canónico. É uma das coisas que
mais gosto no jazz e é um dos conceitos de improvisação que mais me
agrada. Improvisar também é – como alguém me disse um dia– compor em
fast up. Isso quer dizer que quando estamos a compor, há mais coisas de
ti que aparecem. O conseguires fazer da improvisação uma composição
instantânea, uma composição no imediato. Isso é um bocadinho difícil.
Fazer com que a improvisação seja um bocadinho tua. Sem grande fórmulas
ou então a fórmula que tu já és. Aquilo que conseguiste adquirir em ti, é
natural que assim seja. Uma espécie de natureza musical que está em ti,
posta facilmente quando estás a tocar. Não que seja muito pensado, ou
que seja pensado para ser difícil ou fácil. Pensada para ser natural.
Natural e que tenha a ver comigo. Sou eu.
Eu
também sou artista, e neste momento desde há cerca de meio ano
desenvolvo um trabalho que se sente precisamente na improvisação dos
desenhos que faço. Ao improvisar os desenhos nunca saem iguais, mesmo
que queira fazer aquele modelo. O jazz têm limites para improvisares ou
quando improvisas não estás obrigado a cumprir limites, a seguir
paredes. Podes improvisar para onde quiseres?
É uma pergunta difícil.
Eu penso assim para o desenho.
Há
uma questão, uma premissa, que é saber se estás a tocar sozinho ou com
uma banda. Se estás a tocar com uma banda e com composições originais,
elas estão estruturadas, têm uma estrutura. São temas. Podes fazer
várias coisas, mas para romper com esta estrutura, tens que comunicar
muito bem com a banda. tem que ser tudo muito bem comunicado
musicalmente. Isso é muito interessante. Tu conseguires, dentro de uma
estrutura, de repente olhar para a banda e construir uma banda que
perceba que, se calhar, queres sair fora da forma e ficar só num momento
sem forma, sem estrutura.
Pode ser trabalhado, em casa,
em ensaios, mas, sobretudo, é mais fácil ser feito com uma comunicação
musical, quando se está a tocar com uma banda capaz dissso. Esse é um
limite do jazz quando estás a tocar em grupo. Quando estás a tocar
sozinho podes ir para onde tu quiseres. Há sempre limites, tocas num
piano, não tocas fora dele. Usas o piano, usas as suas possibilidades.
Mas
dentro da estrutura também gosto de estar fechado numa estrutura e
fazer qualquer coisa como parecer que estou a romper isso. Isso é o mais
interessante do jazz, na minha opinião. Tocar um standard, que é uma
estrutura fixa, uma estrutura que foi repetida n vezes, mas que tocá-la
pode ser tão diferente em cada pessoa e isso é uma coisa que dá muito
que pensar. Tu tens uma tela ou uma folha de papel, tens que fazer algo
de novo...
Eu tenho os limites da folha e tenho que procurar um caminho ali dentro.
Exacto.
E lá dentro pode ser tão maior do que aquela folha, e isso é
interessante. De qualquer modo tem que estar contido à folha, senão não
cabe.
Tocar um standard tem a exigência, por isso é
um standard. Quando vais fazer a interpretação dum standard, sabes que
há inevitavelmente a comparação ao standard.
É isso, por aí. Já foi tantas vezes repetido, que tem que ser dito com uma força diferente.
A filosofia tem sido determinante para o teu trabalho?
A
filosofia enquanto acto de reflexão é determinante para qualquer pessoa
na vida. Na arte é igualmente importante, tens que reflectir sobre
aquilo que fazes. Sobre aquilo que queres fazer, sobre aquilo que és. Se
aquilo que fazes faz sentido, se o sentido vem de ti ou te é dado por
outra pessoa qualquer. E isso até se torna um pouco falso. Encontrar
sentido, fazer sentido. E reflectir sobre aquilo que aconteceu e sobre
aquilo que queres que aconteça. Sobre aquilo que tu és. É parte de
qualquer humano que se queria dizer como tal. Enquanto ser pensante. A
filosofia é muito importante. A própria filosofia no ponto de vista de
literatura e aquilo que eu li e filósofos que eu conheci, também me
inspiram.
Tens editado de dois em dois anos...
Exacto.
E
editaste um álbum em Fevereiro. No entanto, já pensas noutro projecto
ou vamos ter de esperar mais dois anos, inevitavelmente?
Estava
a fazer uma música antes de vir para aqui. Provavelmente dois anos e
sai um novo disco meu. Acho que os discos merecem algum tempo, pelo
menos um ano, normalmente merecem. Mas tenho outros projectos, o
projecto com a Maria João, que vai sair no final deste ano.
O projecto Ogre.
O
projecto Ogre. O projecto com a cantora Elisa Rodrigues no qual estou
muito empenhado. E outros projectos que ainda não têm edição pensada,
mas dos quais eu vou fazendo parte. O meu grupo e o que vai acontecer,
ainda não penso nisso, talvez daqui a alguns meses, largos, comece a
pensar.
Nos projectos em que estás envolvido és o líder ou o frontman?
Nesses que acabámos de falar.
Eu
vi-te tocar naqueles duetos do CCB e depois vi-te tocar num Jazz às
Quintas, com o Joel Silva, se não estou em erro. Foi uma quinta-feira em
que deram um concerto que fica para a memória.
Ainda
bem. Foi um momento ocasional, era aquela série de duetos que existe no
CCB durante o Inverno, entre um músico português e um músico
estrangeiro. Foi um concerto montado para fazer esse conceito e que me
deu grande gozo. Gostava até de ter gravado, mas...
Não pensas em manter esse dueto.
Para
um próximo disco não, mas talvez mais tarde. O próximo disco ainda não
sei muito bem qual será a formação, mas começará no trio.
Mas na Festa do Avante será quarteto. E esse é um quarteto teu, fixo?
Sim,
esse é um quarteto com que eu espero vir a tocar mais vezes. De
qualquer modo, estes próximos anos serão mais dedicados ao trio. Eu,
enquanto músico de jazz gosto de tocar em várias formações. Eu próprio
fazer várias abordagens. Isso alimenta-me, desafia-me e faz-me crescer.
E editar um álbum com um trio, esta formação, esse pode ser o próximo álbum a lançar?
Pode ser.
Os
teus três trabalhos até agora editados, não apresentam nunca uma
formação base. Existe sempre um ou outro elemento comum – o Joel, o
Bruno Pedroso, um elemento comum, mas aparecem sempre vários nomes.
Existe alguma razão especial para que assim seja?
Sim.
Ainda que tenha uma base, como neste último disco era o Joel e o Ole, e
depois toco regularmente com o João Custódio, músico português, e com o
Bruno Pedroso. Eu quis que fizessem parte deste disco porque eles são
parte da minha música. Daquilo que é construído ao longo destes ano, em
que eu passo a pensar ou a tentar construir esse disco. E gosto que eles
façam parte disso. Para além de trazerem no próprio disco, às vezes uma
cor diferente. E isso é sempre interessante do ponto de vista de quem
está a ouvir. Passa por aí, passa por isso tudo.
Da
Alma, Assim Falava Jazzatustra e You Taste Like a Song. Fala-me sobre
destes três discos, em que diferem, evoluções e se há espaço para mais.
Os
dois primeiros são em quarteto, formação que sempre gostei e este
último em trio. Sobretudo os três duma coisa que é aquilo que me agrada
mais, sobretudo vivem por serem temas meus. Não por serem meus, mas
torna os discos em obras mais pessoais. Se calhar antes não conseguia
fazer dum standard uma coisa tão pessoal. Acho que agora já consigo. Não
fazia muitos standards. Tinha muitas coisas minhas para dizer e os meus
temas são isso. Gosto disso nos três discos, e gosto muito dos músicos
que lá tocam, em cada um dos discos. E muitas vezes ouço, sobretudo por
causa deles. O primeiro disco tem o Zé Pedro, o João Lobo, o João Rijo.
Gosto de ouvir e reouvir. Na verdade, nem os ouço muito. Ouço mais
quando eles estão quase a sair. Tenho que ouvir os takes e depois tenho
que descansar um bocado disso. Gosto muito do segundo, o Perico a partir
a loiça, é muito gratificante ouvi-lo nesse disco. E este último é o
que me dá mais espaço, também me exige mais, mas estou contente.
Gosto
muito dos teus três trabalhos, talvez mais este último. Talvez este
último me diga mais qualquer coisa. Há ali muitas influências rockeiras.
Neste último há um maior tratamento na textura sonora. O som é mais
clean. Há um cuidado maior, deste um destaque maior à textura.
A
qualidade da gravação também é muito superior, gravámos o primeiro
disco num auditório. Sem as condições para gravar um disco. Actualmente
com a qualidade de som que os discos têm... Não o fizemos nas condições
ideais. O último foi gravado num estúdio, com condições xpto, e isso
torna logo o som diferente. Em relação à própria música, eu espero ter
evoluído e espero feito com que a música tenha ganho alguns pontos de
clareza. Mais pelas performances. A minha própria performance.
Porquê o nome You Taste Like a Song.
Porque eu gosto muito de canções. Há uma expressão na música clássica, que é o cantabile.
Que quer dizer que o pianista, neste caso um pianista ou outro
instrumentista, tem que tocar de modo a que pareça que está a ser
cantado. E normalmente melodias que são pensadas para ser cantadas, o
canto exige respiração. O saxofone também exige respiração, mas os
instrumentistas têm mais vícios a dar muitas notas.
A
sensação que me dá neste último álbum é que tu tocas as composições,
todos os temas de modos diferentes, com o teu cunho. E dás a provar com o
título, para mim que sou o cliente final ou para o público geral a
provar, o jazz de várias maneiras e várias formas. Um sai mais ao estilo
do rock e outro ao estilo do jazz?
Eu podia
responder mas a frase é tão bonita e não fui eu que a inventei. É quase
como um verso e não merece que a gente a desfaça ou a descodifique. Acho
que é mais interessante assim.
Até agora todos os teus discos levaram o selo da Clean Feed. Como aconteceu, como nasceu esta relação.
À
maneira antiga, com uma maquete que eu enviei à Clean Feed e que o
Pedro Costa decidiu então gravar comigo e temos tido uma relação bestial
desde então. Com o primeiro disco, com o segundo, com este agora.
Estamos ambos contentes e acho que vamos continuar.
Foste convidado para tocar no 10º aniversário da Clean Feed. Que representou este momento para ti?
É
incrível que uma editora portuguesa, de jazz, esteja neste momento tão
cotada e interessante. Estamos a falar dum país onde o jazz não tem uma
expressão muito significativa, mas tem uma editora de jazz que é
considerada uma das melhores do mundo. E tem músicos de jazz, que para
mim, são dos melhores do mundo. E, nesse sentido, é uma felicidade que
tenham durado estes 10 anos. E fiquei muito feliz de ver as mensagens de
cada músico espalhadas pelas paredes. Venham mais.
Crês ser um reconhecimento de todo um trabalho, foi uma aposta ganha?
Eu
espero que sim, foi sobretudo uma relação que deu bons frutos para
ambos, acho que eles estão contentes por me terem no seu catálogo, um
músico português, que tem felizmente tido das melhores críticas lá fora e
eu fico muito contente por ter uma editora interessada na minha música.
Somos um país pequeno com um mercado e um público bastante limitado.
Temos uma óptima publicação bimestral como é a Jazz.pt, temos várias
editoras com destaque para a Clean Feed, que é considerada pela
especialidade uma das melhores do mundo. Óptimos festivais e excelentes
músico. Que balanço fazes da cena do jazz no nosso país? Como prevês o
futuro? Somos um case study ou o jazz está na moda?
O
país é pequenino como disseste. E tem, felizmente, músicos que não são
nada pequeninos. Levam o país além fronteiras e dentro do país,
aumentam. Em relação à cena jazz isso acontece. Era bom que o país
tivesse mais força para exportar os seus artistas Isso é um problema do
país, não da arte. É um problema da imagem do país, um problema
político. Em relação ao futuro do jazz há cada vez mais escolas, o que é
bom, mas é necessário haver mais sítios para tocar. Há muitas pessoas
por aí, que serão grande músicos e não terão grandes oportunidades para
tocar. Há cada vez mais gente formada. O Hot Clube teve um incêndio e
felizmente vai reabrir, e espero que abram a pouco e pouco vários clubes
de jazz pelo país. O Engenheiro Bernardo Moreira disse numa entrevista
uma coisa que me pareceu muito acertada, que é que às vezes se gasta
muito dinheiro em festivais de jazz. Se houvesse alguém a fazer um clube
de jazz e a apoiar esse clube de jazz, as pessoas da vila ou da cidade,
fosse possível ir ver um concerto semanal, criando um culto em torno do
jazz e não fazendo tudo em dois dias e gastar rios de dinheiro nisso e
não haver mais nada durante o ano. Isto parece-me uma excelente ideia,
para além dos músicos tocarem pelo país. Mesmo ganhando menos, mas
tocando mais vezes. Isso é o que gostamos de fazer, de tocar. Isto é uma
boa ideia, mas duvido que aconteça.
António Pinho
Vargas, Mário Laginha, Bernardo Sassetti, João Paulo Esteves da Silva,
Rodrigo Pinheiro. Tu. Como te sentes em relação aos outros, sentes-te
herdeiro, ao mesmo nível.
Sinto-me herdeiro,
obviamente. Ouvi-os, foram pessoas que eu ouvi. E agora sinto-me como um
amigo que aprendeu e que está a disposto a fazer a sua própria natureza
musical crescer. Eles são incríveis, e são incríveis porque são muito
singulares, aprenderam a cultivar isso nas suas carreiras. Eu espero
fazer o mesmo, em relação ao peso que têm na história do jazz em
portugal. A história demora a fazer-se e eu espero ter tempo para fazer
parte disso. Para poder fazer parte dela, vivendo nela.
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Enlace
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* Originalmente publicado a 1 de Setembro de 2011, na Le Cool Lisboa * 303
Le Entrevista a Pedro Vilar por Rafa
Vim do Porto para Lisboa, com paragem em Barcelona, onde vivi durante 6 anos e desenvolvi a maior parte da minha carreira profissional. Conceitos, briefings, ideias, maquetes, projectos e deadlines. Cartazes, logotipos, embalagens, revistas e campanhas. Fotografia, ilustração e tipografia. Marcas, a sua identidade e comunicação. Tudo isto faz parte do meu dia-a-dia enquanto um dos responsáveis pela direcção criativa da EuroRSCG Design & Arquitectura.
Comenta-me os projectos em que estejas envolvido e demais ideias e aspirações profissionais.
O trabalho diário na agência ocupa grande parte do meu dia e não me deixa muito tempo livre para outros projectos a nível profissional. Tenho a sorte de fazer diariamente uma das coisas que mais gosto e de poder participar em inúmeros projectos interessantes. Sempre que posso e que o tempo me pemite, tento também colaborar em projectos ligados ao design, mas de cariz não comercial.
Le Entrevista a Left Hand Rotation por Rafael
Os Left Hand Rotation por eles próprios :
Left Hand Rotation é um colectivo artístico que trabalha em intervenções no espaço público, em vídeo e instalações - aquilo que viemos a denominar de Alterações. A expressão "Left Hand Rotation" tem a sua origem nos parafusos que se apertam da direita para a esquerda em lugar de ser da esquerda para a direita, algo como em "contra-mão".
O colectivo trabalha de forma anónima, sendo que duas pessoas são o seu núcleo principal. No www.lefthandrotation.com aparecem os nossos projectos e convidamos outros artistas interessantes a participar.
Left Hand Rotation pretende provocar um aluvião incessante de contradições irresolúveis, cuja finalidade é a busca da sua integração paradóxica. Como colectivo, trabalhamos com os meios e os formatos na fronteira entre a arte e todos os demais canais, adoptando a forma do que viemos a chamar de "arte questionável" (que não questionadora).
Tudo o descrito anteriormente pode cair anulado a qualquer momento, devido a uma alteração constante de estratégia.
Le Entrevista ao Luís Lopes Humanization 4Tet por Pedro Tavares e Rafael Vieira
Não há envolvente melhor para lançar os alicerces a uma entrevista com os Humanization 4Tet do que aquela que se nos apresentou sábado, 6 de Agosto de 2011. Ainda embalado pelo travo deliciado a freejazz e a slam despejado em grande na noite anterior no Anfiteatro da Gulbenkian por Cecil Taylor, é na Trem Azul - pátria da Clean Feed Records, que nos encontramos com Aaron González, Luís Lopes, Rodrigo Amado, Stefan González e António Júlio Duarte.
Este último acompanha a banda como fotógrafo, aqueles, que burilavam acordes em ensaio no estúdio da Clean Feed, são nomes já bem reconhecidos na cena jazz neste binómio de continentes, cidades e países que os unem e não afastam: Lisboa e Dallas, Portugal e EUA.
É também na expectativa do concerto no Teatro do Bairro de dia 9 de Agosto, incluído no Jazz em Agosto 2011, que a conversa gravita.
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Acrónimos chave para a entrevista:
Aaron González AG
Luís Lopes LL
Rodrigo Amado RA
Stefan González SG
António Júlio Duarte AJD
Le Cool (Pedro Tavares + Rafael Vieira) LC
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Le Capa * 299
por Ana Mendes Pizarro, David Almeida e Maria Mendes Pizarro
* Originalmente publicado a 4 de Agosto de 2011, na Le Cool Lisboa * 299
Le Entrevista a Rui Neves por Josué Mendes
A entrevista a Rui Neves, director artístico do Jazz em Agosto
da Fundação Calouste Gulbenkian foi conduzida descontraidamente entre
grupos de gente a circular em hora de refeição ou em trânsito para as
exposições do CAM. O resultado foi mais uma boa conversa do que uma
entrevista estruturada por linhas cosidas a notícia, com um apreciador
e profundo conhecedor de jazz. Uma verdadeira torrente de informação em
cascata de paixão bem nutrida por anos de experiência.
Em
discurso directo: Este ano decidimos que o Jazz em Agosto tem um mote,
quatro figuras do jazz actual em gratos retornos. São personagens gratas
à música, que voltam a tocar no Jazz em Agosto em retorno musical.
Cecil
Taylor no Jazz em Agosto de 1998 (e que foi o único repetente no CCB em
2004, onde trabalhei como consultor de jazz). Cecil, que tem 82 anos e é
um criador especial de linguagem. Na linha dos gratos retornos temos o
Wadada Smith, membro da AACM, Association for the Advancement of
Creative Musicians, de Chicago, vem apresentar um projecto novo, um
grupo diferente, com três guitarras eléctricas e piano. Tem também um
Vj, Jesse Gilbert, que projecta imagens em tempo real.
Peter
Brõtzmann, Sac, tem 70 anos e já tocou no Jazz em Agosto em 2000 com os
Die Like a Dog Quartet e tinha antes outro quarteto, Last Exit. Toca
muito com gente nova, pratica uma música libertária europeia. O jazz é
um belo exemplo de música cooperativa, onde se preserva o individualismo
do músico, em música colectiva. Todos pensamos num sentido
individualista, num viver colectivo.
John Hollenbeck, que
tocou no Jazz em Agosto em 2006, vem com um large ensemble num projecto
mais ambicioso. Toca Third Stream, que é a aproximação da música jazz à
música contemporânea ocidental. Hollenbeck tocou com várias correntes,
neste aspecto é uma atitude de renovação, polémica em relação ao purismo
do jazz.
Acho ridículas as polémicas em torno do jazz, do
purismo. Em comparação com o rock, no rock há mais liberdade. Tenho 63
anos e comecei pelo rock. As programações são sincrónicas no jazz, mas
devem ser diacrónicas, focar o presente, não esquecendo o passado.
Interessa conhecer bem o presente. O jazz bem centrado sem esquecer o
passado, o conhecer a evolução no jazz. Peter Brõzmann faz freejazz, não
vem reproduzir o passado, vem actualizar o passado.
Outros
factores relevantes além das quatro personagens em grato retorno, é que
no Anfiteatro vamos ter Ingrid Laubrock, Sax, que constituiu um grupo
com uma nova geração de NY. É um encontro com o rock. Para os puristas
não é música. Isso é uma enormidade, o jazz deu os blues e o rock.
Depois
temos um duo power rock (um quarteto - The Ex Guitars Meet Nilssen-Love
/ Vandermark Duo), com dois guitarristas mais dois músicos jazz, em
tensão, em confrontação, rock com jazz e que apresentam características
de cada estilo musical.
Depois irradiamos para um
belíssimo espaço no Bairro Alto, um espaço cosmopolita, onde
apresentamos três grupos que fazem a ligação entre os dois
fins-de-semana. Preenchendo as semanas, faz a tarefa de clube de jazz
mais informal, com o espaço do bar. Temos o grupo luso-americano
Humanization 4tet, com duas digresões e bem rodado. Um grupo de
Brooklyn, os Little Women, com dois sax, uma guitarra e uma bateria
muito original. E um grupo escandinavo com Gustaffson, que tocou no Jazz
em Agosto em 2002, em performance actuou diversas vezes e ganhou um
prémio recentemente na Dinamarca.
São músicos celebrados, com os focos sobre eles.
Quanto
ao cinema, apresentamos títulos não disponíveis no mercado. Conheço o
meio e os filmes são especiais, os próprios realizadores apresentam. Na
primeira semana, talvez o melhor filme sobre Taylor. E o outro filme,
sobre o processo de condução, The Black February, em digressão.
Na
segunda semana, Women in Jazz, damos muito relevo a este aspecto,
pensa-se sempre em cantoras jazz. E temos este ano a Mary Halvorson,
Angelica Sanchez e Ingrid Laubrock. O outro filme é de Julian Benedikt
sobre os primórdios do jazz na Europa. Um erro é dizer que o jazz será
americano o jazz é universal, o jazz começou por inspirar-se na Broadway
e agora no rock (não tem problema). Depois é a conferência de Bill
Shoemaker, sobre Cecil Taylor. Explicou que quando Cecil apareceu, foi
rejeitado e lutou.
O jazz é exigente, nem toda a gente
pode aderir ao jazz, mas adere. Eu fiz Rádio Comercial, Rádio XFM,
continuo a fazer rádio e a escrever neste formato. Este festival é não
profit e dos mais antigos a seguir ao Estoril. Temos bastante oferta de
Jazz em Lisboa, como a Festa do Jazz no São Luíz - a melhor montra do
jazz português, o Outjazz, o Hot Clube (que voltará), o de Valado de
Frades.
Foto por Joaquim Mendes
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* Originalmente publicado a 4 de Agosto de 2011, na Le Cool Lisboa * 299
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* Originalmente publicado a 4 de Agosto de 2011, na Le Cool Lisboa * 299
Le Vitória 6
Julho está a chegar ao fim assim como a minha estadia em Lima. O
curso de cinema documental termina depois de uma dose de partilha de
informação do nosso tão querido professor José Balado, director e
fundador de DOCUPERÚ. A paixão dele por cinema contagia qualquer um.
No
entanto o que me resta é digerir toda a informação adquirida e com isso
desenvolver o meu documentário. Julho. Cuzco ferve-me no sangue, mas o
meu corpo, mente e instinto dizem-me que me retire por um bom par de
semanas. Este país abriu-me os olhos e o coração. Aqui sinto-me viva,
aqui sinto-me mais pessoa. No entanto, há sempre dúvidas que permanecem e
outras que surgem. E neste momento preciso de me afastar um pouco para
aclarar as minhas ideias. Afastar também é amar. E como alfacinha de
gema que sou, sinto que me falta luz, calor e praia. Deveria voltar para
Cuzco? Sim. Deveria voltar para a comunidade? Também. Mas eles irão
compreender. E como sempre digo, nada é por acaso nesta vida.
Peru
na Copamérica. Depois de 17 fracassados anos na história do futebol ,
pela primeira vez chegamos aos quartos de final. E mais. Ficámos em
terceiro lugar! É um acontecimento histórico! Todo o centro de Lima está
em festa! Fuerza Perú! Julho é também o mês das festas pátrias. Em
Cuzco festejam-se os 100 anos de Machu Pichu. A maior ironia da história
deste país. Esse senhor americano Hiran Bingham que, diz-se,
descobridor da cidade perdida quando esta já existia, e que deixou o
povo do Vale Sagrado na miséria depois de roubar todo o ouro e jóias
incas. E hoje em dia isso é motivo de festa, apenas pelo turismo, apenas
porque traz dinheiro.
28 de Julho – Independência do Peru. As ruas cobrem-se de vermelho e branco. Os peruanos são orgulhosos de
ser quem são, depois de tanta batalha, depois de tanto sofrimento,
depois de tanto sangue derramado desde a conquista dos espanhóis à
guerra com o Chile, passando pela ditadura Fujimorista onde foram
cometidas as maiores atrocidades contra os direitos humanos da história
política deste país.
Susana Baca foi eleita Ministra da
Cultura. Uma das maiores referências da música criolla peruana, está a
cargo de defender e promover o seu sangue dentro e fora do seu país. Tal
como Lula, Ollanta, o nosso novo presidente, está a seguir as suas
pegadas, quando elegeu Gilberto Gil para Ministro da Cultura no Brasil.
Fico feliz, por saber que estamos a tomar as decisões correctas, depois
de tanta opressão imposta à cultura popular por parte dos demais.
Julho.
Documentários, café, cigarros e paixão, ou será que posso dizer amor?
Todos os dias passavas por mim e metias-te comigo. E eu que nunca te fiz
caso. Até ao teu último dia em Lima. Restavam-nos apenas algumas horas.
Tu foste a correr ao terminal de autocarros e compraste um bilhete para
o dia seguinte. Os meus olhos brilharam e o meu sorriso estendeu-se por
largos minutos. Pôr-do-sol na praia, um ceviche na Bajada de Baños ao
som da linda música criolla peruana, com a guitarra e o “cajón” dos
senhores Pepe e Javier. Felizes dancamos um bolero. E um quarto de
hotel. O dia amanhece e tens que seguir viagem. Pedes-me que te siga,
que não te deixe cruzar o oceano sem que nos vejamos outra vez. Tu
segues e há um vazio à minha volta. Dou voltas à minha cabeça tentando
compreender o que fazer e como fazer. Fiz as contas aos dias e percebi
onde te poderia encontrar. Que coincidência... Estão dois amigos
portugueses aí
também. Porque não?
E porque quero eu
fazê-lo? Estarei eu apenas à procura de uma boa história para contar e
escrever uma curta-metragem? Ou estarei eu mesmo apaixonada? Sei que não
devo, sei que poderá ser um erro, sei que nem sequer és o homem da
minha vida, sei que vou atravessar fronteiras para te ver por mais umas
escassas horas? Sei. Sei que sinto. Porque o meu coração diz “Vai!”. Vai
por mais que seja uma loucura, por mais que te entregues, por mais que
chores ou que sorrias depois, por mais que te encha o estômago de
borboletas ou por mais que depois sintas um vazio no coração e aquele nó
na garganta, mas “Vai!”. Porque a vida é curta demais para pensarmos
demasiado, porque sem paixão sei que não posso viver, porque quem não
chora não pode ser feliz, porque só assim me sinto viva, porque amar e
desfrutar de outro ser humano é a coisa mais linda que se pode fazer
nesta vida, porque não importa que sejamos felizes ou não. ”Mais vale
viver que ser feliz” e “ Por imortal que seja, posto que é chama, mas
que seja infinito enquanto dure”, já dizia o velho Vinicius.
Panamá. Já estou a caminho e aqui vou-te encontrar. E o meu coração bate tão depressa. Mal posso esperar.
Peru. Viajo porque preciso. Volto porque te amo.
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Enlace
http://www.rpp.com.pe/2011-07-26-susana-baca-considera-necesario-impulsar-el-arte-popular-noticia_388451.html
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* Originalmente publicado a 4 de Agosto de 2011, na Le Cool Lisboa * 299
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